Aline, Condessa de Romanones
A Espia Trajava de Vermelho

As minhas aventuras como agente dos servios secretos na Segunda Guerra Mundial

Ttulo original: The Sp Wore Red



Para Luis:
Para Lus, meu marido
 Para Luis, meu filho
 Para Luis, meu neto

Se o matador vermelho pensa que mata,
ou se a morte pensa que ele est morto,
no conhecem bem os caminhos subtis
que eu conservo, e passo, e volto a passar.

RALPH WALDO EMERSON Brahma



NOTA DA AUTORA

No decorrer das minhas palestras, nos ltimos oito anos,
descobri que as pessoas apreciam (e necessitam de) informaes autnticas, em primeira 
mo, sobre espionagem, um assunto sobre o qual  difcil (compreensivelmente) encontrar
relatos. O que eu tentei neste livro foi informar e entreter.
Os meus guias foram os prprios acontecimentos, tanto quanto
me foi possvel reconstitu-los de memria e pelos meus dirios, cartas, fotografias, jornais 
e revistas da poca.
Existem, contudo, trs limitaes  verdade  literal das minhas memrias.
 Em primeiro lugar, muitas das personagens da histria que
eu conto esto vivas e poderiam sentir-se embaraadas ou sofrer qualquer nconveniente 
por causa da minha narrativa das
suas actividades. Em ordem a proteger a sua privacidade, mudei os seus nomes. E nalguns 
casos, quando a alterao dos
nomes no me pareceu suficiente para ocultar a identidade da
personagem, criei um carcter composto. O homem a quem eu
chamo Pierre foi disfarado, assim como o que d pelo nome
de cdigo de Mozart. O mesmo sucedeu, em certa medida,
com todos os outros.
 Em segundo lugar, omiti ocasionalmente ou alterei pequenos incidentes, que poderiam 
aborrecer o leitor e tornar o
livro maador e fatigante. Mais uma vez isso resultou numa personagem forjada aqui e ali, 
e em certos casos a sequncia dos acontecimentos foi ligeiramente alterada. Mas o mago 
da histria  exacto.
 Finalmente, os meus esforos para reconstruir de memria
este perodo da minha vida tiveram mais sucesso do que esperava, mas  claro que no 
atingiram a perfeio. Vrios documentos, incluindo relatrios e telegramas guardados no 
National Archives de Washington, foram de grande ajuda para
me refrescarem a memria. Grande parte do dilogo do livro
foi reinventado a partir de recordaes. A minha inteno foi
captar a essncia e o sabor dos acontecimentos, assim como
das conversas que se verificaram na altura. Se consegui
faz-lo, a coragem e a dedicao dos meus colegas, e a excitao da poca, falaro por si 
prprias.



AGRADECIMENTOS

Gostaria de agradecer queles que, no decorrer de trs
anos e meio, me ajudaram de uma maneira ou de outra. Em
primeiro lugar, e sobretudo, desejo agradecer a meu marido a
sua pacincia e o seu sentido do humor. Depois aos meus
netos, Luis, Cristina, Juan, Carla e lvaro, cujas queixas por
eu no ter tempo para brincar com eles durante os dias de Vero passados em Espanha 
quando estava a escrever este livro
foram lisonjeiras e cuja alegria atenuou as minhas horas de
cansao.
 A me deste livro  Nanc Lad Keith,  qual estou
imensamente grata pelo entusiasmo afectuoso e sem quebras. A
ajuda do baro Gu de Rothschild foi especialmente preciosa
para me auxiliar a estabelecer a identidade de uma das minhas
personagens. Os conhecimentos, encorajamento e sugestes de
 Ken McCormick foram-me indispensveis. Tom Guinzburg
 sacrificou muitas horas para me dar conselhos. Quero
agradecer tambm aJoe Hannan pelo seu interesse por esta
histria e pelas suas ideias. Do mesmo modo, estou em dvida para com John Talor, do 
National Archives de Washington, Peter Viertel, Llod Smith, o falecido Rudi Crespi, e 
Frank Ran, pois o t-los conhecido mudou o rumo da minha vida. Annie de Tighten e Tone 
manteve-me gil e optimista, apesar das muitas horas passadas a escrever sentada  
mquina. William Raner colocou o manuscrito nas mos de Random House. Em Espanha, 
Beltrn Domecq, Angel Alczar de Valcarel, o marqus de Santo Floro, a marquesa de 
Quintanar e Ka Denckla, a condessa de ebes, todos me prestaram um precioso
auxlio.
 O Dr. Anthon Nolke havia miraculosamente preservado as
 minhas cartas e fotografias, o que me ajudou a
reconstituir o passado. O entusiasmo e as crticas do meu primeiro editor, Jonathan Galassi, 
impulsionaram-me. A pacincia de Jeff Gohen, de Random House, e do meu editor ali, Sam 
Vaughan, que ps o meu manuscrito numa melhor verso da lngua inglesa e que tratou de 
tudo, foi notvel. A capa de Bob Aulicino foi um verdadeiro triunfo.
 Existem outras pessoas, na verdade quase todas aquelas
com quem entrei em contacto nos ltimos anos, que falaram
muitas vezes dos tempos passados enquanto eu escrevia esta
histria. Poder falar com elas a respeito disso ajudou-me a
terminar este livro - possam elas e eu no o lamentar.



Prlogo : So Salvador, 1984

 Foi numa viagem a EL Salvador, h vrios anos, que
iniciei esta histria. Tinha andado a fazer conferncias sobre questes internacionais por 
todos os Estados Unidos. Nesse momento, a Amrica central, e especialmente EL 
Salvador, era a rea que mais interessava s minhas audincias. Mas, para ser verdadeira, os 
meus motivos para fazer a viagem derivaram
sobretudo de um desejo irrefrevel de me encontrar no meio
daquilo que se estava a passar. O facto de l haver sol e calor, em comparao com o frio e 
a neve do Michigan, onde me encontrava, e de eu l poder comer mangas, podem ter sido
tambm factores determinantes. De qualquer modo, convenci-me a mim prpria de que 
essa visita aumentaria a credibilidade
das minhas palestras.
 A viagem tinha ingredientes que agradavam ao meu sentido
 de aventura. Por exemplo, no sabia o nome, o nmero do
 telefone, nem sequer o sexo da pessoa que l me iria esperar,
 nem fazia ideia do local onde ficaria. Os preparativos tinham
 sido feitos  pressa, por meio de um telefonema feito para um
 amigo salvadorenho que vivia em Washington, que se ofereceu
 para arranjar uma casa particular onde eu pudesse ficar e uns
 amigos que pudessem ajudar-me. Visto eu ter apenas uma semana livre entre os meus 
compromissos, sugeriu que partisse
 imediatamente para Salvador. Ir algum esper-la ao aeroporto que lhe fornecer os 
pormenores, informou a pessoa
 minha amiga.
 Desde o momento em que entrei no avio em Nova Iorque,
 estava, inicialmente sem o saber, a fazer uma viagem de
retrocesso no tempo. Essa sensao tornou-se ntida em Miami,
 onde os passageiros entraram a bordo trazendo as suas bagagens em sacos de pano, 
fazendo lembrar bastante os passageiros que viajavam nos comboios espanhis em 1944.
 . No Panam desembarcaram muitos e em Tegucigalpa saram quase todos. Faltavam agora 
poucos minutos para chegarmos ao nosso destino. Olhei para os vales verdejantes que
se estendiam l em baixo, por entre as cadeias de montanhas
vulcnicas onde eu sabia que se escondiam grupos de guerrilheiros, alguns deles nesse 
momento a travar combates com os soldados das foras armadas do pas. Apenas um outro 
passageiro saiu do grande DC-10, para entrar no grande e moderno edifcio do terminal, 
totalmente deserto. Obviamente, a guerra desencorajara os negcios e paralisara o turismo.
 Os meus passos soaram sobre a superfcie de cimento de um
corredor iluminado pela luz do sol que passava pelas largas
janelas envidraadas. Espreitei por cima das cabeas dos funcionrios que examinavam o 
meu passaporte e a minha mala,
mas no vi ningum  espera. S quando desci o ltimo degrau
da larga escadaria de pedra da entrada  que vi uma discreta
figura vestida de negro levantar-se de uma cadeira encostada 
parede, ao ver-me aproximar. O seu sorriso fez desaparecer as
minhas dvidas. Era a pessoa amiga do nosso amigo comum
em Washington. Era uma mulher de estatura mediana; quer
os poucos quilos de peso que tinha a mais, quer talvez um
pouco de artrite, faziam-na coxear ligeiramente; usava culos
de aros escuros; o cabelo branco e abundante emoldurava-lhe
o rosto, que irradiava uma expresso de amizade e de boa vontade. Ento, como por magia, 
surgiu a meu lado, sorrindo, um jovem alto e bem-parecido.
 - Este  Bill Wallach - explicou ela com um agradvel
sotaque salvadorenho. - Ofereceu-se para a conduzir de carro
para a cidade e para ajudar no que fosse preciso. O meu nome
 Mara.
 - Senhora, queremos que esteja em segurana aqui. - O rapaz pegou nas minhas malas, 
enquanto falava, e colocou-as no
jipe. - O meu pai mandou este carro  prova de bala para
a levar.
 Enquanto seguamos ao longo da moderna estrada pelo
meio dos campos, o meu motorista, de vinte e cinco anos, e a
minha hospedeira, de oitenta, iam-me explicando os ltimos
acontecimentos da guerra civil. Passados quinze minutos, ao
chegarmos aos arredores da cidade, eu sabia que todas as estradas, especialmente as 
idnticas quela em que nos encontrvamos, podiam ser perigosas. Os meus companheiros 
no
mostravam sinais de medo, mas eu confesso que sentia alguma
inquietao.
 - Na cidade tambm no  seguro - explicou a minha
nova amiga. - A casa ao lado da minha foi bombardeada h
dois dias e peo desculpa pela viso pouco atraente que ter ao chegar.
 Quando entrei na casa de Mara, lembrei-me de uma pequena residncia romana; as salas 
partiam todas de um ptio central. Uma mulher ndia regava as plantas e uma criana 
sentada no pavimento de tijoleira olhava para o ecr da televiso
a cores rodeado por orqudeas cor-de-rosa.
 - Sjantaremos daqui a umas horas - explicou Mara. -
Talvez queira descansar um pouco aps uma viagem to
longa.
 - De maneira nenhuma. Estou ansiosa por ver algo do que
se est a passar.
 - Isso no  fcil - respondeu Mara. - As coisas sucedem esporadicamente, sem aviso, e 
nunca se sabe onde. Um
autocarro  queimado, ou algum  raptado, ou um centro
poltico  atacado. - Fez uma pausa, considerando as possibilidades. - A no ser que queira 
ir ao camino Real
Hotel, onde a gente da imprensa estrangeira e da televiso
passa a maior parte do seu tempo. Ali est sempre a passar-se
qualquer coisa. J  demasiado tarde para fazer outra sugesto.
 Estava escuro quando ojipe entrou no caminho circular que
dava acesso ao grande hotel. Nada indiciava que se travasse
uma guerra nas proximidades. Vrias carrinhas da televiso
americana quase bloqueavam a entrada, e as pessoas entravam e saam, passando pelas 
luxuosas portas de vidro.
 Quando entrei aproximou-se de mim uma mulher.
 - Dona Mara telefonou a avisar da sua vinda aqui. Eu sou
secretria da direco do hotel. Estamos muito gratas pela sua
visita ao nosso pobre pas para saber o que se passa aqui. Infelizmente, no tenho agora 
tempo para lhe explicar muita coisa. Mas se quiser acompanhar-me, pode observar muitas 
coisas interessantes.
 Enquanto atravessvamos o apinhado vestbulo, ela baixou
a voz:
- A imprensa estrangeira rene-se aqui,  volta do bar, trocando informaes. So 
contactados por elementos da guerrilha que lhes fornecem relatos, feitos em ingls, sobre as 
batalhas mais recentes e lhes do indicaes dos locais onde podero filmar uma boa cena.
 A sala era grande e comprida, com um bar numa das extremidades; mesas redondas e 
cadeiras de braos estavam colocadas a uma distncia confortvel umas das outras. O 
soalho encontrava-se completamente coberto por uma espessa carpete. Para l das portas de 
vidro abertas vi um ptio rodeado por flores e plantas, uma espcie de sala ao ar livre, com 
um lago cor de turquesa no centro.
 - Vou deix-la aqui. Se precisar de alguma coisa, procurem-me no meu escritrio.
 Sentei-me numa cadeira o mais perto possvel do bar, mas
no consegui ouvir uma palavra. Passados uns dez minutos
resolvi dar uma volta pela sala, no vi nada com interesse e
certamente no distingui qualquer guerrilheiro. Alguns dos
homens pareciam estar a contar anedotas, outros mostravam-se imensamente aborrecidos 
por no terem nada que fazer.
 Dirigi-me para o convidativo ptio. Estava vazio. Iluminadas por pequenas lanternas, 
viam-se rvores tropicais de
folhagem luxuriante e uma grande abundncia de flores exticas.
O ar tpido da amena noite de Maro estava perfumado pelo
aroma das gardnias e dos jasmins. Deixara de ouvir o rudo
das vozes dos homens que envergavam camisas de algodo
colorido, de mangas curtas, e fumavam os seus cigarros. Agora
apenas chegava aos meus ouvidos o ligeiro gorgolejar da gua
que corria lentamente para o tanque e o murmrio das folhas
das palmeiras, l em cima. Caminheijunto do lago, pensando
por que motivo ningum aproveitaria aquele ambiente aprazvel. Depois olhei para a gua. 
Apercebi-me ento, gradualmente, que algum do lado oposto fazia o mesmo - o seu rosto
estava distorcido pela ligeira agitao da superficie da gua.
Instintivamente ergui os olhos.
 Creio que nos reconhecemos no mesmo instante. Mais
tarde, nunca tive tempo para lho perguntar. No falmos nem
soltmos qualquer exclamao. Ficmos apenas petrificados
de incredulidade - quase quarenta anos tinham mudado to
pouco... O mesmo brilho astuto no olhar penetrante. O cabelo
preto comeava a ficar grisalho e isso dava um maior encanto 
sua tez bronzeada. Mesmo que no o conhecesse, ter-me-ia
sentido atrada por aquele homem invulgar.
 Caminhmos um para o outro. Olhando-o, senti uma
grande felicidade invadir-me.
 - Tiger! - exclamou ele, segurando-me as mos. Senti o
prazer nos olhos dele, o magnetismo que ainda ali existia.
O sorriso dele revelou os dentes brancos.
 - Como pode isto ser possvel? - foi tudo quanto pude
dizer.
 Ele vestia uma guaabera branca, engomada, e as rugas em
redor dos seus olhos mostravam que passara anos ao sol. Sempre tivera aquele aspecto. 
Conduziu-me para uma mesa isolada situada perto de uma grande bananeira. Sentmo-nos.
 - Sei bastantes coisas a teu respeito, Tiger. Sei com quem
casaste. Diz-me, gostas de ser um pilar da sociedade no meu
pas preferido?
 Estava to siderada com aquele encontro que tive de fazer
um esforo visvel para lhe responder:
 - Claro que gosto de Espanha. Tenho l filhos e netos. Mas
quero saber tudo a teu respeito. conta-me.
 Leiam a minha histria, se quiserem... ou podero no
achar o meu inesperado encontro to excitante como eu o
achei nessa noite. Recuem at ao passado comigo. A histria
que lhes quero contar comea num dia de Setembro, em Nova
Iorque.



Captulo 1

 O letreiro do edifcio de pedra castanha estava delicadamente gravado: Hattie Garnegie . 
Deixando a manh ensolarada para trs, subi as escadas estreitas a correr e piquei o
ponto. Nove e meia.
 De p na entrada da sala de provas, com os braos cruzados
sobre o vestido largo, Hattie soltou um imenso suspiro:
 - Aline, no h outra rapariga nesta cidade que venha trabalhar vestida assim.
 Olhei para os meus sapatos rasos e salpicados de lama e
sorri. A minha saia vermelha estava amarrotada e hmida por
eu ter passado pela relva orvalhada do nosso pomar, que atravessara uma hora e meia antes 
para ir apanhar o autocarro.
 L dentro, as minhas colegas sentavam-se em frente do comprido espelho, conversando e 
aplicando mscaras de make-up.
Pendurei as minhas roupas de trazer na rua num cabide e enfiei uma cinta de cetim azul-
claro, calcei umas meias de seda
transparentes e uns sapatos pretos de salto alto. Depois de me
envolver num roupo, ocupei a cadeira entre Anne e Paula, 
mesa. Ambas bebiam caf em copos de papel, tentando despertarem.
 - Bom dia, meninas. - Molhando uma esponja na gua
comecei a aplicar base no meu rosto, de modo a formar uma
pelcula fina. Pelo espelho reparei que Paula parecia
excepcionalmente cansada; de cabelo arruivado, ela era, reconhecidamente, o mais bonito 
modelo de Nova Iorque. - El Morocco? - perguntei.
 - At s trs - respondeu ela, como se se queixasse, mas
era evidente que o facto a entusiasmava. Era de momento a
rapariga mais cobiada.
- Como  que consegues isso? Passas todas as noites
nesses clubes, com... plabos. - Era a palavra mais agradvel
que conseguia arranjar para descrever os homens com quem ela
 saa. Homens muito mais velhos do que ela, que apareciam
 mencionados nas colunas dos jornais por causa de um
quarto divrcio ou por terem malbaratado uma fortuna nas
corridas.
 - Querida - disse Paula com a sua voz arrastada -, porque  que no deixas que BufT e eu 
te levemos a tomar uma
 bebida esta noite, para te mostrarmos o que tens estado a
perder?
 Fiz uma careta para o espelho.
 - Bem, no percebo o que  que a tua aborrecida rotina e a formatura na escola de freiras 
fizeram de ti.
 - Pensa bem, Aline - interrompeu Am. - Paula tem razo. No ganhas nem mais um 
cntimo do que ns. No
gostas de dinheiro?
 - Porque  que pensam que trabalho aqui? Foi o trabalho
 mais bem pago que consegui encontrar.
 - Mas ela refere-se a verdadeiro dinheiro, querida -
explicou Paula. - A ser rica. E para isso  preciso casar com
um homem rico. No desejas isso?
 - Quero fazer coisas excitantes. Realizar talvez algo que
 valha a pena ao mesmo tempo - suspirei, fazendo uma
pausa. - Creio que quero  aventura.
 - Mais uma razo para sares comigo e com Mike esta
noite. O irmo dele vem  cidade.
 H dias que Am me andava a pressionar. Estava decidida
 a casar com Mike Derb, dos Derbs de Kentuck>>, como ela
 dizia por graa, visto a famlia dele ser antiga, rica e
do Sul.
 Mike pedira-lhe para arranjar uma companhia para o irmo,
 um homem de cerca de trinta e cinco anos; eu tinha vinte anos
 e nunca sara com um rapaz dois anos mais velho do que
eu.
 - Isso significa que teria de apanhar um autocarro tardio
 para casa. E tenho de me levantar s sete horas. De qualquer
 maneira, agradeo-te.
 Foi a vez de Am suspirar, cansada da virtude. Da minha.
 Nessa altura j o meu cabelo estava preso atrs, em
banana.
 Dirigi-me para um lavatrio e enchi as mos com sais de sabo
 para prender as madeixas rebeldes.
 Durante duas horas permaneci imvel, enquanto as costureiras prendiam as mangas e as 
bainhas segundo as instrues exactas do costureiro. Em cima duma cadeira, na sala de
provas, encontrava-se um exemplar do Journal American da
manh - mostrando uma praia cheia de corpos dos primeiros
soldados mortos no desembarque na Siclia.
 Estvamos no ms de Dezembro de 1943. O meu irmo
Dexter era piloto de combate e encontrava-se estacionado em
Inglaterra, o meu irmo Tom estava num submarino algures
no Pacfico. E eu continuava ali parada como uma pea de
mobilirio, envergando vestidos prprios para festas!
 Entrei na passerelle no meio de um turbilho de luzes, que
incidiam sobre os magnficos candelabros de cristal suspensos
do tecto do salo. Centenas de chapus elegantes reflectiam-se
nas paredes de espelhos. O brilho dos holofotes e dos flashes
das mquinas dos fotgrafos cegava-me. Nessa tarde passei
pelo centro daquela sala uma dzia de vezes. Por fim, a passagem de modelos terminou.
 De regresso  sala de provas, tirei o chapu, o vu e o vestido de casamento que 
envergava. Depois soltei o cabelo e deixei-o cair sobre os ombros. No meio da confuso 
ouvi Am gritar:
 - Aline, chega aqui depressa! - Encontrava-se junto do
telefone que havia a um canto e cobria o bocal com uma mo.
 - Por favor, no sejas desmancha-prazeres acerca desta
noite. O irmo dele acaba de chegar do aeroporto... veio do
ultramar. J te devo ter dito que ele trabalha no Departamento
da Guerra.
 No, no tinha. Fiquei estupefacta. Ultramar. Departamento da Guerra. As palavras 
actuavam em mim, magicamente. Com lentido, com grande lentido, murmurei:
 - Est bem.

 Chegmos tarde.
 - Entrem, entrem - disse Mike. - Desculpem, mas temos
de comer imediatamente porque o esparguete est pronto.
 Dirigimo-nos para uma grande mesa que dominava o seu
pequeno apartamento de homem solteiro. As janelas estavam
fechadas por causa do ar hmido da noite e cobertas com cortinas escuras, por causa do 
blackout. Ouvia-se o zumbido das ventoinhas e do rdio - isso parecia suceder em toda a 
parte aonde fssemos. As notcias sobre a guerra eram um pano de fundo constante em 
todas as conversas.
- Am Porter, Aline Gritfith. Este  o meu famoso irmo
,john. 
 John Derb tinha um rosto quadrado, bonitos olhos azuis
um rosto bem barbeado e cabelo prematuramente prateado.
Calculei que tivesse uns trinta e cinco anos. O seu corpo era
mais slido do que o do irmo. Achava Mike um pouco gordo,
embora mais vivo. Am e eu sentmo-nos uma de cada lado de
Mike.  minha esquerda encontravam-se outros dois homens,
seus colegas de trabalho, explicou Mike. Este trabalhava no
departamento de pesquisas da Standard Oil. Admirei-me por
ele no estar alistado.
 John Derb voltou-se para mim.
 - Vinho, Miss Griffith? - Os seus modos eram calmos
distantes. 
 - No, muito obrigada. No bebo.
 As suas sobrancelhas ergueram-se interrogativamente.
 - Nunca - disse eu.
 Da a pouco tornou-se evidente que os homens no esperavam que eu e Am tomssemos 
parte na sua animada conversa
sobre as estratgias da guerra e sobre os seus heris e
viles, de Patton a Rommel, de Roosevelt a Hitler. Falaram da construo do imenso 
edifcio do Pentgono, condenaram unanimemente o dirigente sindicalistaJohn L. Lewis e a 
greve dos mineiros.
 Mais tarde, Derb voltou-se para mim e perguntou-me,
sorrindo-me:
 - Tenciona vir a ser um modelo famoso?
 Olhei-o bem de frente.
 - No, se conseguir evit-lo.
 - Na verdade? E porqu?
 - Quero ir para a guerra... para o ultramar.
 John Derb fitou-me com curiosidade.
 - E como tenciona fazer tal coisa?
 - Quem me dera saber. Tentei inscrever-me na Jaqueline
Cochrans Fling Training Division e em todos os grupos que
conheo. A resposta tem sido sempre a mesma: demasiado
nova. Mas h-de haver uma maneira.
 - Podia tornar-se enfermeira.
 - Isso levaria anos. Quero tomar parte na guerra agora,
onde a luta se est a desenrolar.
 - No percebo porque  que uma rapariga bonita como voc, em segurana aqui em Nova 
Iorque, quer ir para o estrangeiro para se ver envolvida num conflito sangrento. Num
stio onde a sua vida correr perigo?
 Tive vontade de lhe dizer que tivera trs antepassadas que
se tinham atrevido a desbravar o pas, apesar dos ataques dos
ndios, tendo os filhos sem a ajuda de mdicos, suportando as
doenas sem remdios, ajudando a construir casas com as suas
prprias mos, para lanarem as suas razes no Midwest, mas
receei que ele se risse de mim, por isso limitei-me a
responder:
 - Aprecio a aventura. Gosto de correr riscos. Todos os homens que conheo querem partir. 
Porque ho-de achar to estranho que uma mulher queira fazer o mesmo?
 Ia olhar para outro lado, quando ele disse:
 - Geralmente, as raparigas da sua idade ambicionam casar
e ter filhos. No est apaixonada?
 O sero comeava a parecer-me aborrecido.
 - Que tem isso a ver comigo?
 - Bem...  um factor.
 - No. No . Sucede que no estou apaixonada. Mas
mesmo que estivesse no faria qualquer diferena.
 A primeira parte poderia ser uma pequena mentira: havia
Ton, um interno em Bellevue de quem eu gostava muito. Mas
a segunda parte era verdade.
 John Derb observou-me em silncio. Depois perguntou:
 - Conhece algum idioma estrangeiro?
 - Na universidade estudei francs como primeira lngua estrangeira e espanhol como 
segunda.
 - Oh!
 Sorrimos lentamente um para o outro.
 - Bem, Miss Griffith, se est de facto a falar a srio a respeito de um trabalho no ultramar, 
existe uma ligeira
possibilidade de eu a poder ajudar. - Olhei-o com novo interesse. - Se por acaso tiver 
notcias de um Mister Tomlinson - continuou John -, j sabe do que se trata.



Captulo 2

 Cerca de duas semanas mais tarde, num domingo, ao jantar,
 o meu pai disse-nos que fora feito um inqurito no banco com
 respeito aos antecedentes da minha famlia. A minha me ficou
 convencida de que se tratava de algo relativo aos meus irmos, porque eles estavam nas 
foras armadas; o meu pai, que dirigia uma fbrica que produzia mquinas de dobrar para 
as tipografias (fundada pelo meu av), receava que o inqurito estivesse relacionado com 
os seus negcios. Ficmos todos um bocado abalados e sem saber o que pensar. Mas essa 
pequena ansiedade foi apagada pelo tdio do dia-a-dia, e as nossas vidas continuaram como 
sempre, sem acontecimentos excepcionais.
 O tempo ainda estava ameno uma semana mais tarde - era
 o fim de Setembro -, quando regressei do trabalho. A
claridade ia esmorecendo gradualmente enquanto eu subia a encosta no meio das espigas de 
trigo e o vento suave me
emaranhava os cabelos.
 Quando entrei na cozinha, a minha me estendeu-me o
telefone.
 -  para ti. Longa distncia.
 - Miss Aline Griffith? - perguntou uma voz ligeiramente
 rouca.
 - Sim.
 - Daqui fala Mister Tomlinson. Poder amanh estar livre
 durante alguns minutos?
 - Sim.
 - Ento esteja, por favor, no vestbulo do Biltmore Hotel,
 s dezoito horas. Um homem com um cravo branco na lapela
 estar  sua espera. No fale neste encontro a quem quer que
 seja. Entendido?
- Sim.
 Desligou.

 Homens fardados entravam e saam pelas portas giratrias,
dirigindo-se para o bar do hotel ou para o salo de ch, onde se iam encontrar com 
raparigas de vestidos de seda estampada.
 Era um homem de aspecto distinto, de estatura mediana.
Cabelo grisalho. Um fato de corte impecvel. Os seus modos
eram calmos, suavemente autoritrios.
 - Vamos sentar-nos ali.
 Segui-o para um pequeno compartimento com bancos cor
de rubi.
 - Creio que poderemos conversar tranquilamente aqui. -
Depois de nos sentarmos, o meu interlocutor explicou: - Represento uma seco do 
Departamento da Guerra. Pode ser
que tenhamos algum trabalho interessante para si.
 Sorriu. Os seus olhos azul-claros inspiravam confiana.
 - Queremos fazer-lhe um teste para lhe darmos um trabalho. No lhe posso dizer ainda 
qual ser.
 Encontrvamo-nos sentados lado a lado, protegidos do rudo e movimento que nos 
rodeavam.
 - Irei trabalhar no ultramar?
 - Se passar nos testes, sim. - Falava num tom delicado
mas impessoal. - Poder ir a Washington dentro de dez dias?
Isso significar deixar o seu trabalho. Se tudo correr bem, poder no mais voltar para ele.
 - Posso ir em qualquer altura.
 - Bom. - Consultou uma pequena agenda. - Sexta-feira,
oito de Outubro. De amanh a uma semana. D aos seus pais
este nmero de telefone e endereo para o caso de eles precisarem de entrar em contacto 
consigo . No se encontrar aqui - bateu na agenda -, mas o correio e telefonemas ser-lhe-
o transmitidos.
 A expresso dele tornara-se severa.
 - Diga  sua famlia que vai ser entrevistada pelo Departamento da Guerra por causa de um 
emprego. Leve uma mala
com roupas prprias para estar no campo. Retire todas as etiquetas. No leve consigo nem 
documentos nem papis com as
suas iniciais. Ningum poder ser capaz de relacionar qualquer objecto consigo. Chegue a 
Washington por volta do meio-dia. Dirija-se imediatamente para o Edificio Q. Aqui tem o
endereo. - Entregou-me outro carto. - D um nome e
uma morada falsos  recepcionista do hotel. Quer fazer alguma pergunta?
 Abanei a cabea.
 Um criado apareceu para saber o que queramos.
 O meu interlocutor disse:
 - Hoje no tomamos nada. - E levantou-se.
 Fiz o mesmo.
 - Adeus - disse novamente com o sorriso tranquilizante.
- E boa sorte para si.
 Uma hora mais tarde, enquanto seguia ao longo da Route
9 W, no autocarro, as excitantes possibilidades que as palavras de Mr. Tomlinson tinham 
aberto para mim faziam-me subir a temperatura. Pela janela aberta via apenas uma 
paisagem esbatida, to concentrada me encontrava nas alteraes imediatas que surgiriam 
na minha vida, agora que ia trocar uma existncia rotineira por um futuro cheio de 
incertezas. Seria
talvez loucura aceitar a proposta, mas no podia resistir. Finalmente tinha chegado a minha 
oportunidade de fazer algo de invulgar. O ultramar. A guerra. Aquilo que eu sempre 
ambicionara.
O secretismo de Mr. Tomlinson sugeria algo como espionagem. No, no devia deixar a 
minha imaginao  solta, mas
iria a Washington descobrir de que se tratava. Todo o meu ser
pulsava de alegria.



Captulo 3

 - Sente-se, Tiger.
 Era o homem com quem eu jantara um ms antes, John
Derb. No esperara voltar a v-lo.
 - Enquanto aqui estiver, s ser conhecida por este nome.
Tem tambm um nmero. Quinhentos e vinte e sete.
 Sentei-me em frente da secretria dele e pousei a minha
mala no cho. Podia ouvir o bater do meu corao. Ele tambm o ouviria? Inclinou-se para 
a frente, sorrindo.
 - Trata-se da sua primeira viagem a Washington, no 
verdade?
 - Sim. Pode dizer-se que nunca estive mais longe de casa.
 - Creio que o encontro no Biltmore foi bastante mistificador, mas por enquanto no lhe 
posso dizer mais nada. - Os
seus olhos fxaram os meus. - Precisamos de uma rapariga
especial para um trabalho especial - continuou. Conservava-se imvel, sentado  secretria, 
com as mos presas uma na
outra. - J falei com vrias candidatas e fiz investigaes a
respeito delas. Todas elas me foram altamente recomendadas,
mas at agora estou convencido de que voc  a pessoa mais
indicada para passar nos testes preliminares obrigatrios. Escolhi-a por causa da sua idade, 
do seu xito escolar, dos seus conhecimentos de lnguas estrangeiras, do seu aspecto e 
tambm por se dizer disposta a arriscar a vida, se necessrio.
Fizemos investigaes acerca de si e fomos at aos seus avs.
Agora vamos ver como aguenta um treino especial a que ter de ser sujeita. Posso estar a 
sobrestimar as suas possibilidades. Espero que no.
 Observei o gabinete dele. Paredes cinzentas, gavetas de arquivos fazendo parte de um cofre 
de ao. Encontrava-me no Edifcio Q, feio, novo, prefabricado. O sol entrava pela nica 
janela. Estava sentada na minha cadeira, muito direita.
 - Nas prximas semanas vai ter de se adaptar a situaes
 invulgares e serjulgada pela maneira como o fizer. Ningum
 que voc venha a conhecer, absolutamente ningum, dever
 saber se voc  de Boise ou de Berlim, se prefere Gole Porter ou Hegel. Deve levar em 
considerao aquilo que disser e o que
 no disser, o que fizer e o que no fizer.
 Falava em voz baixa, suave, os seus modos eram calmos,
 mas cada frase continha informaes que me seriam vitais.
 - A partir deste minuto poder ser seguida. E, no stio
 onde estiver a viver, as suas colegas podero examinar as suas coisas, procurando 
indicaes para a identificarem.
 Isto no me dava ideia de que os meus associados fossem
 particularmente simpticos.
 John Derb falou mais lentamente do que dantes, como
 para gravar mais profundamente as suas palavras no meu
 crebro.
 - Dirija-se para o Ha Adams Hotel. Espere na entrada
 principal por um Chevrolet preto com a chapa de matrcula
 TX16 248. Pergunte:  este o carro de Mister Tom?  -
 Derb entregou-me uma estreita tira de papel amarelo. -
 Tem aqui a matrcula, para o caso de vir a esquec-la.
Destrua-a em seguida.  um luxo para principiantes.

 Quando me encontrei novamente na rua tive dificuldade em
 acreditar que aquilo me estava realmente a acontecer. Percebi
 que no fazia qualquer ideia sobre a maneira de chegar ao Hal
 Adams Hotel. Seria fcil. Perguntaria. No, ele dissera que
 poderia ser seguida. Por detrs de mim, o Edificio Q erguia-se sobre uma pequena 
elevao relvada no centro de Washington. Apertei mais a pega da mala, percorri trs 
quarteires, entrei numa loja e telefonei para o hotel para pedir indicaes.
 Encontrava-me demasiado longe para ir a p, e por isso
meti-me num txi. Passei quase todo o tempo a espreitar pela
janela, para fora, para me assegurar de que no estava a
ser seguida.
 Quando cheguei ao caminho curvo que dava acesso ao Hal
 Adams vi uma multido na entrada, carros e txis passando
 numa fila interminvel, indo deixar ou receber os seus
passageiros. Esperei passar despercebida no meio da multido.
 Coloquei-me na curva e comecei a examinar todos os carros.
 Grupos de pessoas entravam e saam. Vi uma rapariga com
 uma grande gardnia amarela atrs da orelha e um
jovem soldado numa cadeira de rodas. Os porteiros
transportavam as bagagens pesadas.
 Um empregado do hotel veio agarrar a minha mala e eu
 opus-me decididamente a isso.
 - Mas, miss... - murmurou. Fiquei sem saber que dizer;
 nunca estivera num hotel em toda a minha vida. Agarrei a
 mala com mais fora e afastei-me um pouco, tirando o chapu
 para alisar o cabelo, que se tornara hmido. Estaria um dia
 invulgarmente quente, ou seria- nervoso? No lado oposto, quase na minha frente, 
encontrava-se um homem que envergava
 um sobretudo preto e tinha o rosto oculto atrs de um jornal.
 Alguns passos mais adiante vi outro homem, moreno,
de feies sinistras.
 Finalmente apareceu um Ghevrolet preto. Voltando-me,
 abri rapidamente a carteira, verifiquei a matrcula, consciente de que no eram aqueles 
gestos desajeitados que
esperavam de mim. Quando me virei de novo, os dois homens de aspecto suspeito tinham 
j entrado no carro e o motorista
preparava-se para o pr em andamento.
 Corri para o carro.
 - Parem! Parem! Vou convosco.
 O motorista franziu o sobrolho.
 - Como  que se chama?
 Tentando recuperar a compostura, dei a senha:
 -  este o carro de Mister Tom?
 O homem saiu e colocou a minha mala no porta-bagagens
 e eu sentei-me no assento de trs, ao lado do homem de sobretudo preto - um homem de 
meia idade, com cabelo castanho, ralo, cujo sorriso era vagamente tranquilizador. O outro 
homem ia sentado  esquerda dele.  minha frente estava um homem com espesso cabelo 
preto, mas no conseguia ver-lhe a
 cara.
 Quando nos afastvamos pensei em dizer qualquer coisa,
 como belo dia  ou Washington  de facto mais bonita que
 Nova Iorque  - no, isso no. No me tinha Derb avisado,
 meia hora antes, que no dissesse nada que me pudesse identificar? Devia esperar que 
outra pessoa qualquer comeasse a conversa, disse para comigo. Mas com grande surpresa 
minha,
 enquanto avanvamos por entre o trnsito, na tarde cheia de
 sol, ningum dizia uma palavra.
 Seria um percurso curto, imaginava eu - provavelmente
 uns dez minutos at chegarmos a algum edifcio governamental -, at que reparei que as 
ruas da cidade iam ficando para
 trs, dando lugar a vivendas residenciais e, finalmente,
a estradas que seguiam atravs de campos arborizados. Durante uns momentos senti-me 
invadida pelo pnico. Estaria nas mos de traficantes de carne branca? Tudo era possvel. 
Ali estava eu, sem qualquer identificao. Era apenas Tiger, nmero 527 .
 Samos da estrada e entrmos numa alameda coberta pelas
 copas das rvores, cujos ramos se entrelaavam. Vi pelo meu
 relgio que viajvamos h quarenta minutos e calculei que devamos ter percorrido vinte 
milhas para fora da capital,
encontrando-nos agora algures em Marland ou Virgnia. No fazia ideia. A casa que se nos 
deparou era enorme, erguendo-se
sobre um relvado no alto de um monte. O sol incidia sobre a sua fachada branca, fazendo 
faiscar dezenas de vidraas. Rodeando os seus vastos terrenos via-se a floresta, em tons
to vivos de vermelho e amarelo que parecia pintada. A tarde
estava no auge, o ar outonal era suave e perfumado.
 Parmos em frente de um prtico com colunas. Sa do carro,
 seguida pelos trs homens. Alisei rapidamente a saia e o cabelo. A grande porta da entrada 
abriu-se. Um homem musculoso, cabeludo, vestindo uma camisa de quadrados vermelhos 
apareceu. Era seguido por outro homem, muito magro,
 que envergava um casaco militar todo abotoado por cima de
 umas calas pretas. Reparei tambm que calava meias
brancas e sapatos pretos de biqueiras pontiagudas.
 O homem forte tirou a minha mala das mos do motorista,
 que descarregava o carro, e depois dirigiu-se para mim.
 - Ol...
 Estava  espera. Respondi, um pouco hesitantemente:
 - Tiger.
 - Voc  a Tiger?
 Disse que sim com a cabea, silenciosamente.
 - Bem, bem. - O seu sorriso era lento. - Um nome pode
 por vezes ser enganador. Eu sou Whiske. - E estendeu-me a
 mo.
 - Boa tarde... Whiske. - Enquanto lhe apertava a mo pensava que o nome lhe ficava bem. 
Algo nos seus modos, no
tom de voz, sugeria bebida - forte, misturada com ponche.
Ouvi o som de pssaros, o murmrio dos ramos das rvores
e... sons abafados de tiros?
 - Ol, Pierre - Whiske dirigiu-se ao homem que viera
sentado no lugar da frente e que eu ainda no conseguira ver.
 - Ol, Whiske.  bom v-lo de novo. - A voz era cortante, com um sotaque britnico. 
Olhei-o pela primeira vez.
Depois controlei-me, tentando no mostrar emoo, pois ele
era simplesmente o homem mais atraente que euj vira. A sua
pele morena tinha um tom avermelhado; ele tinha o aspecto de
um atleta que passava a maior parte do tempo ao ar livre.
O cabelo era mais negro e mais espesso do que me parecera no
carro. Nesse momento os seus olhos castanhos, penetrantes,
fitavam-me. O sbito sorriso revelou dentes brancos e perfeitos. No se tratava de um 
homem especialmente alto, mas delgado e vibrante. O seu fato de quadrados pretos e 
brancos
mostrava um corte e qualidade que condiziam com quem o
usava. Embaraada e terrivelmente consciente da presena
dele, dirigi-me para as escadas da casa.
 Ainda com a minha mala na mo, Whiske disse-me:
 - Bem, Tiger, gosto muito de a ver por aqui. Entre.
 Enquanto subamos at ao prtico eu sentia o pavimento to
pouco firme como se pisasse areia. A criatura delgada, baixa,
que ficara junto da porta via-nos avanar na mais completa
imobilidade e silncio, como se fosse uma dessas figuras ornamentais que muitas vezes 
enfeitam as entradas das casas.
Whiske fez-lhe sinal para entrar tambm.
 - Sphinx, leve a mala desta menina e indique-lhe o quarto.
 O homenzinho observou-me durante uns segundos. As suas
feies esticadas e olhos amendoados eram quase atraentes,
mas o seu olhar gelou-me e desfez o encanto que o simptico
Pierre irradiara. Tirando a minha mala das mos de Whiske,
Sphinx dirigiu-se a passos curtos, precisos, para o grande
vestbulo. Olhei  minha volta e vi homens - apenas homens -,
sobretudo homens de quarenta e cinquenta anos, vestidos das
mais diversas maneiras, com fatos completos, calas e camisas
de desporto, enquanto outros - como Sphinx - usavam uma
mistura de uniforme do exrcito e de roupas civis.
 Whiske apontou com a sua grande mo.
 - Para a esquerda fica a sala de jantar. O jantar  s
dezoito horas em ponto. s dezanove haver uma reunio na biblioteca, para os recm-
chegados.
 Disse que sim com a cabea e preparei-me para seguir
Sphinx pelas escadas curvas. Os seus passos precisos, de
soldadinho de madeira, pararam em frente de uma porta marcada
com o nmero 3.
 -  aqui que voc fica. - A sua voz aguda era tensa como
o seu andar.
 Sphinx abriu a porta. O quarto era pequeno, austero -
duas camas, uma secretria encostada  parede branca, duas
cadeiras de costas direitas, uma cortina verde cobrindo a janela nica. Deitada numa das 
camas, uma rapariga ergueu os
olhos do livro que estava a ler, sobressaltada.
 - Podia ter batido - disse, falando com Sphinx.
 - Nem pensar, Magic. No est num hotel de luxo. Trabalha para os EUA. - A voz dele era 
fria, sem mostrar qualquer
emoo.
 A rapariga levantou-se, cautelosamente, olhando-me e parecendo estar  espera que Sphinx 
fizesse as apresentaes.
Pelos padres convencionais, no se podia considerar uma rapariga bonita - um rosto 
comprido, cavalar, forte cabeleira castanha, reluzente, e culos com lentes inusitadamente 
grossas. Mas as suas mas de rosto salientes e os olhos claros, com espessas pestanas, 
davam-lhe um encanto inegvel. A comprida saia de l verde e a camisola azul revelavam 
uma
figura forte, atltica. Observmo-nos mutuamente enquanto
Sphinx pousava a minha mala no cho e saa sem dizer uma
palavra.
 Eu ia comear a falar, mas ela levou um dedo aos lbios,
indicando silncio, e apontou para um canto do tecto. Vi apenas um ventilador.
 - Nem uma palavra que no queira que ouam - sussurrou. - Este quarto est cheio de 
microfones. - A sua voz
abafada tinha um sotaque estrangeiro, gutural. - O meu
nome  Magic.
 - Eu sou Tiger.
 Apertou-me a mo com um gesto afectuoso.
 - Aquele homem  o castigo da minha vida - sussurrou
novamente, apontando para a porta. - Acha que as mulheres
no tm o direito de aqui estar. Muitos dos outros pensam da
mesma maneira, mas pelo menos so delicados. Noventa e nove por cento das mulheres no 
quereriam estar aqui mesmo
que pudessem. Amanh ver o que quero dizer com isto. Mas
 fascinante, apesar da dureza do regime. Apenas duas mulheres para mais de trinta 
homens!
 - Somos s as duas?
 - Duas no so mais que suficientes? - Piscou um dos seus
olhos mopes. - Tenho sido a nica mulher do grupo desde
que chegmos, h trs semanas. Sexta-feira chegam novos recrutas, juntamente com alguns 
dos antigos, que tiveram uns
dias de frias. Estamos todos em diferentes estdios deste
programa de treino. - Olhou para o seu relgio de pulso. - Tenho de ir. - Correu para o 
armrio e trocou os sapatos de
salto raso que trazia por uns sapatos de salto alto, passou
rapidamente por mim, dizendo chau, e saiu.
 Caminhei at  janela. Ao longe, os bosques ardentes lanavam sombras extensas sobre os 
vastos relvados e atravs das
rvores viam-se de relance campos doirados. L em baixo um
grupo de homens jogava futebol. Inclinando-me mais, reconheci o simptico Pierre, de p 
junto de um grande cer. Magic parecia correr nessa direco.
 Voltei-me e comecei a tirar as coisas da mala. Depois esperei
impacientemente pelas 18 horas.

 O grupo que se encontrava na sala de jantar fazia lembrar
uma reunio de uma confraria - havia oito homens sentados
em cada uma das mesas rectangulares, rindo e falando to ruidosamente como se a guerra 
no tivesse nada a ver com eles.
Whiske fez-me sinal para me apresentar.
 - Tiger, gostaria de lhe apresentar todos os que esto na
nossa mesa.
 Apresentou-me Blueja, Francis, Popoff, Luck e outros dois.
 Luck e Popoff tinham sido os meus companheiros silenciosos do carro. Sentando-me entre 
Whiske e Luck, limitei-me
a dizer ol  e a sorrir. Estava decidida a no correr riscos
desnecessrios. Whiske voltou-se para mim, amigvel, atencioso.
 - Ento, Tiger, que pensa?
 Os homens mostravam-se escrupulosamente atentos.
 - Refiro-me s instalaes. No so ms, pois no?
- So ptimas. - Sorri outra vez, achando que era o nico
terreno seguro em que eu me podia refugiar de momento.
 - Espero que goste de carne dura, pois ir encontr-la muitas vezes por aqui.
 - Neste stio  preciso - acrescentou bem-humoradamente
um homem que se encontrava do outro lado da mesa. -  preciso ser-se to duro como este 
bife para sobreviver.
 Olhando  sua volta, Luck e eu trocmos um olhar. Ele
tambm permanecera silencioso.
 - E no se esquea das batatas - disse Blueja. - Deve
ser a nica coisa que se semeia por estas redondezas. Comemos batatas ao pequeno-
almoo, almoo e jantar!
 - Que h de mal com as batatas? - perguntou Whiske
com boa disposio. - Os nossos rapazes no ultramar gostam
de batatas em pur, cozidas, assadas e fritas, por esta ordem.
 No me atrevi a tomar parte na conversa, pois no queria
revelar que nunca estivera em parte alguma e que no conhecia o mundo. No entanto, todos 
falavam livremente - excepto
Luck -, conversando a respeito do ataque de Mark Glark em
Npoles e do passeio de MacArthur na Nova Guin para assistir aos jogos de futebol da 
poca.

 Na biblioteca ardia um bom fogo, que lanava os seus clares luminosos sobre as paredes 
com painis e sobre os livros
com encadernaes de cabedal. Luck j se encontrava ali.
Sentei-me perto dele. Cinco minutos depois encontrvamo-nos
ali doze pessoas, reunidas num grupo silencioso. Whiske
apareceu, seguido de perto por Sphinx.
 - Instalem-se confortavelmente por favor. H ali usque e
Bourbon - explicou apontando para uma mesa encostada 
parede - e h cigarros nas caixas.
 Com ar despreocupado, o nosso anfitrio, sentado  grande
secretria de mogno, com os braos cruzados sobre o peito,
esperou que cada copo se enchesse, que cada cigarro estivesse
aceso e que todos voltassem a sentar-se. Eu permaneci presa
ao meu lugar. Ele parecia querer prolongar a nossa ansiedade.
Sphinx encostou-se  secretria,  direita de Whiske, e pela
maneira como observava cada um de ns parecia estar a decidir qual iria zurzir primeiro. 
Descruzando os braos, Whiske
esperou at se poder ouvir cair um alfinete.
- Bem, creio que merecem saber o que se passa exactamente e o que esto a fazer aqui.
 Whiske mudou de posio, esperou, gozando o silncio.
 - Trata-se da primeira escola de espionagem dos Estados
Unidos. E vocs esto aqui para serem transformados em...
E...S...P...I......E...S. - Cada letra levou um segundo a dizer.
 Ningum se mexeu. Na lareira uma brasa ardeu com mais
fora e morreu. Gelo tilintou num copo. Descontraidamente,
com simplicidade, Whiske continuou.
 - Se conseguirem passar este perodo de treino, sero empregados de um servio 
inteiramente novo, o Office of Strate-gic Services, que tem de responder apenas perante 
uma pessoa: o general Wild Bill Donovan. Nenhum departamento do
Governo tem jurisdio sobre as nossas operaes, exceptuando o presidente.
 Whiske parou durante um segundo, fitando-nos um a um.
 - O FBI  o responsvel por informaes reunidas dentro
das nossas fronteiras, e neste momento esto tambm a ajudar-nos na Amrica do Sul. No 
podemos formar recrutas com
rapidez suficiente. Isso deixa-nos com o resto do Globo, e  bastante.
 Houve uns murmrios de acordo. Whiske prosseguiu:
 - O OSS tem cinco seces. A MO (Mobile Operations),
coordena as actividades dos agentes por detrs das linhas inimigas. H a Seco de 
Propaganda. A R&A (Research and
Analsis), que reune e examina informaes estratgicas da
guerra. A CE (contra-espionagem), que reune informaes do
estrangeiro. E a SI (Secret Intelligence), que trata das misses especiais dos agentes no 
estrangeiro. Donovan  o chefe geral, mas cada uma das cinco seces tem um chefe com 
autoridade a nvel mundial para os assuntos desse departamento. Cada um de vocs estar 
ligado a uma destas seces.
 Sempre com a mesma afabilidade, Whiske prosseguiu:
 - Isto , se passarem neste perodo de formao. Detesto
ter de ser eu a dizer-lhes isto, mas a verdade  que alguns de
vocs no estaro aqui sequer duas semanas.
 A realidade era aquela, pensei. Como  que a minha inexperincia poderia competir com 
aqueles homens conhecedores
do mundo?
 - Alguns demonstraro que no possuem uma memria suficientemente viva. Ou as vossas 
respostas sero muito lentas. Ou a fadiga domin-los- ( bom dizer-lhes desde j que vo 
ser sujeitos a uns testes bastante rudes) e tero de
cumprir todas as ordens quer o queiram quer no. Vo ter de ser campees quando 
pensarem que esto demasiado cansados para se aguentarem de p mais um minuto. E 
alm disso tero de tomar decises numa fraco de segundo.
 Mais uma vez Whiske fitou demoradamente cada um de
 ns.
 - E se no gostarem do que acabei de dizer, se acharem
 que  demasiado o que se vos pede, a porta est ali. No h
 ressentimentos. Desde que assinem um papel e garantirem sob
 juramento que nunca repetiro uma palavra do que aqui foi
 dito, podem partir e dentro de uma hora estaro de novo em
 Washington. E esqueam que alguma vez estiveram aqui.
 Ningum se mexeu.
 - E h ainda outra coisa. Existe sempre a possibilidade (e
 no muito remota) de que um agente inimigo se possa ter infiltrado aqui.  essa uma das 
razes por que o vosso nome de
 cdigo ser o vosso nico nome enquanto aqui se encontrarem.
 S vou dizer isto uma vez, mas quero que o no esqueam.
 Guardem a vossa identidade para convosco. E isto significa
 que a tm de ocultar do vosso companheiro de quarto, do
vosso professor, do vosso amigo.
 Eu nunca tirei os olhos do orador. Whiske no tinha nada
 do requinte de John Derb. Os seus modos, a sua maneira de
 andar eram de um pugilista. John Derb poderia ser um homem de leis, Whiske fazia 
lembrar um marine. Deviam ser
 mais ou menos da mesma idade e tinham uma caracterstica
 comum, pelo menos aos meus olhos - ambos estavam ajogar
 e ambos sabiam exactamente que carta atirar para a mesa e
 que carta guardar.
 - Esqueam o vosso passado. Esqueam at que o tiveram. S
o presente conta. E o futuro. Agora, aconselho-os a terem uma
 boa noite de sono... poder ser a ltima. Amanh, o pequeno-almoo  s sete horas e a 
primeira aula s oito em
ponto. Terei o prazer de ser eu a d-la. Da em diante o vosso horrio ser ininterrupto. E 
creio que por agora  tudo. Ah, a propsito, bem-vindos ao RTU-11, tambm conhecido 
por a Quinta .
Sa da biblioteca atordoada. Estaria aquilo tudo a suceder
 de facto? Ia a subir as escadas quando ouvi:
- Tiger, tenho uma coisa para si.
 Voltando-me, vi Whiske com um embrulho na mo. Comeou a subir at ficar no degrau 
abaixo do meu.
 -J percebeu que no usamos qualquer uniforme. Mas
pode achar isto prtico.
 Abri o embrulho e vi que continha dois pares de calas de
treino do exrcito, com elstico na cintura.
 - Muito obrigada.
 - No so de modo algum suficientemente elegantes para si
e espero que no se importe com a cor.
 Olhmos um para o outro e finalmente disse o que estivera a
pensar toda a noite:
 - Se lhe respondesse a isso no estaria j a revelar algo a
respeito de mim prpria?
 O sorriso dele foi lento. A barba por fazer dava a impresso
de que ele tinha uma infinidade de pontos entranhados na face
escarpada.
 -  assim mesmo, Tiger. Creio que se ir dar bem aqui.

 s oito em ponto, Whiske apareceu - atento, seguro, amigvel como um velho amigo, 
resoluto como um tanque Sherman. Sphinx seguia-o. Dois homens de meia-idade 
envergando
uniformes do exrcito sentaram-se ao fundo da sala enquanto
Whiske e Sphinx se dirigiam para uma das mesas da frente,
sobre a qual colocaram uma haste de metal e o que parecia
serem rolos de filmes.
 Luck, que se sentara a meu lado, confidenciou-me:
 - A noite passada, um dos tipos que aqui esto contou-me
que Whiske  excepcional. Esteve em West Point e parece que
passou tambm um ano em Saint-Gr, a academia militar
francesa. Depois seguiu para Inglaterra para continuar a sua
formao e tornou-se instrutor de combate corpo a corpo dos
agentes canadianos e ingleses que eram enviados para trs das
linhas inimigas. Ningum sabe se Whiske prestou servio nas
fileiras, mas  possvel. S se encontra a dirigir isto h dois meses.
 O fsico de Whiske no era dos que se impunham imediatamente, mas  medida que o 
observava ele ia-me parecendo cada vez mais impressionante - e letal. O corpo dele no era 
especialmente alto ou largo, mas havia algo nele que revelava uma capacidade fsica 
invulgar. Os seus modos reflectiam tambm confiana nessa capacidade.
 - Sabe qual ser a durao do nosso perodo de aprendizagem? - perguntei a Luck.
 - No h tempo definido. Alguns dos homens tm estado
 aqui mais de um ms, outros vo-se embora algumas semanas
 depois de chegarem, para irem para outros campos aprender a
 saltar de pra-quedas e coisas assim. Cada aluno 
preparado para uma misso especfica. Quando partirmos, se conseguirmos chegar ao fim, 
estaremos feitos por medida. - Agitou-se na cadeira, desconfortavelmente. - No me agrada 
no saber o que vou fazer e para onde vou ser enviado. E a si?
 Antes de eu ter tempo para responder, Whiske, que se encontrava agora diante de um 
pequeno ecr porttil que acabara de ser montado, comeou a falar.
 - Algum sabe qual  a nossa mais perigosa arma secreta?
 - Olhou  sua volta, para a assistncia. Ningum disse nada.
 - Vocs fazem parte dela.
 Senti o olhar de Luck.  minha esquerda, um dos homens
 uniformizados que se encontravam no fundo da sala dirigiu-se
 para a frente.
 - Este nosso amigo - disse Whiske, apontando para o oficial que se aproximava - ser um 
dos vossos instrutores.
 Vai fazer-lhes um briefing. Tratem-no por capito, mas no
 pensem que ele o seja apenas por ter estes gales no seu uniforme. Lembrem-se de que a 
partir de agora devem pr em
 causa qualquer coisa que lhes parea evidente. Mais tarde
pedir-lhes-emos as vossas opinies. E podem estar certos de que os vossos instrutores se 
ho-de rir dos erros que vocs vo cometer, rapazes. Ah, perdo - disse olhando para mim -, 
e
 vocs, raparigas.
 O capito deu uma palmadinha nas costas de Whiske e
 comeou a falar sem mais prembulos.
 - A primeira coisa que devem meter na cabea  que esta
  uma agncia de servios secretos e no um servio de informaes pblico. As 
informaes que fornecemos aos militares so altamente secretas. Sabem o que isso 
significa?
 Significa que podem ser mortos apenas por terem conhecimento delas. Por outras palavras, 
uma orelha no diz nada
  outra. Ns levamos tanto a srio o nosso secretismo como o
 Abwehr alemo ou a NKVD russa. Se repetirem sem consentimento uma palavra daquilo 
que ouvirem aqui (no importa a
quem ou qual o seu posto) sero julgados por traio. Isto
aplica-se a todos, quer passem nos treinos quer no. Percebem,
amigos? - Um breve sorriso. - Encontramo-nos aqui para
salvar vidas. Ser esse o nosso principal esforo. As informaes que os nossos agentes 
obtm das foras inimigas, os locais que ocupam na costa, os seus movimentos de tropas, 
barreiras nas estradas, armas antiareas, as suas minas (juntamente com o conhecimento 
das suas intenes), tudo isso  indispensvel.
 E temos problemas. Estaline no quer as tropas aliadas na
Europa Oriental. Tem planos para dominar os pases que rodeiam a Rssia. Isso torna o 
nosso trabalho nessa rea bastante difcil, porque se os nossos agentes pudessem convencer
os governos desses pases de que no os abandonaramos s
mos dos bolchevistas depois da guerra alguns estariam agora
do nosso lado. Neste momento tm menos receio do nazismo
de Hitler do que do comunismo de Estaline.
 H rumores de conspiraes para matar Hitler, mas
mesmo que elas tivessem xito isso no acabaria com os nossos
problemas. Se o Fhrer desaparecesse, Heinrich Himmler
substitui-lo-ia, e ele  igualmente perigoso.
 E temos ainda a Itlia, onde tem havido problemas, precisamente por falta de informaes 
sobre as foras alems e por ningum nos ter podido ainda dizer o que tem Kesselring em
mente para o futuro. Recuar? Rommel enviar-lhe- mais tropas? So estas as questes a 
que os nossos homens do OSS
esto agora a tentar responder. Neste momento, Kesselring
encontra-se algures entre Npoles e Roma e j se perdeu um
milhar de americanos. Esperamos que o OSS possa fazer reduzir as baixas e indique o 
caminho para a vitria. Compreendem agora como o papel para que vo ser preparados  
estratgico?
 O capito continuou, esboando um breve quadro dos acontecimentos no Pacfico. Quando 
ele acabou, Whiske aproximou-se da mesa e perguntou:
 - Que diz, capito?  altura de mostrarmos algumas fotografias?
 Um jovem comeou a preparar o projector. Entretanto,
Whiske dirigiu-se a ns com a sua habitual maneira informal.
 - Sabem que em Washington corre uma anedota a nosso respeito... a respeito das iniciais 
OSS. Oh, so social!
S porque alguns dos nossos membros vm nas colunas sociais. Acha isso justo, Sphinx? - 
Voltou-se para o homenzinho, que se
 encontrava sentado atrs dele. - Esquecem-se que tm a
sorte de estarem aqui pessoas como ns.
 - O que  que social  quer dizer, afinal? - respondeu
 Sphinx, gracejando com a sua voz, onde havia uma notvel
 falta de humor.
 O nosso orador riu com gosto.
 - Bem, este pequeno filme caseiro mostrar-lhes- aquilo
 com que ns queremos acabar, e sero necessrios mais que
 atributos sociais para o conseguir. - O oficial fez um
gesto, as luzes apagaram-se e as cortinas foram fechadas.
 O projector comeou a funcionar e o foco foi ajustado.
 A imagem era m, tinha gro e por vezes mostrava-se pouco
ntida. Whiske explicou que parte daquela pelcula fora
trazida s escondidas de territrio inimigo. Primeiro vimos imagens da guerra, mostrando o 
bombardeamento de Roterdo feito pelos alemes. Whiske explicou que a cidade no fora 
destruda por razes militares, mas sim como vingana pela resistncia dos holandeses e 
tendo por fim aniquilar a vontade das vtimas. Assistimos tambm  execuo em massa de 
patriotas polacos, que os nazis fuzilavam perto de uma enorme cova aberta; vimos os 
judeus serem brutalmente perseguidos e presos em Amesterdo, Viena e Bucareste; 
presencimos a carnificina em Estalinegrado, reduzida a escombros diante dos nossos 
olhos.
- Agora vamos ver algo que fica mais perto de ns -
continuou o nosso orador. - As prximas estrelas que iro ver
trabalharam para qualquer servio secreto... algumas para o
nosso, infelizmente. Uma poro de britnicos. Um sueco. Uma
 rapariga grega que trabalhava para os russos.
 O que vimos ento era inacreditvel. Quer fossem feitos
em tiras por facas, quer tivessem sido enforcados em
candeeiros, desfigurados por mos humanas ou pelo fogo de metralhadoras, o resultado era 
sempre o mesmo - a morte. No fim, o sorriso de Whiske havia desaparecido. Despediu-se 
de ns apenas com um breve gesto.
 Luck e eu samos lado a lado. Sentia-me tremer, mas fazia um esforo para ocultar as 
minhas emoes, porque tinha reparado que os dois oficiais, assim como Whiske e Sphinx, 
nos
observavam enquanto passvamos pela estreita porta.
 - Tiger, este trabalho em que estamos metidos pode tornar-se medonho - murmurou Luck, 
que se mostrava especialmente abalado. Mais ningum falou.

 A seguir fomos encaminhados para uma sala onde se encontrava um homem alto e forte, 
chamado George, rodeado por
cofres e portas com vrias fechaduras. Todo sorrisos, disse-nos,  laia de introduo:
 - Antes de deitarem as mos ao inimigo tm de entrar na
casa dele, ah, ah, ah. E eu estou aqui para lhes ensinar
exactamente a fazerem isso. Depois de terem entrado em casa do inimigo podem ter de 
entrar no cofre dele. Mostrem-me as vossas mos. - Examinou a pele das nossas pontas dos 
dedos, sobretudo dos polegares e indicadores. - Bem, bem, todos virgens, como era de 
esperar. - Houve risos. George pegou numa lima. - Todas as manhs, a primeira coisa que 
tm de fazer
depois de lavarem os dentes  limar a pele das pontas dos dedos (o polegar e o indicador 
sero suficientes) de ambas as
mos. Est bem? Para qu? Para aumentar a vossa sensibilidade quando tiverem de detectar 
marcas nas chaves para abrir
fechaduras com vrias combinaes. Trata-se de uma verdadeira arte... a mais bela das 
artes, na minha humilde opinio.
 Nesse dia George comeou a ensinar-nos tambm a arte de
abrir fechaduras de portas e a arte dos carteiristas.
 Magic e eu samos juntas da aula. Parecia ser aquela a nica
oportunidade para se conversar.
 - Tiger, descobriu a sua profisso. Voc  espantosa. As
minhas mos so como dois ps esquerdos.
 - George  um grande professor, e tambm uma pessoa encantadora!
 - Encantadora! Ele  um arrombador de cofres, evidentemente um excelente profissional. 
Dizem que saiu da priso expressamente para nos vir ensinar.

 O atraente Pierre estava a meu lado nos exerccios de
campo. Ajudou-me imensamente, porque as provas eram muito dificeis. Trepmos paredes 
de pedra, percorremos um riacho lamacento, rastejmos no meio da relva alta.
 - Venha, Tiger. - Ele sabia o meu nome. - Faltam s
mais duas barreiras. No desanime e no se preocupe com receio de no conseguir. Est a 
fazer tudo muito bem.
 Quando eu no conseguia avanar, ele puxava-me at completarmos a corrida de 
obstculos. A nossa recompensa era
vermos Sphinx a observar-nos, com os braos cruzados sobre o
peito. Ns estvamos suados, ofegantes, enlameados.
 - Pssimos. Todos vocs. No sobreviveriam nem um dia
no campo. Lembrem-se de uma coisa: se no estiverem em
plena forma, a exausto far de cada um de vocs um cobarde.
 Sphinx voltou-se e eu pensei com alvio que a prova estava
terminada. Depois ouvi-o dizer, enquanto se afastava:
 - Mais uma vez. Recomecem do incio.
 Pierre e eu piscmos os olhos um ao outro. Sentia-me demasiado exausta para me 
preocupar por ele me estar a ver suja, e reparei que ele parecia quase to fresco como 
quando comeramos.

 Depois do jantar reunimo-nos numa sala; um visitante que
envergava um fato completo, cinzento, e gravata olhou para o
seu relgio de pulso.
 - Sentem-se  vontade, amigos. Acabo de voltar de uma
misso e tenho apenas uma hora para lhes dizer tudo o que sei.
 Inclinei-me para a frente, fascinada.
 - Quando se trabalha atrs das linhas inimigas,  necessrio
dinheiro para recrutar novos agentes. Sero seguidos como uma
cadela com cio a no ser que saibam fazer essas transaces
com mestria. Estou aqui para lhes ensinar como negociar. Alguns agentes denunciam-se 
apenas por usarem demasiado livremente as suas contas bancrias. Se for possvel, quando 
contratarem um novo agente, adiem o pagamento para o fim da guerra. No caso de ainda 
no o saberem, fiquem sabendo que o provrbio  verdadeiro: toda a gente tem o seu 
preo. E nem sempre  dinheiro. Pode ser uma garantia de tratamento, um visto para um 
imigrante, um emprego para depois da guerra. Certifiquem-se apenas de que o preo no  
a vossa vida.
No via Pierre h vrios dias quando o encontrei  mesa do
laboratrio onde estvamos a preparar tintas invisveis. Eram
transparentes e impossveis de detectar com o calor, com o frio e com luz. Ou eram feitas  
base de p seco ou lcool ou gua.
Utilizando uma cpsula com um p, que furou com um palito, Pierre preparou a tinta e 
escreveu numa folha de papel que
depois limpou com um algodo. Quando vi que ele percebera
que eu o estava a observar, corei. Pierre limitou-se a sorrir e prosseguiu com o seu trabalho. 
Depois entregou-me a nota.
Comecei por salpic-la com um p vermelho que continha
ampthalene. Depois aqueci a folha  luz do isqueiro e expu-la
aos raios de uma lanterna porttil de raios ultravioleta.
Letra a
letra, as palavras de Pierre apareceram  vista.

 Tiger, j reparou que no estamos em Washington mas
sim em Hollwood! Circulam boatos de que h um antigo espo nazi entre ns. Gosta de 
popovers para o pequeno-almoo?
 Pierre

 Li a mensagem e percebi imediatamente que ele se referia a
Popoff, que parecia ser o maior amigo da minha companheira
de quarto. Com o seu sotaque, Magic poderia ser uma dissidente alem.
 Era a minha vez de responder. Primeiro preparei uma soluo peculiar numa garrafa - um 
produto qumico amarelo,
gua, e schnapps! Depois mergulhei a caneta nessa mistura:

 Pierre, pode haver mais do que um. Que diz ao seguinte
elenco:

 POPOVERS
 A verdadeira histria
 Claude Raines ............................Popoff
 James Gagne..............................Whiske
 Boris Karloff.............................Sphinx
 Shirle Temple ...........................Tiger
 Gharles Boer.............................Pierre

 Ele tratou a minha resposta com uma soluo de gua e
cinzas de cigarros, e quando as letras comearam a aparecer vi o seu ar divertido. Quando 
samos do laboratrio, alguns
minutos depois, Pierre perguntou:
 - E Magic? Esqueceu-se da nossa estrela?
 - Em quem  que est a pensar?
 Pierre retorquiu com um piscar de olhos:
 - Em Norma Shearer.
 Senti pena por no ser to sofisticada como a minha companheira de quarto, mas na 
verdade Magic fazia lembrar essa
 famosa actriz, at na maneira como entrava numa sala e no
 tom da voz. Notava que Pierre se sentava muitas vezes junto
 de Magic na sala dejantar e raras vezes fazia um esforo para
 ficar perto de mim, no entanto mostrava-se encantador e divertido enquanto aprendamos a 
enrolar um jornal de modo a
 ficar com uma ponta to fina que, no caso de no possuirmos
 nada de melhor, poderia funcionar como arma - como uma
 faca, com a qual se poderia perfurar um inimigo se
apanhssemos a jeito a sua pele macia debaixo do queixo. Enquanto trabalhvamos, Pierre 
murmurou com cepticismo, em voz baixa:
 - Serve tambm para fazer ccegas. A vtima morrer a rir.



Captulo 4

 Cerca de dez dias depois de termos iniciado as nossas aulas
de combate, cada um de ns foi designado para ser oponente
de um dos instruendos mais adiantados. Pierre iria ser o meu
adversrio.
 Calados, em silncio, observmo-nos mutuamente. O instrutor deu o sinal para comear. 
Imediatamente o terreno ficou cheio de gladiadores. Avanmos uns para os outros na
nossa dana. Pierre atirou-se para a frente com a agilidade de
um profissional. O seu brao agarrou-me e lanou-me ao cho.
As rvores nuas erguiam-se por cima de ns.
 Pus-me em p de um salto. Apesar de o soco que ele me deu,
que me acertou nas costelas, no ter sido muito forte,
tirou-me a respirao e fez-me cair outra vez. Atirei a perna esquerda para a frente, mas ele 
recuou e eu falhei o golpe. A dor era agonizante, mas com um gesto elstico pus-me de p 
e fora do alcance dele. Ofegante, a transpirar, decidi atingi-lo pelo menos com uma 
pancada.
 Pierre movia-se em crculos, cercando-me. No havia tempo
para pensar. Antes de eu me poder aproximar, a sua perna e
brao direitos moveram-se com rapidez num golpe de jiu jitsu
que me fez cair para trs. Maldio! Mais uma vez tentei aplicar-lhe um golpe de tesoura, e 
uma vez mais ele se esquivou.
Voltei a cair. Nunca desistir... nunca.
 Os nossos olhos encontraram-se. Pierre sorria! O triunfo fcil fazia-lhe curvar os lbios. 
Pierre aproximou-se, pronto
para me atingir, e eu voltei-me como se fosse fugir. Era a minha oportunidade de lhe aplicar 
o golpe que nos tinham ensinado to bem. Reunindo todas as energias que me restavam, 
girei sobre mim prpria e ergui a perna para o atingir nos
testculos.
As mos dele agarraram-me na perna antes de esta atingir o
 seu alvo. Roando-me pela cara a sua outra mo, empurrou-me um ombro - e eu rolei pelo 
solo.
 Olhei para o cu plido, encharcada dos ps  cabea.
 O meu flego, as minhas foras, tinham desaparecido.
 O rosto de Pierre inclinou-se sobre mim.
 - Est bem? - reparei que ele nem sequer estava ofegante.
 - Uma luta desigual desde o incio, uma luta que eu no teria
 escolhido se tivesse oportunidade de o fazer.
 Arquejava. No lhe podia responder. Mas disse que sim
 com a cabea.
 - Voc andou muito bem, Tiger.
 - Muito bem? - repeti ofegante.
 - Claro que sim. Quase conseguiu. Est a comear a perceber a ideia.
 Olhei-o. A minha boca sabia a sal.
 - O seu ltimo pontap foi quase eficaz. Se eu no o esperasse ter-me-ia posto fora de 
combate.
 Segurando-me as mos, Pierre ajudou-me a levantar.
 Quando o fez, o contacto entre ns transmitiu algo de
sensual - espantosamente agradvel. Tentei ocultar a minha reaco, comeando a sacudir a 
terra e as folhas que se agarravam  minha roupa. Ele ficou a olhar-me at eu me afastar.


 Cada slde demorava-se vinte segundos no ecr.
 O primeiro slide - o rosto de um homem. Ao lado, o nome,
 a idade, a ocupao, a morada. O segundo slide era outro homem. Quatro slides ao todo.
 O primeiro slide apareceu uma vez mais, mas desta vez apenas o rosto. Procurei na minha 
memria as informaes adequadas. Dez segundos mais tarde, o segundo slide repetia-se
 no ecr. E assim por diante.
 Depois foram slides de mapas. Primeiro apareciam os nomes
 de cidades estratgicas, vilas, rios, estradas. Mas quando os mesmos slides voltavam a ser 
projectados j no traziam nomes. O ponteiro do instrutor tocava em certos pontos do 
terreno e eu devia dizer os nomes.
 Testes desse gnero repetiam-se continuamente. O que era
 impossvel transformou-se em mera rotina.
 Vinte e um dias sem um intervalo - vinte e um dias desde a madrugada  meia-noite, a ser 
ensinada, treinada, moldada.
Os dias mais longos, mais duros, mais revolucionrios da minha vida. Havia alturas em que 
eu me sentia to exausta que
no achava qualquer diferena entre fazer tiro com uma metralhadora e enviar mensagens 
em Morse.
 Deram-me ento um dia livre. Dormi durante catorze horas seguidas!

 Os livros encontravam-se arrumados nas prateleiras numa
ordem perfeita. Escolhendo um, puxei-o para fora e ele caiu
com um baque surdo no cho. Voltei-me para descer a escada.
Uma mo estendia o livro para mim.
 - Outra maneira eficaz de eliminar o inimigo?
 No tinha visto Pierre entrar na biblioteca. Mais uma vez
experimentei aquela sensao de - como havia de lhe chamar? - um misto de temor e de 
tenso alerta.
 Quando eu desci, Pierre olhou para o ttulo do livro. Depois
fitou-me. Eu vestia um curto vestido de l e sapatos de salto
alto. Tinha o cabelo preso num carrapito sobre a nuca. Pela
segunda vez em duas semanas - estvamos em meados de
Novembro - encontrvamo-nos frente a frente. As luzes espalhadas pela biblioteca 
difundiam uma luz suave. O tecto alto erguia-se acima de ns como uma abbada.
 - Qual  exactamente o seu interesse pela Frana? Talvez
eu a possa ajudar.
 Eu esperava que me enviassem em misso para a Frana,
visto que eu conhecia a lngua francesa.
 - Estou interessada em estudar as montanhas das fronteiras do pas - respondi, o que em 
parte era verdade.
 - Oh, pode ter revelado os seus segredos com isso. Mas no
se preocupe, eu no a denunciarei.
 - Preocupe-se consigo, Pierre. Faz mais deslizes do que
julga. Este livro, por exemplo - agitei o volume encadernado
a vermelho diante dos olhos dele -, pode dizer-me algo a seu
respeito. - Sorri meigamente, aproximando-me mais dele e
sem o desfeitar. Pierre pareceu confuso. -  muito simples
descobrir os seus segredos, se eu quiser faz-lo.
 Pierre sorriu, mostrando-se divertido com a minha observao infantil.
 Ento ergui a mo esquerda, mostrando o meu trofu - uma cigarreira de couro que eu 
acabara de retirar do bolso do casaco dele.
 Pierre no conseguiu ocultar o seu assombro. Depois
sorriu.
 - Vejo que daqui em diante no posso tirar os olhos de si.
 Tirando-me o livro da mo, comeou a folhe-lo.
 - H outro, com mapas mais pormenorizados, que indica
 claramente as vias de acesso s montanhas, por comboio e pela
 estrada.
 Subiu a escada e da a pouco desceu-a, trazendo-me o livro.
 Puxmos duas cadeiras para junto de uma mesa.
 - Os Juras, os Alpes, os Pirenus. - Com um dedo bronzeado ia percorrendo o mapa. - 
Ficaria surpreendida se soubesse o que eu cacei aqui. - Apontou para o vale do Loire.
 Ergueu os olhos para mim. - No, nada disso. Aves (faises),
 javalis.
 Quem seria aquele homem? Senti a fenda que separava os
 nossos mundos diferentes, mas senti tambm a nossa proximidade e a intensidade do seu 
olhar. Pierre aspirou o
cigarro e perguntou:
 - Fui eu que lhe fiz isso?
 Levei a mo  ndoa negra que tinha perto do ouvido e que
 ainda me doa.
 - Voc estava apenas a fazer o seu trabalho, e a faz-lo
 bem. - Tinha o corpo coberto de ndoas negras. Pierre olhou
 para a minha cara como se quisesse curar-me com o olhar.
 Uma voz familiar fez-me sobressaltar.
 - Whiske anda  sua procura, Tiger.
 - Obrigada, Magic.
 Levantei-me, pensando se Magic teria algum interesse
especial em me afastar de Pierre. Como poderia eu dizer-lhe que ele nada significava para 
mim... especialmente agora que descobrira que significava.

 O aroma da gua-de-colnia de Whiske - ou seria da loo para a barba? - chegou-me s 
narinas. Fosse o que fosse,
 era demasiado forte e isso devia ser errado. Uma vez ou duas,
 eu dera pela proximidade de Whiske devido quele perfume.
 Tomei mentalmente nota para nunca usar perfume. Estaria ele
 a us-lo propositadamente, para ver se algum de ns reparava
 no perigo de ser identificado por um cheiro especial? No podia crer que Whiske 
cometesse um erro daqueles, mas no me
atrevi a falar no caso.
 O nosso chefe quase desaparecia por detrs das pilhas de
papis que se amontoavam sobre a sua secretria. Uma natureza-morta, uma cornucpia 
cheia de frutos e de vegetais,
encontrava-se por detrs dele. Provavelmente fora ali deixada
pelos antigos habitantes daquela bonita e velha casa.
 - Est pronta para umas misses destinadas a p-la  prova, Tiger?
 - Claro que sim.
 Sentei-me, encostando os braos  secretria. Talvez aquelas misses fossem decidir o meu 
destino.
 - Amanh s oito horas sair daqui, para uma excurso de
um dia. Ser conduzida de carro a Union Station, onde apanhar o comboio das doze horas 
para Richmond, Virgnia.
Tem seis horas para entregar esta mensagem. - Estendendo a
mo, Whiske entregou-me um pequeno sobrescrito. - Volte
para Washington no comboio das dezassete horas. Iro esper-la  estao.
 Ao pegar no sobrescrito senti que me preparava para uma
prova de grande importncia.
 Whiske escreveu algo num pedao de papel. Mostrou-me
para eu o ler e disse:
 - Decore-o. - Em seguida enrolou-o numa bola e guardou-o no bolso. Eu lera um nome e 
uma morada. A misso
parecia-me demasiado simples. - O objectivo  entregar esse
sobrescrito sem que ele seja... interceptado, confiscado.
 Devia ter calculado. Iria ser seguida.

 No dia seguinte, na estao, fiz a nica coisa que me ocorreu. Equipada com a mala que 
levara para os lavabos, sa de l com a gola do casaco de peles de Magic a esconder-me o 
rosto, j de si oculto pelo pequeno vu do meu chapu. Vestia um vestido da Hattie 
Carnegie (sem etiqueta) e calava sapatos de salto alto. Quando, assim vestida, me dirigi 
para a gare, esperava ter disfarado suficientemente a minha aparncia.
 No levei muito tempo a detectar o homem que me seguira
at ao comboio. E eu que julgava t-lo despistado! Durante
vinte minutos de ansiedade, o comboio rolou. Depois o revisor
apareceu a anunciar a estao seguinte, Fredericksburg, onde o comboio devia parar. 
Levantei-me, caminhei em direco 
casa de banho, abri a porta e entrei. S quando o comboio
comeou a afastar-se da estao  que eu abri a porta, corri
para os degraus e saltei para a plataforma. Finalmente despistara o meu perseguidor. Mas 
como  que iria chegar a Richmond a tempo? No havia comboio seno s quatro e trinta.
O autocarro s partiria mais tarde. No tinha dinheiro
bastante para um txi, e mesmo assim era preciso encontr-lo. Com a gasolina racionada 
eram dificeis de arranjar.
 Resolvi-me a ir para a estrada pedir boleia. O endereo que
me fora indicado era o de um pequeno hotel. Quando perguntei pelo homem cujo nome 
decorara, a recepcionista respondeu-me que no se encontrava ali mas que devia estar a 
chegar
a qualquer momento. Depois comeou a falar - insistentemente. De onde viera eu? Era 
parente? H quanto tempo o
conhecia? Quanto tempo poderia esperar?
 Respondi-lhe o melhor que pude, mas mesmo depois de ela
ter deixado de me interrogar os meus problemas continuaram,
pois a hora do comboio para Washington aproximava-se. Sabia que no podia deixar ali o 
sobrescrito. Isso era contra as
regras. s quatro e quarenta e cinco parti para a estao,
verificando constantemente se estaria a ser seguida. Telefonei
vrias vezes para o hotel, mas s quando faltavam oito minutos para as cinco  que o 
homem - que se identificou correctamente - atendeu o telefone. Disse-lhe para se dirigir  
cabina
telefnica onde eu me encontrava e procurar na lista, na letra
R, o sobrescrito. Ele achava que seria seguro? O desconhecido
respondeu-me que era uma boa soluo e eu corri para a estao, mesmo a tempo de 
apanhar o comboio das cinco.

 Na misso seguinte aconteceu o inverso; eu tinha de seguir
um homem. Ele pareceu dissolver-se no ar. Apesar de j ter
aprendido muito, falhei completamente esse teste.

 Num campo ceifado h pouco tempo, por detrs da casa
principal, havia um monte de blocos e de vigas de madeira.
 - Faa um recinto com essas estacas. Tem um homem para
a ajudar e apenas dez minutos para o construir. V.
 To depressa quanto pude - sob os olhares de dois psiquiatras - comecei a construir uma 
espcie de uma caixa, encaixando as vigas nos blocos. Vi que Sphinx era a pessoa 
designada para me ajudar. Vi-o permanecer imvel enquanto eu
inseria trs vigas nos blocos. Mas logo que eu comecei a prender a quarta viga ele dedicou-
se a tirar as outras trs. Levei um momento para perceber o que ele queria fazer. A sua 
expresso enigmtica mantinha-se impvida; apenas os seus olhos tinham um brilho mais 
vivo. 
 Redobrando de esforos, trabalhei furiosamente - sem conseguir qualquer resultado. 
Sphinx retirava as vigas mais depressa do que eu as encaixava, anulando os meus esforos.
Cinco minutos depois, estava farta. S consegui pensar numa
coisa. Sem aviso, fiz girar uma das vigas na minha mo e bati
com ela na cabea de Sphinx. O homenzinho caiu de joelhos.
Logo a seguir pensei: Oh, meu Deus, mas que fiz eu?  No
entanto, achei uma certa graa.
 Os dois psiquiatras observavam-me como abutres - e o
tempo ia passando. Com umas breves trguas por parte de
Sphinx, lancei-me na reconstruo da caixa esqueltica e
quando ele deu sinais de me querer estragar o trabalho ameacei bater-lhe outra vez. Tinha 
conseguido construir metade da
estrutura quando ouvi gritar:
 - Pare!
 Um dos mdicos - os culos dele eram mais grossos do que
os de Magic - fez-me sinal para me aproximar. Com uma
frieza que o prprio Freud aplaudiria, olhou-me e disse:
 - A sua pacincia... deixa muito a desejar.
 Sorri.
 - Felizmente o teste era tambm para avaliar a sua determinao e energia.
 Quando me voltei apanhei Sphinx a sorrir.

 - A sua prxima misso  um pouco mais complicada, Tiger. Deve arranjar um emprego 
numa fbrica de peas de
avio, nos arredores de Pittsburg, sem utilizar qualquer
identificao. Infelizmente no se conservar l mais de quarenta e oito horas. Durante esse 
tempo, no entanto, ter de tirar do cofre do escritrio um sobrescrito que contm 
informaes delicadas.
 Whiske deu-me um rolo de papel transparente.
- Esto aqui todas as indicaes relativas ao escritrio, incluindo a localizao do cofre. 
Sirva-se da sua iniciativa...
h-de arranjar maneira de o abrir. A propsito, tem aqui o nmero para onde deve telefonar 
para o caso de ir parar 
cadeia. - Entregando-me um pequeno carto branco, Whiske reparou na minha expresso 
preocupada. - No se preocupe,
Tiger. Tiramos os que no tm sorte da priso. Se for parar 
cadeia, ns fazemo-la sair de l.  algo que lhe poder
suceder
numa das suas viagens.
 A minha viagem a Pittsburg teve um xito relativo. Fui admitida na fbrica sem grande 
dificuldade, no entanto abri o
cofre errado no escritrio errado, o que fez desencadear um
alarme. Todavia consegui regressar  Quinta sem uma escolta
da polcia. Whiske disse-me que nessa misso s tivera um
C +.

 Baixei a arma e espreitei para o alvo. No tive sorte. A bala
foi-se enterrar no tronco de uma rvore ao lado do alvo. Maldio! A 45, com a sua grossa 
coronha, fazia-me doer a mo.
Os msculos tremiam-me; a parte de dentro dos joelhos e as
ndegas tambm.
 Mudei lentamente de posio, limpando os olhos da chuva
miudinha que estava a cair. Aps cinco semanas de aprendizagem, aquelas eram as minhas 
aulas favoritas - os sons, os cheiros, a sensao de competio; algo que uma mulher podia 
aprender to rapidamente como um homem. Senti uma presena atrs de mim. A alguns 
metros de distncia, abrigado
sob um guarda-chuva, Whiske observava-me. Embora as rvores que nos rodeavam 
estivessem despidas de folhas, o cu,
as nuvens, a prpria luz tinham um tom de verde-mar. Whiske aproximou-se e observou-
me.
 Olhei-me a mim prpria. Depois dos exerccios da manh -
flexes nos terrenos ensopados -, aps jiu jitsu e tiro ao
alvo, no s as minhas roupas, mas tambm o rosto e as mos, estavam cobertos de lama. 
O suor corria-me pelo corpo. Tinha o
cabelo encharcado colado  cara. Whiske ergueu o guarda-chuva acima de ns, 
aproximando o seu corpo volumoso do
meu. H quanto tempo estaria ali? O tempo suficiente para ter
observado os meus tiros.
 - Venha para dentro, Tiger, e v-se arranjar. Dentro de uma hora partir para Washington. 
Tem esta tarde um encontro com jupiter.
 Jupiter? Quem era Jupiter?
 Fui entregar a minha arma no armeiro e dirigi-me para casa
debaixo do guarda-chuva de Whiske. Quando atravessvamos os relvados ele disse:
 - Por acaso vi-a outro dia montar a cavalo. Onde  que
aprendeu a montar assim?
 - Num cavalo.
 Whiske riu.
 - Muito bem. Nada de deslizes. Eu tambm monto.
Quando o tempo o permitir, talvez possamos dar um passeio
os dois.
 Foi estranho eu ter olhado para cima nesse momento. Encontrvamo-nos perto de casa e eu 
olhei para a janela de um
dos quartos do segundo andar. Dali, Pierre via-nos aproximar
do terrao.

 Sentada na parte de trs do carro, alisei o vestido e passei
as mos pelas pernas para ver se as costuras das meias estavam
direitas. A mala encontrava-se a meu lado. Whiske dissera-me que depois do meu encontro 
com Jupiter poderia ter o
fim-de-semana livre. O caminho atravs dos campos e o mau
tempo afectaram a minha disposio. Comecei a pensar se
aquela reunio seria um bom ou mau sinal. Apesar de todo
aquele treino pelo qual tinha passado, teriam eles decidido
que no me encontrava apta para o que queriam?
 Parecia-me estranho estar de novo numa cidade cheia de
vida, com as ruas apinhadas de carros e de gente. A Quinta era
um sonho esquisito. Fui deixada em frente do feio Edifcio Q,
depois conduzida por um assistente que se encontrava na entrada do edifcio para o 
escritrio de ,John Derb, Jupiter!
 Tentei no me mostrar preocupada. Ajustei nervosamente
um brinco, enquanto me sentava em frente dele. Tendo-se levantado para me 
cumprimentar, Derb sentou-se de novo.
Um sorriso apareceu-lhe nos lbios.
 - Bem, Tiger, conseguiu mais do que alguns de ns espervamos.
 Havia uma fotografia - voltada para cima - sobre a secretria. Uma jovem magra, 
ensanguentada, olhava para quem a fotografava com uma expresso suplicante. Sem uma 
palavra,
Derb inclinou a fotografia para eu a poder ver melhor.
 - Trabalho das SS - comentou. Percebi que o facto de se
encontrar ali aquela fotografia fora premeditado. Todos os
gestos de Derb Jupiter eram medidos, antecipadamente ponderados.
 - Continua disposta a arriscar a vida, Tiger? - perguntou
com voz suave.
 - Sim.
 - Ento tenho uma misso para si.
 Esperei. Ele fez uma pausa que me pareceu muito prolongada. Mantive-me imvel, 
encostada  cadeira.
 - Precisamos de si em... Espanha.
 Espanha? Fora o que ele dissera? A minha surpresa era total. A Frana, a Sucia, talvez a 
Sua, pareciam-me locais
para onde provavelmente me poderiam enviar, mas nunca
pensara em Espanha.
 - Ento passei nos testes?
 - Sim, mas precisa de mais preparao antes de ser enviada para Espanha. Alm da sua 
rotina normal, ter de estudar
mais pormenorizadamente o pas para onde ir. Na biblioteca
da Quinta existe uma abundante informao sobre os pases
para onde os nossos agentes so enviados. Tenha cuidado em
no mostrar o seu interesse por Espanha. Ter de escolher outros dois pases para estudar 
tambm, de modo a tornar impossvel aos seus colegas determinarem para onde ir. Deve
familiarizar-se com a histria e a geografia de Espanha e ser
capaz de reconhecer as personalidades da poltica actual.
O seu treino de memria deve permitir-lhe absorver uma poro de informaes num curto 
espao de tempo.
 - Para qual das cinco seces do OSS fui nomeada?
 - Para a SI (informaes secretas). Mas no lhe posso dizer qual ser a sua misso. Apenas 
o chefe a nvel mundial da
SI, Whitne Shepardson, a poder pr a par disso. Shepardson gosta de explicr 
pessoalmente as misses aos seus agentes
que partem para misses delicadas. Ter portanto de esperar
at ele a mandar chamar.
 Tentei imaginar qual poderia ser a minha misso. No havia possibilidade de ser lanada 
de pra-quedas sobre Espanha. Senti-me um pouco desapontada.
 - H l algo de verdadeiramente excitante? - perguntei.
O treino intensivo a que fora sujeita fazia-me desejar uma
misso activa. - Espero que no seja uma coisa muito rotineira. - Tentava descobrir algumas 
indicaes.
 Derb riu.
 - No se preocupe. Acredite que a chave do sucesso da
guerra se encontra em Espanha. - Recostou-se para trs,
unindo as mos debaixo do queixo. -  superfcie, o pas declara-se neutral - prosseguiu 
Jupiter. - Politicamente, emocionalmente,  um aliado de Hitler. A Espanha est numa 
situao precria, voltil. Franco venceu a guerra civil com o
auxlio do dinheiro e das tropas alems e italianas. E a Espanha ainda sangra dessa guerra, 
em que morreram mais de um
milho de espanhis.
 Estudara essa devastadora guerra na universidade e lembrava-me que o rei Afonso XIII 
fora para o exlio em 1930, por causa dos violentos distrbios de ento e para evitar mais
derramamento de sangue. Em 1931, as eleies tinham levado os
comunistas, os socialistas e os anarquistas ao poder. Em 1936
o pas encontrava-se num estado de grande agitao, e a aristocracia, a Igreja Catlica e o 
partido fascista da Falange revoltaram-se contra o Governo republicano. A guerra civil que 
se seguira, com um imenso cortejo de sofrimentos humanos, fora a pior da longa histria da 
Espanha.
 Jupiter continuou:
 - Em Espanha existem ainda inmeras faces. Muitos dos
republicanos que foram vencidos so comunistas ferrenhos.
Alguns so nossos aliados, por causa do seu dio aos alemes e
da sua aliana com a Rssia. Por todas estas razes, os nossos
agentes ali so recrutados apenas entre os que esto desse
lado.
 Lembrava-me de que alguns americanos tinham ido combater voluntariamente nessa 
guerra - um grupo chamado a Brigada Abrao Lincoln. Tambm eles tinham estado do 
lado dos
republicanos. Era algo de confuso. Americanos a ajudarem os
comunistas.
 - Tudo o que se passa em Espanha tem importncia para a
guerra que travamos - disse Derb. - Os alemes obtm
tungstnio para a sua indstria de armamento no Norte de
Espanha. Embarcam esse minrio em barcos espanhis que
atravessam a baa da Biscaia em direco a Frana, sendo
transportado a partir da, por caminho-de-ferro, para a Alemanha. Sem isso, as fbricas de 
armamento alems estariam em dificuldades. A segurana das nossas tropas no Norte de
frica e das que esto a ser enviadas para a Itlia dependem de a Espanha manter a sua 
neutralidade. Existe sempre a
possibilidade de Franco se juntar a Hitler. Imagine como isso seria desastroso!
 - Alm disso, esto agora a ser preparadas duas invases
 ao continente, uma a norte e outra a sul. Os alemes sentem-se muito preocupados sobre o 
local onde essas invases se iro dar. O OSS de Espanha ser responsvel pelo ataque do 
sul.
 O futuro da guerra reside nessas invases.
 - Mas h outras razes para a Espanha ser importante.
 O almirante Canaris, o chefe dos servios secretos alemes, a
 Abwehr,  grande amigo de Franco e visita-o regularmente.
 Himmler tenta desacreditar Canaris junto de Hitler, afirmando que Canaris influencia 
Franco para ele no sejuntar ao
 Eixo. Estamos ansiosos para que Himmler no consiga afastar
 Canaris do seu lugar, porque os nossos agentes noutros
pases informaram-nos de que Canaris apoia conspiraes para assassinar Hitler. Irnico, 
no ? - ,Jupiter soltou uma curta
 gargalhada. - Estamos a proteger o chefe dos servios secretos inimigos!
 Eu ia assimilando todas estas informaes como podia. Apesar de me sentir confusa, 
percebia que a Espanha poderia ser
 de facto a misso excitante que eu esperava me fosse
confiada.



Captulo 5

 S quando o comboio comeou a sair da Union Station 
que tive tempo para pensar no futuro. As explicaes de Jupiter tinham alterado o rumo da 
minha vida - apontando-o
para Espanha. Saboreei essa sensao exultante olhando distraidamente para os edifcios 
que passavam rapidamente
diante dos meus olhos. Finalmente comecei a caminhar pelo
corredor do comboio em andamento e entrei no primeiro compartimento, quase vazio. O 
nico ocupante espreitava atentamente pela janela. Pousei a minha mala no cho e sentei-
me. Depois tive um choque.
 Estaria tambm ele incrdulo? Se assim foi, no mostrou
qualquer emoo, mas pareceu-me ver um brilho mais vivo
nos seus olhos. Pierre perguntou ento:
 - Quer que lhe ponha a mala na rede?
 - Oh, no. - Ergui-me de um salto. - Vou para outro
compartimento. Sabe que no podemos falar uns com os outros fora da Quinta...
 Pierre pegou decididamente na minha mala e colocou-a na
rede.
 - No se preocupe com isso. No vem neste comboio ningum que nos conhea. - Sentou-
se e acendeu um cigarro. -
Anda a seguir-me, Tiger?
 A minha expresso fez com que ele se risse com gosto. Eu
no sabia que fazer e permaneci de p. De repente ele puxou-me para baixo e fez-me sentar 
junto dele.
 - Que est a fazer aqui? - perguntei sem me mexer.
 - E voc? - retorquiu Pierre com o seu sorriso habitual.
 rvores sem folhas continuavam a deslizar rapidamente
diante dos vidros da janela. O movimento da carruagem embalava-nos. Precisava de dizer 
alguma coisa - qualquer
 coisa.
 - Acha que iremos terminar o nosso treino antes de a guerra acabar?
 Totalmente recomposto, Pierre disse:
 - Com certeza que sim. No se vislumbra qualquer fim
  guerra.
 - Mas estamos a ganhar - retorqui, tentando mostrar-me
 segura.
 - No entanto, estamos ainda a subir a montanha - contradisse Pierre. - A Itlia est a ser um 
desastre. Na
Alemanha, a produo de armamento mantm-se alta. Todo o Pacfico se encontra perante 
ns. E depois h Estaline.
 - Estaline? - Era impossvel. Ele no tirava os olhos de
 mim.
 - Estaline  insacivel - replicou Pierre. - E a rssia
 inesgotvel. Est decidida a ser o prximo imprio mundial.
 - Os imprios esto acabados. A guerra conseguiu isso.
 - Voc  muito optimista, Tiger.
 - E voc muito pessimista, Pierre.
 - Somos muito diferentes - declarou simplesmente.
 - No sei porqu - disse com pena.
 - H muito tempo que queria estar a ss consigo. - Inclinou-se para mim. A luz incidia na 
parede do compartimento, formando um resplendor amarelo por detrs da cabea de Pierre.
 Pierre ouviu passos no corredor e encostou-se para trs.
 Mostrmos os nossos bilhetes ao revisor e antes que ele
fechasse a porta entrou uma mulher com uma criana. Um minuto
 depois apareceu um oficial do exrcito. Ficaram sentados na
 nossa frente durante o resto da viagem.
 Pierre e eu no voltmos a dizer uma palavra at algumas
 horas mais tarde, quando o comboio parou na Pennslvania
 Station. Pierre levantou-se e tirou a minha mala da rede. Os
outros vestiam os casacos; a criana chorava. Pierre sussurrou:
 - Quer jantar comigo?
 Eu sabia que no o poderia fazer, mas tinha pena.
 - No posso. - A confiana depositada em mim durante
 as ltimas seis semanas continha-me.
 - No seja ridcula - murmurou Pierre, aborrecido.
Olhei-o. A expresso dele era indecifrvel. Quando nos preparvamos para sair tirei-lhe a 
mala da mo e corri para o
meio das pessoas, acotovelando toda a gente  minha passagem.

 No domingo  noite encontrava-me de novo na Quinta, mas
Pierre no. Segunda-feira  tarde, quando comecei a minha
ltima aula, tambm ainda no tinha chegado.
 De olhos vendados, agarrei no revlver e desarmei-o pea
por pea, gatilho, co, cano, coronha. Tinha um cheiro acre,
metlico. Sphinx espalhou as peas  minha volta. Depois, tentando mont-lo outra vez o 
mais depressa possvel, deixei cair o carregador vazio, que bateu no soalho de madeira. 
Sem ver, sempre observada por Sphinx, continuei o meu trabalho com
dificuldade. Teria alguma vez de montar um revlver s escuras, em Espanha? Sphinx fez-
me repetir tudo desde o incio.
Procurei trabalhar mais devagar e tive mais xito. Sphinx tinha-nos dito:
 - Controlem os nervos, e as vossas mos e cabea faro o
trabalho que devem fazer.

 O som despertou-me de um sono profundo - o que seria?
Ao princpio julguei que Magic estivesse a falar com algum
que estivesse ali no quarto. Levantei-me e fui p ante p at
junto da cama dela. Magic falava enquanto dormia, com uma
voz estranha, que exprimia medo e zanga, uma voz quase histrica. Falava em alemo ou 
em polaco, no percebi. Repetiu
algo como sorg-liet. Abanei-a suavemente. Magic sentou-se sobressaltada, soltando um 
gemido de lamento.
 - Estava a sonhar - disse eu, acendendo a luz da mesinha-de-cabeceira. Magic respirou 
profundamente.
 - Obrigada, Tiger. Tenho estes pesadelos desde que...
calou-se a tempo... - Desculpe t-la acordado. Espero
que nunca tenha de passar pelas experincias que eu tive de
suportar.
 Percebi que Magic se julgava nessa noite num stio horrvel.
Desconfiava que ela estivera na Europa perto da zona perigosa
e que todos os dias fazia um grande esforo para se mostrar
despreocupada. A sua tenacidade e boa disposio foram para mim um incentivo mais para 
suportar o duro regime a que
 estvamos submetidos.

 Sentada diante de uma mesa, em frente de uma pequena
 caixa elctrica, tentava concentrar-me na aprendizagem do
cdigo Morse. Depois disso recebi lies de cifra.
Disseram-nos que as salas de cdigo no podiam ser visitadas por quem quer que fosse, a 
no ser pelos peritos em cdigo dos gabinetes OSS no estrangeiro, visto ser ali que se 
recebiam todas as mensagens para Washington, e dali partiam todas as que eram 
transmitidas para fora. Depois de decorarmos muitas combinaes de letras, cada um de 
ns tinha de escolher um cdigo pessoal - algo em prosa ou em poesia -, para a 
eventualidade de precisarmos de transmitir uma mensagem fora dos canais normais.
 Trabalhei com o Morse, manejando a pequena alavanca at o
 pulso me doer, e em seguida pratiquei no cdigo at achar que
 no podia absorver outra letra. Dei comigo a repetir letra aps letra, tentando inscrev-las 
no meu crebro. A memria era muito importante, e ns ramos ensinados a melhor-la
associando imagens com nmeros. Com perseverana, esta tornou-se a minha melhor aula, 
aquela em que eu me revelei melhor.

 Dessa vez estava deitada de barriga para baixo, nos campos
 ventosos, ladeada pelo meu grupo, esperando pelo comeo de
 mais uma lio de manejo de metralhadora. Tinha as mos
 geladas. Por que no tinha calado as luvas? Atrs de mim
 ouvi passos pisarem as folhas cadas.
 - Deixe-me mostrar-lhe como se faz - disse Pierre, estendendo-se no solo a meu lado.
 Uma semana de angstia - no voltara a v-lo desde aquela noite no comboio. Naquele 
momento senti-me feliz outra
vez
 - apenas porque ele estava ali estendido a meu lado.
 - No se preocupe. Eu ensino-a. No vai falhar o alvo nem
 uma s vez. Eu encarrego-me das munies.
 Com Pierre a meu lado foi fcil. Era perito em tudo. Em
 frente de ns, a alguns metros de distncia, as balas
atingiam o alvo, mesmo no centro. O vento fustigava os campos
cultivados. No fim de seis rajadas voltei-me para Pierre.
- Veio aqui expressamente para melhorar a minha pontaria? - As minhas defesas estavam 
novamente sob controlo.
 - Estive fora noutro campo de treino e dentro de poucos
dias partirei definitivamente. Penso que na prxima
sexta-feira ir ter outro fim-de-semana livre. Por favor, v ter comigo domingo de manh, 
em frente do Plaza Hotel, na entrada que d para a praa. Ser a minha ltima oportunidade 
de a ver.
 Comecei a protestar.
 - Nada de desculpas - disse Pierre. - No quer que eu
pense que est com receio, pois no?

 Nessa semana, a tenso comeava a fazer-se sentir. Os restantes nove homens do meu 
grupo - Luck e outros dois j se
tinham ido embora - tinham um aspecto cansado; eu tambm. Na noite de quinta-feira 
tivemos uma sesso de descoberta de identidades , orquestrada por Whiske e Sphinx para
descobrirem os riscos de segurana. O objectivo era o de desmascararmos os nossos 
colegas. Por turnos, cada um de ns ia sendo analisado impiedosamente.
 Whiske e o seu assistente tinham escolhido trs dos mais
adiantados e mais perspicazes recrutas para me enfrentarem.
No podiam ter arranjado adversrios mais formidveis e menos desejveis: Pierre, Popoff 
e a rainha da Quinta, que fazia
tudo na perfeio - a minha companheira de quarto.
 Era Magic que nos observava a todos como se estivesse preparada para descobrir 
imediatamente as identidades de todos
os componentes do grupo.
 - Bem, bem, bem - disse, passando a lngua pelos lbios -, que poder ser mais divertido do 
que descobrir
a careca  aos nossos mais queridos amigos? - O seu olhar
concentrou-se abruptamente no mais velho do grupo. - A si,
Popoff, conheo-o to bem como as palmas das minhas mos.
 Whiske sorriu, enquanto Sphinx se mantinha caracteristicamente fiel ao seu nome. Pierre 
mantinha-se imvel como uma pedra, mas o homem calmo que se encontrava sentado em 
frente de Magic apenas murmurou:
 - No, no conhece.
 Magic suspirou.
 - Gosta de tulipas, Popoff?
- Tulipas? - Popoff levou a mo ao ouvido como se no
tivesse percebido bem.
 - Tulipas - repetiu enfaticamente Magic. - Sabe o que
so. Esses encantadores bolbos que todas as Primaveras florescem profusamente na 
Holanda. Especialmente perto de Haia. A propriedade chamada Park Zorgvliet deve ser um 
verdadeiro jardim das delcias na Primavera, no , Popoff?
 Olhei para a minha companheira de quarto com incredulidade. De que estava ela a falar? 
Depois lembrei-me da noite
em que ela tivera o pesadelo. Tinham sido aquelas as palavras
que ela dissera: Park Zorgvliet . Agora j no me restavam
dvidas de que Magic l  estivera durante esta guerra.
Talvez tivesse ido directamente da Europa para a Quinta. Isso
explicaria os vestidos e os sapatos com aparncia de
estrangeiros.
 Magic no esperou por uma resposta.
 - Fale-nos, Popoff, a respeito de Agent School West, a melhor escola de espionagem alem 
da Europa.
 - Engano - declarou Popofl:
 - Estou enganada? - A rainha olhou a sua vtima com satisfao.
 - O que  que a faz pensar que eu seja alemo? Ser que
aves das mesmas penas?... O que eu imagino  que voc tenha
passado a sua juventude perto de Leipzig. Talvez filha de algum famoso pianista que tenha 
dirigido algumas das sinfonias
preferidas de Hitler... Que tenha sido denunciada aos nazis
por ter ajudado judeus a fugirem da Alemanha...
 - A sua imaginao, meu caro Popoff, no tem limites e
arranjou uma fico deliciosa. - Entretanto, a estrela
hesitara um pouco. - Toda a gente o sabe, Popoff. Por isso, de que serve ocult-lo? O que  
que sentiu quando se tornou dissidente? Por que motivo o fez?
 - Voc acha que  adivinha. - O homenzinho parecia ter
perdido parte da sua animao. - E quais foram os seus motivos quando fugiu?
 Pensei se eles j se teriam conhecido. Provavelmente estavam ambos apenas a fazer 
suposies, mas no restavam dvidas de que ambos sabiam muito acerca do que se 
passava no
estrangeiro. Isso deixava-me fora do jogo por enquanto.
 - Fale-nos das tulipas, Popoff, e deixe-se de andar a bater o
mato.
- Mais vale um pssaro na mo que dois a voar, minha
querida Magic - replicou Popoff - Que sabe a respeito de
Pierre?
 Um pouco arrependida, talvez, ela olhou para o atraente
estrangeiro.
 -  rico. Muito rico.
 - To rico como Tiger? - retorquiu Pierre, falando pela
primeira vez.
 E tambm pela primeira vez a estrela me fitou. No sem
simpatia, devo diz-lo.
 - Mais rico.
 - De onde  que acham que  Tiger? - perguntou Pierre.
 Fiquei tensa.
 - De Rhode Island - afirmou Magic.
 - Ohio - disse Popoff.
 - Manhattan - corrigiu Pierre. - Ou das proximidades.
 - Uma filha nica - informou Magic.
 - Filha de um banqueiro - declarou Pierre, olhando-me. - Foi educada no estrangeiro. Na 
Sua.
 - No admira que ela fale fluentemente alemo. Ir ser
lanada de pra-quedas sobre o Reno!
 Era um jogo das escondidas, que estava a ser jogado com
palavras. Olhei para cada um deles e perguntei:
 - Como  que sabem tudo isso?
 - No  nada - disse Popoff com um gesto.
 - Fale, Tiger - ordenou Whiske. - Que pensa destas
personagens?
 No me sentia com subtileza suficiente para descobrir as
identidades dos meus companheiros, mas tinha a impresso
de que conseguira ocultar-lhes bem a minha. Voltei-me para
Magic:
 - Voc  austraca. Popoff tem razo. Esteve envolvida em
algo de assustador.
 Ela fitou-me.
 - Talvez um dia, depois de acabada a guerra, eu lhe possa
contar.
 - Popoff, ouvi dizer que foi... que ... um antigo espio
alemo.
 - To jovem - disse Popoff abanando a cabea. - E to
ignorante.
 Fitei Pierre, tentando esconder a minha perturbao.
- Voc  belga. Um plabo que gosta de disparar sobre
 tudo quanto v.
 Pierre sorriu.
 - Continue.
 - Voc  que ir ser lanado atrs das linhas inimigas,
 onde creio que j esteve.
 Agora era a vez de Pierre.
 - Tenho observado Magic, muito de perto.
 A rainha respondeu com um rpido bater de pestanas.
 - Magic  inegavelmente uma mulher de valor e muito feminina. Reconheo-lhe um 
sotaque flamengo. Deve ter aprendido o alemo numa universidade de Bruxelas por volta 
de
 1938. Creio que foi casada com um oficial alemo porque tem
 na carteira uma insgnia do Exrcito alemo.
 No era engano - a nossa alteza corou. Tentei imaginar
 como  que Pierre teria conseguido revistar a mala que Magic
 tinha sempre fechada  chave.
 Magic fitou hostilmente Pierre.
 - Espero que os seus assuntos do corao no interfiram
 com os seus assuntos de momento - acrescentou Pierre.
 - O amor  um jogo, como este, meu caro Pierre. Sabe isso
 melhor do que eu.
 - Touch! - exclamou Whiske, sorrindo. - A festa acabou - anunciou, levantando-se.
 Estaramos ns a aprender de mais?, pensei. Algumas daquelas suposies poderiam estar 
perto da verdade.

 No domingo, Pierre chegou atrasado. De p em frente do
 Plaza Hotel, esperava que o vento no desmanchasse o meu
 penteado  pajem, tremendo de frio com o meu traje mais elegante, um fato de saia e 
casaco de tweed azul com capa e chapu a condizer. Finalmente vi-o aparecer no meio do
trnsito, com um sobretudo bege sobre os ombros. Soldados, oficiais, empregados de lojas 
transportando grandes embrulhos continuavam a no me deixar v-lo bem.
 Levou a minha mo aos lbios, fitando-me afectuosamente.
 Quando me deu o brao, me puxou para si e comemos
 a andar, os meus escrpulos a respeito de infringir as regras
 desapareceram completamente. Afinal, ele dissera que
 era a nica oportunidade que tinha para me ver antes de ir para o ultramar. Podia ser morto. 
Eu podia nunca mais
o ver.
 - Sente-se culpada por se encontrar comigo hoje?
 - Claro que sim. No gosto de infringir regras.
 - Eles escolheram-na bem, Tiger. - Os olhos dele sorriam, mas subitamente pareceu-me 
infeliz.
 - De modo algum. No estaria aqui se fosse uma agente
perfeita.
 - No se preocupe com isso agora. S temos cinco horas
para estarmos juntos. - Dirigimo-nos para o parque. Mas o
encanto quebrara-se e caminhmos em silncio durante algum
tempo, cada um de ns entregue aos seus prprios pensamentos.
 - Ento, Tiger - disse Pierre. - No  esta a maneira
adequada de fazer com que um homem passe agradavelmente
os seus ltimos momentos de liberdade.
 Olhei-o e senti-me triste. A misso dele seria provavelmente
muito mais perigosa do que a minha. Ele ia certamente para
trs das linhas inimigas e estaria em perigo a todo o momento.
Sorri.
 - Olhe - disse ele -, sempre desejei ver um ndio americano. E se fssemos quele museu 
que fica do outro lado do
parque, onde me disseram que h centenas deles? No so
muito faladores. De qualquer maneira, eu s quero falar
consigo.
 Nenhuma sombra pairou sobre ns durante o resto do dia;
uma alegria genuna parecia irradiar de ns os dois ao mesmo
tempo.
 Almomos no Stork Club, o que para mim era uma experincia nova. Bebemos 
champanhe. Outra primeira vez.
Quando as bolhinhas secas subiram para o alto dos copos,
Pierre tirou do bolso do casaco um estojo vermelho com a
marca Cartier. Colocou-a sobre a mesa, na minha frente.
 - Abra-a - disse.
 Desatei o lao. Pousado sobre o veludo preto havia um anel
- um n de ouro com uma nica e cintilante safira, e uns
brincos a condizer. Olhei fixamente para Pierre, perscrutando
o seu rosto maravilhoso  espera duma explicao.
 - No creio poder aceitar um presente to valioso.
 - Claro que pode. quero que se lembre de mim.
 - Lembrar-me-ei de si de qualquer maneira. E, quem sabe, talvez voltemos a encontrar-nos. 
Afinal, estamos metidos no mesmo barco.
 - Ponha-o.
 Timidamente, peguei no anel. Servia-me perfeitamente. Depois pus os brincos.
 Antes de poder dizer alguma coisa, Pierre levantou-se e conduziu-me para o meio da sala 
para danar. A msica suave
invadia a sala. Era o xito desse ano: As Time Goes B. Eram quatro horas da tarde e 
estvamos quase sozinhos ali. At ento praticamente s danara na faculdade, danas 
agitadas em
que os rostos suados mal se tocavam. Pierre apertava-me nos
seus braos, com um brao a rodear-me a cintura. O seu rosto,
roando ao de leve pelo meu, parecia de cetim.
 Estivemos quase a perder os nossos comboios, o meu da
Pennslvania Station para Washington, e o dele com partida
da Grand central para... no me atrevi a perguntar-lhe. Na
rua, Pierre chamou um txi. Quando me voltei para ele para
me despedir, Pierre comeou a erguer a minha mo para a
levar aos lbios, depois deixou-a cair; apertou-me contra ele e beijmo-nos.



Captulo 6

 Baixmo-nos para passar sob os troncos baixos das rvores
do bosque por onde amos passeando.
 - Tenho umas notcias estranhas para si, Tiger.
 Parei de repente e o meu cavalo relinchou.
 Whiske olhou-me com pouca convico.
 - Voc vai outra vez hoje a Washington.
 Porque seria? Pierre partira apenas dois dias antes e eu
sentia-me bastante deprimida. O cheiro dos cavalos, das folhas
mortas debaixo dos meus ps chegava-me s narinas. Puxei as
rdeas do cavalo e aproximei-me de Whiske.
 - Que  que acha estranho?
 - Desta vez  o prprio Shepardson que quer falar consigo. - Desmontou e eu imitei-o. - 
Talvez isso signifique
que voc vai seguir o seu caminho. Ou talvez algo tivesse
corrido mal. Sucedeu ultimamente algo de inusitado?
 - Nada. - Ser que tiveram conhecimento do meu encontro com Pierre?
 Com as rdeas nas mos, fomos caminhando por entre as
rvores, esmagando as folhas com as nossas botas.
 - Devia passar pelo menos mais duas semanas aqui - disse Whiske pensativamente. - 
Shepardson nunca fala com
as pessoas at elas terem terminado o seu treino. No compreendo. No costuma ser assim.

 Mais uma vez o longo percurso para Washington... a paisagem gelada de princpios de 
Dezembro fazia aumentar mais
ainda as minhas apreenses. Pensei em Pierre. O Chevrolet em
que eu seguia era o mesmo que nos conduzira  Quinta nesse
j distante dia de Setembro.
Logo que vi Jupiter percebi que tudo estava bem. Ele
levantou-se para me cumprimentar com entusiasmo.
 - Creio que ser o nosso ltimo encontro, Tiger. Voc est
 prestes a partir.
 Suspirei de alvio.
 Jupiter sorriu.
 - Bem, naquela noite em casa do meu irmo, voc disse 
 que queria tomar parte na guerra. Pois bem, agora vai faz-lo, e conseguiu por mrito 
prprio. Vou-lhe dizer o que vai fazer.
 Jupiter e eu olhmo-nos. Sentia-me, pela primeira vez, preparada.
 - Voc  um dos elementos-chave que vamos utilizar para
 garantir que quando a Operao Anvil (a invaso do Sul da
 Europa) for desencadeada no haja nada que os alemes estejam a fazer que ns no 
saibamos. Alm disso, voc ajudar a confundi-los a respeito dos nossos planos.
 - Como hei-de fazer tais coisas?
 - Tiger, temos uma poro de outras pessoas a trabalhar
 l. Algumas podero estar a trabalhar consigo sem que voc o
 saiba. Mas garanto-lhe que o trabalho que escolhemos para si
 crucial. Se voc falhar pode estragar o trabalho de muitos
 outros agentes e os desembarques podero ser um desastre.
 Falo claro?
 Nada era claro para mim naquele momento. No entanto,
 disse que sim com a cabea.
 - Quando me encontrei consigo em Nova Iorque regressava de uma estada de ano e meio 
em Espanha. Fui eu que a
 recomendei para esta misso, e continuo a faz-lo. Voc
adapta-se perfeitamente quilo que queremos. Mas o seu malogro
 ser tambm o meu.
 O significado das palavras de Derb penetrou-me profundamente. Que grande 
responsabilidade John Derb estava a
 colocar sobre os meus ombros! Jupiter deve ter lido os meus
 pensamentos, porque perguntou:
 - No est arrependida?
 - No. Estou receosa, excitada, mas desejando ir. S es-
 pero que no me tenha sobrestimado.
 - Oua, Tiger. Voc portou-se excepcionalmente bem
 durante o treino. Se assim no fosse, nunca seria enviada. Sabemos que  capaz de cumprir 
esta misso. Orgulho-me de
si. - Fez uma pausa. - E  tudo. Shepardson est  sua espera.
 sempre ele que faz o briefing final.
 Pegou no telefone.
 - Whitne, tenho Tiger no meu gabinete. Ela vai j para
a.
 Jupiter pousou o auscultador.
 - Depressa. Hoje est toda a gente apressada. Siga pelo
corredor, para a esquerda, e depois volte  direita.
 Percorri rapidamente o corredor tirando o bton dos lbios
com as costas da mo. O fato de saia e casaco de tweed castanho e os sapatos prticos 
tinham sido escolhidos propositadamente para me darem um aspecto srio e mais velho na 
presena de Whitne Shepardson. Na Quinta ouvira dizer que
era o homem mais poderoso do OSS, logo a seguir ao general
Donovan.
 O chefe dos servios secretos, distinto, corpulento, de cabelo grisalho, levantou-se quando 
eu fui introduzida na sala. Deu a volta  grande secretria, passou pela enorme bandeira 
americana e veio apertar-me a mo. Indicou-me uma cadeira.
 - Faa favor de se sentar, Miss Griffith.
 H muito tempo que eu no ouvia este nome.
 - Espero que fale livremente comigo. O contacto pessoal
com os meus agentes vale por dez relatrios destes. - Apontou para os papis que tinha na 
mo. - Causou uma excelente
impresso nos seus professores. - Ofereceu-me um cigarro.
Recusei. Depois de acender o seu, continuou: - Diga-me qual
a razo por que est to ansiosa por tomar parte na guerra...
talvez em situaes bastante dificeis.
 Os seus modos calmos e simpticos puseram-me  vontade.
 - Mister Shepardson, todos os rapazes que conheo esto
metidos na guerra, incluindo os meus dois irmos, ambos mais
novos do que eu. Claro que amo o meu pas tanto como eles e
estou to ansiosa como eles a arriscar a vida. No  justo que
s os homens estejam autorizados a lutar por esta grande nao. - Fiz uma pausa.
 Ele sorriu.
 - Ter inmeras oportunidades para fazer algo pelo seu
pas, Miss Griffith. Talvez mais do que julga. A misso para
que foi escolhida  vital. Demasiado perigosa para ser
confiada a uma mulher to jovem. Mas, ironicamente,  essa uma das razes que nos levam 
a escolh-la. - Shepardson observou-me atentamente. Pensei se ele estaria a mudar de 
ideias. - Oua com ateno.
 No precisava de o ter dito. Eu estava j sentada  beira da
cadeira.
 - Um contacto dentro da Gestapo, em Berlim, informou-nos de que Himmler tem um dos 
seus mais hbeis espies a
trabalhar em Madrid, a dirigir uma rede especialmente eficaz
para descobrir os planos aliados relacionados com a operao
Anvil. A sua misso  descobrir quem  essa pessoa. O nosso
agente em Berlim deu-nos os nomes de quatro pessoas em Madrid,julgando ser uma delas a 
que ns procuramos. Todas elas
pertencem  alta sociedade internacional, o que no torna
fcil a vigilncia. Precisamos de um agente ali que se possa
integrar nesse grupo. - Aspirou lentamente o cigarro. - Esperamos que voc seja a pessoa 
indicada.
 Esperei em silncio, depois dei um salto inadvertidamente 
 
quando dois dos telefones comearam a tocar ao mesmo
tempo. Mr. Shepardson atravessou a sala e pegou em ambos
os auscultadores.
 - No liguem para aqui durante dez minutos, por favor.
 Quando se sentou outra vez puxou a cadeira para mais
perto da minha.
 - Um dos nossos agentes ir ter consigo  sua chegada ao
Palace Hotel de Madrid. Apresent-la- a algumas pessoas e
dar-lhe- alguns conselhos. Em Espanha ningum espera que
uma mulher, e muito menos uma rapariga nova, faa algo desse tipo. Mas no deve 
esquecer que o inimigo ser inteligente
e perigoso. Felizmente est bem preparada para se defender. Se
se encontrar numa situao difcil... - Fez uma pausa e abanou a cabea de maneira a 
encorajar-me a perguntar.
 - Est a sugerir que deverei matar um adversrio, se necessrio: - Esperei que a minha voz 
parecesse adequadamente
despreocupada.
 Uma expresso de compaixo passou pelo rosto de Shepardson.
 - Poder eliminar o inimigo como lhe parecer conveniente
no momento. Lamentavelmente, a Histria no conhece soluo mais satisfatria. No 
temos de gostar de o fazer. Temos
apenas de o fazer.
 Olhei para Whitne Shepardson sem falar.
 - Est disposta a tentar? - perguntou.
Sentia a garganta seca. As palavras pareciam no querer
passar por ela.
 - Sim - disse finalmente.
 - Ter de ir assistir a uma corrida de touros.
 Olhei-o sem compreender.
 - Uma tourada - explicou Shepardson. - Ter de melhorar o seu espanhol.
 Disse novamente que sim.
 O sorriso dele alargou-se.
 - Com efeito,  esse o nome que dou  sua misso.
 Voltei a no compreender.
 - Operao Tourada. O seu chefe em Madrid inform-la-
dos nomes dos quatro suspeitos.
 - Farei o melhor que puder, Mister Shepardson. Quando
parto?
 - Quase imediatamente. J est a trabalhar contra o
tempo. - Shepardson sorriu encorajadoramente. - O seu
disfarce ser o da American Oil Mission, que  o mesmo de
muitos dos nossos agentes ali, se bem que tenhamos outros que
usam o disfarce de companhias internacionais com escritrios
em Espanha. Diga  sua famlia e aos seus amigos que lhe
escrevam por intermdio do seu nmero APO. Todas as cartas
que enviar sero censuradas.
 Quando sa, Shepardson disse apenas:
 - Que Deus a abenoe.

 Durante trs dias e trs noites estive  espera num quarto do
quinto andar do Biltmore Hotel, em Manhattan. S Jupiter e
Shepardson sabiam onde eu estava. As ordens que eu recebera
tinham sido: No saia do quarto at lhe dizermos.  Fora dado
ao meu caso prioridade mxima e partiria no primeiro avio
para a Europa. O facto de ir viajar num dos famosos avies da
Pan American, o nico servio areo que atravessava o Atlntico, mostrava bem a 
importncia que era dada  minha misso.
 Embrulhada num cobertor e sentada numa cadeira junto da
janela, via a neve a cair suavemente e observava os engarrafamentos do trnsito naquela 
vspera de Natal. Depois chegou a noite e Manhattan mergulhou na escurido. Os seus 
vultos escuros tornaram-se ameaadores.
Lembrei-me de coisas em que no pensava h anos. Especialmente da minha infncia, 
quando Pearl River, situada apenas a trinta e oito milhas para norte de Nova Iorque, era de
 facto uma pequena cidade. A minha me nascera ali, mas os
 meus avs tinham vindo do Midwest. Os pais do meu pai eram
 agricultores em Marland. Excepto em relao  minha av
 Griffith, os meus antepassados eram americanos  antiga .
 A minha me mostrara-se indignada quando eu lhe disse
 que ia trabalhar para a Oil Mission, em Espanha. um pecado uma rapariga ir viver sozinha, 
e ainda por cima to
 longe , dissera ela. Recordar-me o pecado sempre fora uma
 preocupao na minha famlia. Quando tinha quatro anos de
 idade fora castigada por tirar uma pra do quintal de 
 Mr. Mallone, apesar de ela j estar cada no cho. Mais ou
 menos na mesma altura, Joe Kohler, que vivia perto de ns,
 passava a vida a dizer merda . Quando eu o imitei foi outro
 pecado e a minha me lavou-me a boca com sabo.
 O livro de Hemingwa Por Quem os Sinos Dobram entreteve-me durante um bocado, mas 
depois voltei a sonhar.
 Sabia que iria partir durante longo tempo e talvez no voltasse mais. Nos dias de Vero, 
quando eu tinha doze anos,
costumvamos ir apanhar violetas para os bosques. Aos domingos
 subamos o monte para irmos a casa da av Griffith, que nos
 dava grandes fatias de bolo de caf, sentados  volta da mesa
 da cozinha...
 Gostava daquele bolo, da minha av e lembrava-me com
 saudade desses momentos. Certa vez cometi o erro de comprar
 vrias bolas de pastilha elstica. Mas isso tambm foi considerado pecado. S as raparigas 
ladinas chupam pastilha
elstica , disse a minha av. Sei que ficara a pensar no que seriam raparigas ladinas e que 
desejava ver uma delas. Quando
entrava em casa a assobiar, a minha av dizia-me: uAline, acaba com esse barulho. Uma 
mulher que assobia e uma galinha que cacareja nunca tm bom fim. 
 Agora pensava que fim teria eu quando, como uma bala, o
 telefone tocou. Eram 23 e 30, o fim da terceira noite.

 A escurido era completa. Os nicos sons que se ouviam
 eram os das ondas que batiam contra a plataforma de madeira
 e o zumbido de um motor. Fora conduzida atravs de Manhattan, depois por numerosas 
ruas nevoentas, at ao cais deserto.
Um homem com um capuz de l na cabea emergiu do nevoeiro.
 - Estvamos  sua espera, miss - murmurou. Com uma
mo segurei na carteira enquanto com a outra me agarrava 
dele para descer uma escada que dava para a lancha. O feixe
luminoso revelou dois vultos; um homem alto levantou-se justamente quando o barco se 
ps em movimento, atirando-nos a
ambos para o banco oposto.
 -  mais perigoso do que a linha da frente - gracejou. -
Est bem?
 No ombro do seu casaco estavam as quatro estrelas de prata de general. Disse que sim 
com a cabea e sorri. A embarcao cortava as guas agitadas. O vento frio fez com que eu
levantasse a gola do casaco e puxasse o chapu para as
orelhas.
Dentro de pouco tempo parvamos perto de um enorme avio
da Pan American e passvamos para a prancha para entrarmos no aparelho.
 No interior vi um grande salo como o dos transatlnticos,
com cortinados, carpetes, paredes com painis de madeira
polida, sofs estofados e cadeiras de braos. A um canto havia
um bar. ramos trinta e duas pessoas a bordo. Disseram-me
que era o mximo para viagens transatlnticas. O Clipper da
Pan American flutuava como um pato no mar e o general
acompanhou-me na travessia da cabina. Trs homens dirigiram-se para ele. Nenhum deles 
envergava uniforme.
 - Que arma secreta tem o senhor a, general? - perguntou
um deles.
 - Nem sequer sei o nome dela, Russ. Mas no tenho dvidas de que vocs descobriro.
 A partida foi anunciada. O homem chamado Russ dirigiu-se
para mim e encaminhou-me para uma cadeira de braos, sentando-se noutra, na minha 
frente. Apertmos os cintos. Um
por um, os motores comearam a funcionar. O avio ps-se em
movimento, aumentando a velocidade enquanto sulcava as
guas. Com um rudo atroador que o sacudiu da frente para
trs, o avio ergueu-se no ar.
 Pouco depois, uma voz atrs de mim disse:
 - Russ, voc e a senhora esto convidados para jantar connosco a pedido do general.
 No podia acreditar no que estava a ver. Era o mesmo homem que fora ter comigo ao 
Biltmore Hotel, com um cravo
 branco na lapela, h tantos meses atrs!
 Russ disse ento:
 - Larr Mellon, esta ...
 - Aline Griffith - murmurei.
 Larr Mellon apertou-me afectuosamente a mo.
 - Muito prazer em conhec-la, Miss Griffith.
 Subimos ao piso superior e entrmos numa sala que fazia
 lembrar a sala de jantar de um comboio, mas muito melhor, e
 sentmo-nos a uma mesa coberta por uma impecvel toalha de
 damasco branco, cintilante de cristais. Larr Mellon e o general sentaram-se em frente de 
um homem que me foi apresentado como Bill Case.
 Quando tomei o meu lugar ao lado do general, apareceu um
 comissrio de bordo.
 - Levaremos duas horas e meia daqui at s Bermudas,
 meus senhores. Depois de nos reabastecermos rumaremos com
 destino a Lisboa.
 Fiquei surpreendida. Nas ltimas duas semanas fora vacinada contra inmeras doenas, 
desde a doena do sono 
 malria e  peste-negra. Voltei-me para o general:
 - A minha viagem foi planeada como devendo passar pelo
 Brasil e Marrocos. O nmero de vistos no meu passaporte faz
 com que ele parea um acordeo.
 O general explicou:
 - A rota foi alterada, para maior precauo. Os alemes
 atacam tudo o que atravesse o Atlntico. No h muito tempo
 abateram um avio onde viajava Leslie Howard. Perseguiam
 um amigo meu, um general ingls. Infelizmente, era tambm
 amigo de Howard. Acho que os agentes alemes conseguiram-no localizar por causa da 
publicidade cinematogrfica. -
 O general abanou a cabea. - Tem havido vrias baixas de
 avies que fazem o percurso de ida e volta para Lisboa.
 - No devamos assustar a nica senhora que vem a bordo
 - disse Larr Mellon.
 - Observei esta senhora quando levantmos voo e no
 creio que ela se assuste facilmente - comentou Bill Case.
- Ficaria mais preocupado se estivesse no seu lugar, pois vai regressar  frente.



Captulo 7

 Lisboa estava l em baixo, deslumbrante, envolvida numa ferradura de luzes. Era como se 
estivssemos a chegar a uma
grande festa que tivesse atingido o auge; a alegria parecia irradiar da baa cintilante para a 
noite aveludada. Talvez fosse o contraste com o blackout dos Estados Unidos ou por ser 
aquela a minha primeira viagem de avio, mas a verdade  que me sentia encantada ao ver, 
da cabina do comandante, o Clipper descer sobre a gua, sulcando as ondas, ladeado por 
duas cristas de espuma.
 Lanchas a motor conduzidas por marinheiros portugueses
levaram-nos para terra.
 - Veja! - exclamou Larr Mellon, apontando para uns
barcos a remos que se viam ali perto. - Os japoneses. Os seus
servios secretos operam em Lisboa e em Madrid. Quando um
Clipper da Pan Am caiu h uns meses, os japoneses foram os
primeiros a chegar junto dos destroos, apanhando documentos destinados a embaixadas 
aliadas, deixando os passageiros
feridos afundarem-se e salvando documentao altamente secreta. Tenha cuidado - 
acrescentou com gravidade -, sob a
aparente frivolidade de Lisboa esconde-se uma cidade cheia de
intrigas mortais.
 Mellon informara-me previamente que recebera ordens
para eu me apresentar ao chefe do SI em Portugal, antes de
seguir para Madrid.
 Um txi conduziu-nos ao longo da estrada marginal para o
Hotel Palcio, no Estoril, a cerca de meia hora de caminho.
Enquanto o empregado da recepo examinava os nossos passaportes, eu admirava a bela 
carpete, o mobilirio Lus XVI, o relgio de parede antigo, de estilo barroco, a qualidade e 
a elegncia do Velho Mundo.
Larr olhou para o seu relgio de pulso.
 - Ser capaz de mudar de roupa em vinte minutos? Preciso
de ir ao Casino e gostaria que me acompanhasse.
 A ideia de ir ver um casino encantou-me, e da a um quarto
de hora estava pronta.
 As portas de mogno e bronze da entrada do palcio do jogo
estavam guardadas por funcionrios de libr. No interior, o
cenrio era de fazer cortar a respirao, por causa da sua
opulncia. Dos tectos cavernosos pendiam candelabros de
cristal suspensos por cordas de bronze que iluminavam as
inmeras mesas de jogo. As enormes janelas arqueadas encontravam-se cobertas por 
sumptuosos cortinados de veludo; a
alcatifa vermelha abafava o som dos nossos passos. Quando
entrmos ouvimos o rudo da roleta e o tilintar das fichas de
jogo.
 - Prenez vos places. Rien ne va plus - gritavam os croupers. Vozes abafadas falavam em 
muitas lnguas. Larr apontou para alguns japoneses.
 - Outra vez esses tipos. Aqui em Lisboa recebem informaes a respeito de partidas de 
tropas de portos da nossa costa
ocidental e oriental, que so depois transmitidas para Tquio
e para Berlim. Os japoneses possuem uma excelente rede de espionagem a nvel mundial. 
Contactam agentes aqui no casino
recebem mensagens inclusivamente acerca de horas e datas
transmitidas por meio dos nmeros jogados na roleta. . . mesmo diante dos nossos olhos.
 Encontrvamo-nos agora junto de uma mesa de chemin de
fer, junto da qual se viam oito jogadores sentados e mais de
vinte em p, a observar. Algumas dessas pessoas envergavam
trajes de noite, outras estavam vestidas de qualquer maneira.
 Junto de uma mesa de jogo, murmurou Larr:
 - Os jogadores so supersticiosos, especialmente quando esto em jogo grandes quantias. 
H mais de dez mil dlares
em escudos e fichas sobre aquela mesa.
 Uma senhora gordinha, vestida de renda vermelha e com
um alfinete de diamantes e rubis pregado por cima dos seus
seios monumentais, estava nesse momento a tirar cartas de
uma caixa de madeira que tinha na sua frente. Um dedo com
uma unha vermelha puxava carta aps carta para cima do
pano verde, todas voltadas para baixo - duas para o seu adversrio e duas para ela.
- Um jogo enervante. No se compara com a roleta.
O vencedor  o jogador cujas cartas perfazem a pontuao de
nove, ou o mais perto disso. O rei, a rainha e o valete no
contam. Os ases valem um. Veja, ela virou agora uma das suas
duas cartas: um terno. Agora o adversrio dela pode decidir se
deseja uma terceira carta. - O silncio envolvia o grupo. -
Ah, ele est a ter dificuldades em se decidir. - O sussurro
de Larr ia-se tornando mais audvel. - Provavelmente
tem cinco, talvez at seis. - O jogador fez um pequeno
gesto negativo com a cabea. - V? Tinha razo. Ele no
quer correr o risco. Outra carta pode elevar a pontuao
acima dos nove. - Vi que a dama tirava outra carta para si
prpria.
 -  Madame Lubescu e as jias que usa representam tudo
o que lhe resta da enorme fortuna que lhe foi dada pelo rei
Carol da Romnia. Se perder esta noite... 
 Eu no tirava os olhos da pilha de fichas. Ela ganharia? 
Aps uma fraco de segundo, a dama colocou as cartas sobre 
o pano verde com um evidente suspiro de alvio - que ecoou
na pequena multido que a rodeava. O adversrio dela levantou-se sem dizer uma palavra e 
ela esperou que o croupier
reunisse as notas e as fichas num monte sobre o centro da
mesa. A mo dela hesitou um momento, imvel sobre a caixa.
Era bvio que ela estava tentada a jogar outra vez. Se ganhasse duplicaria o dinheiro. 
Comeou lentamente a guardar as fichas na sua bolsa. Em seguida guardou tambm as 
notas.
Depois levantou-se e saiu.
 Passemos um bocado pelas salas de jogo. Mellon perscrutava todos os rostos. Depois 
conduziu-me por um largo corredor at ao Wonder Bar, o clube nocturno, famoso, disse 
ele,
pela sua cozinha.  meia-noite a sala estava apinhada e todas
as mesas ocupadas. No recinto destinado aos pares que danavam, as pessoas moviam-se ao 
som de uma rumba. Larr inclinou-se para mim.
 - V aquele homem que est a danar com a senhora de vestido rateado? H-de contactar 
com ele muitas vezes no
futuro. Top Hat, um dos nossos melhores agentes.
 A minha impresso foi: Top Hat, o gato. O homem tinha
com efeito um aspecto felino; as sobrancelhas espessas e um
bigodinho estreito davam-lhe um ar lbrico. A sua bela companheira parecia apreciar a 
conversa dele.
- Um dos atributos de Top Hat parece ser o seu jeito para
 as mulheres - comentei.
 -Jeito! Ele no tem s jeito para encantar as mulheres! Ele
 mata-as!
 Depois do jantar, dirigimo-nos outra vez para a entrada,
 atravs das enormes salas de tectos altos, conversando a
respeito do contraste com a nossa vida na Amrica, quando de
 repente um grito apavorado de mulher chegou at ns. Num
 instante, o vasto corredor se encheu de pessoas que
corriam.
 Larr fez o mesmo e eu segui-o. Quando chegmos ao extremo
 do comprido corredor, uma multido reunia-se em redor de
 um corpo estendido sobre a carpete vermelha. Vi que se
tratava de um homem. O seu rosto estava voltado para baixo.
 Larr, que se encontrava  minha direita, agarrou-me por um brao. Ento percebi porqu. 
O cabo de um punhal emergia
 do meio das costas cobertas pelo smoking preto!
Permanecemos imveis. Ouviram-se mais gritos. Uma mulher desmaiou.
 Ajoelhando-se, Larr apalpou o pulso do homem enquanto as
 pessoas se aproximavam para ver melhor. Tudo aquilo sucedera demasiado depressa para 
eu poder avaliar o seu
significado - a cena tinha a irrealidade de uma pera. Depois, o meu companheiro voltou 
ligeiramente o corpo do homem, apenas o bastante para lhe ver o rosto.
 A cor desaparecera da cara do homem apunhalado.
 O grande nariz e as faces estavam acinzentados. Mellon pareceu receber um choque. 
Percebi nesse momento que ele
conhecia o homem estendido no cho.
 O que se teria passado? Vi que estava ali patente a diferena
 entre a teoria e a prtica. Aquele rosto contorcido de
dor, imobilizado, despertou-me para a realidade em que eu me
encontrava envolvida. O sangue manchava a espessa carpete,
salpicando os meus sapatos de cetim com umas pequeninas gotas.
 Quando olhei para cima vi um amontoado de rostos espantados - senhoras cobertas de 
jias, pessoal do casino, alguns
 croupiers - que observavam a cena.
 Endireitando-se, Mellon fez-me voltar em sentido contrrio, conduzindo-me 
energicamente pelo meio da multido at 
 sada.
 - Est morto?
 - Est.
 - Conhecia-o?
- Claro que no. Vamo-nos embora. No podemos envolver-nos no caso.
 - Como? No seremos interrogados?
 - Aline, onde julga que est? Acorde: isto  Lisboa. Aquela
gente que ali est s pensa em ver-se livre do corpo para
voltar
para as suas mesas de jogo. Alguns daqueles jogadores podem
parecer-lhe opulentos, mas muitos deles esto a apostar o pequeno-almoo de amanh.
 No caminho de regresso ao hotel, cada um de ns ia fechado
 no seu prprio mundo e no falmos. Eu pensava como a morte
pode surgir depressa. O sumptuoso vestbulo do hotel encontrava-se deserto e o relgio 
antigo por cima do balco da
recepo marcava as 3 e 30. Mellon deixou-me  porta do meu quarto.
 - Tente no pensar no que se passou. Aline. Durma. Espere pelo meu telefonema amanh 
de manh.
 Respondi que sim, com um mudo aceno de cabea.
 Abri as janelas da varanda para ouvir o som do mar  distncia e reparei nalgumas luzes 
que pareciam cintilar como
estrelas. A noite fria e sem luar fez-me lembrar de outra
noite, trinta horas antes, no cais de Brookln. O meu universo mudara j. Experimentara a 
excitao mas tambm o terror. No
entanto, no tive grande dificuldade em adormecer, pouco de
pois. Seria fadiga ou comearia a ficar calejada?

 No dia seguinte, Larr evitou qualquer referncia  noite 
anterior enquanto nos dirigamos para Lisboa, pela estrada
marginal.
 Em breve enveredmos por duas ruas estreitas que subiam 
as colinas da Lisboa rosada e poeirenta. Numa praa empedrada, perto do cais, alguns 
pescadores e as suas mulheres
vendiam peixejunto das toscas bancas de madeira. Os homens
vestiam velhas calas de fazenda e as mulheres saias at ao
tornozelo. Xailes negros, franjados, cobriam-lhes os ombros.
Tapavam a cabea com lenos tambm pretos. Circulavam alguns carros, mas a maior 
parte das pessoas andava a p; vi
tambm um carro elctrico vermelho.
 Mesmo em frente de uma fortaleza que erguia o seu escarpado esplendor acima da baa, 
Larr disse ao motorista do txi
para parar. Depois de lhe pagarmos, samos e dirigimo-nos
para uma rua lateral. Larr apontou para um enorme edifcio.
- Foi uma das poucas construes que aguentou o terramoto de 1755. Voltaire esteve aqui 
nessa altura e descreveu o
holocausto em Candide. Lembra-se?
 A rua era ngreme e estreita, ladeada por velhos prdios cinzentos com janelas onde se via 
roupa a secar que o vento do
mar agitava. No nmero 16, Larr abriu uma porta e conduziu-me para um pequeno ptio, 
depois fez-me descer uma antiga escada de pedra.
 A sala da cave, sem janelas alm de uma estreita abertura
em cima, estava cheia de fumo devido aos dez homens que
fumavam, sentados em crculo. Reconheci Bill Case e Russ
Forgan do avio. Os outros eram desconhecidos para mim.
Um deles parecia-me um acadmico, outro tinha um tipo mediterrnico, outro, com um 
sotaque ingls, ofereceu-me uma
cadeira.
 Larr dirigiu-se para o centro desse crculo. O grupo, que
voltara a sentar-se, agitou-se colectivamente nas suas
cadeiras.
A hmida cave ficou silenciosa.
 - As notcias so ms - anunciou Mellon com a sua voz
arrastada. - O chefe de uma das nossas equipas MO foi capturado e recebemos informaes 
de que os boches comearam
a tortur-lo, arrancando-lhe as unhas uma a uma.
 Fiz o possvel por ocultar o meu horror. Os agentes MO
eram aqueles que se encontravam por detrs das linhas inimigas, utilizando meios 
psicolgicos de combate no Sul da 
Frana, fazendo ir pelos ares e sabotando estradas inimigas.
Larr prosseguiu:
 - Um dos nossos colegas lanado sobre Pau foi apanhado
logo  chegada. Muito mau, no acham? Isso pode indicar que
existe entre ns um agente duplo. - Mellon fez uma pausa,
para que a sua informao tivesse o impacte preciso. - Se
assim  - prosseguiu -, a Operao Anvil est a ser sabotada
do interior.
 - E a respeito do nosso agente liquidado a noite passada no
casino? - perguntou um jovem americano esqueltico, sentado a meu lado.
 - Esquea o incidente - replicou com azedume Mellon.
 Ento o morto era um dos nossos. Isso fazia com que a cena
que eu presenciara me parecesse ainda mais medonha. Enquanto Larr fornecia informaes 
tcnicas, decidi que a melhor coisa que eu poderia fazer de momento era ocultar o mais 
possvel a grande insegurana que sentia. A noite anterior
fora um aviso de situaes que eu poderia ter de enfrentar no futuro. E aquilo que eu estava 
a ouvir mostrava-me bem que o
nosso trabalho exigia mais aptides do que aquelas que nos
tinham ensinado na Quinta.



Captulo 8

 Os verdejantes vales de Portugal ficaram para trs. Em breve eu olhava para os campos 
ridos, cinzentos, de Castela.
A terra parecia mais hostil do que convidativa. Surgiram ento
as montanhas e depois mais extensas plancies com manchas
simtricas de vermelho, castanho, cinzento. Depois de atravessarmos uma cadeia de 
montanhas cujos cumes se encontravam cobertos de neve, o avio desceu em arco ao longo 
do curso de um rio num alto planalto. Onde estavam as pessoas? Apenas aparecia aqui e ali 
uma pequena aldeia, uma meia dzia de casinhas aglomeradas em pequenas reas da grande 
extenso
da paisagem. Ento era aquele o meu destino. Enquanto olhava para baixo ia rezando 
mentalmente para ser digna da misso que me fora confiada.
 O pequeno avio da Iberia aterrou no meio de um temporal
num campo onde se encontrava umJunker bojudo com uma
cruz sustica negra e vermelha pintada nas asas.
 Na sala, semelhante a uma garagem, que constitua o terminal, dois funcionrios da 
alfndega e soldados da Guarda Civil com capas cor de azeitona at aos tornozelos 
cumprimentaram-me com sorrisos: Buenos das, senhorita . Depois de
carimbarem o meu passaporte e inspeccionarem rapidamente
a minha bagagem, escoltaram-me amavelmente at a um txi.
Mas que inimigo, pensei. Mas depois, recordando-me da cena
a que assistira no Casino do Estoril, percebi que no devia
ficar excessivamente confiante.
 O txi percorreu os arredores de Madrid seguindo ao longo
de uma estrada de terra batida, cheia de covas, passando por
uma espectacular praa de touros e depois por ruas ladeadas
por edifcios velhos. Alguns minutos mais tarde chegmos a uma avenida orlada de rvores 
onde crianas bem vestidas
brincavam sob a vigilncia de preceptoras que envergavam pitorescas saias escocesas, 
xailes de l com franjas e grandes
brincos dourados em forma de globos.
 - La Castellana - anunciou orgulhosamente o motorista.
 Como Lisboa, a cidade era quase desprovida de automveis;
algumas bicicletas, algumas carruagens delapidadas puxadas
por cavalos ossudos - nem polcias, nem sinais de trfego.
A certa altura, o motorista passou de raspo por outro txi
que se aproximara e ambos desceram os vidros das janelas e gritaram: Idiota!  De espao a 
espao, passvamos por uma
praa com rvores nuas e fontes sem gua, adornadas por esttuas gigantescas; dos dois 
lados da avenida havia palcios de granito, com grades de ferro forjado a proteger os 
jardins.
A tranquila e larga avenida, com as suas velhas residncias,
tinha um ar de opulncia e dignidade antiquadas. Segundo o
meu relgio de pulso, faltavam vinte minutos para as cinco da
tarde quando parmos em frente do Palace Hotel, nesse dia 31
de Dezembro de 1943. Na recepo preenchi os impressos que
me apresentaram. Era o momento planeado em Washington
para eu me encontrar, de uma forma que parecesse acidental,
com o agente que me deveria contactar do exterior , como
dissera Shepardson.
 Voltei-me e vi um homem sair detrs de uma das colunas de
mrmore, dirigindo-se para mim exactamente de acordo com o
que fora previamente combinado. Reparei no seu andar felino
mesmo antes de ver a face extica, de mas de rosto
salientes.
Era Top Hat!
 Mas nesse momento sucedeu outra coisa. Atrs de Top Hat
surgira um rapaz de aspecto atraente. Qual deles seria o meu
contacto? Quando deixei cair a minha carteira, conforme combinado, ambos os homens 
quiseram apanh-la. Olhei para um
e para outro. Depois Top Hat, com um delicado desculpe ,
para o mais novo, pegou na carteira e entregou-ma.
 - A maneira histrica de conhecer uma senhora. - As suas
palavras, apesar de serem o cdigo correcto, foram pronunciadas com o ar afectado de um 
mau actor. De perto, as feies dele tinham algo de sinistro; talvez fosse o bigodinho de 
gangster sobre a boca que sorria afectadamente. Tinha cabelo forte e lustroso de 
brilhantina, dedos graciosos e dentes extremamente brancos.
- O meu nome  Edmundo Lassalle. Querer dar-me a
 honra de tomar uma bebida comigo no bar, hoje  noite?
 Respondi com a frase previamente combinada:
 - Que amabilidade a sua convidar-me.
 Trocmos mais algumas palavras antes de eu lhe estender a
 mo para me despedir. Top Hat inclinou-se ligeiramente e beijou-me a mo sempre com os 
seus modos teatrais.
 Quando cheguei ao elevador fiquei surpreendida por encontrar ali o rapaz bem-parecido 
com as minhas duas malas.
 A presena dele enervou-me e senti-me aliviada quando a
 porta do meu quarto se fechou.
 Olhei  minha volta. O soalho de mogno s se encontrava
 parcialmente coberto por uma carpete vermelha, bastante
 gasta, mas o quarto era espaoso, de tectos altos, com uma
 moblia cheia de torneados e guarda-vestidos em vez de armrios metidos na parede. 
Apalpei o grande almofado redondo que havia sobre a cama - duro como uma pedra. Em
 seguida dirigi-me para a janela e afastei os pesados cortinados de veludo e depois as 
cortinas de renda. Em frente, um edifcio com dois lees esculpidos a adornarem a larga 
escadaria. Na entrada lia-se Las Gortes . Era o Parlamento espanhol, nada menos.
 Um txi circundou a praa do lado direito, onde uma esttua de Neptuno decorava uma 
fonte seca; um elctrico amarelo
 passava. No passeio, l em baixo, um velhote agitava pedaos
 de papel. Lotera , dizia com voz aguda, rouca. Mas com lotaria e tudo o mais, a cidade 
possua um ritmo lento,
pacfico, a anos-luz de distncia da agitao de Manhattan.

 s nove e trinta entrei no Palace Bar. Edmundo Lassalle
 levou a minha mo aos lbios, saudando-me com um sorriso
 deslumbrante. Quando nos sentmos perguntou:
 - Que toma? Aqui toda a gente toma um xerez seco ou um
 gin fizz.
 - No bebo - respondi.
 - Divna - sussurrou. -  melhor para o seu trabalho,
 minha querida. - O seu sorriso continuava a envolver-me.
 - Faz alguma ideia de quem seja aquele rapaz bem-parecido que se encontrava no 
vestbulo? - perguntei.
 Ele encolheu os ombros.
- Apenas um admirador, presumo. A sua chegada causou
sensao.
 Olhei-o com desconfiana.
 - Ele levou-me as malas para o quarto e quando lhe quis
oferecer uma gorjeta no a aceitou. Falava perfeitamente ingls. Suponho que poderia ser 
alemo.
 - No se preocupe.  nova aqui. Vai ficar sob observao
durante uns tempos.
 - Visto que vamos trabalhar juntos, no acha que eu devo
conhecer a sua cobertura?
 - A minha cobertura  ser mexicano. - Tentei no rir.
Que outra coisa poderia ele ser? - O representante de Walt
Disne em Espanha. Isto d-me a possibilidade de parecer
neutral e permite-me contactar com pessoas dos dois lados.
O plano  lev-la  recepo da marquesa de Torrejn, onde
encontrar espanhis, e tambm embaixadores estrangeiros,
alguns espies inimigos, muitas mulheres ricas e bonitas de
outros pases. Hoje em dia, s mulheres com influncia podem
obter vistos de sada dos pases em guerra. Madrid  considerada hoje em dia o paraso da 
Europa. Ser a oportunidade ideal para a apresentar  alta sociedade da cidade.
 Um homem baixo e gordo acompanhado por uma mulher
loura parou junto da mesa para falar com Edmundo. O meu
companheiro ergueu-se, murmurando algumas palavras para
o homem, e sentou-se rapidamente outra vez.
 - Um amigo meu, da polcia secreta. No pude apresent-la porque ele est com a amante. 
As amantes e as mulheres
respeitveis no contactam umas com as outras aqui - explicou.
 Olhei novamente para a mulher, pensando se alguma vez
conseguiria distinguir a diferena.
 - Vai adorar esta cidade, minha querida - continuou
Edmundo. - Toda a gente que aqui est merece ser
conhecida. Ali - indicou com um gesto de cabea - esto
os italianos. Perto deles, os alemes. Por detrs esto os
romenos, os polacos e os blgaros. Os japoneses encontram-se naquele canto.
 - Alguns deles so espies inimigos? - perguntei.
 - Alguns? - riu. - So todos espies. No h aqui uma s
pessoa de confiana.
 - Isso inclui-o a si? - perguntei, sorrindo.
- De maneira nenhuma - novamente o brilho dos dentes
 brancos. Algo a respeito do seu sorriso, da sua maneira de
 falar, faziam com que eu o achasse to suspeito como qualquer das outras pessoas que se 
encontravam na sala.
 -Quem  a marquesa de Torrejn?
 - a mais popular lder social e as suas reunies so famosas. Espero que tenha um guarda-
roupa apropriado para as
 exigncias da vida social de Madrid. Se assim no for,
recomendo-lhe uma visita  Balenciaga. As mulheres em Madrid
 so especialmente chiques, embora a mulher do embaixador
 Haes seja francamente deselegante, ao passo que a mulher
do embaixador alemo  de uma elegncia que a torna muito popular. A maioria dos 
espanhis so politicamente a favor
dos aliados. Mas, minha querida, apesar de eu gostar muito dos
 americanos (e trabalhar para eles), as suas graas sociais
no chegam aos ps das dos europeus. - Os seus olhos observavam constantemente tudo o 
que se passava na sala. Cada
 recm-chegado era atentamente observado, mas a tagarelice
 de Top Hat nunca parava.
 - As caadas s perdizes so grandiosas. As mesas dos banquetes so postas em pleno 
campo, cheias de pratas e de
cristais, e servidas por criados de libr e de luvas brancas.
Quando a poca da caa termina, comea o Carnaval, com os bailes de mscaras e as 
festas. A cidade inteira costumava sair para as ruas mascarada, mas Franco ps fim a isso. 
Foi uma pena. Teria sido til para ns. Eu adoro disfarces. E voc? - esmagava uma batata 
frita enquanto falava e a maior parte das vezes no esperava pela minha resposta. O seu 
sotaque estrangeiro tornava sedutor tudo o que ele dizia. - A Quaresma marca uma pausa. 
Jogam s cartas nos seus palcios
gelados. H falta de carvo, sabe.  por isso que a maior parte dos vestidos da Balenciaga 
so de l e de mangas compridas. Durante a Quaresma as senhoras tomam ch e rezam 
muito o tero; os homensjogam e gabam-se das suas conquistas ,
das suas sedues. Franco proibiu os casinos pblicos. Os
espanhis so jogadores natos. As apostas so permitidas no
jogo do jai-alai na Calle Hermosilla. H-de ver com que
velocidade os agentes de apostas tomam nota delas e depois enrolam os papis como se 
fossem bolas de tnis e as atiram para as bancas. O jai-alai  o mais rpido jogo de bola do 
mundo. Os jogadores so habitualmente bascos. Com alguma sorte, a Quaresma poder ser 
temperada por algum escndalo romntico. No existe divrcio e o adultrio torna-se 
inevitvel.
 Edmundo ergueu-se outra vez, agora para cumprimentar
uma mulher especialmente atraente que se sentou numa mesa
por detrs da nossa.
 - A guapssima marquesa de Crdoba - murmurou ao
sentar-se de novo. Mas nem sequer a chegada dela o distraiu
dos seus propsitos de me informar totalmente a respeito da
vida em Espanha. Continuou a sua descrio mais ou menos
no ponto em que a deixara.
 - Os grandes raramente vo para as suas propriedades no 
campo, embora as tenham imensas. O racionamento de gasolina  de trinta litros por ms, 
por isso muitos viajam de comboio quando so obrigados a visitar uma das suas quintas ou
ranchos. Mas todos preferem a alegria da capital  vida no
campo, a no ser quando h caadas, claro. A vida rural em
Espanha  muito dura. No h electricidade, nem canalizaes, nem aquecimento, nem 
estradas decentes. Claro que a
guerra civil tambm no ajudou a situao.
 Edmundo gesticulava com os seus dedos graciosos. Frequentemente a sua voz erguia-se 
num crescendo agudo no fim
de uma frase. Ainda no chegara a uma concluso sobre a
espcie de pessoa que era o meu novo colega, mas achava-o
curioso.
 - Um convite formal para jantar indica as vinte e duas e
trinta, mas pode no se ser servido seno uma hora mais tarde.
Os ciganos que animam as festas com os seus cantos e danas
nunca chegam antes das duas, por isso no vale a pena comear mais cedo. Tambm 
ningum se levanta de madrugada.
E quero lembrar-lhe uma coisa:  considerado falta de educao telefonar a uma senhora 
antes do meio-dia.
 Pediu outro gin fizz.
 - Depois da Quaresma e da Semana Santa vem a Feira de
Sevilha, em Abril. Que magnficas carruagens e cavalos! Os
arreios so sempre enfeitados com sininhos e pompons!
Durante uma semana, dia e noite, ouve-se o som das castanholas e dana-se nas ruas. E, 
minha querida, os espanhis so de
facto democratas. Os mais democratas. Ciganos, pobres, ricos,
nobres, pastores e vaqueiros, todos danam e bebem em conjunto quando festejam um 
feriado. So orgulhosos e individualistas. No tm inclinao para serem arregimentados, 
como os alemes. Invejam-se uns aos outros, mas so capazes de
 morrer por um amigo. Detestam cumprir as leis e so totalmente ingovernveis. Gostam 
especialmente de se queixar do Governo, seja ele qual for (monrquico, republicano, 
democrtico), e eles j os tiveram todos.
 Deixou de falar durante uns segundos enquanto procurava
 nos bolsos outro mao de cigarros.
 - Na verdade, Aline, ter de me oferecer um desses maos
 de cigarros que tm no escritrio para arranjarem amigos. Estes cigarillos pretos espanhis 
cheiram terrivelmente mal. -
 Fez sinal a um criado, levando expressivamente a mo  boca
 para explicar o que queria. Depois voltou novamente a sua
 ateno para mim.
 - Maio  o ms da Feira de Santo Isidro, santo padroeiro
 de Madrid. H touradas durante dezassete dias. Quando Junho chega, as mulheres e os 
filhos so enviados para o Norte.
 Os maridos ficam aqui, supostamente para trabalhar, claro,
 - mas na verdade para se divertirem com as suas amiguinhas.
 Durante o Vero, o tempo em Madrid  quente e seco mas
 nunca insuportvel.
 O criado apareceu com um sortido de cigarros e charutos.
 O meu companheiro esteve ocupado na transaco durante
 cinco minutos. Por fim pareceu ficar satisfeito e voltou a dedicar-se  tarefa que se 
impusera de fazer de mim a mais bem
 informada recm-chegada a Madrid.
 - Haver uma grande quantidade de personalidades espanholas e do eixo em casa da 
marquesa. Concentre a sua ateno nas mulheres, pois s por intermdio delas se pode 
entrar
 numa casa espanhola. A ideia de que as mulheres espanholas
 so submissas  ridcula. - Tirou do bolso um relgio de ouro
 preso por uma corrente do mesmo metal. - Deve estar esfomeada. Temos mesa reservada 
no Edelweiss.
 - Um restaurante alemo?
 - Sim. Para vermos melhor o inimigo. O Edelweiss  o restaurante favorito dos diplomatas 
alemes e simpatizantes da
 Alemanha.

 Havia uma multido esperando  porta, mas Edmundo e eu
 fomos prontamente conduzidos para uma mesa. A sala era
 despretensiosa, cheia de gente e do rudo de muitas vozes. Vi o criado andar  volta de 
Edmundo. Se est a ser pago por ns
est a exagerar , pensei.
 - Querer o senhor Lassalle arenque fumado acabado de
chegar de Berlim? - perguntava o homem. - Esta noite temos
wiener schnitzel ou veado. - Apeteceu-me rir. Ali estava eu a
banquetear-me com as provises vindas da capital inimiga.
 Edmundo acendeu um cigarro comprido e delgado.
 - Deve compreender a qualidade do mundo em que est a
entrar, minha querida. Estamos agora na estao da caa. Perdizes e javali  o que se come. 
Raramente servem outra coisa quando sejanta em casa de um aristocrata. Especialmente 
nos jantares oferecidos pelos grandes, que so a nata da nobreza. Vivem no meio do 
esplendor, mas certamente no dissipam os seus bens. Caam quatro dias por semana e 
comem o resultado dos seus esforos durante sete dias. O trabalho, neste pas, fica sempre 
em segundo lugar, em relao ao prazer de gozar a vida. E isto acontece a todos os nveis 
da sociedade.
 Bruscamente, o meu companheiro calou-se. Depois disse:
 - Repare naquele tipo alto e louro, naquele canto,  sua
esquerda.
 Olhei para l de relance. Vi um rapaz de perfil, com uma
cicatriz perto de um olho e um brao ao peito. Olhei
interrogativamente para Top Hat.
 -  Constantin von Weiderstock, discpulo favorito do almirante Wilhelm Canaris, que 
controla a Abwehr. Deve saber
que, em Berlim, se trava uma luta pelo poder entre Himmler e
o chefe deste rapaz, que  tambm o seu padrinho. Himmler
quer ver-se livre do almirante Canaris, absorver a Abwehr, o
melhor servio de espionagem do mundo, e fundi-la com a
Gestapo, que se encontra sob o seu comando. Tenta convencer
Hitler de que Franco no entrou na guerra a seu lado porque o
almirante Canaris, que  amigo pessoal de Franco, o convenceu a no o fazer.
 Eu j ouvira contar aquilo antes e ele deve ter-se
apercebido disso. Olhou para o relgio.
 - Quase meia-noite. Temos de correr para passarmos a
meia-noite do outro lado da rua, no Teatro de la Zarzuela. As
estrelas, Lola Flores e Manolo Caracol, so amigos, e bastante
teis. So tambm os melhores artistas de flamenco de Madrid.
 Quando entrmos vimos no palco uma rapariga bonita, cigana, com um abundante cabelo 
comprido, preto e ondulado,
 olhos enormes e corpo cheio de curvas que batia com os ps
e agitava as mos ao som da msica cheia de ritmo tocada por
 dois guitarristas. Um homem forte, com um chapu preto, de
 abas largas, calas pretas muito justas e camisa de seda
vermelha, cantava La Ninha de Fuego.
 A rapariga movia-se freneticamente, lascivamente, e o seu
 frenesim aumentava com o crescendo do ritmo. Quando a cano chegou ao fim, o pano 
desceu por entre aplausos tremendos, mas ningum abandonou o seu lugar. Faltavam cerca 
de
 doze minutos para a meia-noite. Os empregados do teatro distriburam pequenos cestos 
com uvas brancas por entre a
assistncia. No palco, cada um dos artistas tinha nas mos um
 cesto semelhante. A assistncia olhava para um gigantesco
relgio que se via no palco. Depois um gongo solene, distante,
 comeou a soar. Todas as cabeas se inclinaram. Os artistas
 comeram as suas uvas e todos fizeram o mesmo.  minha volta
 s ouvia um mastigar abafado. Top Hat tinha engolido tudo,
 at as peles e as grainhas, antes da ltima badalada. Quando
 ela soou, o teatro encheu-se de risos e de gritos.
 Edmundo voltou-se para mim e plantou um beijo hmido
 nas minhas duas faces.
 - Feliz ano nuevo, Aline. - Depois olhou para o meu cesto
 meio cheio. - No acabou de comer as suas doze uvas.  um
 mau pressgio para 1944 - acrescentou com toda a seriedade.



Captulo 9

 Na manh seguinte, fui acordada por pancadas suaves mas
persistentes na porta do meu quarto. Enfiei um roupo e perguntei:
 - Quem ?
 - El mozo de espadas.
 - Moo de espadas? - Cautelosamente, abri a porta. Trs
homens vestidos de preto inclinaram-se respeitosamente. Um
deles tinha na mo o maior cesto de flores que eu j vira -
lindos cravos vermelhos. Os outros dois tinham trajes
cintilantes dobrados sobre os braos.
 - Senhorta Griffith, sou o mozo de espadas de Don Juan
Belmonte, que lhe envia estes presentes.
 - Belmonte?
 - Sim, senhorita. - O homem sorriu.
 - Se faz favor, pode dizer-me quem  Belmonte?
 - A senhorita deve ter ouvido falar do grande Belmonte.
 Abanei a cabea.
 - Deve haver algum engano.
 - No h engano nenhum - respondeu o homem delicadamente. - Don Juan viu a senhorita 
a noite passada no Teatro
de la Zarzuela.
 Apontei para os trajes reluzentes.
 - Mas o que  isso?
 - Senhorita, so os trajes de luces, que Don Juan usou em
Toledo, quando lhe deram as duas orelhas.
 As roupas eram bonitas - calas de cetim cor-de-rosa bordadas  mo e uma jaqueta curta 
bordada a ouro e cequins.
Antes de eu me aperceber disso, tinha uma capa nos meus braos, com os seus bordados 
reluzentes, e to pesada que eu
 mal tinha foras para a segurar.
 - Digam a Mister Belmonte que aceito as flores e que agradeo, mas as roupas no.
 - Senhorita, no recuse, por favor. Don Juan nunca... nunca
 nos perdoaria.
 - Lamento, mas est completamente fora de questo.
 Levei cinco minutos para convencer o trio a partir.
 Telefonei para Top Hat.
 - Edmundo,  Aline. Desculpe acord-lo. Agradeo-lhe
 muito a noite passada. Diga-me s uma coisa, e depois pode
 voltar a adormecer. Quem  Don Juan Belmonte?
 - Um grande matador e filho do maior toureiro da histria.
 Mais tarde telefono-lhe, guapa.
 Tomei um banho, vesti-me de uma maneira prtica - calas e uma camisa de quadrados -, 
devorei o ch e o po estaladio com marmelada, enquanto procurava no mapa da cidade a 
Calle Alcala Galiano - a, no nmero 4, ficava a
 American Oil Mission, onde eu devia comear a trabalhar no
 dia seguinte. Vestindo um casaco comprido, dirigi-me para
 a rua.
 Naquele dia de Ano Novo, de manh cedo, a cidade era
 minha. Meti-me num elctrico amarelo que subia a Castellana
 para a Plaza de Coln, onde uma esttua de Cristvo
 Colombo olhava para o mundo. Apesar de estar uma fria manh de Inverno, dois homens 
bebiam caf, sentados numa esplanada, ao sol.
 Caminhei pela Calle Alcala Galiano at ao nmero 4, um
 velho edifcio de pedra, junto do qual o condutor de um moderno Packard preto me olhou 
como j o tinham feito as pessoas no vestbulo do hotel e no elctrico. Quando eu passei
 debruou-se da janela.
 - Porque  que uma rapariga to bonita quer usar roupas
 de homem?
 Apertei mais o casaco. Pelo menos percebia agora o motivo
 que levara as pessoas a olharem tanto para mim e percebi que
 seria melhor no voltar a usar calas compridas em Madrid.
 Mudei rapidamente de direco e dirigi-me para o centro da
 cidade. As lojas, nas ruas estreitas, como em Lisboa, eram pequenas e especializadas. As 
ruas tinham os nomes dos seus
 artigos: Rua da Prata, Rua do Ouro, Rua dos Correeiros, Rua dos Encadernadores. Os 
artigos expostos pareciam datar de h
cinco anos atrs - cintas e coletes com barbas, chapus altos,
utenslios de cobre.
 Havia mendicidade, e quando eu me sentei num banco na
Plaza Santa Ana um engraxador colocou-se na minha frente,
com um banquinho, e comeou a engraxar-me os sapatos. As 
mulheres vestiam de preto e usavam lenos de l amarrados 
debaixo do queixo; os homens usavam compridas e volumosas 
capas ou sobretudos. A carruagem puxada por um cavalo que 
me conduziu ao hotel custou-me apenas dez cntimos, apesar 
de o percurso pela Calle Alcala e pela Gran Va levar meia 
hora. Carros e carroas puxadas a mulas metiam-se por entre
os automveis antigos, muitos dos quais funcionavam graas a
um fogo colocado no porta-bagagens, queimando carvo de 
lenha. O cocheiro explicou-me que aqueles gasgenos eram uma soluo por causa do 
preo da gasolina.
 Quando entrei no vestbulo do hotel os trs homens continuavam  minha espera, com mais 
flores e os trajes
cintilantes.
Mais uma vez aceitei as flores e recusei os trajes de luzes.
O meu quarto assemelhava-se agora a uma cmara funerria.
Meia hora depois, o telefone tocou. 
 - Senhorita Griffith? - Ele dizia Greefeet.
 - A prpria.
 - Eu sou Juan Belmonte e gostaria de ter o privilgio de
sair consigo para lhe comprar uma caixa de chocolates.
 Tentei no soltar uma gargalhada. O incrvel convite encorajou-me.
 - E quando  que gostaria de comprar esses chocolates, senhor Belmonte?
 - O mais depressa possvel, senhorita. Hoje  tarde seria perfeito. Podia ir busc-la por 
volta das cinco horas. Ser
possvel?
 Visto no ter nada melhor para fazer, concordei.
- Mas como  que o reconhecerei? - Houve uma pausa antes de ele responder.
 - No  problema, senhorita. Reconhec-la-ei eu.
 O vestbulo, que, de manh, estava deserto como uma morg que, s cinco horas da tarde 
estava cheio de agitao. Uma das causas dessa agitao parecia ser um rapaz de cabelo 
escuro que assinava autgrafos. Olhei  minha volta e no vi ningum  minha espera. 
Ento o centro das atenes dirigiu-se para mim. Eu julgara que um matador fosse alto e 
forte, como um
jogador de futebol. Ele era baixo, magro, de pele cor de azeitona e tinha um belo sorriso.
 - Senhorita Griffith - disse levando a minha mo aos lbios. - No posso pensar num 
pressgio mais prometedor do
que passar o primeiro dia do Ano Novo a comprar-lhe chocolates.
 Pensei se se trataria de outra superstio espanhola.
 - Posso trat-la pelo seu primeiro nome?
 - Chamo-me Aline.
 Belmonte deu-me o brao e escoltou-me at a um carro rodeado de admiradores. O 
porteiro afastou a multido e ns
desaparecemos no Bugatti descapotvel.
 -  a primeira rapariga americana que eu vejo em Madrid.
- Belmonte tinha uns olhos escuros muito vivos e pestanas
espessas e longas. - A que  que devemos a honra da visita da
senhorita?
 - Venho trabalhar em Madrid, Mister Belmonte.
 - Por favor chame-me ,Juanito. Toda a gente o faz. - A
expresso do matador tornou-se mais animada. - Ento vai
estar entre ns durante algum tempo? O suficiente para me ver
na arena? A poca abre em Maro, mas as melhores touradas
s comeam em Maio. - Abrandou o andamento do carro
quanto entrmos na Gran Va. - E qual  o seu trabalho
aqui?
 - Estou na American Oil Mission.
 - Maravilhoso. Por favor sirva-se da sua influncia para
termos mais gasolina. Os preos do mercado negro tornam
cada vez mais dispendioso andar com este carro. Agora que
est aqui, tenho a certeza de que as coisas iro melhorar.
 Fez o carro parar na Calle Peligros, em frente de uma lja
cujo letreiro dizia La Mahonesa , depois deu delicadamente
a volta ao carro para me abrir a porta e para me conduzir ao
interior da loja.
 - Muito obrigado por ter aberto a loja neste feriado, Don
Jos, e muito bom Ano Novo para si. - O dono da loja, obviamente encantado por receber o 
famoso toureiro, curvou-se repetidas vezes e comeou por felicit-lo pelas touradas da 
poca anterior. Juanito interrompeu-o para me apresentar. Don Jos
inclinou-se profundamente na minha frente.
 - Senhorita,  uma honra que me d ao visitar esta loja. H cento e sessenta e seis anos que 
ns fabricamos os melhores
chocolates de Espanha. Servimos a famlia real e os mais ilustres cidados do pas. A 
senhorita ir ter uma caixa como as que
preparamos para a rainha Victoria Eugenia. - Mostrou-me
uma caixa forrada de seda cor-de-rosa e, pegando numa pina
que se encontrava sobre o balco, comeou a escolher chocolates de cada um dos grupos 
existentes na vitrina.
 Ficmos a v-lo durante alguns minutos. Depois, Belmonte
deu-me o brao e voltou-se para sair, dizendo para o atarefado
comerciante, quando chegmos  porta:
 - Don Jos, estaremos no carro.
 - E os chocolates? - perguntei eu. - No temos de esperar?
 - Certamente que no - retorquiu Belmonte. - Em Espanha, os cavalheiros no transportam 
embrulhos.
 Alguns minutos depois, Don Jos apareceu com um tabuleiro de prata sobre o qual 
pousava a caixa.
 - Os chocolates da senhorita - declarou orgulhosamente,
com um largo sorriso.
 De regresso ao hotel, Juanito disse-me os nomes das avenidas e das pessoas que viviam 
nos palcios e nas embaixadas ao
longo da Castellana. Muitas pessoas acenavam para ele, ao
passarem.
 -Juanito! Juanito! - gritaram duas bonitas raparigas,
esbeltas e morenas, da porta de um caf que tinha escrito
Chicote  por cima da porta.
 - Feliz Ano Novo, Juanito!
 - Feliz Ano Novo, Carla. Feliz Ano Novo, Mara - respondeu Juanito.
 - Admiradoras? - perguntei, sorrindo.
 - Bem, sim, de certo modo.
 - O Chicote  um bar popular?
 - No  stio para si, Aline - respondeu Juanito.
 - Porqu?
 - Bem, no  respeitvel. Aquelas raparigas so modelos.
 - Que mal tem isso? - perguntei, admirada.
 Foi a vez de ele me olhar com surpresa.
 - Toda a gente sabe que os modelos no so respeitveis.
Uma rapariga como voc nunca iria ao Chicote.
 A mentalidade espanhola era decididamente diferente.
Quando nos aproximvamos do hotel vimos um Mercedes
 preto com uma bandeira alem. Uma mulher que ia sentada
 atrs acenou para Juan.
 -  a condessa alem Podevils.  muito bonita e muito
 valente... e no  m toureira.
 Quando, pouco depois, Juanito me convidou para jantar
 com ele na semana seguinte, aceitei. Ele conhecia toda a
gente
 na cidade e isso poderia ser-me til.
 - Est bem, telefone-me.
 Entrei no meu quarto - o telefone comeou a tocar no momento em que abri a porta.
 - Onde  que tem estado? - perguntou Top Hat.
 - Andei a passear com o toureiro. Falei consigo esta manh.
 - Isso foi ao raiar da aurora, minha querida. Como  que
 conheceu Belmonte?
 Contei-lhe o que se passara.
 - Delicioso! - exclamou Top Hat. - Logo que a vi apercebi-me de que voc era a americana 
mais refrescante que eu
 j conhecera. - Fez uma pausa e depois continuou: - A propsito, tenho algo para si. Quer 
jantar comigo na segunda-feira? E guarde-me um chocolate, sim? Adoro chocolates.



Captulo 10

 O letreiro escrito sobre um tosco pedao de carto, dizia: No
funciona. O letreiro, como as paredes com marcas de balas de
muitos edifcios, faziam-me lembrar que me encontrava num
pas a recompor-se da guerra e que muitas coisas no funcionavam. Subi os delapidados 
degraus de mrmore at ao segundo andar, onde um letreiro por cima da porta dizia: oIL
MISSION OF THE UNITED STATES OF AMERICA. Uma mulher conduziu-me ao 
escritrio de Walter Smith, que, segundo me fora
dito em Washington, era o verdadeiro representante da Oil
Mission e no fazia parte das nossas operaes OSS. Ele conduziu-me amavlmente por 
outra escada e bateu a uma porta.
Uma trovejante voz masculina disse-nos para entrar.
 Atrs de uma secretria estava sentado um homem gigantesco. Levantou-se e pareceu-me 
ainda maior. Estendeu-me a mo .
 - Miss Griffith, tenho estado  sua espera.
 Retribuiu o meu sorriso de modo fugidio, com formalidade.
Era um homem anguloso, de ossos grandes e rosto duro. Tinha
olhos castanho-escuros, quase pretos, e abundante cabelo
escuro.
 - Sou Phillip Harris. Faa favor de se sentar.
 Sentei-me na nica cadeira existente na sala. As persianas
fechadas no deixavam chegar at ns o sol e os rudos da rua.
 Phillip deixou-se cair pesadamente sobre o assento da cadeira.
 Depois, sem mais prembulos, evitando fitar-me, comeou a
falar em voz baixa e controlada, indo directamente ao assunto.
 - Felizmente que se encontra aqui. Tenho trabalhado para
vrias pessoas como voc. Temos falta de pessoal desde que um agente triplo queimou 
metade do nosso grupo - e o embaixador tem feito o possvel por nos dificultar a escolha de
recrutas. Esse malvado agente trabalhava para os espanhis,
para os alemes e para ns ao mesmo tempo. Quando comeou a aparecer por a com um 
carro novo e com uma amante
cara, percebemos que no era com o dinheiro que lhe pagvamos que podia ter tudo isso. 
Nunca se  demasiado cuidadoso.
Lembre-se disso.
 O corpanzil de Phillip fazia ranger a cadeira. Sentado, com
os braos cruzados sobre o peito, ele fazia com que os objectos
que se encontravam na sala parecessem minsculos. Poderia
aquele homem caminhar por uma rua sem dar nas vistas?
 - Ns temos apenas uns doze agentes treinados em toda a
Espanha. Os alemes possuem centenas deles. Isso pode dar-lhe uma ideia daquilo que 
temos de enfrentar. - Mudou de
posio e eu julguei que a cadeira se ia partir.
 - O seu encontro com Top Hat decorreu conforme foi planeado?
 - Sim. Jantmos os dois.
 - Isso  bom. Lembre-se que em Madrid s eu conheo a
Operao Tourada. Voc ser o contacto entre Top Hat e eu.
Alm disso, ele trabalhar consigo sempre que for conveniente,
mas tem de levar em conta que ele tem outra misso. No se
devem fazer confidncias desnecessrias. Todas as informaes devero ser-me 
transmitidas a mim. S eu reno as peas
do puzzle. No h tempo a perder. A Operao Anvil deve
comear cerca de uma semana depois da Overlord, que pode
ocorrer em qualquer altura.
 Continuava a falar sem me olhar. Fitava um lpis amarelo
que fazia rolar entre as mos. - O xito da invaso do Sul
depende principalmente das informaes do OSS de Madrid.
Algumas das nossas informaes sobre os movimentos de tropas alems so trazidas para 
aqui por agentes que vm do
outro lado dos Pirenus. Tambm recebemos relatrios por
meio da rdio. Os nossos transmissores, embora pequenos, alcanam Madrid. Transmitimos 
para a sede.  daqui - deixou
cair o lpis e bateu com o punho sobre a mesa - que a Operao Anvil ser assegurada. - 
Ergueu os olhos. - Miss Grif
fith, se no seguir rigorosamente as ordens, poder ser responsvel por centenas, ou 
milhares, de mortes de soldados americanos. - A brusquido e a magnitude daquela 
afirmao, o tom que ele utilizou, fez com que o silncio que se seguiu fosse
to intimidativo como as suas palavras. No me atrevi a falar.
Ele pegou nuns papis. - Leia estes relatrios e tente decor-los.
 A primeira folha dizia respeito a Ramn Serrano-Sunher.
O pargrafo era curto.

 Ramn Serrano-Sunher, cunhado de Franco, ex-ministro,
amigo de Hitler, Himmler, Goering e da maior parte dos oficiais de alta patente da 
Alemanha. Correm boatos de que
Franco o demitiu do seu lugar de ministro por causa dos seus
esforos para que a Espanha entrasse na guerra ao lado do
Eixo.
 Prncipe Nikolaus Lilienthal, cidado checoslovaco at
1925, utilizou mais tarde um passaporte diplomtico alemo.
Activo no movimento nazi nos Sudetas na Checoslovquia
durante o perodo de Munique de 1938-1939. Desde ento, em
ntimo contacto com Berlim, particularmente com Himmler e
Goering. Procura actualmente transferir o capital dos seus
amigos alemes do grupo de Hermann Goering da Alemanha
para a Espanha.  obrigado a retribuir a assistncia econmica
recebida de Himmler, prestando-lhe servios polticos em cooperao com a Gestapo. As 
autoridades de Berlim do grande
valor a Lilienthal devido  sua alta posio social e relaes
influentes em Espanha. A atitude que ele adopta em Espanha
 a de se apresentar como um antinazi e monrquico, cuja
nica preocupao  o perigo comunista vindo de Moscovo.
 Condessa von Firstenberg, residente no Palace Hotel de
Madrid, recentemente chegada de Berlim, est em contacto
com Walter Schellenberg, oficial da Gestapo, favorito de Himmler. No tem meios de vida 
conhecidos em Madrid, alm de
uma possvel assistncia da Gestapo.
 Franz ou Hans Lazaar, adido de imprensa da embaixada
alem em Madrid, actualmente responsvel por um trabalho
eficaz com os correspondentes espanhis.
 Quando ergui os olhos vi que Phillip Harris me observava.
 - Posso pedir a Top Hat mais informaes a respeito destas
pessoas? - perguntei.
 - Sim, mas no quero que ele se envolva muito com qualquer destes suspeitos. Ele no  o 
tipo de pessoa que possa desempenhar o papel que temos em mente para si. Ele  ptimo 
num crculo diferente, mas poder introduzi-la nos meios
onde travar conhecimento com essas pessoas. Mas depois
ter de progredir sozinha.
 Pegou nos papis que eu colocara sobre a mesa e guardou-os
numa gaveta.
 - Obviamente no lhe poderei dizer tudo agora, mas asseguro-lhe que a sua misso se ir 
tornando mais importante 
medida que avance.
 Portanto, aquilo ia ser a preparao para algo mais importante. Que seria?
 - As suas outras obrigaes, Miss Griffith, sero variadas.
Acima de tudo, deve proteger a sua cobertura. No o fazendo
por em risco todos os outros. Isso significa que deve permanecer no escritrio durante as 
horas normais do seu funcionamento. Tem de dar a impresso de ser um membro autntico
da Oil Mission. Mantenha-se afastada do pessoal da embaixada. No tm o seu treino em 
questes de segurana e inadvertidamente podem ser perigosos. Utilizaremos o seu 
apartamento (quando o tiver) para esconder agentes femininos que
nos tragam informaes de Frana. Aqui no escritrio trabalhar nos cdigos. Mas o seu 
principal objectivo ser descobrir
o agente especial de Himmler em Madrid. - Fez uma pausa.
Esperei que ele me encorajasse a fazer perguntas. Tinha uma
centena delas para lhe fazer.
 - Utilize o telefone com cuidado. Equipamento para registar conversas no existe, e, 
mesmo que o inimigo o tivesse, os
rudos e as interferncias constantes tornariam impossvel a
gravao. No corra riscos desnecessrios. H outro assunto,
Miss Griffith, sobre o qual devemos falar. - Endireitou-se na
cadeira e comeou novamente a brincar com o seu lpis. -
 mais leve indicao de que se est a deixar envolver num
caso romntico ser imediatamente enviada para Washington.
Ontem mesmo, em Lisboa, uma agente membro do nosso pessoal suicidou-se. Tinha 
infringido as regras, mantendo um
caso amoroso com um subagente portugus que transmitiu ao
inimigo informaes que ela lhe dera sem se aperceber disso.
No conhecemos ainda a extenso dos danos causados, mas
sabe como  que ela se matou? - Mais uma vez no me deu
tempo para responder. - Meteu a cabea no forno do fogo e
ligou o gs. Uma trapalhada, no acha? Outra coisa que no poder esquecer  que os 
crculos sociais onde se dever mover
nunca admitiro uma americana desconhecida cuja reputao
no seja impecvel. Estamos em Espanha, no nos Estados
Unidos.
 Corei, em parte de indignao.
 - No precisa de se preocupar, Mister Harris.
 Ele abriu uma gaveta da secretria, entregando-me uma pequena Beretta 25.
 - Sugiro-lhe que se habitue a andar sempre com isto. -
Abri a mala e guardei a arma, com que j me familiarizara. -
No esquea as munies - acrescentou Harris. Ao entregar-me a pequena caixa, levantou-
se. Percebi de que a nossa reunio estava terminada e agradeci-lhe, voltando-me para sair.
 No posso imaginar qual era a minha expresso ao fechar a
porta. Fosse qual fosse, o rapaz que ia ao meu encontro soltou
uma gargalhada.
 - Ol, Aline. Eu sou Jeff Walters. Bem-vinda a Madrid.
 Apertmos as mos. Jeff tinha um rosto sorridente e simptico e conversmos 
descontraidamente enquanto caminhvamos pelo corredor. A sala onde entrmos estava 
mobilada com
duas grandes secretrias com quadros de cdigo. Jeff tornou-se
imediatamente meu amigo, contando-me tudo a respeito dos
meus colegas. Segundo ele dizia, toda a gente ali no escritrio
era afvel e de fcil convvio - excepto o chefe. Phillip
Harris
- nome de cdigo Mozart - vigiava toda a gente como um
falco, e qualquer afrouxamento nos regulamentos de segurana era severamente 
condenado. Jeff confessou-me tambm que andava fascinado por uma bonita rapariga, filha 
do
cnsul sueco. Continuou, informando-me de que todos os homens que ali trabalhavam eram 
casados, mas, que visto as
mulheres no terem sido autorizadas a acompanh-los, muitos
aproveitavam a sua liberdade para andarem em companhia de
belos modelos espanhis e de bailarinas das comdias musicais.
 - Chamam a isto o comboio suculento , o que estava
certo at um dos nossos agentes ter sido morto. Durante os
cinco meses da minha permanncia aqui, um dos nossos subagentes apareceu morto com 
um arame enrolado  volta do pescoo e um antigo operador de rdio foi torturado de uma 
maneira que no lhe posso contar.
 Tentei dar a Jeff a impresso de que no ficara especialmente intimidada. Encolhi os 
ombros e voltei-me para o trabalho que se encontrava sobre a minha secretria. Mas a 
verdade
 que me estava a lembrar do punhal enterrado nas costas do
agente estendido no cho do corredor do casino e do sangue
que ensopava a carpete vermelha, e senti-me tremer por dentro. Teria de me habituar a 
coisas daquelas, que, pelos vistos,
iam ser rotina.
 No centro da secretria estava um papel contendo as agora
familiares palavras de cdigo com cinco letras.
 - Experimente esse primeiro - disse Jeff - Eu descodifiquei-o no fim-de-semana, mas antes 
de iniciar o trabalho de
hoje quero ver se precisa de ajuda. - Sorriu. - No se ofenda.
Washington informou-nos de que  excelente nisso, mas no
sei se aprendeu com o mesmo gnero de quadros.
 O carto, com cerca de sete polegadas de altura e doze de
largura, encontrava-se na minha frente e fazia lembrar uma
grande fotografia. Batendo na placa de letras do alfabeto, respondi:
 - No se preocupe. O quadro  maior do que o que utilizava nas minhas aulas, mas isso 
torna-o mais fcil.
 A mensagem vinha de Lisboa. Jeff continuou a fornecer-me
informaes gerais enquanto eu descodificava.
 - Os escritrios da embaixada ficam a quatro quarteires
de distncia da Calle Miguel Angel, mas ns tentamos evit-los... - Subitamente deixei de 
o ouvir. A informao do telegrama absorvia toda a minha ateno.
PARA MOZART DE ZEBRA STOP SUBAGENTE SOCRATES APANHADO A
VENDER INFORMAES AO EIXO STOP SOCRATES FOI ELIMINADO
STOP
 - Que se passa? - perguntou Jeff - Est a ter dificuldades?
 - No, a descodificao  fcil, mas creio que este telegrama se refere a um homem que foi 
assassinado quando eu me
encontrava no Casino do Estoril.
 - Nunca o saberemos. Mozart diz-nos apenas aquilo que 
indispensvel.
 O cadver que eu vira tinha, ento, um nome de cdigo.
Socrates. Seria tambm ele o amante da rapariga a que Mozart se referira?
Os vestgios eram subtis, mas no o bastante. O meu quarto
fora revistado com preciso. Felizmente eu preparara armadilhas, um foi aqui e ali, 
inspirada apenas na minha aprendizagem, mas tambm pelos japoneses que tinham viajado 
comigo 
no pequeno elevador do hotel e que tinham sado tambm no
mesmo andar. No restavam dvidas de que em breve teria de
arranjar um apartamento. 
 Edmundo telefonou.
 - Oua, minha querida. V ter comigo ao vestbulo s 
vinte e trs horas. Calce os seus sapatos para danar. Vamos a um nightclub.
 Tive a certeza de que a noite seria destinada ao trabalho, 
mas esqueci-me de perguntar se a tardia hora indicava que
devia jantar antes. As horas espanholas iam tornar dificil o
meu descanso. Por isso resolvi deitar-me durante duas horas 
em vez de mandar servir o jantar no quarto. Top Hat riu 
gargalhada quando, mais tarde, lhe contei o meu dilema.
- S um brbaro come antes das vinte e trs horas em Madrid, minha cara. Jantaremos no 
stio onde vamos. Nenhum restaurante, bom ou mau, servir antes das vinte e duas horas
e os clubes nocturnos servem muito mais tarde.
 Subimos a Gran Va de txi.
 - Edmundo, o meu quarto foi revistado. Quem poder ter
sido o responsvel: a polcia secreta de Franco, os japoneses
ou os alemes?
 - Podiam ter sido os americanos - respondeu com um risinho.
 Top Hat pareceu-me cheio de excitao, mas no me revelou qual os objectivos da nossa 
sada.
 Na Gran Va passmos por uma porta coberta por um dossel, descemos uma escada 
alcatifada a vermelho e entrmos
numa sala cheia de ostentao. O Pasapoga rivalizava com o
Wonder Bar em fascnio. Bronzes reluzentes reflectiam-se nas
paredes de espelhos, colunas de mrmore, candelabros cristalinos. Uma orquestra tocava 
msica de Gu Lombardo.
 - No  maravilhoso? - perguntou Edmundo, sorridente.
- To vistoso, to barroco. O local preferido pelos espanhis
para trazerem as suas amantes.
 A cada passo sorria e cumprimentava qualquer pessoa, gozando o seu papel de homem 
mundano. Depois de nos termos
sentado e de Edmundo ter encomendado qualquer coisa para comermos, a orquestra fez um 
intervalo e o chefe aproximou-se
da nossa mesa. Edmundo apresentou-o.
 - Aline, quero que conhea Ren Blum. - Baixou a voz.
- Ren  francs e veio h um ano de Paris, escapando por
pouco  Gestapo. Graas aos seus esforos, ajudamos muitos
judeus a fugir para Espanha.
 O msico sentou-se a meu lado. Gostei dele logo que vi o seu
rosto redondo, sorridente.
 - Voc ser o meu contacto com Ren quando eu estiver
fora da cidade, Aline. Ele  o meu melhor agente.
 Blum sorriu.
 - Edmundo exagera. Qualquer pessoa na minha posio
poderia dar informaes sobre estrangeiros em Madrid. Todos
eles aqui vm. Muitos embriagam-se e revelam assuntos confidenciais. Limito-me 
meramente a transmitir aquilo que ouo e vejo e, naturalmente, estou em contacto com os 
meus amigos
judeus que ainda esto em Frana. Trabalhamos todos em
conjunto para os tirar de l.
 Quando os criados se afastaram, Top Hat tratou de fazer
com que eu pudesse contactar Ren quando ele estivesse a viajar ou durante qualquer 
emergncia. Depois de termos trocado
os nossos nmeros de telefone e indicado as horas mais apropriadas para telefonar, Ren 
voltou para junto da sua orquestra.
 - Edmundo, Mozart sabe que eu entrei em contacto com
este homem?
 - Pode ficar descansada que nenhum de ns pode utilizar
um subagente ou apresent-lo a algum do OSS sem autorizao prvia. Mozart mete o 
nariz em tudo. Blum  de inteira
confiana. Metade da famlia dele foi feita prisioneira pelos
alemes. No se preocupe. Ele nunca por em perigo a sua
cobertura.
 Os pares comeavam a dirigir-se para a pista de dana e os
criados continuavam a passar com copos em tabuleiros de prata. Ouviam-se gargalhadas e 
vozes por toda a sala. De repente
Edmundo ps-me uma mo no brao e disse:
 - Precisamos de danar, Aline.  absolutamente necessrio.
 Conduzindo-me para a pista de dana, Top Hat guiou-me
nos passos de um complicado tango. Fiz o possvel por seguir
os seus passos sinuosos; ele fazia-me rodopiar, baixava-me nos seus braos, erguia-me e 
subitamente obrigava-me a fazer uma
pirueta. Ter-me-ia sentido completamente pateta se no fosse
a graa e o total controlo dos seus movimentos. Outra pirueta
e depois... um choque. Tinha batido noutro danarino e voltei-me rapidamente para pedir 
desculpa.
 Bem constitudo, de cabelos claros, com um brao ao peito e
uma cicatriz em forma de foice junto de um dos olhos - estava
face a face com Constantin von Weiderstock! Atordoado
durante um momento, ele no deixou, no entanto, de se inclinar.
 - A culpa  inteiramente minha, senhorita. Na minha situao no tenho o direito de me 
encontrar numa pista de dana.
- Enquanto conduzia o seu par para fora da pista, Von Weiderstock voltou-se mais uma vez 
para me olhar. Edmundo piscou um olho e fez-me girar novamente nos seus braos.
 - Ele julga-a espanhola. Provavelmente falaria muito melhor em ingls. Todos os alemes 
o falam. Voc parece espanhola.  uma vantagem. Integra-se bem neste ambiente.
Agora ter uma desculpa para lhe falar da prxima vez que o
vir e eu aposto que ele far tudo para arranjar essa oportunidade.
 Teria Edmundo feito com que eu chocasse com o afilhado de
Canaris para sua prpria convenincia? Canaris podia ser uma
figura-chave na misso de Edmundo. Olhei para a orquestra.
Ren Blum agitava a sua batuta com gestos animados e precisos, como se o compasso 
fosse a sua nica preocupao.
 Quando Edmundo me conduziu para fora da pista de 
dana, passmos por uma mesa onde um grupo de pessoas
pedia autgrafos. Juanito levantou-se de um salto e, apesar de
estar a uma certa distncia, inclinou-se profundamente.
 Sorri e Edmundo murmurou baixinho:
 - Minha querida Aline, tem de me apresentar ao grande Belmonte.
 E avanmos por entre o grupo de admiradores do toureiro, 
at que eu e Juanito ficmos frente a frente.
 -  um prazer v-la, Aline - disse Belmonte com o seu
habitual formalismo.
 -Juan, gostaria de lhe apresentar Edmundo Lassalle. -
Ansiosa por evitar o grupo que nos fitava, acrescentei: - Foi
bom encontr-lo, Juan -, e voltei-me para me afastar. Tarde
de mais, claro, pois Edmundo conhecia vrias das admiradoras de Belmonte e comeou a 
cumpriment-las com grande
profuso de beijos e abraos. Juanito observava-me, de sobrolho franzido, o que acentuava 
o seu nariz ligeiramente adunco
e tornava a sua pele trigueira um pouco mais plida. Tentava
descobrir por que razo estaria ele to obviamente aborrecido.
No levei muito tempo a descobri-lo.
 - No aprovo este seu admirador, Aline. Se fosse um cavalheiro, nunca a traria a um stio 
destes.



Captulo 11

 Como prometera, Top Hat levou-me  recepo da marquesa de Torrejn cerca de uma 
semana depois. Dessa vez foi buscar-me s 21 e 30. Na Calle Ferraz, em frente de um 
palcio de
granito ainda com as marcas das balas deixadas pela guerra
civil, Edmundo bateu energicamente as mos, enquanto olhava para os dois lados da rua.
 - Onde estar o sereno? - perguntou. - Devia estar aqui
 espera, visto estar a decorrer uma festa to importante.
 - Quem  o sereno? - perguntei.
 - O homem que abre as portas das casas desta rea
durante a noite. Os serenos formam uma parte importante da
vida nocturna desta cidade. As pessoas so observadas pelos
porteros durante o dia, mas os serenos protegem os edifcios
durante a noite. - Enquanto ele falava, ouvia-se um rudo de
uma bengala a bater no pavimento da rua. - Ah, l vem ele
- disse Edmundo.
 Do escuro saiu um vulto que vestia umas calas largas,
um casaco at  altura do joelho e uma bufanda de l embrulhada  volta da boca e do 
pescoo. Trazia tambm um
bon escuro inclinado para os olhos. Apressou-se a escolher uma grande chave de ferro do 
molho que trazia preso
 cintura, mostrando ao mesmo tempo o basto de polcia que
tinha debaixo do brao e dizendo com voz forte: Buenas
noches, senhores.  A pesada porta com barras de ferro foi
aberta.
 - Este  um dos poucos grandes palcios que sobreviveram
ao cerco de Madrid - explicou Top Hat enquanto subamos
as escadas. - O cerco durou quase trs anos.
 No enorme salo, velhas tapearias desbotadas cercavam os homens, que envergavam 
trajes de cerimnia, e as mulheres,
que, cobertas de jias, vestiam Balenciagas escuros.
 - A propsito, a me da marquesa era mexicana. Uma
compatriota - confidenciou Edmundo.
 - Meu caro - disse, voltando-me para ele e imitando-o. -
E eu que julgava que o senhor fosse um grande de Espanha.
 - Sou um grande do Mxico - retorquiu ele. - Pelo lado
da minha me descendo de Corts; pelo lado do meu pai de
Montezuma. Agora conhece o meu segredo, o mistrio do meu
sangue selvagem:  o asteca que h em mim. Lembre-me um
dia de lhe mostrar as minhas tatuagens tribais.
 - Voc  to modesto...
 - Minha querida - retorquiu Edmundo -, como dizia La
Roehefoucauld: A humildade  a pior forma de vaidade. 
 A cada passo, Edmundo parava para beijar a mo, ou dar
uma palmada nas costas, ou um abrao. Apresentou-me ao
duque e  duquesa de Lerma, a Marcela de Juan - uma beldade chinesa -, ao prelado francs 
Monsenhor Boer-Mas,
com a sua faixa vermelha em volta da sotaina negra,  bela
condessa de ebes. Quando me apresentou  condessa de Orgaz, fez uma pausa, dizendo:
 - O mais famoso quadro de El Greco representa o funeral
de um antepassado desta senhora, no sculo dezasseis. Venha
- disse pouco depois Edmundo, conduzindo-me atravs da
sala apinhada para ir ver um Goa. - Observe a dama daquele retrato. - Eu obedeci. - Agora 
venha comigo.
 Levou-me para o meio de um grupo de convidados que rodeava uma mulher cuja 
identidade eu descobri imediatamente. A sua semelhana com o retrato da sua antepassada
era bem visvel.
 - Mimosa  a raposa mais astuta de Madrid - confidenciou-me Edmundo. - Nada do que se 
passa nesta cidade escapa aos olhos dela.
 - Edmundo, seu pcaro. Onde  que tem andado metido?
- A marquesa de Torrejn (uma criatura pequena, frgil,
com cabelo pintado de castanho, duas manchas de rouge nas
faces e vrias fadas de prolas luminosas em redor do pescoo
magro) viu Edmundo e fitou-o com o seu olhar penetrante
quando nos acercmos do seu crculo. - Blanca Velaos est
furiosa consigo por no ter aparecido na festa dela. - S ento
a marquesa pareceu dar pela minha presena. Beijando a mo coberta de anis que ela lhe 
estendia, Edmundo fez as apresentaes.
 - Que encanto ter uma rapariga americana entre ns!
Gosto imenso dos americanos. Tm, como se diz?, spunk. - A marquesa falava um ingls 
impecvel, com uma pronncia
nitidamente britnica. - H aqui muitos jovens que ficaro
encantados por a conhecerem, minha querida.
 Depois a marquesa apresentou-me ao grupo que a rodeava
- o ministro dos Estrangeiros, Lequerica; uma linda mulher
loura, a duquesa de Sueca; a princesa Agata Ratibor; o embaixador ingls, Sir Samuel 
Hoare, e a mulher.
 O mobilirio era Lus XVI misturado com o ingls Queen
Anne. Por cima de uma imensa lareira apagada via-se um retrato de Donha Mimosa com 
um vestido de chifTon florido e pequenos sapatos de cetim de biqueiras pontiagudas, numa
poca em que o seu cabelo castanho ainda no era pintado.
 Mesmo em frente da marquesa havia uma mesa de jogo
dourada, sobre a superfcie da qual ela batia com um pequeno
baralho de cartas. De repente ela disse:
 - Edmundo, isto  terrvel. Hoje quase pus os meus amigos
a dormir com a minha leitura das cartas. Mas, pergunto, a
culpa  minha? Eu sou apenas um meio. As cartas falam por si
prprias. Ser minha a culpa sej no h nada de novo a dizer
sobre as pessoas que aqui se encontram? - A observao de
Mimosa suscitou vrios gestos de apreo. Encorajada, ela
prosseguiu: -  realmente uma pena. Gostaria de facto de lhe
ler as cartas, mas claro que  impossvel no meio de tanta
gente. As prprias cartas corariam. - A marquesa estava encantada. Toda ela parecia 
faiscar.
 Edmundo, sentindo-se no seu elemento, no se deixou ficar
para trs.
 - Minha querida Mimosa, lisonjeia-me, mas a verdade 
que as suas interessantes leituras das cartas devem certamente
grande do seu sucesso s maquinaes da sua viva imaginao.
 Os olhos cheios de vivacidade da marquesa pousaram-se
uma vez mais sobre mim. Coou ao de leve as faces muito
vermelhas.
 - Gostaria de lhe fazer uma leitura, Miss Griffith. Tenho a
impresso de que as cartas tm algo de especial para lhe dizer.
Que maravilhoso. Uma estranha absoluta. - O entusiasmo
dela provocou murmrios de apoio da parte do seu grupo.
Voltando-se para mim, Edmundo disse em voz alta:
 - O que  que eu lhe disse? Ela no  divina?
 Sorri, mas teria preferido no ser to cedo o centro das
atenes.
 - Dem-lhe espao - ordenou a marquesa. - Venha sentar-se ao p de mim. Qual  o seu 
nome, minha filha? Aline?
Sente-se aqui.
 O embaixador ingls levantou-se. A princesa Ratibor abriu
um leque de seda e agitou-o.
 - Mimosa faz tudo para que as suas festas sejam as mais
divertidas.
 Edmundo sentou-se junto dela, resplandecente de satisfao.
 O ministro Lequerica observou:
 - Tenha cuidado, senhorita. A marquesa  uma feiticeira.
L os nossos pensamentos como se fossem os dela.
 Reparei que outras pessoas se tinham aproximado. Que podia eu fazer? A antecipao era 
como uma corrente de ar. Seria
obrigada a sentar-me apertada entre a marquesa e a condessa
de ebes?
 Nunca vira tais cartas. Eram numeradas mas decoradas
com trajes cheios de enfeites, desenhos de taas de ouro ou de
cavaleiros do sculo xv. A marquesa comeou a baralhar as
cartas, colocando-as, uma a uma, voltadas para cima, sobre a
mesa de jogo. Pares passeavam de um lado para o outro, os
criados transportavam grandes tabuleiros com canaps e de
outra sala partia o som de um piano e de vozes que cantavam.
 Os olhos da marquesa pareciam fixos, vtreos.
 - Bem, todos sabem que  a primeira vez que vejo esta
rapariga. Tudo quanto sei a seu respeito, Aline,  que  conhecida de Edmundo e que  
americana. Nada mais, no  verdade?
 Respondi que sim com a cabea. Havia pessoas na sala que
conversavam entre si, mas a maior parte delas estava interessada nas cartas. A marquesa 
tirara uma carta com um nove,
outra com um cinco e uma ltima com um sete e estudava-as
como se elas lhe estivessem a fazer revelaes. Depois falou:
 - Vejo que se vai tornar famosa nesta cidade, minha filha.
Por uma razo ou outra, correr perigo. Ah, e vejo que no
regressar ao seu pas durante muitos anos.
 Apesar de eu no acreditar na leitura das cartas, as palavras dela eram to dramticas que, 
como todos os que ali se encontravam, a ouvi atentamente.
 Os olhos dela fitaram-me.
 - Deverei continuar?
 Disse que sim com a cabea. Houve murmrios de aprovao. Olhei para Edmundo. Os 
seus olhos um pouco oblquos
estavam colados s cartas. A princesa murmurou-lhe qualquer
coisa ao ouvido. A marquesa tirou mais trs cartas - um seis,
um duque e um cinco.
 - Ah, isto  srio - disse. - As cartas indicam que se
vai ver envolvida numa conspirao internacional. - Olhou
para mim.- Tem a certeza de que quer que eu continue,
querida?
 - Pode continuar. - Sorri. Ocorreu-me a possibilidade de
as palavras dela poderem ter um significado para qualquer
outra pessoa. Olhei  minha volta. A maior parte das pessoas
que se encontravam em redor da mesa observavam a marquesa, mas Edmundo e a princesa 
Ratibor pareciam concentrar-se
nas cartas mais do que quaisquer outros. Ou seria imaginao
minha? De cada vez ela apenas tirava trs nmeros. Isso costumava ser um sinal em 
nmeros de cdigo...
 Donha Mimosa baralhou novamente as cartas e tirou mais
trs. Depois passou pelos cabelos pintados a mo ossuda, coberta de anis.
 - Existe algum cujo bem-estar a preocupa, e com razo.
A vida dessa pessoa corre perigo. - Olhou-me de relance. -
Desculpe, minha querida, mas eu estou apenas a interpretar as
cartas. - Tirou outras trs. Reparei nos nmeros. Estaria ela
a bater na segunda carta com a sua comprida unha por uma
questo de nervosismo, ou para chamar a ateno de algum?
Eu conhecia uma diversidade de cdigos com base em nmeros em vez de letras. Era 
possvel. Virou mais trs cartas.
- Intriga e aventura.
 - Que espcie de intriga? - perguntou o embaixador ingls, de p, junto de mim. - Disse-
me a mesma coisa h
tempo.
 - E a mim - exclamou a duquesa de Sueca, inclinada sobre as costas da cadeira de 
Edmundo.
 - Como todos sabem, eu sou apenas uma intrprete - respondeu a marquesa, voltando-se. - 
Se quiserem, desisto do
jogo. Estou a comear a aborrecer-me dele.
- No - retorquiu a princesa. - Se as cartas dizem mais
coisas, queremos saber.
 Dessa vez, ao debruar-se sobre a ltima carta, a marquesa
suspirou:
 - Oh, no, no posso prosseguir, minha filha! - Tocou-me
num brao. - Devo ter-me enganado a deitar as cartas. Elas
revelam foras do mal em torno de algum em quem voc est
interessada, Aline. - Fez uma pausa. - Oh, espero que no
se trata de um interesse pessoal. - O seu dedo ossudo bateu
novamente na primeira carta antes de ela a apanhar e a juntar
ao baralho. - No, no leio mais cartas esta noite. Perdi
o jeito.
 - De maneira nenhuma - disse Edmundo. - Isto est
mais divertido do que nunca. Continue, Mimosa.
 A marquesa prosseguiu. Mais trs cartas. Franziu o sobrolho e passou a lngua pelos lbios 
finos. Os dedos de unhas
vermelhas seguraram as prolas.
 -  estranho - murmurou. - s vezes a claridade surge
muito depressa. Mas logo a seguir (puff!) desaparece. As cartas mostram-se obscuras. No 
consigo entend-las. - Enrugou a testa, confusa. - O que estou a ver no  nada relacionado 
com Aline Griffith.
 - Diga o que v - ordenou o embaixador.
 - Vejo uma tourada - replicou Mimosa. - Oh, como so
aterradoras todas estas cartas pretas: uma morte por assassnio. - Pegou apressadamente nas 
cartas. - Lamento, Aline.
Espero no a ter assustado com esta pequena distraco.
 Levantei-me.
 - Oh, no, de maneira nenhuma. At gostei.
 A condessa de ebes interveio.
 -  a minha vez, Mimosa. Quero saber o meu futuro. Espero que seja mais divertido do que 
o meu passado.
 Tinha agora a certeza de que havia uma mensagem nas cartas dela. Os nmeros eram um 
cdigo. Mas as suas palavras a
respeito de uma conspirao internacional e de um crime fizeram-me pensar se ela teria 
conhecimento a respeito da minha misso. Impossvel, decidi. De qualquer forma, 
interrogaria Edmundo logo que pudesse. Onde estaria ele?
 Passei por vrios sales, procurando-o. Ele parecia ter
desaparecido. Depois cheguei  sala onde se tocava a msica que
eu ouvira. Uma dzia de jovens reunia-se em volta de um piano. Uma rapariga bonita 
tocava e duas outras cantavam. Os seus esforos concertados eram encantadores. Aps 
alguns minutos,
senti uma presena a meu lado. Era Edmundo.
 - Repare nessas trs raparigas. Tente travar amizade com
elas. Depois lhe explico porqu. Venho daqui a meia hora para
a levar para jantar. - E desapareceu sem fazer rudo.
 Aproximei-me ento do piano e comecei a cantar, suavemente, em coro com as duas 
raparigas, que entoavam Good
Night Sweetheart. Elas sorriram, encorajando-me. Os seus
rostos bonitos eram de um oval perfeito e cantavam com uma
naturalidade encantadora. Acabada a cano, apresentmo-nos. Quando Casilda, a pianista, 
descobriu que eu era americana, exclamou:
 - conheo outra cano americana! Tem de a cantar comigo !
 Antes que eu pudesse protestar, comeou a tocar com todo o
entusiasmo It Had to Be ou. Eu conhecia a cano e cantei-a
o melhor que pude.
 Tinhas de ser tu.
 Tinhas de ser tu.
 Procurei e, finalmente, encontrei algum que
 Me pudesse fazer sentir verdadeira e me pudesse
 Fazer sentir melanclica...
 Ou at ficar satisfeita,
 Mesmo por estar triste,
 Pensando em ti.
 Esperava estar a cantar de uma forma agradvel e melodiosa. No fim prolonguei as ltimas 
notas para causar maior
efeito.
 O grupo gostou. Carmen, Casilda e Nena abraaram-me e,
quando eu lhes disse que tinha trazido da Amrica alguns discos, convidaram-me para 
jantar com elas na semana seguinte.

 Logo que nos instalmos no txi, Edmundo perguntou:
 - No achou Mimosa encantadora? Diverti-me imenso.
 - Edmundo, tenho a certeza de que com aqueles nmeros
ela estava a transmitir uma mensagem a algum.
 - Claro que sim. Ela  brilhante.  um grande auxlio.
 - O que  que quer dizer?
Os olhos pretos de Edmundo brilharam.
 - A mensagem era para mim. Recorda-se dos nmeros das
cartas?
 - No me apercebi disso antes de ela comear a ler a segunda srie de cartas. Mas 
ningum poderia decifrar um cdigo daqueles a no ser a pessoa a quem ele se destine. 
Voc
sabe-o perfeitamente. Como  que funciona?
 - A segunda carta era sempre a indicao. Um cinco, um
duque e um s. Depois repetia-se.
 - E ento?
 Edmundo sorriu maliciosamente.
 - A marquesa tem feito uns trabalhinhos para mim. Uma
coisa aqui e ali. E a verdade  que conseguiu valiosas informaes. - Depois de ter excitado 
a minha curiosidade, Edmundo bocejou despreocupadamente.
 - No me torture. Continue.
 Retirou um sobrescrito de um bolso interior do smoking e
meteu-o dentro da minha bolsa, junto do revlver.
 - Entregue isso a Mozart.
 - Diga-me o que a marquesa lhe transmitiu.
 - Minha querida Aline - retorquiu Edmundo, sempre a
sorrir -,  isso que me agrada em si.  to impaciente como
eu. Haver por acaso sangue ndio na sua famlia? Iria jurar
que h algo em si que indica tal genealogia.
 - Edmundo! - exclamei, exasperada. Era exactamente isso que ele desejava.
 Em seguida fitou-me com ar grave.
 - A marquesa descobriu um rumor de uma conspirao
para assassinar uma alta personalidade. Uma coisa a ser realizada aqui em Madrid.
 - E sabe de quem se trata?
 - Ainda no. E possivelmente tambm ela no o sabe.
 - Ento quando?
 - Foi isso exactamente o que eu descobri hoje. Dois, um,
cinco. Vinte e um de Maio. - Tirando uma pequena agenda,
examinou-a. - Oh, estou a ver! Muito interessante.
 - Diga-me!
 -  o dia da mais importante tourada da Feira de Santo
Isidro.
 No consegui calar-me. Tive de lhe fazer a pergunta que me
ocorrera.
- Franco costuma ir a touradas? - perguntei.
 - Ah, teve uma ideia brilhante. Semelhante  minha. Sim,
o Generalssimo costuma ir s touradas, s vezes, embora no
as aprecie.
 - Se Mimosa Torrejn tivesse alguma informao sobre
uma conspirao para assassinar Franco, porque no lho
diria?
 - A ltima coisa que a marquesa faria seria avisar Franco.
No percebe que a nobreza espanhola no gosta de Franco,
porque considera que ele est a usurpar o lugar do rei? Todos
so monrquicos e gostariam de o ver desaparecer para terem
de volta o seu querido DonJuan, que se encontra no exlio, em
Lisboa. Franco no o autoriza a entrar no pas.
 - Mas onde teria ido Mimosa obter a sua informao?
 - As criadas e os criados escutam s portas. A criada dela,
Salud, tem acesso a todas as casas importantes desta cidade.
Tem mais de oitenta anos e toda a criadagem das grandes casas lhe conta os mexericos de 
que tem conhecimento.
 - Mas por que razo quereria Mimosa falar-lhe de um assunto relativo a Franco?  uma 
questo que diz respeito directamente aos espanhis e no a ns.
 - Engana-se - respondeu. - A Espanha poderia ser um
ltimo esforo de Hitler para ganhar a guerra, que no est a
correr bem para ele. Com a Espanha a lutar ao lado dos alemes, a Frana no poderia ser 
libertada. As tropas aliadas
nem sequer chegariam  Itlia. Todo o curso da guerra poderia ser alterado.
 - E quem iria Hitler colocar no lugar de Franco?
 - No sei. Algum dos generais da Diviso Azul, que so a
favor dos nazis, ou o cunhado de Franco, Serrano-Sunher, que
se diz ser germanfilo.
 Nesse momento, uma ideia atravessou-me o crebro: Jupiter, Shepardson e Mozart tinham 
dado a Edmundo a mesma
misso que a mim! Por alguma razo no confiavam nele. Algo
se estava a passar... algo que me fora ocultado.
 Olhando bem para Edmundo, perguntei:
 - A marquesa merece confiana?
 - Como j lhe disse, no confio em ningum.
 -  claro - respondi. - Nenhum de ns deve confiar em
quem quer que seja.
 Encontrvamo-nos sentados no Chipn, um restaurante barulhento na Calle Peligros, com 
paredes forradas de azulejos
rabes, recantos dos lados formados por arcos, quando Edmundo tirou um objecto do bolso. 
Um pequeno vaso de porcelana, com flores douradas pintadas  mo, to minsculas
que mais pareciam pontinhos. Colocou o bibelot sobre a mesa.
 - Onde  que arranjou isso?
 - Numa mesa da sala de Mimosa.
 - No compreendo.
 - Minha querida, Mimosa tem milhares deles. Nunca dar
pela falta deste.
 - Mas voc roubou-o, Edmundo!
 - Gosto dele, Aline. Precisava de o ter. No o acha encantador?
 Seria Edmundo um cleptomanaco? Embaraada, mudei de
assunto.
 - Por que motivo queria que eu conhecesse aquelas raparigas?
 - Porque so o gnero de raparigas que uma pessoa da sua
idade deve ter por amigas nesta cidade. A principal razo de
eu a ter levado  recepo foi precisamente para as conhecer.
Vo sempre s festas de Mimosa. E Mozart deu-me ordens 
para a ajudar a meter-se nos crculos da alta sociedade de Madrid. No h melhor maneira 
de o fazer.
 Soberbamente satisfeito consigo mesmo, Edmundo continuou a observar o pequeno vaso 
de porcelana, provavelmente
para decidir onde o havia de colocar na sua coleco.
 - Na verdade, desejei ficar com este vaso como recordao
desta noite.
 - O que  que quer dizer?
 - No viu como a princesa alem reagiu? Como  que se
costuma dizer? Tive-a literalmente a comer na minha mo.
 - Isso nada tem de invulgar.
 Ele animou-se.
 - Acha que sim? Ela possui um dos mais notveis ttulos da
Europa. No meu prximo relatrio descrev-la-ei como o ltimo agente das SS a chegar a 
Madrid.
 - Pensa ento que ela seja uma agente inimiga?
 - Oh, claro que no. Mas d uma boa histria. H anos
que esperava que uma mulher como Agata Ratibor entrasse na
minha vida.
 - No percebo.
- Uma mulher com um to grande ttulo, atraente e  procura de marido. Porque no hei-de 
ser eu?
 - J a conhecia?
 - A primeira vez que vi a princesa foi h duas semanas, no
Estoril.
 Depois de o criado nos servir a paella, arrisquei-me a lanar
uma linha.
 - Ouvi dizer que um subagente chamado Socrates foi a
assassinado.
 Edmundo comeou a comer.
 - Era meu subagente.
 - O que sucedeu?
 - O pobre diabo estava a vender segredos sobre remessas
de munies dos aliados, no s  legao alem em Lisboa,
mas tambm aos japoneses. No acha descaramento?
 - Quem o descobriu?
 Edmundo continuou a comer.
- Fui eu.
 - Foi voc? - Senti um pressentimento. 
 - Mas quem havia de ser, minha querida?
 - E o que  que fez?
 Levando o guardanapo  boca - um contraste flagrante: 
o do tecido branco contra a sua pele cor de caramelo, ele respondeu:
 - Matei-o.
 - Oh, Edmundo! - esbocei um sorriso, pensando tratar-se de uma brincadeira.
 - Lembre-se, Aline: uma pessoa capaz de trair milhares. 
Pense na multiplicao. Que outra coisa poderia fazer?
 Veio-me outra vez  memria o cabo do punhal a sair das
costas do homem estendido no cho e tive de parar de comer.
- Ficou chocada, no ? Pois bem,  bom que se prepare. Pode ser tambm obrigada a 
matar algum. No me agradou o
mtodo, mas foi silencioso. Pense nas consequncias da aco dele. O que  que preferia? 
A morte de um agente duplo ou a
morte de dez mil rapazes americanos?



Captulo 12

 Deve ter sido no comeo de Fevereiro, cerca de trs semanas
mais tarde, s nove da manh. Atravessava o vestbulo do
Palace, para ir para o trabalho. A minha ateno centrou-se
numa enorme taa de rosas brancas que adornavam uma cmoda encostada a uma parede. 
Paco, o rapaz do elevador, dissera-me que as flores chegavam, diariamente, de Alicante.
Quando entrei na porta giratria pensei se alguma vez teria
oportunidade de visitar essa cidade.
 Foi ento que o vi. O choque que senti foi to grande que
quase bati no vidro da porta que girava em sentido contrrio.
O homem mostrou-se surpreendido com a minha atitude. No
me atrevi a olhar para trs e continuei o meu caminho at
chegar  rua, ainda atordoada.
 Saltei para um txi. Logo que cheguei ao escritrio dirigi-me
para o gabinete do chefe.
 - Mister Harris, hoje, ao sair do Palace, vi um agente que
conheci na quinta com o nome de cdigo Pierre.
 - Simm. - A voz de Mozart era glacial, assim como os
seus pequenos olhos castanhos.
 - Bem, pensei que gostasse de saber que ele se encontra em
Madrid. - O que eu esperava era que Mozart me dissesse que
Pierre estava ali para trabalhar connosco.
 Remexendo-se na cadeira, Mozart anunciou calmamente:
 - Claro que sei, Miss Griffith. Tenho conhecimento de
tudo o que se relaciona com as nossas actividades neste pas.
Pierre vir a Madrid de vez em quando. Isto  mais do que
precisa saber a respeito das actividades dele.
 Lembrei-me de Edmundo ter dito que a marquesa era a
mais astuta raposa de Madrid e que no ocorria nenhuma intriga de que ela no tivesse 
conhecimento. A marquesa tinha um
rival, Mozart, o Mastermind. Gostava de a ver ler as cartas
dele. Contudo, sentia-me encantada. A fria reprimenda dera-me boas notcias. Voltaria a 
ver Pierre. Mas quando?
 - Agora falemos do seu assunto. - Teve uma tossezinha
seca. - Creio que o seu primeiro ms de trabalho foi satisfatrio.
 Concordei com um aceno. Ele sabia que eu trabalhara com
afinco na sala de cdigo. Cada telegrama era uma aventura to
absorvente que eu sentia que estava a combater numa dzia de
frentes. Durante as noites assistira a inmeros jantares e
recepes, convidada por Belmonte e tambm por Casilda  vila, a
rapariga que tocara piano em casa da marquesa.
 - Tem alguma coisa a relatar a respeito da sua misso?
 Havia um desafio implcito no seu tom de voz.
 - Tenho aqui uma lista de todas as pessoas que conheci
desde a minha chegada -, disse, entregando-lhe um sobrescrito.
 - Bom, Miss Griffith. Vejo quej fez alguns conhecimentos
teis. - Dobrou meticulosamente o papel e guardou-o numa
gaveta. - Apesar de no ser fcil arranjar um apartamento
prtico para o nosso trabalho,  urgente que arranje um. Isso
tornar mais difcil que outras pessoas sigam os seus movimentos. Alm disso, precisamos 
urgentemente de um stio onde
esconder agentes femininas que venham de Frana. A propsito; apresse-se a organizar a 
sua corrente. Precisamos de gente
para seguir os nossos suspeitos.
 - Quero falar-lhe a respeito disso, Mister Harris. Eu prpria ando a ser seguida. Isso 
comeou dois dias aps a minha
chegada.
 - Vou fazer o possvel por arranjar algum que a possa
proteger, mas perdemos a semana passada um dos nossos melhores homens.
 No resisti a perguntar:
 - Perdemos?
 - Um que foi encontrado morto debaixo da ponte na Calle
de Segovia. A coisa foi feita como se se tratasse de um suicdio,
mas sabemos que ele foi atirado. O outro desapareceu.
 Nesse momento, os meus esforos concentravam-se em manter uma indiferena igual  
dele. Mozart acendeu um cigarro.
Esperei que ele falasse.
- Costuma trazer um revlver consigo?
 - Sim.
 - No receie servir-se dele se for atacada. Se no houver
testemunhas, nada suceder e, mesmo que haja, ningum quer 
ir contar  polcia. Nenhum dos lados quer ser expulso do
pas.

 Apesar de no voltar a ver Pierre, o mero facto de saber que
ele estava perto fez-me pensar nele mais do que nunca. Sonhei
com ele vrias noites e mantinha-me alerta durante o dia.
 Finalmente encontrei um apartamento na Calle Monte Esquina, uma rua paralela  
Castellana e a curta distncia do
escritrio. Uma semana depois, a casa estava alugada. A portera era considerada segura, 
por ser membro do clandestino
Partido Comunista e por o irmo do marido ter sido recentemente libertado de Portiel, a 
priso para os activistas polticos
subversivos.
 Nunca tinha tido um quarto s para mim. Em casa partilhava um quarto com a minha irm 
ou com um meu irmo mais
novo. Na universidade tinha uma companheira de quarto.
E agora possua todo um luxuoso apartamento s para mim!
O meu salrio era generoso e com o cmbio favorvel da peseta quase tudo com que eu 
podia sonhar se encontrava ao
meu alcance. Um vestido feito na casa Balenciaga custava duzentos dlares; a renda do 
meu apartamento era de cinquenta
dlares por ms. O dinheiro deixara de ser um problema.
 O marido da minha portera estava habitualmente embriagado e irritado. Donha Antonia, a 
portera, ignorava as suas vociferaes e passava horas sentada na rua, em frente da porta,
com um seio nu de fora, a amamentar o seu gordo beb,
mesmo nas manhs mais frias.
 A minha criada, Angustias, recomendada pela criada de Jeff
Walters e considerada capaz pela CE, era alta, ossuda, tinha
cabelo preto e possua dois dentes de ouro, proeminentes, que
de certo modo indicavam que o seu estatuto social ficava
acima do da portera, a quem ela tratava com desdm. Os irmos dela tinham sido mortos 
durante a guerra civil. Um deles
encontrava-se em Madrid quando a guerra comeou e vira-se
obrigado a alistar-se com os republicanos, que controlavam a
cidade. O outro ficara em Burgos e fora forado a alistar-se nas
tropas nacionalistas, cuja sede era ali. Angustias afirmou-me que no percebera por que 
motivo houvera guerra e que no
sentia preferncia por qualquer dos lados. Quando a portera
falava contra Franco, Angustias respondia com um aceno afirmativo. Mas quando o homem 
do talho afirmava que os republicanos eram os culpados da misria crnica da Espanha, ela
concordava tambm. Angustias chamava  portera e ao marido rojos, dizendo que eles 
andavam a conspirar para provocar
outra guerra civil.
 - Eu no quero mais guerras. Sofremos muito com a ltima. Em Madrid quase morremos 
de fome. S os russos conseguiam arranjar comida. Na estao central dos correios 
penduraram um cartaz com a figura de Estaline que tinha a altura
de quatro andares e no Banco de Espanha tnhamos de ver a
fotografia de um homem careca chamado Lenine.
 Angustias disse-me tambm:
 - As criadas que trabalham para os americanos conseguem
arranjar farinha branca, acar, arroz e feijo preto, tudo o
que est racionado. Por isso a senhorita comer bem quando
conseguirmos arranjar uma cozinheira.
 - Voc no sabe cozinhar? - perguntei.
 - Oh, isso no serve para a senhorita! A senhorita precisa de
ter pelo menos duas criadas.
 Apesar de eu tentar recusar, Cecilia, a nova cozinheira,
apareceu com dois sacos de pano pretos com os haveres e uma
filha de doze anos. Quando perguntei se o marido de Cecilia
tambm fora morto na guerra, ela respondeu:
 - No, senhorita. Fugiu para o Uruguai com outra mulher, e
muita sorte tive eu em ficar s com uma filha. A minha vida
no tem sido fcil.
 A filha, magra e plida, olhava timidamente para o cho.
 - No se preocupe, senhorta - assegurou Cecilia. - Engracia come pouco e pode dormir na 
minha cama.
 Eu pensei que a criana ficaria bonita depois de ser bem
alimentada e vestida com roupas capazes.
 Todas as manhs o meu vestido, meias, lenos, sapatos e at
a carteira estavam preparados no meu quarto de vestir. Angustias aquecia a casa de banho 
enchendo uma bacia de porcelana branca com lcool e pegando-lhe fogo.
 A chama alta, azul e alaranjada, durava o tempo suficiente
para eu tomar banho e vestir-me. A dedicao dela chegava ao
ponto de passar a ferro at  meia-noite. Para isso utilizava dois grandes ferros de engomar 
que funcionavam a carvo e
que tinham uma pequena chamin por onde saa o fumo.
Certa vez, disse-lhe:
 - Oua, Angustias, aprecio as suas boas intenes, mas
no consigo dormir com o barulho desses ferros.
 Uma manh fui acordada por um rudo assustador que vinha da rua. Sentei-me na cama, 
assustada.
 - Que se passa? - gritei. 
 Angustias apareceu com as mos nas ancas, rindo com
gosto.
 - No me diga, senhorita, que nunca ouviu um burro a zurrar.
 Corri para a janela. Na rua, um pequeno burro cinzento
zurrava com todas as suas foras. O dono bem puxava por ele,
mas o animal estava decidido a no avanar.
 Sentia-me feliz na minha nova casa, habituando-me a luxos
que nunca conhecera. Continuava, no entanto, a aperceber-me
de que era seguida. Os rostos mudavam; umas vezes eram mulheres e noutras alturas 
homens. Isso no me agradava. Indicava que se tratava de profissionais. Esperava que, a 
pouco e
pouco, a rotina das horas do escritrio, que eu mantinha
escrupulosamente, os desencorajasse.
 Quando acordava, de manh, apetecia-me beliscar-me para ter a certeza de que tudo aquilo 
era verdade. A beleza da
cidade, o profundo cu azul mesmo nos dias invernosos, as
largas avenidas bordadas de rvores e as ruas estreitas e sinuosas, a delicadeza das pessoas, 
a beleza das crianas. O ritmo da cidade era apaziguante. Ningum parecia ter pressa. O 
trabalho comeava de manh cerca das 10 horas e era aliviado
por longas sestas  tarde. Os trabalhadores dos escritrios
recomeavam a trabalhar s 17 horas e continuavam at s 21 .
No havia turistas (apenas espanhis e diplomatas estrangeiros) ajantarem nos restaurantes, 
onde se comiam os melhores
mariscos da Europa - iguarias como angulas, pequenas enguias apanhadas nos esturios de 
gua fresca na costa do
Atlntico; os perceves e tambm a pescada, um excelente peixe
muito branco, que no existe na Amrica do Norte.  noite
ouvia-se o chamamento familiar Sereno!  e depois o barulho
da bengala de madeira a bater no pavimento da rua, e a resposta arrastada "Vo-oo-o  . A 
magia das pessoas e da cidade
cativava-me.
O castigo em Espanha para a espionagem nacional era
a pena de morte. Portanto, tive todo o cuidado em escolher a
chefe da minha cadeia de mulheres.
 Na Quinta tinham-me ensinado a formar uma cadeia, arranjando uma mulher de confiana 
que recrutaria outra, que,
por sua vez, arranjaria outra ainda, at se formar um grupo de
quinze. Umas eram secretrias, outras modistas, cozinheiras,
mulheres-a-dias. Eu conheceria apenas a mulher recrutada
por mim. As outras conheceriam duas, exceptuando a ltima.
Dessa maneira, se uma parte da cadeia fosse apanhada as outras no seriam descobertas 
imediatamente.
 Visto que me tinham aconselhado a no empregar ningum
que tivesse lutado ao lado dos nacionalistas de Franco, tive de
escolher entre as republicanas. Apenas metade dos republicanos eram comunistas ou 
socialistas no incio da guerra, em
1936, e muitos tinham passado para o lado dos nacionalistas
quando perceberam que os republicanos eram a favor de um
governo totalitarista controlado pelos soviticos. Esses
convertidos tinham permitido a Franco ganhar a guerra, apesar da
fraqueza das suas foras e da pequena poro de territrio sob
o controlo dos nacionalistas no incio da guerra. Assim, os que
agora se consideravam republicanos eram comunistas ou socialistas, e as ordens que eu 
recebera eram para recrutar gente
desse grupo.
 Nem a costureira que me fazia as cortinas para o apartamento nem a minha cabeleireira, 
ambas republicanas comunistas, foram consideradas de confiana. Precisava de algum
mais instrudo. Ocorreu-me ento pedir  portera se me arranjava uma professora para eu 
aperfeioar o meu castelhano. Ela
achou isso lgico.
 -  uma boa ideia, senhorita. O espanhol americano no soa
bem. Conheo uma mulher que foi secretria de um ministro
durante a Repblica.  uma pessoa suficientemente competente para ensinar a senhorita.
 Pilar Hernndez era feia, tinha cabelo grisalho e usava
culos. Vestia sempre o mesmo fato de saia e casaco de corte
masculino e calava sapatos pretos, de salto raso. Desde a
primeira lio compreendi que era eficiente e capaz. No entanto,
observei-a durante algumas semanas, na altura da nossa lio diria, e ela exprimiu algumas 
vezes os seus pontos de vista
polticos.
 - Ns, socialistas - por vezes referia-se a si prpria como
socialista e noutras como comunista -, estamos a tentar salvar a Espanha, dividindo a 
riqueza entre o povo. Acreditamos
na igualdade, no em liberdade. Queramos libertar as massas
da tirania do capitalismo.
 Por mais que tentasse, no conseguia convenc-la de que a
democracia era a maneira ideal de os pobres melhorarem o seu
nvel de vida.
 - Ningum pode fazer mudar a minha opinio, senhorita -
respondeu ela. - Nos trs anos da guerra perdi trs irmos
(um em cada ano) por causa dos fascistas e de Franco.
 Falava-lhe frequentemente acerca dos problemas que a
American Oil Mission enfrentava relativamente aos seus embarques para Espanha, mas 
apercebia-me de que se Pilar fosse
to inteligente como parecia, logo que eu lhe falasse em
espionagem compreenderia. Precisava de proceder com cautela.
 Os nossos pontos de vista polticos continuavam a ser o
principal tpico de conversa durante as nossas lies, mas
Pilar era uma comunista firme e nada que eu pudesse dizer
produzia o mais leve efeito. No entanto, eu gostava tanto dos
rojos como dos fascistas. Todos os espanhis que eu conhecia
pareciam ter a mesma personalidade afectuosa. Possuam tambm um respeito admirvel 
pela dignidade pessoal uns dos outros. A minha portera trocava diariamente saudaes com 
o
nosso vizinho, o duque de Silvela, sem qualquer vestgio de
servilismo ou de superioridade da parte de um ou do outro,
apesar de terem sido inimigos poucos anos antes. Maneiras
impecveis e respeito mtuo existiam a todos os nveis da sociedade.
 O mesmo se passava com o bom senso e a coragem. Duas
semanas mais tarde propus a Pilar a tarefa de formar uma
cadeia de mulheres e ela aceitou.



Captulo 13

 s 23 horas, o restaurante Horcher no estava ainda cheio.
Enquanto um criado de fraque nos conduzia para uma mesa,
olhei  minha volta para os tectos altos, as paredes com painis com a ptina do tempo; 
para os cortinados de veludo verde,
para a luz velada e cor de mbar que irradiava de candelabros
de prata.
 Logo que me sentei, o criado colocou-me uma almofada debaixo dos ps.
 - Ah! Disseram-me que  nas almofadas que costumam esconder os gravadores - disse eu a 
Edmundo, calcando a almofada com os ps.
 Edmundo riu.
 - Isso  ridculo. Uma almofada de baixo dos ps das senhoras  prtica corrente em todos 
os restaurantes elegantes
da Europa. Este  possivelmente o mais luxuoso da Europa de
hoje. O proprietrio, Otto Horcher, dirigia o melhor restaurante de Berlim e mudou-se para 
Madrid quando, h um ano,
os bombardeamentos comearam a afectar o seu negcio.
 A minha ateno foi atrada para a porta, onde um homem
baixo e gordo, completamente calvo, de cerca de sessenta anos,
acabara de aparecer. O seu crnio brilhava. Circundava-lhe a
nuca apenas uma orla de cabelo grisalho e encaracolado. Vestia um fato preto, camisa de 
riscas e colarinho engomado. Mas
o que me fascinava era o monculo entalado num dos olhos,
obrigando-o a franzir a face gorducha. Os criados inclinaram-se quando ele atravessou a 
sala em direco a uma porta existente na parede do fundo.
 - Quem  aquele? - sussurrei para Edmundo.
 - Hans Lazaar - respondeu Edmundo. - , entre outras ocupaes duvidosas, o adido de 
imprensa da Embaixada alem e uma figura importante na vida social desta cidade.
 Esperava no mostrar a excitao que causara em mim ver,
finalmente, um dos meus suspeitos.
 - Ele usa sempre aquele monculo?
 - Sempre. Ouvi dizer que oculta um olho de vidro. Fui-lhe
apresentado uma vez, mas no o conheo bem. Por isso no
tenho a certeza.
 - Talvez seja o monculo que lhe d aquele aspecto to
diablico.
 - Toda a gente fala disso. Alguns dizem que ele usa o monculo como lente de aumentar, 
outros afirmam que se serve
dele para reflectir a luz nos olhos das suas vtimas quando as
interroga.
 - Que vtimas?
 - Bem, as pessoas falam a respeito de tudo nesta cidade.
Lazaar  um alvo bvio, pois oferece festas sumptuosas num
palcio que alugou na Castellana. Dizem tambm que possui
uma propriedade no campo, perto de Toledo, com calabouos
onde espies simpticos, como voc e eu, desaparecem.
 Olhando para a porta por onde ele passara, perguntei:
 - Para onde foi ele?
 - Para a casa de jantar privada. Reservada para amigos do
Terceiro Reich, minha querida.
 Houve novamente uma agitao entre os empregados que se
encontravam  entrada. Uma mulher deslumbrantemente bonita apareceu. Alta e delgada, 
talvez com uns trinta e cinco
anos de idade, cabelo muito preto, uma capa de pele de marta 
a envolv-la da cabea aos ps, um vestido de cetim negro e um comprido colar de prolas 
cintilantes.
 - Quem ?
 Edmundo voltou-se.
 -  a condessa Von firstenberg, a nica.
 Vimo-la ento atravessar a sala em direco  mesma porta.
 - Agora j sabemos com quem Lazaar vai jantar - comentei. Estava a tornar-se a noite mais 
importante da minha carreira.
 - Podem l estar outras pessoas - replicou Edmundo. -
Talvez oficiais alemes de alta patente.
 Decidi ento que precisava de arranjar maneira de entrar
naquela sala.
- Conhece-a, Edmundo? Ela deve ser fascinante.
 -  de facto fascinante, mas infelizmente no tenho a sorte
de a conhecer bem. O embaixador da Guatemala diz que a
encontrei no Mxico, num casino, com dezasseis anos de
idade. Pertence a "boas  famlias. No  de famlias distintas
nem aristocratas. Pessoas da classe mdia, de Guadalajara.
Como eu, meio espanhola, meio ndia. No me lembro quem
foi que a levou para Hollwood. Esteve em Los Angeles apenas
o tempo suficiente para conhecer um financeiro holands
(francamente Hollwood era pequena de mais para as ambies de Glria) que a trouxe para 
a Europa. Depois houve
um ingls e por fim Schellenberg. Mimosa ter de nos contar um dia a sua histria toda. 
Agora pode ser uma viuva da
guerra. Sei tambm que tem dois filhos pequenos e que vive
sozinha... mas no ser por muito tempo. Correm boatos
de que anda muito com um rico Senhor March e tambm
com Ahkmet Fakr, filho do embaixador egpcio, bastante
mais novo do que ela. Vai precisar no s de dinheiro mas
tambm de um novo passaporte, se os alemes perderem
a guerra.
 - Que quer dizer com esse "se ? - perguntei, assombrada
com a observao de Edmundo.
 - No fique indignada. Devia ter percebido que eu estava a
brincar. Bem, mnha querida, uma coisa devo eu dizer a respeito da Schellenberg : tem um 
estilo sublime. E uma grande
fora de vontade. No  totalmente aceite por todas as grandes
damas de Madrid. Faz muita concorrncia a essas senhoras.
- Edmundo bebeu um grande gole de vinho tinto. - As mulheres tm todas as razes para 
sentirem inveja dela. Em Berlim era famosa; at o Fhrer se mostrou impressionado com
ela, segundo diziam. Alm disso,  inteligente, pois quando
ningum podia viajar para parte alguma, ela conseguiu ir para
Paris e para Roma.
 - E Lazaar? Que tem ele a ver com ela?
 - So amigos ntimos. No sei o que ele far por ela, mas
pode ter a certeza de que lhe  til para alguma coisa. Para
obter um visto espanhol conseguiu que o embaixador de Espanha em Berlim se apaixonasse 
por ela. Depois seduziu o general Wolff, das SS, para conseguir sair da Alemanha e vir
para Espanha.
 - Onde  que Lazaar vai buscar o dinheiro?  rico?
- Aqueles que o conheciam de Berlim afirmam que ele no
tinha dinheiro.
 Pondo de parte Lazaar, Edmundo continuou:
 - Ela far tudo para manter o seu estilo de vida: porque
no? Possui um dom raro. Em Berlim dava-se com todos
os grandes (Schellenberg, Goering, Himmler), todos os
que detm o poder, ntimos de Hitler. Tenho tentado conhec-la melhor, mas nunca 
consegui que ela falasse comigo.
No sou suficientemente rico, poderoso, nem chique, infelizmente.
 Tudo quanto Edmundo dizia me tornava mais determinada
a espreitar para aquela sala.
 - Oh, est tanto frio aqui - disse para o criado, que enchia
o copo de Edmundo. - Deve vir ar dessa janela perto da nossa
mesa. Poderamos mudar para aquela ali?
 - Se a senhorita prefere, claro que mudaremos a mesa.
 Antes de ele ter acabado de falar j eu me levantara. A qualquer momento podia entrar 
outra pessoa e ocupar a mesa, e
aquele era o nico stio do qual eu poderia espreitar para
dentro da sala.
 - Realmente, Aline. Esta  a pior mesa de toda a sala -
queixou-se Edmund logo que nos sentmos. - No estava frio
nenhum e pelo menos podamos conversar sem sermos ouvidos.
 Enquanto ele falava, um criado abriu a porta especial. Vi
apenas uma pequena parte da mesa e a capa de peles da condessa nas costas de uma 
cadeira.
 - Ah! - exclamou Top Hat. - Agora percebo porque quis
mudar de mesa. - Abanou a cabea. - Um esforo perdido.
Daqui no vai ver coisa alguma. Eles tm sempre a porta fechada. Mas nada a detm, pois 
no, minha querida? Digo-lhe
uma coisa, Aline, voc  a mulher do meu corao. Se ao menos tivesse um ttulo... Diga-
me o que vai vendo, minha querida, porque eu s poderei olhar para l atravs do espelho 
da
sua caixa de p-de-arroz. - Soltou uma pequena gargalhada.
- Creio que Horcher no gostaria de ver um homem a empoar-se no seu restaurante.
 Outro criado entrou na sala especial, levando bebidas. Dessa vez vi apenas Lazaar, mas 
pude pelo menos perceber que
havia pessoas  mesa. Apesar de a porta s se abrir por breves
momentos, distingui dois outros homens junto da condessa e de Lazaar, mas a porta fechou-
se antes que eu lhes pudesse
ver as caras. Esperava que um dos criados abrisse um pouco
mais a porta, mas, a pouco e pouco, as pessoas que se encontravam l dentro iam sendo 
servidas sem que a porta se
abrisse mais. A no ser que me lembrasse de qualquer estratagema, no conseguiria ver as 
pessoas que se encontravam l dentro.
 Finalmente, vi trs criados dirigirem-se para a sala reservada, evidentemente para servirem 
o prato principal. ,Justamente quando o primeiro ia a entrar, fiz um gesto largo, como
se estivesse a mostrar a Edmundo uma nova jogada de tnis, e 
fiz cair a garrafa de vinho gue se encontrava sobre a mesa.
A garrafa, o gelo e a gua foram parar ao cho mesmo em
frente da porta aberta. A agitao atraiu o prprio Horcher ao
local. Toda a gente quis limpar o vinho entornado, que se
tinha espalhado mesmo sobre a carpete da sala reservada.
Os que l se encontravam dentro, atrados pelo barulho,
tinham-se voltado, e nesse momento pude ver claramente
o rosto do homem que se sentava diante da condessa. No
restaram dvidas no meu esprito a respeito de quem se tratava - apenas estvamos 
distanciados, mais ou menos, uns seis metros.
 Um momento depois, a porta voltava a fechar-se e a ordem
ficava restaurada.
 - Levar algum tempo at que voltemos a ser bem recebidos aqui, receio bem - exclamou 
Edmundo, rindo. - Mereceu a pena tanta confuso, Aline?
 Pus manteiga num pedacinho de po, falando to despreocupadamente quanto a minha 
excitao o permitia.
 - Que  que pensa? Eu apenas vi Heinrich Himmler.
 Edmundo olhou-me, assombrado.
 - Est doida, Aline. Ou ento bebeu muito vinho tinto.
 - No bebi uma s gota. Veja, o meu copo est cheio. -J
no era totalmente abstmia, mas um s copo de vinho durava-me para a noite inteira.
 - No est boa da cabea. Isso  impossvel. Se Himmler se
encontrasse em Espanha, eu teria sabido.
 - Estou a dizer-lhe que o vi - sussurrei.
 - Aline, Himmler no vem a Espanha desde 1941 . Mas eu
hei-de descobrir.
 Depois do jantar, Edmundo mandou vir outro caf, e outro ainda. Levou o seu tempo a 
fumar um charuto e a beber um
 conhaque. O restaurante foi-se esvaziando a pouco e pouco.
 Por fim, a condessa e Lazaar apareceram e, pouco depois,
 Constantin von Weiderstock saiu tambm - era ele o homem
 que eu no conseguira ver bem - e mais ningum!
 - Como v, esteve a imaginar coisas, minha querida. Nem
 sombras de Himmler.
- Edmundo, tem de haver outra sada. No olhe para mim
 como se eu estivesse doida.  uma cara que eu conheo bem.
 Nesta altura estvamos j de p e preparvamo-nos para sair.
 - O que  que tenciona fazer? - perguntou Edmundo.
 - Que pergunta! Contar a Mozart, naturalmente.
 Detestava pensar em acordar Mozart  uma e meia da manh, apesar de ser a essa hora que 
os jantares terminavam
 habitualmente, mas, logo que Top Hat me deixou em casa, sa
 outra vez e corri pela Calle Alcala Galiano deserta, at ao
escritrio. Mozart teria provavelmente de enviar um telegrama
 para Washington com a notcia que eu lhe ia dar, e de qualquer modo era melhor utilizar 
aquele telefone. Devia ter
rebentado um cano na rua, pois o gorgolejar da gua a correr
 pelo pavimento era o nico som que se ouvia.
 Foi o prprio Mozart que atendeu o telefone.
 - Est? - perguntou com voz seca. No estava a dormir.
 - Daqui fala Aline. - Era obrigatrio dizer o meu verdadeiro nome, pois podia dar-se o caso 
de estar algum a
ouvir.
 - Que h? - perguntou Mozart aps uma pequena pausa.
 - Estive a jantar no Restaurante Horcher e acho que gostar de saber que Heinrich Himmler 
tambm l estava, numa
 sala privada.
 Mozart suspirou, cansado.
 - Se isso fosse verdade, eu saberia se ele se encontrava na
 cidade. Existem em Madrid muitos homens atarracados, com
 culos, que podem ser confundidos com ele.  tudo?
 - Mas tenho a certeza de que o vi.
 - Alguma outra pessoa pode confirmar a presena dele?
 - De momento no. Edmundo encontrava-se comigo mas
 no o viu. Espermos para o ver sair, mas deve t-lo feito por
 outra porta.
 - No existe outra porta na sala de jantar privada. Boa
 noite, Miss Griffith.
Caminhei pelo corredor deserto e vi luz por debaixo da
porta da sala de cdigo. Jeff estava sentado  sua secretria.
 - Algo de novo? - perguntei.
 - Estou a decifrar uma mensagem chegada esta noite. Ben
contactou-nos h cerca de uma hora.
 Apesar de em Madrid a noite estar enevoada, lembrei-me
que havia lua cheia, a data marcada para um lanamento em
Frana. O nosso avio era de Argel, ou lanaria um agente de
pra-quedas ou aterraria num local iluminado pelas lanternas
dos maqus, partindo outra vez sem desligar os motores. Um
operador de rdio avisava-nos sempre, em Madrid, se tudo
correra bem, e indicava a data e a hora do prximo contacto
pela rdio.
 - As notcias so boas - disse Jeff-, e foi um novo agente
com o nome de cdigo Pierre que enviou a mensagem.
 - Deixe-me ver isso - tirei o papel das mos de Jeff. Ele
levantou a cabea surpreendido.
 - Que se passa, Aline?
 Eu nem podia acreditar. Seria Pierre? O meu Pierre?
 - Havia um rapaz que fez o treino comigo e que tinha esse nome.
 Jeff pareceu divertido.
- Voc deve estar louca por ele.
 - De modo nenhum.  apenas curiosidade - respondi,
atirando com o papel para cima da mesa. - At amanh, Jeff.
 Atravessei os escritrios desertos, pensando no que se passara. O silncio, a escurido 
fizeram com que eu apressasse o
andamento. Quando entrei na minha rua, ouvi passos atrs de
mim e no vi o sereno. Corri e creio que quem me seguia fez o
mesmo. Quando cheguei  minha porta, passei por entre as
grades de ferro sem meter a chave na fechadura, contente por
no terem colocado ali o vidro desde a guerra civil, e tambm
por ser to magra. Depois subi as escadas a correr.
 Senti-me desencorajada por Mozart no ter acreditado em
mim, mas pelo menos ficara a saber que Pierre estivera em
Espanha. Ia a caminho de Frana e poderia voltar ali outra
vez. Isso fez-me sentir mais feliz. Deixei-me cair na cama
exausta, mas momentos depois levantei-me para ir buscar o
revlver  carteira e o meter debaixo da almofada. Apesar de
comear a estar habituada  tenso, no valia a pena correr
riscos, pensei.
 Adormeci com uma certa satisfao. Estava, finalmente, a caminho de descobrir pelo 
menos dois dos suspeitos da minha lista.

 Os velhos edifcios de granito e os troncos cinzentos das rvores sem folhas brilhavam  
luz do Sol enquanto o elegante
Bugatti de Belmonte percorria as ruas.
 - Gostou dos chocolates? E dos cravos? - Agora estes presentes tinham-se tornado uma 
rotina.
 - Sim. Tudo em Madrid me agrada.
 Juanito voltou-se para mim.
 - Mas no o Pasapoga, espero.
 -Juan, isso foi h mais de dois meses. Para qu falar outra
vez no caso? No fazia ideia de que no fosse um lugar apropriado para se ir. Edmundo 
disse-me apenas que amos danar
nessa noite.
 - Danar? O seu companheiro comportou-se como se se
estivesse a ensaiar para ir para a arena.
 Sorri.
 - Edmundo  meio louco, mas tem um grande sentido de humor.
 Olhando bem em frente enquanto virvamos uma esquina,
Juan disse:
 - No creio que seja um bom amigo para si. A Espanha 
muito diferente da Amrica. Aquilo que  aceitvel para os
homens no o  para as mulheres.
 - E acha justo?
 Juanito sorriu.
 - Sim, acho.
 - Pois bem, eu no.
 Talvez se tenha apercebido da minha irritao, pois no voltou a falar no assunto.
 - Bem, c estamos -Juan apontou para o pequeno curso
de gua que corria l em baixo. - O Manzanares. Claro que a
seca o afectou, mas, de qualquer modo, queria mostrar-lho. Na
vspera de Santo Antnio, as raparigas que querem arranjar
mando nesse ano atiram moedas para este rio.
 Juanito voltou-se para mim.
 - Espero que no se encontre ocupada no dia dez deJunho.
 - No tanto quanto sei - respondi, abanando a cabea. -
Ainda falta muito tempo.
- Bom. Ento fica combinado. Aline. Nessa noite atirar
uma moeda para o Manzanares comigo a seu lado... e depois
nunca mais deixar a Espanha. Santo Antnio  o padroeiro
dos namorados.
 No respondi. Os modos formais de falar, a sua maneira de
andar rgida, medida, eram inacreditveis, mas quer eu gostasse dele quer no, ele era-me 
til. Conhecia toda a gente.
 Encontrvamo-nos sentados, num caf, ao ar livre na margem rida do rio. Apenas alguns 
clientes gozavam o sol daquela tarde de Maro. Depois de beber um pequeno copo de xerez
Tio Pepe, Juan sugeriu que fssemos  Igreja de Santo Antnio
de la Florida, que ficava do outro lado da rua. Fiquei perturbada por segundos, ao passar da 
claridade forte do sol para a
escurido da pequena igreja, mas pouco depois reparei que o
tecto resplandecia de frescos.
 - Foram pintados por Goa - disse Juanito, olhando para
cima. Depois acrescentou: - Os olhos daqueles quadros so
como os seus, cheios de um fogo ardente.
 Abanei a cabea e tive dificuldade em conter uma gargalhada. Ele era impossvel...
 Dali fomos para a Plaza Maor, uma praa impressionante
do sculo xvI, rodeada por arcadas e lojas em edifcios simtricos ornados de numerosas 
varandas.
 - Dali  que a famlia real e a corte costumavam ver as
touradas - explicou Juan. - Por vezes, quando o matador se
saa muito bem, as damas atiravam prolas para a arena. -
Olhou para mim. - Como os seus dentes.
 - Os meus dentes?
 - Os seus dentes so como prolas, Aline.
 "E a minha boca como uma ostra , pensei, incapaz de falar.
Descemos umas escadas gastas pelos sculos - os famosos degraus de Guchilleros - e, 
depois de passarmos por uma mirade de cmaras abobadadas, chegmos a uma sala numa 
cave
onde havia um bar onde comemos po estaladio, acabado de
cozer, e queijo manchego, e bebemos vinho tinto.
 Juanito ergueu o copo e disse, como seria de esperar:
 - Este vinho  to vermelho como os seus lbios.
 Bebi em silncio.
 - Ao nosso futuro - acrescentou Belmonte. Um futuro
com Juan Belmonte? Era coisa que eu no podia imaginar.
 - Era aqui que o famoso bandido Luis Candelas costumava esconder-se, Aline. Roubava 
aos ricos e dava aos pobres,
tal como o vosso Robin Hat.
 - Hood - corrigi. - Robin Hood.
 Pouco depois, caminhmos ao longo da Calle de Segovia -
o mais antigo barrio de Madrid - e entrmos num restaurante.
 - A especialidade da casa  leito assado - disse juanito.
 Olhou para mim, por momentos, e comeou a abrir a boca.
 - Oh, por favor, Juanito, no me compare com um leito
assado.
 Ele atirou a cabea para trs e ambos rimos s gargalhadas.
Quando pudemos falar, eu disse-lhe:
 - Francamente, ,Juanito, se continua a dizer coisas to disparatadas ser o fim da nossa 
amizade.
 - Que alvio - respondeu ele. - Mas as mulheres espanholas esperam que um homem as 
elogiem a todo o momento.
 - No creio que raparigas como as Avilas queiram isso,
nem sequer as cantoras de flamenco.
 Vozes que cantavam anunciaram a entrada de uma tuna,
um grupo de estudantes que tocavam uns instrumentos em
forma de ovo, vestidos de preto e com fitas multicolores a
penderem-lhes dos ombros. Cantaram vrias baladas e Juan lanou sobre eles uma chuva de 
pesetas.
 Belmonte no fez mais nenhuma declarao tola, e passado
um bocado, perguntei-lhe se conhecia a condessa Von firstenberg.
 - Claro que a conheo. Porque pergunta?
 - Poder apresentar-ma?
 -  evidente que no. Ela no  uma amiga adequada para
si.
 Juanito pertencia, na verdade, a outro sculo.



Captulo 14

 Percebi nos olhos dela, por detrs dos culos, que estava
excitada. Com o pretexto das lies, tinha na mo um pequeno
quadro negro onde escrevera a giz a conjugao dos verbos 
irregulares.
 - Tem razo - disse logo que me sentei ao lado dela. -
Est a ser seguida  noite. Mas no pudemos identificar o homem. Ele desaparece na 
Ribeira de Curtidores, no Rastro, na
parte velha da cidade.  uma rua cheia de casas decrpitas.
Vivem l muitos ciganos, e h tambm muitas pensiones, onde
os camponeses se instalam quando vm a Madrid. Existem por
ali muitos vagabundos e vigaristas.  um stio difcil para
encontrar algum.
 - Pilar, continuem a segui-lo. Tambm ando a ser seguida
de dia. Anda mais de uma pessoa atrs de mim. Tenho tambm outro trabalho para si. A 
condessa Von firstenberg vive 
no Palace Hotel. Quero que obtenha o maior nmero possvel
de informaes a respeito dela.
 - Isso  fcil. Trabalha no hotel uma das nossas mulheres,
como criada.  uma das melhores.
 - Pilar, espero que tenha seguido o sistema que lhe expliquei. Para sua prpria proteco, 
deve conhecer apenas uma das mulheres recrutadas por si, no as outras.
 - No se preocupe, senhorita. Foi exactamente o trabalho
que eu fiz durante a guerra. Ningum a conhece e isso  que
deve ser mantido em segredo.
 - Vi Heinrich Himmler na sala de jantar particular do
Restaurante Horcher, mas preciso de provas de que ele ali esteve. Descubra se existe uma 
passagem secreta para aquela
sala. Verifique a lista dos passageiros da Lufthansa que
entraram e saram de Madrid, e tambm daqueles que tomaram o
comboio da noite para Barcelona e Irn e quaisquer outras
vias utilizadas por personalidades vindas de Berlim. Sabe qual
 o aspecto de Himmler?
 - Como  que pode pensar que eu no conheo esse monstro? Se ele esteve em Espanha, as 
mulheres que trabalham comigo descobri-lo-o, pode estar certa.

 Foi nos fins de Maro que as irms  vilas me convidaram
para ir jantar com elas. Foi o sereno que me abriu a porta do
velho edifcio, puxando o cordo de um gongo que anunciava a
minha chegada para as pessoas que se encontravam em casa.
A escadaria era larga e grandiosa e no patamar havia uma
sereia esculpida em madeira que adornava a popa de um navio
do sculo xvI, mas os degraus estavam gastos e no eram alcatifados. Um criado de 
cabelos brancos, elegante na sua casaca azul, onde se viam botes dourados com o braso 
da famlia, recebeu-me no vestbulo da entrada, apenas enfeitado com duas armaduras sobre 
pequenos pedestais. Segurou o meu casaco e conduziu-me atravs de uma vasta sala cuja 
parede do
fundo se encontrava totalmente coberta por um enorme rgo.
Passmos por salas com mobilirio antigo francs e ingls, caminhando sobre uma velha 
carpete; correntes de ar frio passavam por entre os desbotados cortinados azuis. Lembrei-
me
que as pessoas se estavam ainda a recompor da guerra e que
muitas casas antigas tinham sido utilizadas como aquartelamentos militares depois do cerco 
de Madrid. A voz de Casilda gritou l de dentro:
 - Evaristo, traga a senhorita para aqui, que est quentinho.
- Levantou-se de onde estava sentada junto a uma mesa redonda coberta por um pano de 
veludo que chegava ao cho. -
Desculpe eu no ir receb-la  outra sala, mas temos aqui braseira e est um ambiente mais 
confortvel. Costumamos ficar
neste compartimento at a sala de jantar pequena estar aquecida. Este racionamento do 
carvo e do coque  terrvel.
 Fui cumprimentar as outras duas irms e apresentaram-me
a outra rapariga - loura, de olhos azuis, uma beleza clssica.
 - Esta  a minha melhor amiga - disse Casilda. - Carola
Lilienthal.
 Eu nem podia acreditar na minha sorte. Aquela rapariga era com certeza filha do prncipe 
Nikolaus Lilienthal, um dos que
se encontravam na minha lista. Carola era suficientemente bonita para fazer perder a cabea 
a qualquer um, mesmo no El
Morocco. Alm disso apercebi-me, logo a seguir, de que era
extremamente simptica.
 - Aline, no posso deixar de lhe dizer que sei tudo a seu
respeito. Casilda nunca pra de falar de si e tenho ouvido tambm outras amigas referirem-
se-lhe. At soube que esteve uma noite no Chipn com Juan Belmonte. Como v, sei tudo 
o que
se passa nesta cidade.
 Conversmos durante o jantar como se a tivesse conhecido
durante toda a minha vida. As raparigas estavam ansiosas por
ouvir falar da vida nas universidades americanas e das modas
na Amrica, e por sua vez tambm me falaram das suas festas
e passatempos, que se relacionavam mais com a preocupao
de arranjar um marido do que com trabalhar ou estudar. Depois do jantar, tocmos os 
discos americanos que eu levei comigo. O One O'Clock jump, de Benn Goodman, tornou-
se
o favorito delas; nunca o tinham ouvido antes. Ensinei-lhes
o jitterbug e elas mostraram-me como se danava o chotis e
mesmo algumas danas sevilhanas. De certo modo, dava-me a
sensao de ter voltado aos meus dias da universidade; era o
primeiro momento de despreocupao que eu tinha desde h
meses, e permitia-me descontrair-me muito mais do que as
grandes recepes a que Edmundo me levava.
 Quando chegou o motorista de Carola para a levar para
casa, ela ofereceu-se para me levar tambm. No caminho disse-me:
 - Tem de ir passar um fim-de-semana connosco. Que diz
ao fim-de-semana do dia um de Abril? Vai gostar de El
Morisco. Teremos l uma poro de convidados e danarinos
de flamenco tambm.
 Limitei-me a olh-la. Aquilo parecia at fcil de mais.
 - No aceitarei um no como resposta, Aline - disse ela
quando eu sa do carro.
 - No se preocupe - respondi. - Terei esse fim-de-semana livre.

 Chovia. No havia txis e eu precisava de ir o apartamento
de Pilar, na Calle Conde Duque. Ningum tinha um chapu de chuva. Angustias nem 
sequer conhecia uma loja que os vendesse.
 - Quem quer um chapu de chuva, senhorita? A gua que
Deus envia do cu  boa para a pele, e significa sorte e
riqueza para a Espanha - explicou Cecilia, a cozinheira.
 A estreita escada do velho prdio onde vivia Pilar cheirava a
leo de fritar, um cheiro que eu comeava a considerar nacional. Pilar abriu a porta e levou 
um dedo aos lbios, aconselhando silncio. Apontou para um rdio em bastante mau estado.
 - A Pasionaria est a falar de Moscovo. Foi a mulher que
nos inspirou para lutarmos na nossa guerra.
 A forte voz de mulher transmitida pela rdio exortava:
"Camaradas, no desesperem. Os nossos irmos esto a reunir-se no Sul da Frana para 
recuperarem a nossa amada ptria! 
 O programa poltico continuou, enfadonho e repetitivo.
Olhei para o relgio. Estava ansiosa por receber os relatrios
de Pilar a respeito de Himmler e de Von firstenberg; e queria
estar no Hotel Ritz s 22 horas. Juanito oferecia uma festa de
anos em honra do toureiro, seu amigo, Manolete.
 Agora ouvia-se no rdio uma voz de homem: "Espanhis,
tenham cuidado com o imperialismo americano! Quando esta
guerra acabar, o bom povo sovitico eliminar a sede do sistema capitalista, os Estados 
Unidos da Amrica. 
 Era difcil acreditar que os soviticos fossem capazes de fazer uma emisso daquelas 
contra ns, sendo nossos aliados.
Pedi a Pilar que desligasse o rdio.
 - No pode crer nessas falsas informaes acerca do meu
pas, Pilar.
 - No se preocupe, senhorita. Agora sou-lhe leal. Temos um
inimigo comum: Hitler. Mas depois da guerra ver como o
sistema sovitico  muito melhor do que o vosso. Dentro de
vinte anos a Rssia ser o pas mais rico da Terra!
 Abanei a cabea, aborrecida. Depois olhei para o quarto
despido e frio, com uma lmpada nua pendente do tecto. Era
como uma cela. No admirava que houvesse comunistas naquele pas.
 Pilar entregou-me dois pedaos de papel.
 - Est aqui o relatrio sobre a princesa, mas no temos
informaes slidas a respeito de Himmler. Contudo, um homem com o aspecto dele esteve 
no Restaurante Horcher a semana passada. Pudemos tambm determinar que existe uma
porta invisvel na parede da sala dejantar privada.  frequentemente utilizada por certas 
personalidades. - As notcias dela eram encorajadoras, mas eu receava que no fossem 
suficientemente definidas para agradar a Mozart.
 De p,  fraca luz da lmpada, li o relatrio, dactilografado
numa mquina certamente muito antiga.
 Condessa Von firstenberg
 (semana com incio em 23/3/44)
2O/3
11hOras - Pequeno-almoo no quarto. Telefonemas de: Sr.
 Stiller, esposa de um funcionrio da Embaixada
 alem, Sr. Hans Lazaar, Sr. Ahkmet Fakr, filho do
 embaixador egpcio, e um homem no identificado.
13 hOras - Foi ao cabeleireiro Rosa Zavala (mesmo em frente do
 Palace Hotel) .
14 e 30 - Almoo no Palace Grill com a condessa Podevils.
17 hOras - Salo de alta costura de Ana de Pombo, Calle Her mosilla, 14.
18 e 30 - Regresso.
22 horas - Sr. Fakr, embaixador do Egipto, veio busc-la.
22 e 30 -Jantar no Orcapn, Carrera San Jernimo (com Fa kr). Depois do jantar o agente 
perdeu o rasto -
 nenhum txi pode acompanhar um Mercedes.
04 e 30 - Regresso.
21/3
13 oras - Pequeno-almoo.
13 e 42 - Telefonema de Berlim - Sr. Walter Schellenberg.
15 e 30 - Foi buscar os filhos ao Colgio Alemo.
16 e 30 - Calle Lope de Vega, 12, Sapataria Franciseo Franjul.
17 horas - Salo de alta costura de Ana de Pombo, Galle Hermosilla, 14.
18 e 30 - Regresso ao hotel.
22 - Carro da Embaixada alem veio busc-la.
22 e 30 - Jantar na Castellana, 49, casa de Hans Lazaar.
02 horas - Regresso.
02 e 30 - Telefonema de Berlim.
22/3
11 horas - Pequeno-almoo.
12 horas - Massagista - Conchita.
13 horas - Manicura - Carmen Tirano.
16 e 30 - Telefonemas de: condessa Podevils, Sr. Lucas de
 Tena, sapateiro Sr. Alvarez, Galle Gonde Duque, 25. 
17 horas - Salo Ana de Pombo.
18 e 30 - Regresso.
22 horas - Carro da Embaixada italiana veio busc-la. 
22 e 30 - Jantar com o Sr. e a Sr. San Justa, Embaixada italiana.
01 horas - Abandona embaixada em companhia do Sr. Ahkmet Fakr.
01 he 15 - Danar, La Reboite, Calle Prim.
05 horas - Regresso.
 Fiz uma pausa para olhar para Pilar, que me fitava com os
seus modos habituais.
 - Isto  incrvel, Pilar, e muito til.
 Um brilho de satisfao transpareceu nos olhos dela.
 - Dentro de poucos dias terei os nomes e os nmeros de
telefone da agenda dela. As minhas raparigas trabalham depressa.
 Contando o dinheiro dos salrios, acrescentei-lhe quinhentas pesetas.
 - Isto  para si, Pilar, para viver mais confortavelmente.
Aqui gela-se.
 Ela recusou, mas eu insisti. Sabia que aquele dinheiro seria
suficiente para trs meses de carvo e de coque no mercado
negro. A minha criada e a minha cozinheira ganhavam cento e
cinquenta pesetas por ms, o que equivalia a cerca de quinze
dlares cada uma. O vestido Balenciaga que eu comprara na
semana anterior custara a quantia exorbitante de duas mil
pesetas, mas para mim era bastante menos do que aquilo que
eu pagaria por um vestido da Hattie Garnegie. Entreguei-lhe o
dinheiro.
 Ela aceitou-o.
 - Vou recrutar outra cadeia para dar mais informaes 
senhorita.
 Sa, esperando no estar a contribuir para o Partido Comunista (antiamericano) Espanhol.



Captulo 15

 A guerra no prosseguia como seria de esperar. A Operao
Overlord e a Operao Anvil no podiam ser postas em aco
at que a campanha italiana tivesse xito, e nessa altura encontrava-se num impasse. A 15 
de Maro houvera um forte
bombardeamento aliado sobre Cassino, destruindo um antigo
mosteiro que ali havia, pois os nossos oficiais julgavam haver
ali um posto de vigia alemo. Tinham-se enganado e o bombardeamento havia permitido 
aos alemes instalarem-se l
utilizando as runas e os destroos deixados na cidade para
encobrirem as suas tropas. Todos ns espervamos que esse
engano no tivesse sido provocado por falsas informaes dadas pelo OSS de Itlia. Alm 
disso, apesar do grande nmero
de veculos e de homens desembarcados em Anzio, as nossas
tropas no avanavam dali. Embora as nossas foras tivessem
debilitado a supremacia do Eixo no mar, os desaires em Itlia
estavam a criar uma tenso que nos afectava a todos.
 Mozart mostrava-se especialmente taciturno nesses dias e a 
nossa equipa estava mais nervosa do que o habitual. A 27 de
Maro, Mozart anunciou que os nossos escritrios iriam ser
imediatamente transferidos para outro lado. Ostensivamente,
a desculpa era a Oil Mission necessitar de mais espao, mas
Mozart informou-nos laconicamente.
 - Washington exige maior segurana para os nossos arquivos
OSS e deseja maiores cautelas por parte dos nossos agentes.
 Os quadros dos cdigos foram escondidos nos arquivos e os
transmissores em grandes caixas de equipamento. Foram necessrios dois dias para se fazer 
a mudana para o ltimo andar da residncia do embaixador americano, e durante esse
tempo no foram decifradas quaisquer mensagens.
A nossa nova sede, o Palcio do Duque de Montellano, era
rodeado por um grande jardim e ficava ainda mais prxima do
meu apartamento. Quando l cheguei no primeiro dia, o porteiro
abriu uma porta contgua ao grande porto de ferro forjado e
indicou-me um caminho ensaibrado que ia dar a uma porta lateral. Dirigi-me 
imediatamente ao gabinete de Mozart e entreguei-lhe o relatrio de Pilar sobre a condessa, 
informando-o de que um elemento da cadeia de Pilar confirmara que Himmler estivera no 
Restaurante de Horcher na semana anterior.
 - Quero provas, Miss Griffith - disse enfaticamente Philip Harris. - Essa mulher  de 
confiana? No ser uma criatura sem qualquer instruo? Obviamente no foi um criado
quem deu essa informao. Ela viu-o pessoalmente? Notcias
to importantes como a estadia de Himmler em Madrid tm
de ser verificadas por informadores de confiana.
 - Mas  verdade que existe uma porta secreta nessa sala, e
ele, muito provavelmente, ter-se- servido dela para entrar e
sair sem ser visto.
 -  ridculo. No posso enviar para Washington uma informao to mal fundamentada. - E 
com um aceno despediu-me.
 O chefe no era prdigo em elogios. Sabia que os outros
sentiam, por momentos, o mesmo desencorajamento. Por isso
encolhi os ombros e tentei no me mostrar desapontada. Walters esperava-me na nova sala 
de cdigo.
 - Agora que eu j fiz todo o trabalho pesado  que voc
chega - gracejou Jeff - Temos aqui uma pilha de telegramas para decifrar, mas primeiro 
quero que aprecie a linda
vista para o jardim.
 O sol iluminava a grande sala do sto. Olhei pela janela,
para os relvados verdes, velhos castanheiros, accias, carvalhos e arbustos em flor. Jeff 
conduziu-me para a outra janela, voltada para a Castellana. No se viam ainda crianas a 
brincar ali, mas algumas carruagens com os habituais cavalos esquelticos esperavam 
clientes. Vi passar dois automveis. Do
outro lado da rua havia um palcio semelhante quele em que
nos encontrvamos.
 -  a casa do famoso primeiro-ministro da Monarquia, o
Conde de Romanones - disse Jeff, enquanto eu me voltava e
me preparava para comear a decifrar o meu primeiro telegrama de Londres.
PARA MOZART DE CHESS STOP ESPANHOL PRISIONEIRO BRITNICO
A TRABALHAR cOMO AGENTE ALEMO SOB NOME DE CDIGO
GARBO ENVIOU MENSAGENS PARA BERLIM POR INTERMDIO GUILLERMO 
EM MADRID STOP
 Jeff e eu divertamo-nos a ver qual dos dois conseguia decifrar mais depressa. O telegrama 
seguinte era semelhante a outros que tnhamos recebido na semana anterior.
DE HOTSPOT PARA MOZART STOP PEDE-SE AGENTES GOM CONTACTOS EM 
IT LIA PERTO BISENTI AJUDE NOSSO AGENTE FRITZ NECESSITA 
URGENTEMENTE EVACUAO STOP
 Vrios telegramas depois, decifrei um que atirei imediatamente para cima da mesa de JefF
 - Veja isto, JefT. Parece que o perodo de brandura dos alemes est a terminar. O 
telegrama dizia:
HITLER ORDENA  WEHRMAGHT O SEGUINTE: TROPAS DE SABOTAGEM E 
TERROR QUER ARMADAS OU DESARMADAS cOM OU SEM UNIFORME DEVEM 
SER LIQUIDADAS AT AO LTIMO HOMEM STOP ISTO
INcLUI AGENTES INIMIGOS EM PA SES NEUTRAIS STOP
 Depois de ler, Jeff comentou:
 - Isto significa que se formos apanhados, ou mesmo suspeitos, as ordens agora so para 
matar. Trata-se de uma infraco  Conveno de Genebra. - Bateu no revlver que
trazia no cinto. - O meu conselho  ter-se cuidado onde
quer que se esteja, Tiger. A mim no me apanharo a correr
riscos .
 Fiquei no escritrio durante a comprida hora de almoo espanhola e aproveitei uns 
momentos de descanso para ler ojornal. Os resultados do trabalho de Lazaar como adido de 
imprensa cobriam uma pgina inteira do Informaciones, segundo
o qual os alemes estavam a ganhar a guerra. Apesar de se
tratar de propaganda, o facto de os aliados terem desembarcado na Siclia em Setembro e 
ainda no terem avanado tornava fcil para a imprensa espanhola dar as vitrias dos 
aliados em pequenas notcias das pginas interiores. E eu que
estivera preocupada por a guerra poder acabar antes de poder ser enviada para o ultramar...
 Voltei ao trabalho e vi que todos os telegramas desse dia
confirmavam notcias excepcionalmente importantes. Outro
telegrama de Londres dizia:
PARA MOZART DE CHESS STOP HIMMLER PREPARA-SE PARA INTEGRAR 
SERVIOS SECRETOS ABWEHR NA GESTAPO APS REMOO CANARIS STOP 
WALTER SCHELLENBERG CONTROLA AGORA TODOS
OS SERVIOS SEcRETOS ALEMES NO ESTRANGEIRO STOP
 J ao fim da tarde estava ainda a decifrar os ltimos
telegramas. Decifrei mecanicamente:
PARA MOZART DE CHESS STOP INFORMADOR DE cONFIANA DIZ
QUE HIMMLER ESTEVE EM MADRID uRGENTEMENTE...
 A minha temperatura subiu e eu apressei-me a decifrar o
resto.
 ...E EM BARCELONA STOP INVESTIGUE URGENTEMENTE STOP
 Que dizia aquele! Levantei-me de um salto e corri para o
gabinete de Mozart, mal me preocupando em bater  porta.
Ele falava ao telefone, por isso coloquei o telegrama em
frente
dele e sa.
 Enquanto trabalhava nos ltimos telegramas, pensava na
reaco de Mozart. No era aquele telegrama prova suficiente
de que eu tinha tido razo ao dizer que vira Himmler no restaurante? Estava to absorta que 
nem ouvi a porta abrir-se.
Mozart, apesar do seu tamanho, movia-se to silenciosamente
como um gato. Frio, impenetrvel, como sempre.
 - Miss Griffith - disse, dirigindo-se a mim -, pode vir ao
meu gabinete por uns momentos?
 Logo que entrei, ele perguntou:
 - Diga-me uma coisa, quem  que viu com Himmler, naquela noite, no Horcher?
 Contei-lhe precisamente o que vira e esperei pelo comentrio dele.
 - Obtenha pormenores sobre a visita de Himmler. Com
quem esteve. Quantas vezes ali foi. Onde ficou. - Depois,
inesperadamente, recostou-se para trs e perguntou: - Diga-me, Aline, que tem feito 
ultimamente? Tem mais algumas
pessoas na sua lista?
 Disse-lhe que tinha conhecido a filha do prncipe Nikolaus
Lilienthal.
 - Isso  excelente. Quanto tempo pensa que demorar at
conhecer o pai dela?
 - Carola convidou-me para ir passar o prximo fim-de-semana na sua casa de campo.
 - ptimo. Temos tentado meter algum dentro dessa casa.
Pode fazer umas investigaes quando l estiver. Falaremos
disso no sbado, antes de voc partir.



 Nesse dia, ao princpio da noite, sentei-me  secretria, para escrever  minha me. S o 
pensar que poderia ser Mozart a censurar as minhas cartas inibia-me de escrever fosse o 
que
fosse. A minha me perguntava-me, nas cartas dela, com que
"rapazes  eu trabalhava e saa. At ento a nica pessoa em
que me atrevera a falar fora Juanito, e a ideia de que eu passava as minhas horas livres com 
um toureiro no a encantava.
Finalmente decidi, por no saber que mais dizer, enviar-lhe
uma receita de paella dada por Cecilia. Edmundo ficara de me
ir buscar s 22 horas para me levar a um cocktal oferecido por Ralph Forte, correspondente 
da Associated Press. Depois disso iramos a uma festa ao La Reboite, um nightclub.
 Fui para o quarto e enfiei um vestido de seda vermelho que
nunca usara. Reparei que os cravos de juanito comeavam a
murchar, e enquanto me penteava pensava na falta que sentia
dos seus estranhos cumprimentos. Estava a pintar os lbios
quando um rudo estranho me fez sair da minha nostalgia:
Algum tentava abrir ajanela da varanda do quarto contguo.
 O meu revlver estava na minha frente, junto dos cosmticos. Segurando-o, passei para a 
outra sala e escondi-me atrs
dos cortinados.
 Lentamente, a janela de vidro foi-se abrindo. Do stio onde
me encontrava vi a mo de um homem afastar as cortinas de
renda. Pensei em disparar imediatamente contra quem quer
que fosse, mas resolvi no o fazer e esperar que o intruso se
mostrasse. Por fim, o vulto apareceu, saindo por detrs das
cortinas.
 - Pierre! Que est a fazer aqui?
 Fiquei imvel, como que paralisada, ainda empunhando o
revlver, que apontava ao peito de Pierre. Ele aproximou-se de
mim, sorrindo, e, pegando-me na mo, levou-a aos lbios.
 - Como est, Tiger? No esperava ver-me to depressa,
no ? - Outra vez aquela voz sedutora!
 Apesar de a noite estar fria, Pierre no trazia sobretudo.
Vestia apenas um fato escuro, como se fosse para uma festa.
 - Como  que descobriu onde eu vivia? - perguntei, confusa.
 - Isso faz parte da nossa profisso, no  verdade? Sentemo-nos aqui. Temos muito que 
conversar e...
 Interrompi-o.
- Pierre, que est a fazer aqui? H pouco quase disparei
sobre si.
 - No lhe posso dizer muita coisa. Voc sabe melhor que
ningum porqu. O seu chefe ficava furioso se soubesse que eu
estou agora a visit-la.
 A ideia de pensar que ele correra perigo para me ver agradava-me. Exasperava-me pensar 
que Edmundo devia estar a
chegar.
 Pierre puxou-me para o sof e sentmo-nos ambos. Subitamente, Pierre levantou-se e, 
tirando um cravo vermelho que se
encontrava numa taa em cima da mesa, sentou-se mais perto de mim.
 - Gostaria de ter comprado uma flor suficientemente bela
para condizer com um rosto que no consigo esquecer, mas
esta ter de servir.
 Partiu o caule e prendeu o cravo entre os meus cabelos.
 O beijo dele foi suave ao princpio; mas depois rodeou-me o
corpo com os braos e apertou-me com fora contra si.
 Nesse momento a campainha tocou. Ouvi os passos de Angustias no corredor, preparando-
se para ir abrir a porta.
 - Quem ? - perguntou Pierre, levantando-se.
 - Oh,  o meu contacto que me vem buscar para me levar
para uma festa.
 Pierre dirigiu-se rapidamente para a janela.
 - No posso ser visto, Tiger. No  possvel infringir as
regras muitas vezes. No sei se a poderei voltar a ver to
cedo.
- Inclinou-se e beijou-me rapidamente. - No me esquea.
- Depois dirigiu-se para a varanda. As cortinas agitaram-se e
ele desapareceu.
 Angustias e Edmundo conversavam no corredor. Fui  janela,
espreitar para fora. Nem vestgios de Pierre! L em baixo via as sombras do ptio interior. 
Como teria ele entrado ali em casa?
Devia ter vindo pelo telhado inclinado. No entanto, o seu fato
estava impecvel. Bem, todos ns tnhamos aprendido esses truques.
 A excitao de ter estado com Pierre transparecia provavelmente no meu rosto, porque 
Edmundo disse-me:
 - Divina, parece que viu um fantasma!
 E eu pensei:"Isso  o que Pierre ter de ser daqui em
diante.
Um fantasma. Mas, pelo menos, estava perto.
No sbado, algumas horas antes de partir para a festa na
casa de Carola, Mozart deu-me as suas instrues.
 - Existem vrias razes para que Lilienthal se encontre
no topo da nossa lista, Miss Griffith. Sobretudo porque o
nosso contacto em Berlim sugere a possibilidade de ser ele
o agente especial de Himmler aqui. Soubemos que altas personalidades alems foram 
convidadas dele nessa propriedade
perto do Escorial. Sabemos tambm que o local  perfeito
para ocultar a estao de rdio que opera a partir desta rea
para Berlim. - Entregou-me uma caixa de carto do tamanho de uma caixa de chapus e 
bastante pesada. - Tem
aqui um detector de rdios. Deve estar preparada para
o usar.
 Abri a caixa e tirei de l o pequeno aparelho. Era um dos
muitos aparelhos sofisticados com que Whiske nos familiarizara na Quinta.
 - Outra razo poderosa - continuou Mozart -  o facto
de o tipo perder uma fortuna se os alemes no ganharem a
guerra. Tudo quanto ele tem est ligado a eles... fbricas na
Alemanha, propriedades na Checoslovquia. Vai ter de descobrir o que se passa. Reviste-
lhe o cofre, fotografe tudo o que
encontrar, especialmente o passaporte, com os vistos de entrada e de sada. No dia do ajuste 
de contas vamos precisar de todas as provas contra ele.
 Mozart dirigiu-se para um canto da sala e tirou de l a mais
pequena de trs malas de cabedal pretas.
 - Estas malas so para voc utilizar. Todas elas possuem
fundos falsos e esta tem uma variedade de material que lhe
poder ser til. - Olhou para o relgio. - Dentro de cinco
minutos tenho uma reunio com o embaixador. Ele queixa-se
constantemente para Washington de que a nossa organizao
no obtm resultados que justifique a nossa presena aqui.
Quer-nos daqui para fora. Por isso seria ptimo se voc descobrisse este fim-de-semana 
qualquer prova incriminatria. - Mozart parecia descongelar, o que no era habitual nele. 
Abanando a cabea, observou: - Estou sujeito a muitas presses. Continuo  espera que a 
invaso se realize, quer seja a Operao Overlord ou a Anvil. Todos, mesmo os alemes, 
sabem que a nossa primeira invaso deve dar-se na Primavera, se quisermos tirar vantagem 
do tempo, antes da chegada do prximo Inverno. Eles tambm esto preocupados. No se 
esquea disso. - Fez um gesto com a sua grande mo. - Bem, boa
sorte, Aline.
 Nessa tarde, Casilda  vila e eu fomos conduzidas de carro
atravs dos montes que ladeiam as montanhas de Guadarrama, passando por bosques de 
carvalhos e pinheiros. quando
nos aproximmos da cidade de El Escorial a paisagem mudou
e passmos a ver apenas grandes blocos de pedra cinzenta sobre o terreno rido.
 - Veja, Aline - disse Casilda, apontando para as agulhas
das torres de quatro cpulas. -  o mais importante palcio
real de Espanha, construdo por Filipe II, no sculo XVI. Foi o mesmo arquitecto que 
construiu o palcio dos Lilienthal. Dentro de vinte minutos estaremos l.
 A estrada que ia dar ao palcio dos Lilienthal descia um
monte, do alto do qual eu vi um imenso edifcio de pedra, quadrado, cor de areia, brilhando 
aos ltimos raios do sol da
tarde. Telhas vermelhas, poeirentas, cobriam o telhado. As
portas da entrada encontravam-se abertas e um Mercedes-Benz estava estacionado no local. 
Algum descarregava a bagagem desse carro. quando o nosso automvel parou, olhei
para o braso de pedra sobre a porta, para os jardins que desciam em declive, reparei na 
capela e novamente na fachada da casa, com inmeras janelas protegidas por grades de 
ferro 
altura de um segundo andar. A mim o edifcio parecia-me impenetrvel e austero, fazendo-
me lembrar cavaleiros com armaduras e os contos de fadas das crianas.
 Os meus saltos enterravam-se no cascalho enquanto eu transportava na mo a caixa de 
chapus que continha o equipamento que Mozart me dera. Felizmente conseguira guardar 
tudo ali: detector de rdios, produtos qumicos, arames e limas, p especial, e a nova 
"mquina de espio . O motorista tirava agora do carro as minhas malas de xadrez 
vermelho, que eu preferira s que Mozart me dera. No s os seus fundos falsos no teriam 
enganado um agente profissional, como a sua aparncia masculina no seria apropriada 
para uma rapariga.
 Casilda deu-me o brao.
 -  encantador, no acha? E vai ver que famlia maravilhosa!
 As palavras dela causaram-me apreenso. E se eu descobrisse que o pai de Carola ocultava 
agentes alemes ou que se
tratava do agente especial de Himmler em Espanha? Aceitar a hospitalidade de uma amiga 
para procurar descobrir provas 
incriminatrias contra a famlia dela repugnava-me. Entrei no
vetusto palcio com o corao pesado.
 Para alm das portas duplas, abertas, do vestbulo podia
ver-se um ptio quadrado, com o dobro do tamanho de qualquer ginsio, rodeado por 
cinquenta graciosas colunas de granito, e em cima, no segundo andar, por uma varanda com 
uma
balaustrada de pedra com mais colunas. O vestbulo no tinha
qualquer moblia, a no ser uma mesa de madeira encostada 
parede. O mordomo convidou-nos a assinar o livro dos hspedes, colocado sobre a mesa, 
entre dois grandes candelabros de
pedra. Ao pegar na caneta, observei o nmero de pginas j
assinadas. O livro teria assinaturas de convidados de muitos
anos anteriores. Talvez, mais tarde, eu pudesse examin-lo.
 Criados de libr chegavam para transportar a nossa bagagem e duas criadas indicaram-nos 
o caminho por uma escada
estreita. Os compridos corredores sem aquecimento eram gelados como os de uma catedral. 
Finalmente, no fundo de um
corredor, nas traseiras do edifcio, a minha bagagem foi colocada numa pequena sala com 
vigas de madeira no tecto, uma
lareira e paredes brancas. Contguo  sala havia um quarto
com uma cama rodeada de um dossel de damasco vermelho.
A criada acendeu uma luz de um candeeiro que se encontrava
em cima de uma mesa, a um canto, e saiu, dizendo que voltaria em breve para arrumar as 
minhas coisas.
 Precisava de arranjar rapidamente um stio onde esconder o
equipamento que ocultava dentro da caixa de chapus. Os 
produtos qumicos estavam j ocultos em caixas com os meus
cosmticos. S na casa de banho encontrei um stio ideal. Apesar de a grande janela 
existente por detrs do toucador ser
visvel do ptio, a outra janela dava para a direco oposta,
para uma penedia pedregosa, e pondo-me em p em cima da
sanita, podia chegar-lhe facilmente. L em baixo no havia 
qualquer passeio, caminho ou jardim. A mala  prova de gua
cabia perfeitamente no parapeito e ficaria invisvel.

Alguns minutos depois, encontrei Casilda no glido corredor. Descemos para o primeiro 
andar e percorremos vrios
sales, at chegarmos a uma sala vasta onde crepitava uma
alegre lareira. Vrias pessoas tomavam ch. Um homem alto e louro, vestindo roupas 
prprias para caar, entrava nesse momento na sala pelo lado oposto e comentava:
 - Uma grande caada, Niki. Cinquenta pares de animais.
 Mulheres envergando vestidos de l e enfeitadas com jias
comiam bolinhos e conversavam. O cheiro dos seus vrios perfumes chegava at ns. 
Carola levantou-se quando nos viu e
veio beijar-nos.
 - Sinto-me feliz por a ter aqui, Aline. Venha. Quero apresent-la ao meu pai. A minha me 
s a ver mais tarde. Ela
nunca toma ch.
 Conduziu-me para um grupo que se encontrava a um canto
e ps a mo no brao de um homem alto e corado.
 - Pap - disse. - Lembra-se de eu lhe ter falado de Aline
Griffith? Contei-lhe que imitmos um grupo de cantoras chamado... quais so os nomes 
dessas raparigas americanas,
Aline?
 - As irms Andrews.
 O prncipe Niki sorriu. No entanto, estava confuso.
- As irms Andrews? Cantam pera?
 Carola e eu rimos.
 - Nada disso, pap. Cantam jazz.
 Era duvidoso que o prncipe percebesse bem, mas continuou
a sorrir.
 - Devo dizer que um dia experimentei tocar acordeo e
achei engraado. - O ingls do prncipe era fluente, mas falava com um forte sotaque 
alemo. - De qualquer modo, Aline,
 um prazer conhecer uma amiga de Carola e t-la como nossa
convidada.
 A sua amabilidade ps-me  vontade e voltei-me para conhecer as outras pessoas. O meu 
prazer, ao comear a reparar
nos rostos que me rodeavam, transformou-se em assombro.
Numa cadeira perto da lareira encontrava-se Constantin von
Weiderstock. Noutro crculo, tomando ch, estava a condessa
Von firstenberg com Hans Lazaar. E como se esses no fossem suficientes, reconheci 
Mimosa Torrejn, o conde e a condessa de ebes, e o duque de Durcal, um cavalheiro idoso 
que
Casilda me apresentara na semana anterior.
 Trs em quatro pessoas da minha lista encontravam-se no
mesmo stio. Era como apostar tudo num s nmero e ter jackpot. Naquele momento decidi 
que antes de o fim-de-semana
terminar havia de revistar todos os seus quartos.
Depois, outro rosto familiar, Nena, a irm de Casilda, aproximou-se de um rapaz sentado 
junto da condessa de Schellenberg e Lazaar. Reconheci-o imediatamente - era o rapaz que 
se aproximara de mim no dia em que eu chegara ao hotel e me levara as malas para o 
quarto. Havia duas cadeiras vazias no crculo deles, mas antes de poder chegar a uma delas 
ouvi:
 - Aline, Aline Griffith, como vai, minha filha - A voz
aguda da marquesa de Torrejn deteve-me. Acenou-me e os
seus olhos vivos fixaram-se em mim. Dirigi-me para ela.
 - Estou encantada por a ver, minha querida. - A marquesa apertou-me a mo com uma 
afeio excessiva, pensei. -
Vai ser um fim-de-semana encantador, no acha?
 - Oh, sim - concordei imediatamente. Encantador e
atarefado.
 - Deve ficar satisfeita por saber que deixei as minhas cartas
em casa. No diga nada: toda a gente ficou aliviada com isso.
Nunca me lembraria de maar este encantador grupo de pessoas com a minha leitura das 
cartas. E francamente, minha
querida, as leituras so muito sombrias. Sinal dos tempos que
estamos a viver.
 Sorri delicadamente para a excntrica Mimosa. Depois pedi
licena para me afastar e dirigi-me para o grupo onde se encontravam dois dos meus 
suspeitos.
 Primeiro, Nena apresentou-me ao rapaz que eu vira no hotel, que era o Conde de 
Quintanilla.
 - Creio que j nos encontrmos - disse ele, sorrindo. Fiquei embaraada, lembrando-me da 
gorjeta que quisera meter-lhe na mo no dia em que chegara ao hotel.
 Em seguida fui apresentada a Carlos Beistegui, um homem
delgado, de cabelo grisalho e olhos claros. E finalmente - finalmente - a Gloria von 
Firstenberg e a Hans Lazaar.
 A condessa era ainda mais deslumbrante vista de perto,
e era simplesmente a mulher mais bem vestida que eu j vira.
O mais pequeno pormenor - o fato de l escocesa preto e
vermelho, o papagaio de rubis e brilhantes na lapela, os elegantes sapatos de cabedal feitos 
 mo, o casaco preto de pele e cabedal colocado num brao da cadeira - indicava bom
gosto. A pele muito branca, o cabelo abundante e as mas do
rosto salientes faziam-me perceber que estava a ser apresentada a uma das beldades do meu 
tempo.
 - Encantada, Aline - disse em voz baixa, maravilhosa.
O monculo de Hans Lazaar observava-me. Ao p, ele era ainda mais estranho - as suas 
feies feias, a cara redonda
faziam-no parecer o mau de um filme. Levantando-se, disse
num ingls frio, preciso:
 - Muito prazer, Miss Griffith.
 Carola serviu-me uma chvena de ch de uma mesa com
tampo de mrmore que se encontrava encostada  parede.
 O monculo de Lazaar estava ainda assestado sobre mim.
 -  claro. Lembro-me perfeitamente. - Voltando-se para
a condessa, sentada  sua esquerda, perguntou: - No se recorda, Gloria? No Restaurante 
Horcher? H algumas semanas?
 A condessa encolheu os ombros e passou as mos pelas tranas lustrosas.
 - Hans, a sua memria assombra-me. Como  que consegue recordar-se de tal pormenor? 
Eu no consigo lembrar-me
de uma nica coisa que tenha feito ontem. - Voltando-se para
o grupo acrescentou: - Sabem que ele tem uma memria absolutamente fotogrfica?
 - Que pena lembrar-se de to pouca coisa da sua vida, minha querida. A condessa, sobre 
quem se poderiam escrever
volumes... - disse o suave Senhor Beistegui.
 - Nesse caso tenho sorte em no me lembrar de coisa alguma - retorquiu a condessa. - No 
quero uma nica palavra escrita sobre mim. Prefiro permanecer um mistrio.
 - A condessa? Um mistrio? No h nada de misterioso
numa linda mulher que tem dado brado em todas as cidades
em que tem estado. H anos que no perde uma festa.
 - Gloria, voc nasceu no sculo errado - disse Lazaar com
os seus modos rgidos. - Teria brilhado em Versalhes.
 Felizmente o rumo da conversa foi desviado da memria de
Lazaar, embora o seu monculo permanecesse obstinadamente fixo sobre o meu rosto. 
Pouco depois os grupos comearam a dispersar.
 Uma hora mais tarde - deve ter sido por volta das 19 horas
-, quando eu me encontrava sentada diante da pequena lareira do meu quarto, perdida nos 
meus clculos, com um casaco
pelos ombros por causa do frio, ouvi uma pancada ligeira na
minha porta.
 Quando abri, fiquei surpreendida por ver Mimosa Torrejn,
que parecia aflita.
- Que se passa? - perguntei rapidamente. E logo a seguir
acrescentei: - Faa favor de entrar.
 A mulherzinha baixa e magra entrou e fechou cuidadosamente a porta.
 - No me sinto bem hoje. Mas no foi por isso que resolvi
vir falar consigo. Posso sentar-me?
 - Com certeza. Desculpe.
 Sentando-se numa cadeira em frente da lareira, Mimosa
olhou-me longamente. Os seus olhos pareciam brilhar mais do
que nunca, como pequenas pedras preciosas. Pensei se ela
teria estado a chorar.
 - No sei quem voc  nem o que faz - disse, por fim, no
tom com que lera as cartas. - Mas estou aterrorizada e no
tenho mais ningum com quem falar. Sei que  amiga de Edmundo e por isso corri o risco 
de vir ter consigo. Estou
assustada. Preciso de confiar em algum.
 Disse a mim prpria que teria de ter cuidado com cada slaba que pronunciasse.
 - Agradeo a sua confiana, Mimosa.
 A marquesa passou os dedos pelas prolas que trazia ao pescoo.
 - Eles andam atrs de mim, minha filha. Eu sei-o. Fui descoberta.
 - Quem  que anda atrs de si? Que quer dizer?
 - Os alemes. A Gestapo, nada menos.
 - Mas porqu? - Contive a respirao.
 -  isso que lhe venho contar. - Olhou furtivamente para
a porta, depois colocou uma mo ossuda no meu joelho. -
Tenho informaes vitais para os americanos. Edmundo encontra-se fora da cidade e eu no 
tenho outra maneira de os
avisar a no ser falando consigo.
 Mimosa estremeceu e estendeu os ps para o lume. Olhou
silenciosamente para as chamas. A tremura cessou. Pensei se
aquilo seria fingido. Voltou-se para mim. Tinha a testa enrugada e os olhos franzidos. Ou a 
ansiedade dela era genuna ou a marquesa era uma grande actriz.
 - Quando li as cartas para si senti que era uma pessoa em
quem podia confiar.
 - Continue, por favor - murmurei o mais apaziguadoramente que me foi possvel. - Eu sou 
uma boa ouvinte.
 - Se eles desconfiam que conheo o segredo deles, matam-me. - Estremeceu outra vez. - E 
se descobrem que eu lhe
contei, matam-na tambm a si. So inexorveis.
 - Mas quem so eles?
 - Oh, no me atrevo a p-la em maior perigo, dizendo-lhe os nomes deles.
 Comecei a pensar que o esprito dela estava perturbado
por passar a vida a ler as cartas. Nada do que ela dizia fazia
sentido.
 - Minha querida, deve tomar a srio o que lhe digo. Os
alemes conspiram para assassinar Franco. Eu sei como isso se
passar e quem est a organizar a conspirao. Esto furiosos
com o Generalssimo. Ele no os tem ajudado como eles queriam, oferecendo-lhes a 
Espanha numa bandeja. Por isso querem substitu-lo por outro que leve a Espanha para a 
guerra.
- Levou a mo  barriga e fez uma careta de dor.
 - No se sente bem? Posso ir buscar-lhe alguma coisa?
 - Muito obrigada, minha querida. Ficarei bem logo que
tenha transmitido  pessoa apropriada as notcias que tenho.
 - Mas porque no conta ao general Franco que sabe dessa
conspirao?
 - Minha querida, eu sou monrquica. No quero saber
desse homem e tambm no tenho qualquer influncia sobre
ele. Est a usurpar o lugar do rei, que devia ter regressado do exlio quando acabou a guerra 
civil. Em vez disso o nosso rei, Don Juan,  forado a viver exilado no Estoril.
 - Mas o que  que pensa que eu possa fazer por si?
 - Pode fazer algo por si mesma, minha filha. Pode ajudar a
proteger o seu prprio povo nessa guerra terrvel. - Observou
a minha reaco a essas palavras. - O verdadeiro problema 
um problema dos aliados. H algum que est prximo dos
americanos envolvido no caso... um traidor, algum que finge
estar a trabalhar para os americanos mas que na verdade est
a trabalhar para os alemes. - Recostou-se para trs na cadeira, com os ombros descados. 
Um longo suspiro fez-me
compreender que lhe custara muito contar-me o que acabara
de me dizer.
 No me atrevi a falar. O que ela me dizia abria perspectivas
assustadoras.
 - Sim, vejo que compreende que se trata de um problema
delicado e complexo. Devo falar com o seu embaixador. Imediatamente.
- Certamente conhece o embaixador e pode falar directamente com ele. Porque no lhe 
telefona j?
 - No existem telefones aqui nas montanhas, nem em qualquer outra rea rural. No 
estamos num pas moderno como o
seu. E mesmo que eu conhecesse o seu embaixador no falaria
abertamente com ele, nem lhe telefonaria. Nesse caso no
teriam dvidas a meu respeito, se  que ainda as tm. No.
Peo-lhe que entre imediatamente em contacto com ele logo
que chegue a Madrid. Arranje maneira de ele ir  Igreja
de San Firmn dos Navarros s onze e um quarto, na primeira manh possvel. Sei que ele  
um homem religioso
e a igreja fica perto da sua residncia. Poder facilmente l
ir sem despertar suspeitas. O mesmo se passa comigo. H
mais de trinta anos que l vou diariamente e a essa hora
a igreja est habitualmente deserta. Ningum se incomodaria a seguir-me. Telefone-me, 
Aline, e diga-me qual 
o dia. Tenho pensado muito nisto.  o nico procedimento
a seguir.
 A referncia de Mimosa a um agente duplo era algo que
Mozart precisava de saber urgentemente.
 - Como  que sabe tudo isso, Mimosa? Talvez se tenha
enganado a respeito da existncia de um traidor.
 Ela abanou a cabea.
 - Um erro? Infelizmente para mim no se trata de um erro.
Eu vi-os, com os meus prprios olhos. E ouvi cada palavra que
pronunciaram. - Encolheu os ombros magros. - Tudo sucedeu da maneira mais acidental. 
Eu estava sentada numa slla
de manos (uma cadeirinha para transporte de pessoas do sculo quinze) . Conhece-as, no? 
Eram transportadas por quatro criados ou presas a burros. J deve ter visto muitas. Eu
prpria tenho duas em minha casa. Muitos amigos meus herdaram essas reminiscncias do 
passado e utilizam-nas para a
decorao das suas casas. - Mimosa no esperou que eu lhe
respondesse. - Estava cansada nessa noite, em casa do duque
de Medinacelli, e procurei um lugar sossegado para descansar
do barulho que as pessoas faziam. Entrei ento numa sala vazia onde havia uma dessas 
cadeirinhas. Instalei-me l dentro e
fechei a porta, tentando imaginar o que as pessoas sentiriam
ao serem transportadas naquelas cadeiras tendo apenas uma
janela minscula para espreitarem para fora. Mal tinha entrado na cadeirinha, apareceram 
eles. O que me impediu de me mostrar nessa altura foi ter visto ali uma pessoa que eu no
sabia que se encontrava em Espanha... algum que eu conheo
muito bem. - Fez uma pausa e abanou a cabea com um ar
infeliz. - Eles comearam imediatamente a falar dos pormenores da conspirao. Eu nem 
me atrevia a respirar. Fiquei
assustadssima por estar a ouvir aquilo tudo. Como poderia deixar de os ouvir?
 - Mas por que motivo est to assustada? Eles viram-na?
 - No, mas depois de eles terminarem a conversa abri a
porta da cadeirinha para sair. Nesse momento, um criado que 
devia t-los visto sair dali entrou na sala e olhou-me,
estupefacto. Claro que ficou com a impresso de que eu me escondera ali 
propositadamente. Que havia de dizer? Qualquer coisa que eu dissesse ainda tornaria as 
coisas piores. Aquele criado trabalhou em tempos na Embaixada alem.  uma pessoa de
quem no gosto. Anda sempre a observar tudo. No me surpreenderia se ele fosse pago 
pelos alemes para lhes fornecer informaes. - Mimosa ergueu-se. - Oh, estou perdida, 
sinto-o. Quando li as cartas para si percebi que se tramava alguma conspirao contra 
Franco. Muita gente espera que venha a ser tentada alguma coisa destas. Mas eu agora sei 
quem
se encontra envolvido no caso.
 Abriu a porta e espreitou para os dois lados do corredor.
 - No posso permanecer aqui nem mais um segundo. No
deve dizer a ningum que eu estive no seu quarto. - Depois
afastou-se rapidamente pelo corredor.

 As palavras de Mimosa fizeram-me esquecer tudo o resto,
enquanto tomava banho e me vestia para o jantar. No tinha
maneira de contactar Mozart antes de regressar a Madrid. s
21 e 30 fui juntar-me s outras pessoas no grande salo, onde se tomavam as bebidas.
 Gloria e Carola conversavam junto da vasta lareira e outros
convidados encontravam-se em grupo perto da mesa onde dois
criados preparavam as bebidas. Mimosa ainda no aparecera,
e o mesmo sucedeu at s 22 e 30, hora em que fomos para a
mesa. No me atrevi a perguntar a quem quer que fosse por
ela.
 Quatro reposteiros com mais de dez metros de altura, com 
braso da famlia bordado, cobriam as paredes da sala baronial, que era uma combinao do 
rstico e do barroco. Viam-se candelabros de prata sobre a toalha de damasco branco,
carpetes valiosas cobriam o pavimento de tbuas largas, vasos
esculpidos adornavam a pedra da chamin caiada de branco.
Reparei imediatamente que as pessoas se encontravam sentadas segundo as regras do mais 
rigoroso protocolo. O prncipe
alemo tinha uma condessa espanhola ao seu lado direito e
 sua esquerda outra dama nobre, cujo nome eu no ouvira
ainda. Os jovens com ttulos sentavam-se em lugares mais importantes do que pessoas mais 
velhas que os no tinham. Todos os lugares estavam ocupados e Mimosa no aparecera. Por
isso percebi que no a esperavam para o jantar.
 A princesa Lilienthal era muito bela - alta, elegante, distinta - e fez com que o duque de 
Durcal, que se sentava  sua direita, risse durante toda a refeio. Seis criados com a
libr da famlia, azul e vermelha, serviam as dezoito pessoas que se encontravam  mesa.
 Fiquei instalada entre Quintanilla e Beistegui. Este informou-me que possua uma casa na 
Castellana e que essa casa
estava vazia porque ele vivia habitualmente em Paris, mas que
tinha uma piscina. Quando lhe disse que gostava de nadar, ele
respondeu-me:
 - Tem sorte. Quando comear a estar calor, em Maio,
darei ordens para que a piscina seja cheia. Peo-lhe que a utilize  sua vontade. Ir 
descobrir que no existe praticamente mais nenhuma piscina em toda a cidade.
 Depois do jantar passmos para um enorme salo, onde se
viam muitas cadeiras colocadas em crculo. Muitos convidados que no tinham estado 
presentes durante o jantar encontravam-se j nesse salo. Estava a ser servido conhaque aos 
homens e sumo de laranja s mulheres. Subitamente apareceu
um grupo de ciganos acabados de chegar de Madrid, falando
em voz alta, batendo com os taces no soalho antigo de tbuas
largas, para lhe experimentar a ressonncia e fazendo vnias
para cumprimentar toda a gente. S quando o silncio se tornou total  que um homem 
magro, de faces encovadas e cabelos gordurosos, pousou uma mo nas costas da cadeira do
guitarrista e comeou a entoar um canto triste.
 No havia mais nenhum instrumento, apenas uma guitarra,
mas a assistncia ouvia enfeitiada. De quando em quando,
algum hspede murmurava um "Ol . No fim de cada cano os aplausos entusisticos 
indicavam o seu sucesso. A seguir
levantou-se uma cigana, afastando a comprida cauda do seu 
vestido de folhos, de pintas vermelhas e brancas, e comeou a
mover-se, espalmando as mos sobre o corpo, ritmadamente.
Quando ela levantou a saia, para danar, reparei que as suas
pernas peludas pareciam pesadas e que calava uns sapatos
velhos; o cabelo que ela tinha preso sobre a nuca tinha um
aspecto oleoso. Mas quando ela se comeou a mover, tornou-se
bela e cheia de magnetismo. Os movimentos graciosos do seu
corpo, o erguer da cabea, o modo sensual como torcia os braos e as mos, tudo isso 
enfeitiava os espectadores.
 O ritmo da dana e as canes quase me tinham feito esquecer as minhas preocupaes a 
respeito de Mimosa e do trabalho que tinha de fazer. Toda a gente estava absorvida pelos
movimentos da cigana que danava o flamenco. Apesar de me
encontrar muito nervosa, sabia que tinha sido treinada para
momentos como aquele.
 Um criado passou junto de ns levando nas mos um tabuleiro com copos cheios de sumo 
de laranja.
 - Com licena - murmurei, levantando-me. Beistegui
olhou-me e o mesmo fizeram Casilda e Luis Quintanilla.
 Aos seus olhares interrogativos, respondi calmamente:
 - Vou buscar as minhas castanholas. - Sorri. As suas expresses revelaram perplexidade e 
eu aproveitei para me afastar antes que me fizessem mais perguntas.
 Atravessei lentamente os sales fracamente iluminados. Um
relgio bateu horas, algures. O meu relgio de pulso marcava
uma e meia. No vestbulo, decidi fotografar o livro dos hspedes. Podia obter provas de que 
Himmler estivera ali! A minha mquina fotogrfica encontrava-se oculta no esguio isqueiro 
que eu trazia na pequena bolsa de noite. Com ela fotografei, pgina a pgina, o livro com as 
assinaturas dos convidados.
O vestbulo estava mal iluminado, mas a pelcula era, felizmente, muito sensvel. Depois 
ouvi passos.
 Meti rapidamente a mquina na bolsa.
 - Aline, que est a fazer? - perguntou a voz quase infantil
de Carola.
 - Ia a caminho da casa de banho e senti-me fascinada pelo
vosso livro de hspedes. Que vida interessante a sua famlia
tem tido. E esta linda casa. Nunca vi nada que se parecesse
com isto.
Ela soltou uma risadinha.
 - Nunca penso nisso... para mim  apenas a minha casa e a
minha famlia. Vai ver amanh. O exterior  muito bonito.
 Nesse momento o amanh parecia estar muito distante.
Achei que no faria mal perguntar a Carola:
 - Como est a marquesa? No a vi aparecer esta noite.
 Franzindo a testa, Carola respondeu:
 - O pap disse que ela adoeceu subitamente. Foi conduzida a Madrid. Partiu pouco antes 
do jantar. Eu ia buscar um
xaile. Quer ir comigo?
 Carola no se apercebeu de como as informaes que me
havia acabado de dar me tinham perturbado. Significaria
aquilo que Mimosa decidira contactar imediatamente o embaixador? Ou estaria to nervosa 
que teria adoecido de verdade? Ou...
 Fosse o que fosse, uma coisa era certa. Eu precisava de ter
cuidado.
 - Sim, vou consigo e, se no se importa, gostava de a ouvir
contar mais coisas acerca desta casa.
 Subimos umas escadas e percorremos um corredor at ao
quarto dela, sempre a conversar. A certa altura, ela parou
e ps-me as mos nos ombros. Ficmos voltadas uma para a
outra.
 - Aline,  capaz de me dizer uma coisa com toda a franqueza?
 - Pergunte - respondi, sorrindo.
 - Constantin parece-me tmido. Mal disse uma palavra
fosse a quem fosse. Mas tenho a impresso de que quer falar 
comigo.
 - Bem, d-lhe uma oportunidade para isso. Ele tem estado
a olhar para si toda a noite.
 Carola sorriu.
 - Obrigada pelo encorajamento.
 Continumos a andar e eu aproveitei a companhia dela para
me informar sobre quem ocupava os quartos pelos quais amos
passando. Sem querer, ela estava a ser simultaneamente o meu
guia e o meu anjo-da-guarda. Felizmente, todos os convidados 
em que eu estava interessada ocupavam quartos do meu corredor.
 Chegmos ao quarto dela, cheio de pequenos quadros lindamente emoldurados e de belas 
figuras de porcelana. Pensei em Edmundo, que teria ali um vasto campo de caa. Depois de
Carola se ter abrigado com um xaile, voltmos pelo mesmo
caminho. Foi agora a minha vez de a fazer parar.
 - Considerar-me-ia doida se eu andasse um bocado pela
casa? Tudo isto, os quadros, as tapearias, tudo me encanta, e
eu gostaria de poder contemplar cada objecto com sossego.
Acha que levaro a mal? E, com franqueza, ainda no sou
grande apreciadora dos cantares do flamenco.
 - Claro que pode andar  vontade. A minha casa  a sua
casa, como se diz em Espanha.
 Separmo-nos ao fundo das escadas. Vi-a desaparecer e
olhei para o meu relgio. Quanto tempo demoraria ainda a
festa? Casilda dissera-me que aqueles espectculos de flamenco duravam at de 
madrugada. Esperava que ela tivesse razo.
 Comecei pelo primeiro quarto do corredor. Fiz girar lentamente a maaneta da porta. L 
dentro a escurido era completa. Acendi a luz. A cama estava aberta. Um pijama de homem 
encontrava-se em cima da colcha, pronto para ser vestido, e havia um roupo de seda sobre 
uma cadeira. Aproximei-me em bicos dos ps de um enorme armrio, que abri com todo o 
cuidado. L dentro, as calas de l castanha que Beistegui usara nessa tarde, ao voltar da 
caa, identificaram-no. Trinta segundos depois encontrava-me de novo no corredor.
 Abri a porta seguinte. O cheiro a perfume indicou-me que
estava no quarto da condessa. O quarto estava iluminado pela
luz suave do candeeiro da mesa-de-cabeceira, mas precisei da
minha minscula lanterna elctrica para observar roupas e gavetas. De sbito, ouvi um 
rudo e imobilizei-me, mas apercebi-me, de imediato, que se tratava apenas do vento que 
abanava ligeiramente as janelas do velho edifcio. Sobre a secretria havia uma folha de 
papel. Aproximei-me mais e vi que era uma carta comeada. A caneta estava ao lado dela. 
Inclinei-me. Aquilo era demasiado bom para ser verdade: "Liebe Heinrich . Poderia bem 
ser Heinrich Himmler. Inclinando a luz
sobre a carta com uma mo, disparei a pequena mquina fotogrfica com a outra. Se 
algum abrisse a porta nesse momento, eu estava perdida. Passei rapidamente em revista os 
cosmticos e os perfumes na casa de banho. No descobri nada de interesse, at que a luz 
da minha lanterna incidiu sobre um
objecto metlico. Uma pequena pistola Beretta estava pou sada na borda da banheira de 
esmalte branco. Aparentemente,
a condessa tomava banho com gua, sabonete e um revlver.
 Tinha de sair dali. O tempo era essencial. O quarto de Lazaar cheirava a talco e a cabedal 
de sapatos novos. Apesar de
examinar tudo - os forros de cada fato, as solas dos sapatos,
todos os compartimentos da sua pasta -, encontrei apenas um
relatrio oficial sobre tungstnio, que achei que merecia ser
fotografado. Nesse instante, o filme acabou-se e eu perdi uns
segundos preciosos a colocar outro rolo na mquina. Finalmente apaguei a lanterna e sa 
para o corredor, fechando a
porta com cuidado. Estava novamente em segurana. Mas dei
dois passos sobre o pavimento alcatifado e parei petrificada.
 Ele encontrava-se talvez a uns oito metros de distncia, encostado a uma parede, como se 
tivesse combinado encontrar-se comigo naquele corredor deserto. Um brao estava apoiado
sobre o peito, seguro por uma tira preta, da cor do smokng.
Constantin dirigiu-se para mim. Dar meia volta e seguir na
direco oposta s poderia mostrar que me sentia comprometida. Decidi avanar para ele. 
Cada passo que dei exigiu-me
um grande esforo. Ao passar junto de Constantin von Weiderstock, percebi que ele estava 
embriagado. Ele baixou a cabea, num breve cumprimento.
 - A Frulein est a perder um belo espectculo. Ou talvez
se esteja a divertir  sua maneira.
 Passei por ele sem dizer uma palavra, sorrindo apenas. Segui ao longo do corredor. Era 
impossvel revistar agora o
quarto de Mimosa. Talvez pudesse encontrar l algo que me
desse uma indicao sobre a sua sbita partida.
 Decorrera uma boa meia hora, mas toda a gente continuava
sentada, em silncio, como na igreja. A msica e o canto prosseguiam no mesmo frenesim 
apaixonado. No entanto, em comparao com as minhas pulsaes desordenadas, aquela 
dana
poderia parecer uma valsa.

 Da minha cama podia ver as estrelas brilhantes por cima
dos montes. Os meus sonhos foram interrompidos pela recordao do tom de terror que 
vibrava na voz de Mimosa ao falar
de um traidor aos americanos. Estaria ela a imaginar coisas?
No. Edmundo afirmara ser ela a mais astuta raposa de Madrid. Os meus pensamentos eram 
contraditrios. Ao ouvir Mimosa, algumas horas antes, sentira-me ligeiramente preocupada. 
Agora estava to assustada como ela estivera.
 Subitamente tive a conscincia de um som vago. Estava algum no meu quarto. S a luz 
das estrelas o iluminava, mas eu
 podia ver os contornos de um vulto que se aproximava da minha cama. A silhueta 
aproximou-se e inclinou-se sobre mim.
 Lembrei-me com desespero que deixara a Beretta dentro da
 bolsa, em cima do toucador.
 Uma voz de homem murmurou:
 - Que estava a fazer no quarto de Hans Lazaar? - Reconheci o sotaque de Weiderstock. O 
cheiro a lcool era repugnante. Falava num tom levemente divertido. - No tenha receio - 
murmurou. - Sei tudo a respeito de vocs, raparigas
 americanas. Concedem facilmente os vossos favores.
 Tentou beijar-me, mas falhou e caiu. Depois segurou-se aos
 lenis, numa tentativa de se meter dentro da minha cama.
 Estava completamente embriagado. Fechei os punhos e bati-lhe.
 - Saia daqui.
 Constantin cambaleou, caindo de joelhos junto da cama.
 Passado um momento, ouvi a voz dele outra vez.
 - Vi a maneira como olhou para ele esta tarde. Sei bem
 como so as mulheres americanas. So todas fceis. - A voz
 era pastosa e o tom conciliatrio.
 Era inofensivo como um rapazinho brio. Quando tentou
 beijar-me outra vez puxei-lhe pelo brao ferido. Gemeu.
 - V-se embora. Saia daqui. Antes que eu grite. Antes que
 eu o magoe.
 Ele riu.
 - Voc magoar-me? Isso d-me vontade de rir.
 Desta vez atingi-lhe o brao ferido, com fora. Constantin
 gemeu mais alto e depois ps-se de p, a cambalear.
 Tive de agir depressa. O seu estado de embriaguez podia
 permitir obter dele informaes valiosas. Acendi a luz e saltei da cama. Enfiei o roupo e 
empurrei Weiderstock para cima duma cadeira - a mesma que a marquesa ocupara horas 
antes. O quarto estava agora iluminado.
 - Sente-se - ordenei, empurrando-o, enquanto ele gemia e
 parecia querer vomitar. Aproveitando o seu atordoamento, fui
 buscar ao meu estojo de cosmticos uma pequena cpsula. Era
 de sdio amobarbital, aquilo a que chamavam na Quinta o "soro da verdade  e que 
resultava com grande rapidez numa
pessoa que tivesse consumido muito lcool.
 - Voc est embriagado e amanh de manh vai lamentar
o seu procedimento. Mas no se preocupe. Eu compreendo.
Tem uma ideia errada acerca das raparigas americanas.
Quando me viu no corredor, andava perdida. Tambm bebi
de mais. Herr Lazaar no estava no quarto quando eu l fui.
Encontrava-se l em baixo, na festa. Enganei-me na porta do
quarto. Nada mais.
 Olhei para a janela e vi que o cu comeava a clarear.
Weiderstock apoiou a cabea nas mos. Apressei-me a deitar, num copo, gua do jarro que 
tinha sobre a mesa-de-cabeceira e a misturar-lhe o p da cpsula, mexendo com um dedo.
 - Tome. Um pouco de bicarbonato de soda f-lo- sentir-se
melhor.
 Levando o copo aos lbios, ele murmurou:
 - Merda, que estou eu a fazer? - Havia arrependimento
na voz dele.
 - Beba isso e sentir-se- melhor. Amanh de manh no se
recordar de coisa alguma.
 Observei-o e vi que ele estava a ficar cada vez mais tonto.
Os duzentos miligramas de sdio amobarbital actuariam rapidamente, mas durante pouco 
tempo. Da a trs minutos ele
estava mole como manteiga, no entanto permanecia consciente. Tive que lhe endireitar os 
ombros largos com ambas as
mos.
 - Constantin, sabe por que motivo partiu a marquesa de
Torrejn?
 - No - respondeu ele passado um momento.
 - Quantas vezes esteve com o prncipe Lilienthal?
 - Trs ou quatro - o jovem alemo falava com voz arrastada, quase como um americano do 
Sul.
 - Conhece bem Hans Lazaar, Constantin?
 Ele escorregou-me nos braos. Tive de o endireitar de novo.
 - No.
 - Por que razo esteve Heinrich Himmler em Espanha?
 - No sei.
 - Est a mentir, Constantin. Deve dizer-me a verdade.
 - No sei - repetiu. - Ele no me disse. - Levou um
minuto a dizer estas palavras.
- Porqu?
 - No confia em mim.
 - Que quer dizer com isso?
 - Nenhum deles confia. Nenhum deles confia em mim.
Nem Himmler, nem Lilienthal, nem Lazaar. Pensam que sou
estpido. Julgam que no sei que querem eliminar o meu padrinho.
 Tinha um tesouro nas minhas mos.
 - Porque pretendem eles eliminar o seu padrinho? Que
quer dizer com isso?
 - Himmler detesta-o.
 - Porqu?
 - Tm inveja. Himmler tirou o lugar ao meu padrinho.
 Foram precisos vrios minutos e muitas sacudidelas para
lhe arrancar esta frase. Sentia as mos dormentes do ar frio das montanhas que entrava pela 
janela aberta.
 - Qual  o seu trabalho para a Gestapo em Madrid? Qual
 precisamente o seu trabalho?
 Os produtos qumicos estavam a fazer efeito. O alemo estava prestes a mergulhar na 
inconscincia. Repeti a pergunta
trs vezes. Finalmente murmurou:
 - Sou apenas um moo de recados, levo papis de um lado
para o outro. Sou um fantoche. Eles apanharam o meu padrinho e querem apanhar-me a 
mim.
 Tinha a pergunta crtica na ponta da lngua: "Quem 
o agente especial de Heinrich Himmler em Espanha?  Mas
era demasiado tarde. Pouco depois Von Weiderstock no
era capaz de dizer fosse o que fosse. Tive grande dificuldade em o fazer despertar o 
suficiente para o tirar do meu
quarto. Felizmente ele estava instalado na mesma ala do
castelo. Vi-o cambalear e cair j no fundo do corredor.
Algum havia de o encontrar ali e de o levar para o quarto. Pelo menos j no haveria o 
perigo de o relacionarem 
comigo. 
 Na manh seguinte, depois da missa, demos um passeio
a cavalo. Carola aproximou a sua gua da minha montada e
perguntou-me:
- Diga-me, Aline, no acha Constantin encantador?
 - Ainda no tive oportunidade de falar com ele.
 Ela riu.
 - Diga-me a verdade. Acha que ele gosta de mim?
- Claro que sim. Vejo-o frequentemente a olhar para si.
 Durante todo o caminho de regresso, Carola falou constantemente de Constantin.
 Sempre que nesse dia me encontrei face a face com Weiderstock, ele fitou-me com uma 
expresso perplexa, mas to distante como sempre. O p resultara.

  hora da siesta, depois de toda a gente se ter retirado, e de ter mesmo desaparecido a 
msica de Beethoven tocada no gramofone, desci at ao vestbulo. O silncio era total. 
Numa
bolsa de cabedal suspensa do meu cinto encontrava-se a minha
mquina fotogrfica e alguns arames destinados a abrir fechaduras. Fui atravessando 
calmamente os sales at chegar ao escritrio particular do prncipe Lilienthal. Carola 
tinha-mo indicado na noite anterior. No havia qualquer rudo. Felizmente os aposentos dos 
criados eram distantes dali e eles
pareciam tambm dormir a sesta. Olhei para o meu relgio e calculei que demoraria cinco 
minutos. Depois, fazendo girar a
maaneta da porta, entrei.
 Uma das janelas que davam para uma varanda estava
aberta, e uma ligeira brisa agitava as cortinas. A sala
continha uma grande secretria, algumas cadeiras, um armrio onde se viam pistolas e 
espingardas, algumas estantes com livros e um enorme cofre. Dirigi-me para a secretria e 
abri a primeira gaveta. Logo em cima estava o passaporte do prncipe. Era do Liechtenstein, 
no da Alemanha. Depois de o fotografar, dirigi-me para o cofre e, ajoelhandojunto da 
porta, comecei o meu trabalho. Subitamente as portas duplas que davam para o corredor 
abriram-se com estrondo e surgiram quatro gigantescos
ces de caa da Baviera! O barulho que eles faziam acordaria toda a gente. Os ces, 
rosnando e mostrando os dentes,
no me permitiam chegar  porta. A nica possibilidade de
fuga era a janela. Saltei no ar, indo cair com tanta fora que
tive de morder a lngua para no gritar. Estava no roseiral
da princesa, magoada e suja, mas pelo menos os ces no me
tinham seguido e estavam calados. Estava tudo novamente
silencioso.
 "Oh, Aline, s uma louca! , foi o que pensei a seguir,
porque se encontrava algum na minha frente apontando-me uma
arma e sorrindo bastante amigavelmente.
- Bem, bem, parece-me que temos aqui uma atleta.
 Um fugidio e cruel sorriso transformou momentaneamente
aquele rosto.
 Respirei fundo e levantei-me, sacudindo a terra da saia.
 -  especialista em saltar de janelas, Miss Griffith?
 - Creio que sim quando sou perseguida por ces.
 - O que  que fazia no meu escritrio? - O prncipe, o 
meu principal suspeito, no perdia tempo. Quando o vi fitar-me to de perto, tive a 
impresso de que estava a olhar para
ele pela primeira vez. Os dentes grandes e irregulares, o rosto de feies grandes e fortes, 
com marcas de bexigas, e os ousados olhos azuis... Era constitudo como um tronco de 
rvore e tinha um peito largo.
 - Bem, estava s a v-lo. Carola disse-me que no fazia mal
eu andar por a a ver a vossa bonita casa. A sua coleco de
armas fascinou-me.
 - Realmente vocs, americanos, so estranhos. Limita-se a
admirar armas de fogo ou tambm sabe disparar? Porque no
me mostra?
 - No sou perita, mas posso tentar.
 O prncipe Lilienthal olhou  sua volta e depois entregou-me a arma.
 - Tente atirar para ali. - Segui a direco do dedo dele.
Por cima de um muro que circundava o roseiral, viam-se alguns vasos de argila vermelha.
 - Oh, no poderia...
 - V, Aline. So de fcil substituio. - Pareceu-me que a 
ordem dele nada tinha da afabilidade da vspera.
 Olhei para os frgeis vasos colocados sobre o muro. Erguendo a arma  altura do ombro, 
puxei o gatilho, mas o recuo
da espingarda fez-me perder o equilbrio.
 A bala perdeu-se muito acima dos vasos, que permaneceram
intactos.
 O prncipe abanou a cabea.
 - Poucos americanos percebem de armas. Na minha famlia at as mulheres sabem 
manejar uma arma de fogo. -
Pegou na espingarda e apontou rapidamente para os vasos, 
que pareciam encontrar-se numa carreira de tiro. Acertou nos
dois primeiros, carregou novamente a arma, falhou um tiro e
acertou outro, voltou a carregar e acabou com os ltimos dois
vasos, em sucesso.



 No mesmo muro, mais adiante, havia mais uma srie de
 vasos semelhantes. No pude resistir.
 - Importa-se que eu experimente outra vez, com aqueles?
 - Com certeza que no - replicou, rindo. Mais uma vez
 me entregou a arma. Segurei-a com as duas mos perto da
 anca direita, baixando-me ligeiramente. Um a um, os vasos
 foram estilhaados. Carreguei a arma sem mudar de posio e continuei at ter destrudo 
doze, sem falhar um s.
 Quando o ltimo tiro soou, mal tive tempo para ver a
expresso assombrada do prncipe, porque o barulho fez com
 que vrias pessoas assomassem s janelas para ver o que se
 passava. O prncipe voltou-se para mim.
 - Para a prxima vez que desejar ver a minha coleco de
 armas, diga-me. Terei todo o prazer em lha mostrar.
 Apareceram dois criados a correr para ver o que
sucedera.
 A condessa Von firstenberg atravessava o caminho de cascalho, movendo-se com a graa 
felina de uma pantera. Era uma viso fresca, envolta em seda branca.
 - Meu caro Niki,  esta a maneira que voc tem de acordar
 os seus convidados que dormem a sesta? Que est a fazer?
 - Apenas a mostrar a Aline como se manejam armas de
 fogo.
 Olhando para mim e para o prncipe, a condessa no percebia o sentido das palavras dele.
 - Tenho a certeza de que est a assustar Aline com as suas
 demonstraes. Niki gosta de se exibir diante de
raparigas bonitas. A propsito, Aline, era a si que eu procurava.
 - A mim ?
 - Sim. Pensei que podamos tomar ch no meu quarto e ter
 uma conversa, se no tem mais nada para fazer. Pode dispens-la, Niki?
 - Com certeza. - As palavras do prncipe eram cheias de
 delicadeza, mas eu senti que ele desconfiava de mim.
 Seguindo a condessa para dentro de casa, ainda
atordoada pelo que acabara de se passar, no me atrevi a pensar naquilo em que me iria 
meter.
 Um dos sales por onde passmos estava ocupado. Sentados num sof, em frente do lume, 
Carola e Constantin conversavam calmamente. Ela parecia aborrecida. Cumprimentando-os 
rapidamente, continumos o nosso caminho.
 S depois de estarmos instaladas na salinha da condessa e de ela me ter servido uma 
chvena de ch  que comeou
a falar.
 O seu queixo descansava sobre as pontas dos dedos, de
unhas pintadas de vermelho.
 - Soube que teve ontem uma conversa com Mimosa Torrejn. - As palavras dela deixaram-
me gelada. Apesar de continuar a deitar creme no ch, os grandes olhos da condessa 
pediam-me uma resposta. No recebendo nenhuma, a condessa 
continuou: - Ela disse-me que simpatizava muito consigo.
Visto ela ter desaparecido bruscamente, pensei que voc pudesse dizer-me o que se passou.
 - Carola contou-me que ela foi conduzida a Madrid. Sentiu-se doente, ao que parece. Podia 
ter feito a pergunta aos
Lilienthals - repliquei.
 A condessa franziu os olhos.
 - Pensa que eu lhe estaria a fazer a pergunta a si se a no
tivesse feito j a eles? Mas mostraram-se muito fechados a esse respeito, e isso aguou a 
minha curiosidade. Informaram-me apenas de que ela se sentiu subitamente muito doente.
 - E isso no satisfez a sua curiosidade?
 - No.
 - Porqu?
 - No acredito nisso.
 Tambm eu no acreditava. Olhei  minha volta, pela sala,
pensando se a arma da condessa ainda estaria na borda da 
banheira.
 - E porque  que no acredita?
 - No sei. Mas no acredito. Encontrei Mimosa pouco depois de ela ter sado do seu 
quarto. No a achei assim to
doente.
 - Lamento no a poder ajudar mais.
 - Bem, talvez possa - retorquiu ela, sorrindo enigmaticamente.
 - Que quer dizer com isso?
 A condessa ergueu-se e caminhou at junto da secretria, e
da gaveta de cima retirou uma caixa de veludo preto. No se
encontrava no quarto dela na noite anterior, disso tinha eu a
certeza. Voltou para a sua cadeira e abriu o estojo. Os meus
olhos ficaram deslumbrados pelo brilho das jias.
 - So peas muito belas - declarou. - Deve apreci-las.
 Ergueu-as, uma por uma, para eu as ver  luz. Umas tinham esmeraldas e outras safiras. 
Nunca vira jias to deslumbrantes. A condessa olhou-as languidamente.
 - Apesar de gostar de coisas bonitas, separo-me facilmente
delas. Como a marquesa, sou mdium. As coisas passam atravs de mim.
 Ocorreu-me que ela estivesse a querer subornar-me de qualquer maneira. Fomos ento 
interrompidas por uma leve
pancada na porta. Antes de responder, a condessa guardou as jias no estojo e escondeu-o 
atrs da almofada da
cadeira.
 - Entre, Hans. Tenho uma visita que o vai encantar.
 Muito direito, rgido, de ar sombrio, Lazaar entrou na sala.
Limitou-se a inclinar-se ligeiramente na minha frente, para me
cumprimentar. Por momentos ambos ficaram a observar-me.
Era algo de fazer arrepiar, no por causa daquilo que os olhares deles exprimiam, mas sim 
por aquilo que no exprimiam.
Eram imperscrutveis.
 - Por favor continuem a conversar. No quero interromp-las.
 A condessa explicou rapidamente as circunstncias em que
me havia encontrado, concluindo com uma franca narrativa
da nossa conversa. Admirei-me da sua necessidade de dar explicaes. Sentia-me, alm 
disso, ansiosa por sair dali.
 A condessa indicou ento uma cadeira a Lazaar. O monculo dele fixou-se em mim.
 - Tenha cuidado com o stio onde esconde as suas jias,
Gloria. Tenho a certeza de que posso ser franco diante de Miss
Griffith. Algum esteve no meu quarto ontem  noite. Com
efeito, o meu quarto foi revistado.
 - O que  que est a dizer, Hans? Por que motivo havia
algum de querer revistar o seu quarto? E como o sabe?
 Um sorriso terrvel, que ainda o tornava mais feio, se
possvel, apareceu no rosto de Lazaar. Ele ergueu um dedo.
 - Adivinhei, querida Gloria.
 Outra pancada na porta.
 - Oh, adoro pequenas reunies. E voc, Aline?
 Quando a condessa abriu a porta vi que se tratava de Niki
Lilienthal.
 Seria uma conspirao? Como pudera eu ser to cega?
Como  que eles iriam ver-se livres de mim? To depressa
como da marquesa de Torrejn?
- No fazia ideia de que voc fosse to popular, Aline. Todos parecem gostar de si. Voc j 
 como uma velha amiga da
famlia.
 Durante momentos pensei se Gloria teria envenenado o ch
- senti-me esgotada. Forando-me a sorrir, declarei:
 - Passei um fim-de-semana maravilhoso, apesar de muito
curto, mas preciso de ir para o meu quarto arrumar as malas.
Luis Quintanilla vai levar-me a mim, Casilda e Nena para 
Madrid dentro de uma hora. Tenho de estar no escritrio amanh de manh, cedo.
 Logo que cheguei ao meu quarto fui ver se a mala de lona
ainda se encontrava no parapeito do lado de fora da janela.
No vi sinais de algum lhe ter mexido. No entanto, os fios que eu deixara nas gavetas e 
nos armrios do meu quarto tinham
sido mexidos. Que melhor explicao para o ch no quarto de
Gloria? Fora o tempo suficiente para algum revistar-me o
quarto.
 Antes de partir, Carola apareceu no meu quarto. Depois de
a olhar, perguntei:
 - Que se passa?
 Carola fitou-me com ar triste.
 - Ele deixa a Espanha amanh.
 - Quem?
 - Quem  que pensa? Constantin.
 - E parte para onde?
 - Para Berlim.
 - E porqu?
 - Digo-lhe se prometer no contar a ningum. A ningum!
 - Prometo.
 - Ele afirma que se est a preparar em Madrid algo de
terrvel. No me quis dizer de que se trata, mas disse que
queria estar o mais longe possvel.
 - Espero que ele no seja enviado de novo para a frente.
 - Ele est assustado - explicou Carola. - O padrinho
dele j no goza da confiana de Hitler. E eles podem mandar
Constantin para a frente russa.
 Lentamente perguntei:
 - Ento por que motivo quer ele voltar para Berlim?
 - Ele diz que na frente sabe tomar conta de si mesmo, mas
que aqui est rodeado de inimigos. - Fiquei calada. - Oh,
Aline, peo-lhe desculpa. Fui uma pssima companhia durante este fim-de-semana, 
pensando apenas em mim e nas
minhas fantasias. Prometa-me que voltar em breve.
 Impulsivamente, abracei-a.
 - No seja tola. Passei um tempo maravilhoso e voltarei
quando quiser convidar-me outra vez.
 Precisava de voltar ali - no conseguira realizar a minha
principal tarefa. O detector de rdios continuava sem ser
utilizado.



Captulo 16

 Apesar de ser tarde quando cheguei a casa no sbado  noite, preocupada com a urgncia 
da informao da marquesa de
Torrejn, liguei para Mozart. Ele no estava. Na manh seguinte, quando lhe contei em 
pormenor tudo o que se passara,
ele no teve qualquer reaco. Nem sequer pestanejou. Eu
agora j sabia que geralmente era essa a sua atitude quando
ocorriam grandes crises.
 O seu primeiro comentrio quando eu acabei foi:
 - No mencione a ningum a observao da marquesa a
respeito de um traidor. Compreende?
 - Sim.
 Mozart prosseguiu:
 - O facto de o passaporte de Lilienthal ser do Liechtenstein
 uma proteco perfeita e uma boa cobertura ao mesmo
tempo. Ele  o nmero um da nossa lista negra e poder ser o
agente especial de Himmler aqui, mas, Miss Griffith, precisamos de provas. - Apontou para 
o detector que eu colocara sobre a cadeira. - Ter de ser convidada outra vez para procurar 
a estao secreta de rdio.
 Pediu-me que esperasse que ele contactasse com o embaixador e sugeriu-me que 
telefonasse  marquesa para confirmar o
encontro para o dia seguinte.
 Foi a prpria Mimosa que atendeu o telefone, como se estivesse  espera do meu 
telefonema, e soltou um suspiro de
alvio quando eu disse:
 - Amanh, tera-feira. - A sua nica resposta foi:
 - Obrigada, minha filha. Possa o bom Deus recompens-la.
 Mozart ouviu atentamente a gravao da conversa. Parecia
aliviado.
- Muito bem, Tiger. Quando o filme for revelado dir-lhe-ei
se h alguma coisa que possa afectar a sua misso.
 Nessa noite, j tarde, Edmundo telefonou-me.
 - Est sentada? - A voz dele alertou-me imediatamente.
Que seria agora? Teria morto outro agente em Lisboa, onde
estivera pouco tempo antes?
 - Estou deitada. Estou na cama. Que se passa?
 - Mimosa Torrejn morreu. De um ataque cardaco, segundo me disseram. - Durante um 
segundo senti-me incapaz
de pronunciar uma nica palavra. Ouvi de novo a voz de Edmundo: - Est? Est? - Depois, 
resmungando: - A maldita
linha est outra vez cortada.
 - No. Estou a ouvi-lo. Mas sucede que a notcia que me
deu me causou um choque terrvel. Falei esta manh com ela e
encontrei-a em casa do prncipe Lilienthal este fim-de-semana.
Nem posso acreditar.
 - O que eu no acredito  que ela tenha morrido de um
ataque cardaco. Era uma das pessoas mais enrgicas e saudveis que eu j vi. Nunca a 
ouvi queixar-se sequer de uma dor de cabea.
 Nessa altura lembrei-me da imagem de Mimosa a fazer uma
careta de dor e a levar a mo ao abdmen. A impresso que
tivera fora de que o nervosismo lhe provocara um ligeiro ataque de diarreia. Mimosa 
dissera: "Eles andam atrs de mim. 
E mostrara-se aterrorizada. A minha intuio dizia-me que algum a envenenara. O aviso 
dela soava-me aos ouvidos: "E se
descobrem que eu lhe contei, matam-na tambm a si. 
 - Est, Aline? - A voz de Edmundo parecia desesperada.
 - Sim, desculpe. Estava a lembrar-me de coisas que ela disse. Mostrou-se muito ansiosa 
por falar consigo.
 - No vale a pena levantar-se a estas horas. De que serviria
isso? Ela j est morta. Que havemos de fazer? Mas quero
saber tudo quanto se passou nesse fim-de-semana e tudo o que
ela lhe disse a meu respeito.
 - No me importo nada de me levantar.  urgente que falemos o mais depressa possvel.
 - Que diz amanh de manh?
 - Quando quiser. - A cabea latejava-me. - Quando  o
funeral?
 - Amanh iremos apresentar os psames. Voc poder ir
comigo.
- Claro que irei. Gostava muito dela.
 - Eu adorava-a. Era a minha mais leal amiga.
 - Ir muita gente?
 - Ningum ousar no ir. Ser a sua ltima grande reunio
mundana.
 - Quando  que ela morreu?
 - H poucas horas, creio. Fui visit-la logo que chegou o
meu comboio e fiquei assombrado quando me disseram que
ela tinha morrido. Claro que fui l imediatamente. Havia uma
multido de parentes afastados a chegarem. Pobre Mimosa.
Os parentes s esto interessados em saber quem ir ficar com
o dinheiro dela. Creio que os parentes mais chegados vivem
em Frana, por isso vai haver disputas entre pessoas que no
queriam saber dela para nada.
 - A que horas me vem buscar?
 - Amanh de manh, por volta das onze e meia. Visto que
as pessoas no so embalsamadas neste pas, a lei obriga a que
os funerais se realizem no prazo de vinte e quatro horas
depois da morte. O enterro ser cerca das treze horas. Os servios religiosos podem s ter 
lugar daqui a uma semana.
 Quando acordei Mozart para lhe dar a notcia, ele resmungou:
 - Uma grande perda. - Eu sabia o que ele queria dizer.
Perdera, por horas, a agulha magntica que apontaria para
um traidor entre os seus agentes. No se tratava de uma perda
pequena para ele.
 Quando Edmundo chegou, na manh seguinte, percebi que
se sentia mais infeliz do que nunca.
 - E se, antes de irmos enfrentar a multido, me oferecesse
uma chvena de caf e me contasse o que se passou no fim-de-semana?
 Repeti-lhe as palavras de Mimosa, com excepo da sua referncia a um traidor. Ele ouviu 
sem fazer comentrios. Estvamos ambos deprimidos. Finalmente, Edmundo quebrou o
silncio.
 - Pensa que um desses alemes do EL Morisco liquidou
a minha querida amiga? Lilienthal  um pssaro estranho.
A sua amizade com nazis importantes  pblica. Mesmo
assim seria capaz de tal atrocidade? Cada vez penso mais que
ela no morreu com um ataque cardaco. - Depois levantou-se. - Vamos. Vamos tentar 
descobrir isso.
Enquanto seguamos para casa de Mimosa, de txi, ele explicou-me o protocolo.
 - Nos funerais espanhis s os homens vo ao cemitrio. As
senhoras ficam em casa do defunto para consolar as mulheres
da famlia, enquanto o corpo  levado para ser enterrado.
A procisso para o cemitrio deve ser impressionante.
Provavelmente o caixo seguir num carro funerrio aberto
puxado por quatro reluzentes cavalos negros com enormes
plumas tambm negras. Mimosa no havia de querer que
eu no comparecesse. - Suspirou. - Pelo menos no est
calor. Ns, homens, temos de seguir atrs do caixo pelo menos durante dez quarteires, 
antes de ser considerado prprio
entrar nos automveis para continuar o caminho para o cemitrio.
 Quando descemos do txi em frente do velho edifcio na Calle Ferraz, tivemos de esperar 
at passar uma pitoresca procisso. Vrios padres, vestidos de negro, com sobrepelizes de 
algodo branco com largas rendas, transportavam grandes crucifxos e eram seguidos por 
uns vinte rapazes, tambm com
sotainas pretas, cada um deles empunhando uma vela. Um 
dos rapazes tocava ritmadamente uma pequena campainha.
Os transeuntes benziam-se e paravam para os deixar passar.
 - A visita dos padres da parquia para dar os ltimos sacramentos - explicou Edmundo. - 
Neste caso, visto ela ter
morrido subitamente, limitaram-se a visit-la e a abeno-la
para no perderem os seus emolumentos.
 No vestbulo mal iluminado, o mordomo de Mimosa, que
eu conhecia das recepes, encontrava-se de p junto de uma
mesa, com ar grave e gravata preta. As pessoas faziam bicha
para assinarem o livro das condolncias. Edmundo sussurrou:
 - Este costume permite s famlias enlutadas saber quem
lhe apresentou os psames e, ainda mais importante, saber
quem o no fez. Se algum eliminou a nossa amiga, pode apostar que o seu nome se 
encontra ali. Que melhor forma haver
de parecer inocente do que misturar-se com os que choram a
vtima? Ele (ou ela) poder encontrar-se neste momento l em
cima. Mantenha os olhos bem abertos.
 No alto da escadaria principal, em frente do salo grande,
sacerdotes recebiam os visitantes. Para alm via-se uma multido heterognea, damas 
elegantemente vestidas e pastores pobremente trajados, acompanhados das suas mulheres.
- Provavelmente so empregados de alguma das quintas
ou ranchos da marquesa - explicou Edmundo.
 Freiras andavam de um lado para o outro com as suas coifas
brancas, que pareciam borboletas gigantescas flutuando acima
da multido. As criadas da marquesa andavam de um lado
para o outro, com os seus uniformes negros amarrotados por
uma noite passada sem dormir. Eram elas que, soluando,
davam a nica nota trgica ao ambiente. A maior parte
das visitas conversavam e riam como se estivessem numa
festa.
 - Veja quem ali est - disse Edmundo, dando-me um toque com o cotovelo. Num grupo de 
embaixadores e de homens
e mulheres que eu nunca vira, encontravam-se a condessa Von
Schellenberg, Hans Lazaar e o prncipe Lilienthal. - O trio
traioeiro.
 - Por favor, Edmundo.... Pode algum ouvi-lo.
 - Minha querida - replicou ele num sussurro -, estou a
dizer isto propositadamente. Mimosa aprovaria. Afinal, existem possibilidades de que 
algum daquele encantador trio seja
o responsvel pelo desaparecimento da nossa amiga. Vamos
v-la.
 Edmundo conduziu-me para outro salo, onde uma grande
vela colocada num gigantesco candelabro de bronze iluminava
o caixo, colocado no centro da sala quase vazia. Apenas se
encontravam ali duas freiras mergulhadas em profundas preces passando as contas dos 
rosrios e murmurando as mesmas
palavras em unssono.
 Aproximmo-nos em silncio da urna esculpida e ajoelhmo-nos.
 -Jesus - murmurou irreverentemente Edmundo -, parece a Minnie vestida de freira.
 Eu nem podia crer no que os meus olhos viam. Mimosa estava vestida com o mesmo traje 
negro das freiras e tinha as
mos juntas sobre o peito, com os dedos entrelaados a prenderem uma grande cruz de 
madeira e um rosrio.
 Edmundo no podia estar quieto.
 - Deviam-na enterrar com as cartas dela tambm.
 Parecia-me mais pequena do que em vida. Nenhum rouge
avivava as faces magras e plidas; uma faixa engomada,
branca, rodeava-lhe a cabea. O hbito de freira parecia exagerar a estreiteza do seu corpo. 
Olhei interrogativamente para Edmundo. Ele compreendeu imediatamente e respondeu de
cabea baixa, como se estivesse a rezar:
 - Em Espanha  a maneira habitual de vestirem as pessoas
que morrem.
 Subitamente inclinou-se sobre o caixo como se fosse beijar
o rosto magro. Em vez disso, fez o sinal da cruz com uma das
mos e com a outra afastou a tira engomada que cobria o pescoo da marquesa - e numa 
fraco de segundos vimos os
verges. Os gestos dele tinham sido to rpidos que as
freiras, que continuavam a rezar de cabea inclinada, no deram por nada. Aqueles dedos 
hbeis de cleptomanaco tinham agora servido, no para roubar um dos bibelots de 
Mimosa, mas sim para descobrir uma verdade assustadora. Mimosa fora estrangulada.
 - Bem, bem - murmurou Edmundo, levantando-se. -
Agora sabemos.
 Quando me levantei senti as pernas a tremer.
 Quando nos juntmos  multido de amigos que se encontravam na sala contgua, o trio, 
agora sentado, olhou-nos com
bastante interesse. Schellenberg, Lazaar e Lilienthal cumprimentaram-me com um baixar 
de cabea. Apesar de estar atordoada, senti-me na obrigao de os cumprimentar tambm e
lhes apresentar Edmundo.
 - No se quer sentar? - perguntou a condessa, cujo rosto
se encontrava coberto por um vu.
 Sentei-me ao lado dela e Edmundo instalou-se a meu lado.
 - Que choque terrvel - disse Gloria von firstenberg
para os dois quando se inclinou para me beijar. - Obviamente, Mimosa estava mais doente 
do que ns julgmos no
fim-de-semana.
 - Quando ela se queixou de dores no peito no fiz ideia de
que se tratasse do primeiro de vrios ataques cardacos - declarou Lilienthal. - Eu queria 
que ela ficasse, mas ela
insistiu em ser conduzida a Madrid. Devia saber que se encontrava gravemente doente. 
Felizmente Hans tinha l o seu motorista que a trouxe aqui.
 Edmundo deu-me um ligeiro pontap. Os nossos pensamentos convergiam. Fora Lazaar o 
responsvel pela sua viagem de
regresso.
 Era agora Lazaar que abanava a cabea.
 - Quando Pedro voltou disse-me que a marquesa parecia estar a sentir-se melhor. - O seu 
monculo reflectiu um raio
de luz. - A verdade  que nunca ningum sabe quando chega
a sua vez.
 Estaria ele a tentar assustar-me, ou a avisar-me?
 - Mimosa esteve no quarto de Aline pouco antes de regressar a Madrid por se sentir doente 
- anunciou Gloria ao pequeno grupo. - De que  que ela lhe falou, Aline? - O olhar
da condessa pareceu-me glido naquela fraco de segundo, ou
seria impresso minha? Talvez tambm ela sentisse a tenso
do mundo em que vivia, ou dar-se-ia o caso de estar assustada?
Sabia to bem como eu que Mimosa fora estrangulada. Ou
teria sido ela quem a matou?
 - Ns no estivemos a conversar - retorqui. - A marquesa foi ao meu quarto para ver se eu 
tinha uma aspirina ou
qualquer outro remdio para lhe acalmar o estmago. Infelizmente no tinha.
 Uma mulher magra e muito velha, vestida de negro, passou
a pouca distncia de ns, despertando a ateno do trio e de
Edmundo. Pus-me de p.
 - Preciso de voltar para o trabalho. - Os dois homens levantaram-se quando Edmundo e eu 
samos. Quando nos encontrmos a uma certa distncia perguntei: - Quem era
aquela mulher para quem estava a olhar?
 - A criada particular de Mimosa. Vive naquela casa h tanto
tempo como ela. Provavelmente at nasceu l. Deve saber a
verdade acerca da morte da patroa, pois com toda a certeza foi
ela que a vestiu.
 - Ento porque  que ela no diz que Mimosa foi estrangulada?
 - Isso  um mistrio. Deve ter as suas razes. Pode estar
to assustada que receie falar. O facto de o trio observar to
atentamente a velha criada pode significar que tambm eles
no acreditam no ataque cardaco.
 Edmundo acompanhou-me at  rua.
 - Mimosa estava prestes a solucionar a minha misso.
Deve ter tido uma indicao de quem est a planear a conspirao contra Franco. A minha 
pouca sorte! E eu receio que ela, sem querer, a tenha envolvido neste mistrio. A Gestapo 
possui uma rede gigantesca e Lazaar pode estar ligado a ela.
- Edmundo chamou um txi. - Tenho de ficar para acompanhar o funeral. Diga 
imediatamente a Mozart que ela foi assassinada e pea-lhe que nos d a ambos alguma 
proteco.
Vamos precisar bem dela. Mas no pense que ele se preocupa
 com o que nos possa suceder.
 Durante todo o caminho para o escritrio tentei imaginar
 por que razo parecia Edmundo detestar tanto o chefe. Sabia
 agora que a misso de Edmundo estava relacionada com a
 descoberta de quem estaria a planear a conspirao contra
 Franco. Seria a mesma pessoa que eu procurava? Olhando
 para trs, pelo vidro, vi um Mercedes preto e a seguir
um Renault tambm preto. O Renault seguia-me h semanas, mas
o Mercedes era novo.
 Nessa altura ocorreu-me uma ideia. Porque teria Edmundo
 ido examinar o pescoo de Mimosa para descobrir se ela fora
 assassinada? O estrangulamento era apenas um de entre muitos mtodos. Porque no teria 
ele pensado numa ferida de punhal no corao, ou numa bala, ou em veneno, ou em 
qualquer
 outro meio que no seria revelado pelo exame do pescoo?


Captulo 17

 - Proteco! Diga a Top Hat que v para o diabo. Ele
ainda no cumpriu a misso dele. Voc tambm no, Tiger.
Ambos tm cadeias de subagentes a quem podem ordenar que 
os protejam. Temos falta de pessoal. No posso dar satisfao
aos pedidos que me fazem de Washington, Londres e Argel.
Estamos em guerra. Pense naqueles que se encontram na 
frente. Pem a vida em risco e o mesmo tm de fazer vocs. Foi
para isso que aceitaram este gnero de trabalho. 
 Era a primeira vez que eu via Mozart perder a calma. Algo
se passara. No entanto, perguntei-lhe pelo filme que eu sabia
ter sido revelado e pelas fotografias do livro de hspedes.
 - Apenas um monte de nomes distintos, a maior parte
deles ininteligveis. Nada de Himmler nem de oficiais importantes. - Quase cuspia as 
palavras.
 - E o relatrio de Lazaar sobre o tungstnio?
 Mozart sorriu sem vontade.
 - Nada que no se possa obter entrando na Embaixada
alem e indo buscar ao balco da recepo.
 - E a carta de Gloria von Firstenberg? - Sentia-me desanimada.
 O chefe abriu uma gaveta e tirou de l um papel. Com o seu
tom mortalmente montono, leu:
 - "Caro Heinrich, estou a escrever-lhe para lhe dar notcias minhas. Cheguei ao EL 
Morisco para passar o fim-de-semana com Hanz Lazaar e vrios outros convidados.
O tempo est ptimo. Cu azul, dias frios, campos a perder de
vista, montanhas cinzentas como ao. Como est o tempo a
em Berlim, meu caro Heinrich? Estou preocupada consigo, por 
saber como vo as coisas. Sinto saudades das nossas noites de Berlim. Eram boas. Receio 
que seja um fim-de-semana montono. Conhece a marquesa de Torrejn? Encontra-se aqui 
e
fala tanto que s vezes apetece asfixi-la. As irms  vilas,
duas patetinhas, chegaram esta tarde com uma rapariga americana em quem no confio. E 
imagine quem a pequena Carola Lilienthal anda a namoriscar? O seu preferido - Constantin 
von
Weiderstock. Diga isso ao padrinho dele. Na verdade, estou
mortalmente aborrecida. S Lazaar me diverte com a sua grotesca perversidade. Lilienthal 
mostra-se falsamente galante, como de costume. Como  que a encantadora mulher o 
suporta?  A carta termina aqui - continuou Mozart. - Experimentmos vrias formas de 
detectar tinta invisvel e nenhuma resultou. Claro que estas palavras podem ocultar um 
cdigo. Mas esse gnero de cdigo, como sabe,  indecifrvel. No entanto h vrios pontos 
a considerar. - Os seus pequenos olhos fixaram-se em mim. - Apesar de haver muitos 
Heinrichs na
Alemanha,  possvel que esta carta fosse dirigida a Himmler.
O que intensifica o interesse sobre a bela condessa como uma
das principais suspeitas.

 Na quinta-feira seguinte, 6 de Abril, Angustias acordou-me
como habitualmente, levando-me o pequeno-almoo  cama.
Afastou os cortinados de algodo branco e abriu as portinholas
de madeira, deixando entrar o sol, que iluminou a taa com
cerejs de Mlaga que vinha no meu tabuleiro. Da cama podia
ver um rectngulo de cu azul. Outro dia perfeito! Depois ouvi
tocar  porta, e Angustias apressou-se a ir ver quem era. Pou-
cos momentos depois voltou.
 - Esto duas mulheres na sala  espera da senhorita!
 Esperava apenas uma. Por duas vezes, durante o ms anterior,
dera abrigo a uma agente de Frana que trazia informaes
militares que eram transmitidas para Londres, onde estavam a ser feitos os planos para a 
Operao Anvil e a Overlord. Havia
vinte divises de combate aliadas em Itlia, mas obviamente isso no era suficiente para 
permitir s nossas foras avanarem. Planos para a Operao Anvil estavam a ser 
preparados no Sul de Frana. Aquelas mulheres traziam mapas com a localizao de 
fortificaes costeiras, armadilhas, barreiras nas estradas, o nmero de tropas alems e 
outras informaes necessrias para os generais que preparavam a invaso.
- As mulheres esto com um aspecto horrvel - disse Angustias, franzindo o nariz. - E 
cheiram pior!
 Vesti rapidamente um roupo e dirigi-me para a sala.
 Duas mulheres sujas e amarrotadas puseram-se de p
quando me viram. Uma mo de uma delas estava embrulhada
numa ligadura suja; a face apresentava uma ferida que parecia
ter sido feita por uma faca. Angustias tinha razo quanto ao
cheiro.
 Sorri.
 - Bem-vindas. Ainda bem que chegaram em segurana.
Que trouxeram?
 A mulher ferida meteu a mo debaixo da blusa e tirou de l
um embrulho manchado.
 - Eu chamo-me Marta. Madeleine, a minha companheira,
no fala espanhol, mas foi ela que obteve esta informao.
Guiei-a atravs dos Pirenus at Madrid. Visto no termos
bilhete de identidade, temos de esperar aqui que nos conduzam de novo at  fronteira. O 
camio de peixe que nos trouxe
far outra viagem na prxima segunda-feira. Poderemos ficar
aqui at essa altura?
 - Claro que podem. Uma de vocs ter de dormir no meu
quarto, mas no h qualquer inconveniente, visto que irei passar o fim-de-semana fora.
 Estvamos na Quinta-Feira Santa, o comeo dos mais importantes feriados do ano. Lojas, 
teatros, cinemas, estava
tudo fechado - at os restaurantes fechavam. Apontando para a
mo ferida, perguntei.
 - Querem que Ihes arranje um mdico?
 - Oh, no, muito obrigada, senhorita. No queremos ser vistas. No sairemos de casa. 
Precisamos de descansar. A travessia das montanhas foi perigosa e extenuante. Todas as 
estradas esto cheias de espies no s alemes mas tambm 
de Franco. Temos de nos mover como raposas. Ser esta a minha ltima viagem. J matei 
dois guardas civis e se for apanhada serei abatida sem julgamento.
 Enquanto me vestia admirava-me da coragem e energia das
mulheres bascas. Eram melhores correios do que os homens e
nada lhes metia medo.
 Algumas horas mais tarde, um motorista do escritrio foi
buscar-me para me conduzir ao palcio dos  vilas, em Toledo,
para onde eu fora convidada para assistir s procisses da Semana Santa. Conseguimos 
despistar o Renault que nos seguia
nas ruas estreitas perto da Puerta del Sol. Ao passarmos pela
cidade vimos muitas mulheres a entrarem e a sarem das igrejas, vestidas de preto e com 
pentes altos na cabea e
mantilhas de renda. Paco, o motorista, disse-me:
 -  costume as mulheres visitarem sete igrejas na Quinta-Feira Santa e usarem mantilhas.
 Durante o resto do percurso de quarenta e cinco minutos
para Toledo, ele descreveu-me as procisses em Sevilha, Gra-
nada e em muitas pequenas cidades. Mostrava-se orgulhoso
das tradies do seu pas e, como a maior parte dos espanhis
gostava de falar.
 Quando nos aproximmos de Toledo, o sol brilhava sobre as 
espessas muralhas de pedra, dando realce s arcadas e s
muralhas com ameias. A cidade medieval, fortificada, ficava
alcandorada sobre uma montanha rochosa, rodeada pelo rio
Tejo, atravessado por vrias pontes ornamentadas. A estreita
estrada empedrada passava por debaixo de um Gigantesco
arco de pedra com um torreo redondo dos dois lados, e depois
seguia ao longo de uma encosta em declive. Burros, carroas, crianas, galinhas e mendigos 
tinham de se afastar para
deixarem passar o automvel at chegarmos  Plaza de
Zocodover, onde um polcia nos disse para prosseguirmos
a p, visto as ruas estarem fechadas para a procisso dessa
noite.
 - Muitos destes edifcios foram construdos antes do sculo
doze - explicou-me Paco, que transportava as minhas duas
malas enquanto caminhvamos pelas ruas estreitas, ladeadas
por antigos palcios de granito, todos eles com brases nas
suas fachadas. Muitos edifcios tinham torrees e todos eles
apresentavam complicadas grades de ferro forjado sobre asjanelas. As duplas portas abertas 
do Palcio  vila revelaram um ptio rodeado por colunas de granito. No centro desse ptio
duas criadas limpavam as compridas folhas verdes de vrias
plantas. No alto de uma escadaria larga, Casilda e a irm esperavam-me. Estavam muito 
excitadas.
 - O que  que pensa? Vai conhecer o general Franco.
O pap convidou-o para vir aqui esta noite ver a procisso.
 - Pensei que vocs, os aristocratas, fossem monrquicos
e no gostassem de Franco - respondi, surpreendida.
 - Isso  mais ou menos verdade. Mas quando o chefe do Estado faz uma visita oficial a 
Toledo vem para esta casa, porque os reis tambm o faziam quando vinham  cidade. 

 Falmos da morte de Mimosa, e verifiquei que nenhuma
delas desconfiava de que ela no tivesse morrido de morte natural.
 - Ela era to divertida... - disse uma das irms. - Iremos sentir a falta das festas dela. E foi 
graas a ela que a
conhecemos a si, Aline.
 Depois do ch, Casilda levou-me para o quarto dela.
 - Devia pr uma mantilha para assistir  procisso. Ns
fazemo-lo, e se a senhora Franco vier tambm usar uma, com
certeza. Tenho um pente alto e uma bela mantilha preparada
para si, e Mara colocar-lha-. Ningum sabe colocar uma
mantilha melhor do que Mara.
 A cabeleireira esperava-nos com as mantilhas de renda preta com cerca de dois metros de 
largura e trs de comprimento.
Sentei-me em frente do toucador e ela penteou-me o cabelo
para trs, prendendo-o num largo carrapito. Depois enfiou a
travessa para baixo do cabelo de modo a no poder cair.
A mantilha foi colocada por cima da travessa de dentes compridos e depois presa aos meus 
ombros para eu poder mexer a
cabea  vontade sem ela cair. Em seguida, a orla da renda foi
presa tambm ao meu cabelo,  frente, emoldurando-me assim
o rosto. Quando me levantei vi que a mantilha me cobria toda,
desde a bainha do vestido at quinze centmetros acima da
cabea. As raparigas riram.
 - Parece mais espanhola do que eu! - exclamou Casilda,
encantada.
 Carmen colocou ento as mantilhas s outras. Quando estavam a acabar ouviu-se uma 
agitao na rua, l em baixo,
anunciando a chegada do Generalssimo. Corremos para ajanela e vimos trs Mercedes 
Benz. Quando Franco saiu do carro lembrei-me do aviso de Mimosa e pensei: "Como seria 
fcil
disparar sobre ele de uma das varandas das proximidades! 
 Alguns segundos mais tarde dirigimo-nos para o alto da escada, onde o conde de  vila, 
rodeado pelos convidados e pelos criados da casa, esperava.
 Eu nunca tinha visto Franco e observei-o enquanto esperava
que chegasse a minha vez de lhe ir apertar a mo. Envergava
uma farda branca, com o peito cheio de condecoraes, e trazia um bon vermelho na 
cabea. Era mais baixo do que eu supusera, mais gordo tambm, com um nariz grande, 
uma
pele macia e bronzeada e uma expresso agradvel. Visto de
perto, no era nem o monstro descrito por Pilar, nem tambm
carismtico. Teria passado despercebido em qualquer grupo
de espanhis se no se soubesse que era o grande Caudillo.
A mulher era mais alta do que ele, delgada e distante. Depois
de uma srie de apertos de mo, durante os quais mal foram
ditas algumas palavras, dirigiram-se para um dos sales com o
conde e os outros convidados. A agitao que o Caudillo provocava era o nico sinal do seu 
poder; poucos oficiais o acompanhavam. Preparava-me para os seguir quando Casilda me
segurou por um brao.
 - Venha para a varanda. No pode perder nada da procisso.
 Eu queria saber alguma coisa a respeito daqueles que acompanhavam Franco - seria o 
mnimo que Mozart esperaria.
Mas no podia recusar-me a acompanhar a minha amiga.
 A escurido foi invadindo gradualmente as ruas. Depois,
o lento rufar de um tambor ao longe foi impondo silncio.
 Vi ento surgirem figuras encapuadas, como membros da
Ku Klux Klan, trazendo cada uma delas uma vela acesa na
mo. Atrs vinha uma multido com centenas de velas acesas,
iluminando uma esttua que avanava em direco a ns, oscilando. Alguns dos vultos 
encapuados caminhavam de ps
descalos sobre o pavimento empedrado. Lembrei-me que os
compridos trajes escuros podiam perfeitamente esconder uma
arma. Seria um disfarce perfeito, pensei. Subitamente, de uma
varanda do lado oposto da rua, uma voz comeou a cantar.
Era uma voz quase irreal, uma bela voz de mulher. O grande
andor, transportado s costas de uns vinte homens, parou.
Quando o cntico terminou, os homens ergueram novamente o
andor e inclinaram-se, primeiro em direco  cantora e depois
em direco a ns, dando a impresso de que a esttua fazia
uma vnia. S ento percebi que o Generalssimo se encontrava mesmo atrs de mim. 
Voltei-me e tentei afastar-me mas ele
impediu-me.
 - Tenho visto esta procisso toda a minha vida, senhorita.
O mesmo no se passou provavelmente consigo.
 - No sabia que Vossa Excelncia se encontrava a - respondi. - Se soubesse teria sado 
daqui.
 - E eu no sabia que havia uma rapariga americana disfarada sob essa mantilha. - O 
Generalssimo sorriu. A sua voz
 aguda surpreendeu-me. Os seus modos eram afveis e despretensiosos. Preparava-me para 
lhe contar o que Mimosa me dissera a respeito das ameaas  sua vida, quando apareceu um
 dos seus seguranas.
 - Excelncia - murmurou -, seria bom mudar de
 varanda.
 O Generalssimo voltou-se para mim.
 -  pena. Gostaria de explicar o significado desta
procisso a uma americana.
 Percebi que ele tinha conscincia das ameaas  sua vida.

 Ao entrar no meu apartamento na segunda-feira de manh,
 muito cedo, to cedo que as minhas criadas ainda no estavam
 levantadas, fui direita ao meu quarto. Quando vi que estava
 ali uma pessoa a dormir voltei-me para sair. Era uma das mulheres bascas. Provavelmente 
no tinham ainda partido. Nesse
 momento o rudo da janela a bater com o vento fez-me voltar.
 Surpreendida por a janela estar aberta, preparei-me para a
 fechar. Olhei para a cama ao passar por ela e instintivamente
 levei a mo  boca para abafar um grito. A almofada e o lenol estavam cobertos de 
sangue! O corpo que estava na cama era de uma mulher com cabelo preto e comprido. 
Tinha um horrendo buraco aberto numa das tmporas. O sangue escorrera-lhe pelas faces, 
formando sulcos escuros. Ao lado dela havia um revlver.
 Podia ouvir a minha respirao ofegante. Por um momento
 fiquei demasiado chocada para reagir. Depois peguei no telefone e liguei para Mozart. 
Quando disse a frase-cdigo para uma emergncia, ele no perdeu tempo com palavras.
 - No faa nada at eu chegar.
 quando sa do quarto, Cecilia comeava a acender o fogo
 de carvo, na cozinha.
 - Senhorita, est to plida! Aconteceu alguma coisa
 - No, no. E no acordem a mulher que dorme no meu quarto.
 - Vou chamar Angustias para ajudar a senhorita.
 - No, no  preciso. - S a ideia de ouvir os gritos de
 Angustias ao saber que uma mulher se suicidara ali em casa
 me apavorava.
Dirigi-me de novo para o meu quarto, fechei a porta  chave
por fora e guardei a chave. Depois fui para a sala esperar a
chegada do chefe.
 Subir as escadas a correr deu ao seu rosto inexpressivo um
tom vermelho-vivo.
 - Uma das mulheres bascas est morta. Creio que se suicidou. Acabei de voltar do fim-de-
semana em casa dos  vilas e
encontrei-a na minha cama com um buraco na testa.
 O chefe olhou pensativamente para todos os lados e perguntou calmamente:
 - Quem sabe o que se passou?
 - Que eu saiba ningum.
 - E as suas criadas?
 - At agora vi apenas a cozinheira. Presumo que a outra
mulher est ainda a dormir, e Angustias tambm.
 - Qual delas est morta? - O chefe respirou fundo.
 - No sei. O buraco na testa, o sangue, o comprido cabelo
cado. No sei. Venha ver.
 Mozart seguiu-me. O rudo dos seus grandes ps era o suficiente para acordar qualquer 
pessoa. Angustias, desgrenhada, apareceu ao fundo do corredor. Quando viu o chefe 
desapareceu apressadamente.
 O espectculo da mulher morta era ainda mais macabro
do que anteriormente. O sol entrava agora pela janela meio
aberta e vi que o sangue salpicara a parte de cima da cama.
 - Pode identific-la? - perguntou Mozart. - Eu nunca vi
qualquer delas.
 Mal cabamos no pequeno quarto. Debruando-me sobre a
mulher e tirando-lhe uma madeixa de cabelos da cara, reconheci a espanhola, Marta.
 Mozart estava visivelmente irritado.
 - Porque h-de ser justamente aquela que nos pode criar
problemas? Se formos apanhados a dar asilo a uma comunista
espanhola seremos expulsos do pas. Temos de tirar daqui o
corpo sem demora e sem que ningum (incluindo as criadas)
saiba disto. - Olhou mais de perto para a mulher.
 - Ouvi dizer que ela era emotiva, desequilibrada. Provavelmente trata-se de um suicdio.
 A arma encontrava-se junto da mo direita da mulher. Reparei ento que a ligadura lhe 
prendia os dedos de tal maneira
que ela no poderia sequer ter pegado na arma.
- A mo... - murmurei.
 - O que ? - perguntou Mozart.
 - Olhe! - E apontei para o Colt 45 e para a mo ligada.
 O chefe pegou no telefone.
 -Jeff, diga a Ronn que venha consigo a casa de Tiger e
traga um carro grande. Depressa. E proceda de modo a no
despertar as atenes. No traga motorista.
 Depois desligou e pediu-me um cobertor para embrulhar o
corpo.
 - Um lenol daria muito nas vistas. E arranje-me um leno
para lhe envolver a cabea.
 - Talvez tenha tirado concluses apressadas - murmurou
Mozart, examinando o quarto. - Esta mulher no puxou o
gatilho. No entanto, temos de a levar daqui. Podemos investigar depois. 
 Pegou no cobertor, puxou as cobertas para baixo e enrolou a
mulher nele. Guardou a arma no bolso. O lenol e a almofada 
com sangue estavam j embrulhados noutro cobertor na altura
em que Ronn e Jeff apareceram. Estes transportaram rapidamente a morta para o carro.
 Entretanto, na cozinha, Engracia preparava-se para ir para 
a escola. As duas criadas e Madeleine bebiam caf e comiam
bolos. Todas sabiam que algo se passara. 
 Madeleine foi a primeira a falar.
 - Marta est doente? Aquele homem alto era o mdico?
 - Sim. Gostaria de saber se ela esteve doente ontem. Queixou-se durante o dia ou  noite?
 - Marta nunca diz nada, mas que eu saiba no esteve
doente.
 Angustias e Cecilia tambm no tinham reparado em nada
de inusitado. Pedi-lhes que permanecessem na cozinha enquanto o "mdico  no sasse.
 O chefe andava na sala para trs e para diante, quando eu
voltei.
 - Temos outros agentes que podem levar a agente francesa
pelas montanhas e o meu motorista pode conduzi-la at  fronteira. Isso no  problema.  
uma sorte essa mulher espanhola no ter famlia. Mande a francesa embora para eu poder 
tratar deste caso. Entretanto, pergunte s suas criadas se no ouviram nada de anormal esta 
noite.
- J o fiz. No ouviram coisa alguma. Pensam que Marta
est doente.
 - Diga-lhes que ela foi conduzida para um hospital.
 - Isso  fcil, mas Angustias vai dar pela falta da almofada,
dos lenis e dos cobertores.
 - Deixe-a dar, mas certifique-se de que ela no fala do caso
a ningum. - Apontou para o sof. - Sente-se, Tiger.
 Obedeci, mas ele continuou a andar de um lado para o outro. Dois passos para a esquerda e 
outros dois para a direita.
 - O assassino no quis matar Marta. Quis mat-la a si.
Poucas pessoas sabiam que voc no se encontrava em casa.
Ela foi morta na sua cama,  noite, no escuro e  queima-roupa. O criminoso entrou pela 
janela. No sabia que se encontrava outra pessoa na sua cama, mas quando souber que se
enganou pode voltar. O mnimo que dever fazer  mudar de
quarto. - Antes de sair voltou-se. - Preciso de ir a Argel
durante uns dias. V para o escritrio, como de costume, e no
diga nada acerca deste assunto. Quando regressar vou tratar
de lhe assegurar a proteco que voc pediu. Entretanto, tenha
cuidado!



Captulo 18

 Duas semanas mais tarde, no fim do dia 1 de Maio, Edmundo telefonou-me para me dizer 
que me iria buscar s 22
horas para me levar ao Pasapoga.
 Havia uma razo crucial para isso, embora ele se recusasse a
dizer-me qual era. Quando ele tocou  porta, eu prpria fui
abri-la.
 - Divina - murmurou ele observando o meu vestido. -
Mas est muito plida.
 - No posso imaginar porqu - respondi secamente. -
Tenho uma vida muito montona. - No lhe podia explicar
que andava a dormir mal, num pequeno div, h mais de duas
semanas.
 Edmundo ajudou-me a vestir o casaco e samos. No txi,
confidenciou-me:
 - Ren telefonou-me esta manh. Disse-me para a levar e ir
ter com ele ao Pasapoga. Parece que tem duas notcias explosivas para nos dar, mas ao 
telefone no quis dizer o que era.
 Gostaria de pedir a opinio dele a respeito do assassnio de
Marta, mas no o fiz. Entregou-me um sobrescrito, que eu
reconheci como sendo um dos que ele costumava enviar a Mozart.
 - No tive a sorte de descobrir o assassino da marquesa.
At a velha criada dela desapareceu. Por isso inventei uma
histria de espies, que voc pode ler antes de a passar a Mozart. No posso perder a 
reputao, sabe?
 Meti a carta no bolso, ansiosa por a poder ler, e no
mencionei as minhas apreenses por causa dos falsos relatrios que ele transmitia ao chefe.
 Ren no se encontrava no Pasapoga. Quando o proprietrio se queixou de que ele no 
aparecera nem telefonara, Edmundo ficou visivelmente agitado. Deu-me o brao e puxou-
me para a rua. Disse ao motorista:
 - Calle Rivera de Curtidores, pronto. - Expresso mexicana que ele usava sempre que 
ficava excitado.
 - Onde vamos agora?
 -  residncia de Blum. Passa-se alguma coisa.
 Qunze minutos depois descamos  o txi numa rua de fraca
aparncia. Diante das portas duplas de um edifcio cuja fachada necessitava urgentemente 
de ser pintada, Edmundo bateu
as palmas para chamar o sereno. Ningum apareceu. Ele bateu as palmas de novo. Depois 
tentou a campainha do portero.
Ningum atendeu.
 - Bem, tenho de entrar pelos meus prprios meios. - Do
bolso interior do seu casaco cinzento tirou uma lima fina.
Ajoelhando, inseriu-a na fechadura e f-la girar at soltar a
mola.
Abriu a porta e com um gesto do seu brao magro convidou-me a entrar. Dirigimo-nos para 
um ptio aberto, passando
por um curto tnel, depois subimos uma estreita escada de
ferro que contornava o ptio. Era bvio que Edmundo j ali
estivera.
 No terceiro andar abriu novamente a fechadura da porta do
apartamento de Blum. Fazendo girar lentamente a maaneta,
empurrou-a. Ouvi um rudo estranho, semelhante a um silvo
que partia da escurido. Tirei to depressa a pistola da
pequena bolsa bordada com prolas que a rasguei.
 - Calma! - ordenou Edmundo. -  apenas o gato. Que
tem voc hoje, Aline?
 Edmundo acendeu ento a sua pequena lanterna elctrica e
eu vi que tambm ele empunhava uma arma - um estilete
fino como um furador de gelo.
 Subitamente lembrei-me do corpo apunhalado no Casino do
Estoril. Recordei-me ento da frieza com que Edmundo confessara ter morto o agente 
traidor quando nos encontrvamos
no pequeno restaurante alemo. Soltei uma exclamao abafada.
 - Est doida? - O sussurro de Edmundo foi veemente. Entrmos no apartamento. Olhei 
para trs. L em cima as estrelas
brilhavam. No se ouvia um nico som nos outros apartamentos
que davam para o ptio. Parecia que estvamos num edifcio vazio. Fechando a porta, 
depois de entrarmos, Edmundo acendeu as luzes e apagou a sua lanterna. Continuava a 
empunhar o estilete. O gato de Blum no se via em parte alguma. Guardei novamente o 
revlver na bolsa. A casa estava vazia.
 O apartamento era inesperado naquele prdio antigo e mal
tratado. Era bonito, cheio de objectos antigos e a um canto
tinha um enorme piano de cauda.
 - Voc examina o salo e a sala de jantar - disse Edmundo. - Eu vou ao quarto.
 Revistei a casa. Vi um objecto a brilhar entre duas almofadas de seda estampada sobre o 
sof e fui apanh-lo. Reconheci
imediatamente o papagaio de brilhantes e rubis de Gloria von
Firstenberg - vira-a com ele no EL Morisco. Fui logo ter com
Edmundo.
 - Guarde-o na sua bolsa para o dar a Mozart. Blum no
est aqui. Precisamos de o ir procurar.
 Era uma faceta de Madrid que eu no vira e que Edmundo
conhecia to bem como o salo mais requintado. Fomos de bar
em bar - antros, como Edmundo lhes chamava. Salas cheias
de fumo onde se viam ciganas, se ouvia tocar guitarra e castanholas. Em toda a parte onde 
entrvamos Edmundo encontrava algum a quem perguntar por Ren Blum. Mostrava-se
mais srio do que eu j alguma vez o vira.
 Finalmente fomos para a Calle Nunhez de Arce, na Plaza
Santa Ana. Entrmos num bar cuja fachada era de azulejos
azuis e brancos, com flores, e onde se lia em letras muito pequenas "Villa Rosa , eram duas 
horas da manh. A porta da
entrada era semelhante s de todos os outros bares onde tnhamos entrado. Alm da sala 
principal, havia mais duas pequenas salas onde grupos de pessoas viam danar o flamenco.
O rudo das vozes e o bater dos ps era ensurdecedor.
 Dirigimo-nos para uma mesa a um canto, onde reconheci a
bailarina de flamenco que vira na vspera de Ano Novo -
Lola Flores. Depois reparei que, sentado ao lado dela, estava
Juanito Belmonte! Este enviara-me um ramo de cravos ainda
na vspera e eu recusara dois convites dele para jantar na semana anterior e tambm nessa 
noite. Quando viu Edmundo
mostrou-se aborrecido.
 -Juanito, que surpresa! - exclamei.
 Os olhos de Lola faiscaram.
 - Edmundo! Por onde tem andado?
 Havia mais trs pessoas  mesa deles - uma mulher e dois homens. Um dos homens 
levantou-se e foi buscar duas cadeiras. Todos se apertaram, Edmundo e eu sentmo-nos. 
Imediatamente, ele e Lola comearam a falar confidencialmente. Na
minha frente, ,Juanito, nada dizia. Pouco depois Edmundo
pousou-me uma mo no brao.
 - No olhe, mas temos um tipo estranho entre ns.
 No tive tempo para responder. Juanito estava a meu lado e
convidava-me para danar. Um organillo comeara a tocar
um pasodoble, e alguns pares dirigiam-se para o pequeno estrado destinado a ser pista de 
dana, entre o bar e as mesas.
A pequena sala estava cheia de gente. Segui Juanito e de repente vi o homem que Edmundo 
detectara.
 A porta de uma das salas das traseiras encontrava-se entreaberta e por detrs da bailarina 
de flamenco vi o homem, em cuja casa eu estivera cerca de um ms antes. As suas feies 
feias abriam-se num sorriso e ele no tirava os olhos do corpo contorcido da jovem 
bailarina. No havia dvidas de que Niki Lilienthal gostava de flamenco.
 Belmonte segurou-me na mo direita e pousou a sua mo
direita na minha cintura. Comemos a danar ao ritmo do
pasodoble. Murmurou ao meu ouvido:
 - O que significa aquele homem para si?
 - Edmundo?  um bom amigo.
 - Disparate.
 - Estou a dizer-lhe a verdade, Juanito. - Continuava a
tentar descobrir quem se encontraria na outra sala com Lilienthal, mas a porta estava apenas 
ligeiramente entreaberta.
 - Parece que tenho um rival - insistiu Belmonte.
 - Os espanhis so todos ciumentos?
 - Quando lhe telefono diz-me sempre que tem que fazer,
mas depois arranja tempo para sair com ele.
 - Oh, no exagere. Tenho sado consigo quase todas as semanas desde que o conheo. No 
posso sair todos os dias. Trabalho e tenho muito que fazer.
 - No sei como  que pode ter tanto para fazer se a Oil
Mission no est a entregar gasolina nenhuma nestes ltimos
tempos.
 Juanito tinha razo. O embaixador americano tinha parado
as remessas, para desencorajar o Governo espanhol de vender
tungstnio aos alemes.
 Nesse momento Edmundo deu um salto e agarrou um homem que ia a passar. O homem 
comeou a correr para a
porta. Num pice, Edmundo ficou a meu lado, com a minha 
bolsa e o meu casaco na mo.
 - Venha, Aline, aquele homem sabe algo a respeito de
Blum. - Depois voltou-se para Belmonte e acrescentou com
os seus modos felinos: - Lamento acabar com a vossa dana
to abruptamente.
 Julguei que Belmonte lhe fosse dar um soco. Olhou-me com
indignao.
 - Adis, Juan. Telefone-me amanh, antes da tourada -
gritei.
 Samos a correr atrs do homem, que desaparecia ao fundo
da rua.
 - Aquele homem sabe que eu procuro Blum e est a tentar
fugir. Aposto que sabe algo acerca de Blum. Depressa!
 Inclinando-me, descalcei os meus sapatos vermelhos de
salto alto e tentei correr o mais rapidamente possvel ao lado
de Edmundo. O homem que seguia  nossa frente mandou
parar um txi e ns saltmos para outro.
 - Siga-o! - gritou Edmundo, entregando ao homem uma
mo-cheia de pesetas. O velho carro ps-se em andamento
com um chiar de pneus.
 Os dois veculos lanaram-se em corrida pela rua tortuosa,
um atrs do outro. Edmundo amparou-me para eu no ser
atirada para a frente quando o motorista guinou de repente para a esquerda e depois para a 
direita. Seguamos mesmo atrs
do outro txi, sem nunca o perdermos de vista. Subitamente, o 
carro da frente pareceu diminuir a velocidade - o nosso motorista teve de aplicar os traves. 
Edmundo puxou-me para 
baixo, empurrando-me a cabea contra o assento. O rudo do
vidro estilhaado foi terrvel. O tiro acertara em cheio no
centro do pra-brisas. O carro deu uma volta sobre si mesmo.
O txi que ia  frente do nosso seguiu a toda a velocidade.
 Edmundo sentou-se e eu levantei-me de um salto. O motorista agitava os braos no ar e 
chorava. Abanava a cabea
para trs e para diante, em estado de choque. Vrias janelas
dos prdios abriram-se e viram-se luzes.
 Edmundo murmurou:
 - Aquele tipo podia ter morto qualquer de ns, mas provavelmente destinava-se apenas a 
no nos permitir continuar a perseguio.
Ajudmos o motorista a sair do carro. Comeara ajuntar-se
gente e s pudemos sair dali quando nos assegurmos de que o
motorista se encontrava bem e depois de Edmundo ter dado ao
homem o dinheiro do vidro. Estivemos cerca de dez minutos
sentado junto dele, enquanto ele ia bebendo uma garrafa de
vinho tinto e se ia recompondo. A multido na rua engrossara
consideravelmente, mas Edmundo conseguiu conduzir-me
para longe do ajuntamento.
 Finalmente encontrmos outro txi e Edmundo deu-lhe a 
morada de Blum. Olhmos um para o outro no escuro. Finalmente Edmundo disse:
 - O homem que disparou sobre ns era o guitarrista da
festa do prncipe. Deve saber muita coisa. Caso contrrio no
se iria arriscar a disparar um tiro daqueles.
 - Porque  que pensa que Ren esteja em casa agora? -
perguntei.
 -  o stio bvio para se estar a estas horas da madrugada.
A no ser que. . .
 Tnhamos chegado junto do prdio onde vivia Blum. Este
no abriu a porta, mas a fechadura cedeu s manobras de Edmundo com a mesma rapidez 
que anteriormente. Dessa vez
no ouvimos o gato. Com efeito, estava tudo diferente. O apartamento era um caos. Havia 
uma mesa partida no meio da
sala, duas cadeiras de pernas para o ar, o sof estava cheio
depedaos de porcelana de um candeeiro partido e um quadro 
cara da parede. Edmundo foi acender as luzes do quarto.
 - Aqui est tudo em ordem - disse.
 Na sala, copos e garrafas do bar encontravam-se espalhados
pelo cho. Algumas garrafas tinham-se partido e o seu contedo escorria sobre a carpete, 
ensopando-a. Edmundo baixou-se
e serviu-se de um clice de xerez, que milagrosamente permanecera intacto.
 Dirigindo-me para o piano, um belo Steinwa, sentei-me.
No sei porqu. Toquei com um dedo numa tecla - um d. Em vez do som melodioso que 
esperava ouvir, senti um
rudo surdo. Experimentei novamente, tocando em mais teclas, e ouvi o mesmo som surdo. 
Levantei-me e fui espreitar
para dentro do piano. Abafei um grito. Edmundo correu para 
mim.
 O corpo pequeno e magro de Blum encontrava-se enrolado dentro do piano. A sua camisa 
branca estava rasgada e ensanguentada, pondo-lhe o peito a descoberto. Na testa e na face
havia um sulco de sangue. Depois vi as marcas em volta do 
pescoo - mos fortes tinham deixado ali marcas vermelhas.
Os verges de Mimosa estavam escuros, mas de resto eram
semelhantes. Blum fora estrangulado.
 - Est morto - disse Edmundo. - E a pessoa que o matou era conhecida dele. A porta no 
foi forada. A morte no
ocorreu h muito tempo. No percamos um minuto. Talvez
possamos apanhar o assassino.
 Lembrei-me dos acontecimentos das ltimas semanas. Primeiro Mimosa, depois Marta e 
agora Blum. Estariam as trs
mortes relacionadas - seria o assassino o mesmo?
 Descendo a escada a correr atrs de Edmundo, ia-me lembrando dos meus suspeitos. 
Lilienthal, Gloria Firstenberg,
Hans Lazaar - eram amigos uns dos outros. E Serrano-Sunher
- que eu nunca encontrara - talvez estivesse tambm ligado
a eles de alguma maneira. Quando chegmos  rua silenciosa,
perguntei a Edmundo:
 - Pensa que quem disparou sobre ns se encontra ligado a 
 - Voc leu os meus pensamentos melhor que Mimosa -
retorquiu Edmundo. - Que pena no poder ouvi-la ler as cartas. Venha. Vamos voltar a 
essas casas onde se dana o flamenco. Tenho a impresso de que o assassino seguiu Blum a 
partir de uma delas. Pode ser que encontremos algum que se
lembre de ter visto Blum esta noite.
 Apesar de andarmos de casa em casa, ningum se recordava
de ter visto Ren Blum. Edmundo acabou por me ir deixar em
casa por volta das trs horas da manh.
 Vi a noite empalidecer e clarear a andar de um lado para o
outro do meu quarto, recordando os pormenores das ltimas
horas. Nada podia perguntar ao chefe; ele encontrava-se em
Argel. Estariam Lilienthal e Lazaar a trabalhar em conjunto
sob as ordens de Himmler? Gloria no era com certeza suficientemente forte para poder 
fazer aquilo  sala de Blum e
de o meter depois dentro do piano. Mas poderia ter contratado
um assassino. "Custa apenas quinhentas pesetas, dissera Edmundo. 
 Se pudesse falar com Pierre, talvez ele me pudesse aconselhar. Parecia-me uma ironia 
estarmos a trabalhar para a
mesma causa e no podermos colaborar uns com os outros.
Recordei-me ento do papagaio de Gloria, que guardara na
minha carteira. Quando fui tir-lo de l, verifiquei que desaparecera. Devia ter cado no 
decorrer daquela noite louca.
Senti-me ainda mais desanimada, pois o alfinete poderia servir
de pista.
Quando fui pendurar o meu casaco toquei num dos bolsos.
Lembrei-me ento que Edmundo me dera o seu ltimo relatrio.
 Resolvi l-lo, como ele me dissera que fizesse. Estendi-me
em cima da cama, enquanto a aurora tornava o quarto violeta,
e, com as plpebras pesadas de exausto, li:
 "Meu caro amigo Mozart. 
 Tenho visto a princesa Ratibor sempre que possvel, e posso
dizer-lhe com verdade que conquistei a afeio dela. Para ser
franco, foi s durante o nosso ltimo encontro romntico, em
Lisboa, que consegui arrancar-lhe a confisso de que  paga
pela Gestapo, em Madrid - exactamente por Karl Wizner,
que  o chefe - para obter todas as informaes que possa.
Bem, h apenas uma coisa a fazer. Para me agradar e satisfazer os desejos dela, ter de 
fornecer s SS uma poro de
falsas informaes. Meu caro, tenho a princesa na mo, se assim o posso dizer. Considero 
portanto seguro afirmar que podemos contar com a ajuda da princesa a partir de agora, 
embora,  claro, o preo sejam as minhas atenes - e ela 
muito exigente. Felizmente  algo que eu fao com prazer.
Mant-lo-ei, como sempre, a par do que se for passando.
Envie-me todas as desinformaes' que achar convenientes.
Top Hat 
 Edmundo era um mentiroso incrvel. No s me dissera que
a carta era uma histria inventada como se oferecia para
transmitir informaes falsas ao Eixo por intermdio de um agente alemo que no existia. 
E sentia-se orgulhoso da sua duplicidade ao ponto de me convidar a conhec-la.
 Fechei os olhos, dormitei e depois adormeci, apesar de me
lembrar que seria provavelmente eu, e no Marta, que quiseram matar naquela mesma 
cama.

 O dia seguinte era o 2 de Maio, feriado que comemorava o
dia em que os espanhis se tinham revoltado contra as tropas
francesas que ocupavam o seu territrio e contra o irmo de Napoleo, que ele lhes 
impusera como rei. Acordei tarde. Toquei a campainha e Angustias apareceu 
imediatamente.
 - DonJuan Belmonte telefonou duas vezes, senhorita, e est
novamente ao telefone.
 A voz de Juanito estava agitada.
 - Voc ontem saiu a correr da Villa Rosa, sem me dar
tempo a perguntar-lhe quem ia consigo  tourada hoje. Espero
que no seja o seu amigo Edmundo.
 - Nada disso. Vou com Carola e com as irms  vilas. 
 - Bom. No chegue tarde. Espero que a corrida seja boa,
especialmente por ser a primeira a que vai assistir. Nunca se
sabe o que se ir passar. - A voz de Juanito revelava um nervosismo inusitado. - O sucesso 
depende por vezes mais dos
touros do que do matador. Se os touros no so valentes, se
no atacam, no h maneira de o matador poder fazer uma
boa faena. Tem de compreender isso.
 No me preocupava nada com aquilo. Estava ainda sob o
efeito dos acontecimentos da noite anterior e a corrida de
touros no me interessava nada. No entanto, tentei mostrar-me
entusiasmada.
 - Ficarei emocionada por o ver na arena, Juanito.
 - Tambm ver Manolete.  um amigo meu e  sempre 
uma honra tomar parte numa tourada ao lado dele. Espero
que os meus touros sejam to bons como os dele. Deve chegar
 praa de touros pelo menos com quinze minutos de antecedncia. Em Espanha  o nico 
acontecimento que ocorre a
horas certas.
 Os nossos lugares, segundo afirmou Casilda, eram sensacionais. Barreiras de sombra. 
Lugares  sombra, dificeis de arranjar e muito caros.
 - Olhe - disse Carola, fazendo adeus para Gloria Firstenberg, que se encontrava a pouca 
distncia de ns. - Que chapu! Aposto que o comprou em Paris.
 A condessa estava belssima, com um fato de saia e casaco azul debruado a vermelho e o 
cabelo brilhante preso num carrapito sob o chapu vermelho, de abas largas. Pensei se ela 
teria dado pela falta do papagaio de brilhantes. As mulheres que se encontravam naquelas 
bancadas estavam bem vestidas. Muitas usavam chapu e outras mantilha de renda 
colocada sobre o pente alto.
Lola Flores resplandecia sob uma mantilha de renda branca, com
um ramo de cravos vermelhos atrs da orelha esquerda.
- Gloria faz questo de se vestir de modo a atrair as atenes - acrescentou Nena. - E isso 
no  elegante.
 - Quem so os homens que esto com ela? - perguntei.
 Carola respondeu:
 - Um deles  o embaixador alemo. No o conhece ainda,
Aline? O outro  Walter Schellenberg.  um nazi importante;
que pena,  to atraente...
 Portanto, o novo chefe do departamento estrangeiro da Gestapo encontrava-se a uma 
pequena distncia de mim. Olhei
novamente para l. Sabia tantas coisas a respeito dele que era
fcil odi-lo. Isso agradava-me. Receava estar a tornar-me demasiado indulgente para com 
o inimigo. No podia deixar de
gostar de Carola, apesar daquilo que o pai dela pudesse ser.
 - Quem  aquela mulher de aspecto incrvel com um
grande chapu com plumas e cabelo frisado cor de laranja? -
perguntei.
 Elas riram.
 -  Ana de Pombo - informou Casilda. -  uma mulher
estranha. Trabalhava com uma das principais casas de alta
costura de Paris e voltou h pouco para Espanha depois de ter
passado vrios anos em Frana. A cave da sua casa em Madrid est decorada a preto e ela 
dana flamenco a meio da
tarde, enquanto os convidados bebem ch. Pode imaginar uma
coisa dessas? Flamenco a meio da tarde?
 - Tem um amante argentino vinte anos mais novo do que
ela. Olhe, l est ele. - Nena apontou para um homem sentado ao lado da estranha Ana de 
Pombo. Depois disse adeus
para a bonita loura filha do duque de Alba, que se encontrava
acompanhada pela tia, a duquesa de Santonha.
 Um murmrio geral fez-nos voltar a cabea a tempo de vermos o general Franco entrar no 
camarote real. Ele, a mulher
e os que os seguiam mal tinham acabado de se sentar quando
as trombetas anunciaram que a corrida estava prestes a comear. Recordei-me da 
interpretao de Edmundo da leitura das cartas feitas pela marquesa. Um assassnio numa 
tourada.
Franco!
 Toda a gente se sentou e a banda comeou a tocar um pasodoble. As portas do lado oposto 
da arena abriram-se e o desfile dos toureiros, picadores, bandarilheiros e pees - todos eles 
vestidos com reluzentes cetins, enfeitados com prolas e cequins - comeou. Casilda 
puxou-me por um brao.
- Olhe para Juanito. Talvez coloque a capa dele em frente
dos nossos lugares.
 Tive de desviar os olhos de Gloria Firstenberg, que parecia
entreter Schellenberg com a sua conversa.
 Juanito vinha  frente, juntamente com Manolete e outro
matador. A capa bordada que trazia sobre um ombro cintilava
ao sol, o extico chapu de matador, a montera preta, estava
inclinado sobre as sobrancelhas espessas. O seu rosto tinha
uma expresso terrivelmente grave. Avanaram sobre a areia dourada da arena, com as suas 
pernas cobertas com meias cor-de-rosa-vivo, marchando ao compasso da msica e 
dirigindo-se para o camarote do director da corrida que ficava mesmo por cima de ns, logo 
ao lado do de Franco. Juan inclinou-se profundamente, cumprimentando o director da 
corrida, com o chapu na mo, como os outros fizeram tambm. Depois Juan fez sinal a 
um dos seus pees, entregando-lhe a cintilante capa verde e apontou em direco a ns. 
Num minuto, a capa foi estendida em frente dos nossos lugares. As minhas amigas estavam 
entusiasmadssimas.
 Os matadores deram umas voltas, agitando as suas capas
vermelhas e amarelas no ar, as trombetas anunciaram que o
primeiro touro ia sair, e nessa altura eu vi um perfil familiar a falar com Schellenberg. 
Fiquei imvel, a observar.
 - Aline, que se passa consigo? Manolete vai tourear.
 Carola mostrava-se assombrada. Eu tremia. O homem que
falava com Schellenberg era o mesmo que sara a correr da Villa Rosa na noite anterior. O 
homem que disparara contra
o nosso txi.
 No quis que Carola reparasse para onde eu estava a olhar e
voltei-me novamente para a arena.
 O grande Manolete era esbelto, tinha um ar macilento e no
me impressionou com o seu primeiro touro. Com efeito, achei
que as touradas eram cruis e desagradveis. No mais voltaria a ir ver nenhuma. Casilda 
explicou-me que o touro no
era bom. Manolete tivera de o matar rapidamente, o que no
lhe permitira brilhar, mostrando a sua habilidade e coragem.
Levantmo-nos, como o fez quase toda a assistncia, enquanto
o corpo do animal morto era arrastado para fora da arena por
cavalos guiados por homens que vestiam blusas vermelhas e
empunhavam compridos chicotes, os monosabios. Olhei novamente para Schellenberg. O 
homem j no se encontrava ali.
Schellenberg e Gloria continuavam a conversar animadamente. Quem pensaria que havia 
guerra?
 Ento as trombetas soaram de novo e um gigantesco touro
preto e branco entrou na arena. Vi-o passar como uma locomotiva em frente dos nossos 
lugares. Na arena deserta estava s aquele animal feroz, selvagem, procurando uma vtima. 
Ento, solenemente, Juanito apareceu por detrs de uma pequena abertura, erguendo a sua 
capa vermelha no ar, para atrair a ateno do touro, e gritando: "Eh toro, toro!  A multido 
era como uma s pessoa - contendo a respirao na expectativa do que iria passr-se. O 
touro atacou ento. Tinha pelo menos quatro vezes o tamanho de Juanito e devia pesar dez 
vezes mais do que ele.
 Contive a respirao, horrorizada, sem saber que esperar.
Dava-me a sensao de que o animal iria directamente ao encontro do corpo de Juanito. Ele 
dirigia-se para ele, sozinho na enorme arena. Depois... o touro passou por entre a capa, 
erguendo-a no ar como se fosse um trapo. Numa fraco de segundo, o touro voltou a 
atacar e foi novamente iludido, parecendo cada vez mais feroz, mais decidido a dilacerar o
toureiro.
Esqueci Schellenberg, a guerra, a minha misso. Nunca pudera
imaginar tamanha excitao, to intensa, de tal modo hipntica
- uma luta de morte desenrolava-se perante os meus olhos. E a
vtima certa seria com certeza o meu amigo! Quanto tempo levaria? Novamente o touro 
procurou o homem. Desta vez ia certamente dilacer-lo. Juanito puxou a capa mais para 
perto do seu corpo e, justamente no momento em que o animal alcanava o pesado tecido, 
Juan torceu-se, envolvendo o corpo na capa e
fazendo com que o touro mergulhasse no ar. A multido gritou com uma s voz: "Ol!  
Descontra-me. Mas apenas durante uma
fraco de segundo. Juan iludiu o touro vrias vezes, com os
chifres do animal quase a roarem-lhe pelo corpo; o touro
lanava-se com todo o seu peso sobre a capa. Juan movia-se com gestos graciosos, lentos, 
deslocando-se no momento preciso para evitar as pontas afiadas e cor de marfim.
 Ento deu-se o inevitvel. Ao passar pelo toureiro, o touro
tocou-lhe ao de leve com um dos chifres e Juanito foi atirado
ao ar. Os pees correram para a arena, agitando as suas capas.
Juan jazia inerte no solo. Tinha a certeza de que estava
morto.
As minhas mos apertaram com fora o varo de ferro. Os
homens murmuravam palavras em voz baixa, as mulheres gritavam. A fora do touro era tal 
que s um dos seus chifres a
roar por Juanito fora o suficiente para o atirar ao ar como
uma boneca de trapos. Um dos sapatos pretos de toureiro, de
Juanito, ficara cado na arena.
 Ento, com grande assombro, vi Juanito levantar-se. Um fio
de sangue escorria-lhe pelas calas de cetim verde e via-se um
rasgo na jaqueta bordada. Mas ele corria novamente para o
touro com a capa vermelha na mo, como se nada tivesse sucedido, e com maior 
determinao ainda do que dantes. Com um
gesto de insolncia e indignao, desafiou o touro, ao mesmo
tempo que indicava aos pees que desaparecessem. Dessa vez,
quando o touro atacou, Juan estava preparado. Sabia agora
que o animal atacava do lado esquerdo. Por isso Juanito puxou-o muito, muito de perto, 
para a direita. A multido soltou um angustiado "Ahhh!  at o animal ter passado pela capa. 
Depois demonstrou a sua alegria, manifestando-se ruidosamente, num delrio de gritos e de 
exclamaes. Permaneci sentada, exausta. O que eu presenciara era inacreditvel. At 
esqueci que o bandido da vspera se encontrava ali na praa.
 Os picadores entraram na arena com os seus cavalos protegidos por panos acolchoados. O 
homem de espadas de Juanito, um dos que apareceram  minha porta no primeiro dia,
correu para ele para examinar o corte. Juan afastou-o e entrou
novamente na arena. O touro j deitara ao cho dois cavalos
com os seus cavaleiros, e os bandarilheiros tinham-lhe espetado no dorso trs pares de 
bandarilhas coloridas. Juan pegou novamente na capa e aproximou-se do animal para a 
parte
mais importante da faena.
 Mais uma vez atraiu o touro para junto do seu corpo, num
crculo to pequeno que o animal estava quase dobrado em
dois, preso  cintura do toureiro como uma toalha, com os
chifres a no mais de uma polegada de distncia. Cada movimento era um encanto de 
elegncia, de leveza e de preciso.
De quando em quando, Juan afastava o animal com um agitar 
da capa e caminhava ento para a assistncia, com as costas
voltadas para o touro, numa arrogante exibio de temerrio
desdm. De cada vez que isso sucedia a multido gritava, deliciada. Depois matou o touro 
com uma s estocada da comprida e reluzente espada.
 Aps ter dado a volta  arena, seguido dos seus pees que 
devolviam as flores, os chapus, os charutos, que o pblico entusiasmado lhe atirava, parou 
em frente de ns para 
oferecer a orelha que lhe fora dada como prmio. O seu gesto 
foi to inesperado que por pouco no deixei cair o horrvel
trofu .
 - Que sorte, Aline... um toureiro famoso atirar-lhe uma
orelha logo na primeira corrida a que assiste.
 Olhei para aquele prmio que tinha na mo. Sim, eu tinha
sorte. Sempre tivera sorte.
 Depois lembrei-me do possvel assassino. No vi sinais dele.
Schellenberg falava agora com a mulher do embaixador. De
repente, com grande surpresa minha, vi Edmundo acompanhado por dois homens que eu 
desconhecia. Devia ser terrvel
ter de ir assistir a uma tourada pouco depois de ter
encontrado um amigo morto, pensei. Edmundo viu-me tambm e apontou para o camarote 
de Franco. Estava cheio de guardas civis e de polcias, mas no se via Franco. Olhei 
novamente para Edmundo e vi-o voltar a cabea para todos os lados. No percebi o que se 
passava. Nessa altura vi dois guardas civis a
correrem pelas bancadas que ficavam imediatamente abaixo do camarote do general. Havia 
uma certa agitao entre as pessoas que ali se encontravam e eu no percebia bem o que 
elas murmuravam. Perguntei a Casilda.
 - Meu Deus! - exclamou a minha amiga. - Tentaram
matar Franco.
 - Morreu? - perguntei.
 - No. Quem disparou sobre ele falhou. Dizem que Franco
saiu ileso.
 - Franco est a salvo - era o murmrio que corria por
entre a multido.
 As trombetas soaram mais uma vez e toda a gente se voltou 
para a arena. Num minuto, o incidente pareceu esquecido e as
atenes da assistncia concentraram-se no que se passava l
em baixo. Confusa por tantas emoes, mal vi a faena seguinte.
 No fim, a opinio geral era de que Juanito fora o heri do
dia. E eu estava impressionada. Era preciso ser valente para
encarar a morte quase diariamente, sem mostrar sinais de
medo ou de nervosismo. Ser capaz de rir na vspera e no dia
seguinte, sem comentar o perigo.
Telefonei a Edmundo logo que cheguei a casa. Ele no estava e eu deixei recado para ligar 
para mim quando chegasse.
Quando o fez, a nossa conversa foi breve.
 - Sim, Franco no foi atingido. Procuram agora o homem
que disparou sobre ele.
 - Como  que isso se passou?
 - Um tiro disparado enquanto a multido gritava por Belmonte... Claro que o disparo no 
se ouviu. Que diz agora da
"leitura  das cartas da minha divina Mimosa?
 O telefonema de Edmundo fora feito mesmo a tempo. Prometera a Juanito ir jantar com ele 
se a corrida corresse bem,
e ele j se encontrava l em baixo  minha espera. Talvez me
tivesse tornado sua admiradora. Juan reparou na diferena
quando abriu a porta do carro para eu entrar. Quando depois
se inclinou para fechar a porta reparei pela primeira vez nos
seus fortes dedos morenos. Fomos at Monte Esquina sem dizer uma palavra. Depois 
voltei-me para ele.
 - Que lhe hei-de dizer? Tenho estado a pensar num cumprimento original, algo que ainda 
no tivesse ouvido, mas no
consigo encontrar nada. Juanito, voc  extraordinrio.
 Ele esboou um ligeiro sorriso.
 - Obrigado, Aline. Vindo de uma americana, esse cumprimento  original. Poucos 
compatriotas seus compreendem a
arte da tourada.
 - A sua actuao foi incrvel, mas o touro no tinha muitas
possibilidades.
 - Agora est a ser muito americana. No acha que a morte
na arena  mais gloriosa do que num matadouro de Chicago?
O touro tem as mesmas oportunidades que o toureiro: vrios
matadores so mortos ou gravemente feridos em cada poca.
Esses touros so preparados para a luta e gostam dela. So
capazes de atacar tudo o que se mova... no apenas a capa 
vermelha do toureiro, mas at mesmo um carro em movimento.
 O novo respeito que sentia por ele fez com que me deixasse
influenciar mais facilmente. No dia anterior no teria acreditado numa palavra do que ele 
dizia.
 - Sabe, Aline, para compreender a Espanha ter de pr de
parte as suas ideias estrangeiras. No pode julgar os outros
pases como julgaria o seu prprio. Cada nao tem os seus
costumes, que se desenvolveram por causa do seu clima, geografia ou necessidades. Esta 
habilidade foi inventada pelos
nossos antepassados para se defenderem contra o ataque dos
bois selvagens que sempre existiram aqui. Hoje em dia, a tourada celebra tanto a coragem 
do homem como do animal. Se 
executada com graa,  uma experincia incomparvel.
concordei de todo o meu corao. Logo que chegmos ao Guria, uma tasca conhecida pela 
sua cozinha basca,
Juanito foi rodeado por admiradores, mas finalmente ficmos
sentados frente a frente numa mesa sossegada diante de duas
tigelas com angulas.
 -Juanito, Edmundo disse-me que foi publicado um romance acerca da sua vida.
 Um olhar sobre Juanito indicou-me que fizera mal em mencionar o nome de Edmundo.
 - Penso que o seu amigo  um... um impostor.
 Sorri.
 - Diz isso porque no o conhece. Edmundo  um pouco 
estranho, admito, mas  um bom amigo.
 Juanito franziu o sobrolho.
 - Tenho uma coisa a confessar-lhe, Aline. Sou um homem 
muito ciumento.
 - Ah, sim? - exclamei, rindo. - No fazia ideia. Fale-me
desse romance.
 - A minha histria no  uma histria feliz. A minha me
pertencia a uma famlia pobre de Sevilha; o meu pai tambm.
Apaixonaram-se um pelo outro e depois ele tornou-se o maior
toureiro do mundo. Tencionavam casar quando ele regressasse
das suas corridas de Inverno na Amrica do Sul. Pouco depois 
de ele sair de Espanha a minha me descobriu que estava grvida. O pai p-la fora de casa e 
ela viveu da costura at o
meu pai regressar. Mas o meu pai casara com uma rapariga peruana muito rica e recusou-se 
a ver a minha me e a mim. S
quando eu tinha dez anos  que ele me reconheceu legalmente. 
No teve outra hiptese, porque eu era to parecido com ele
que as pessoas me faziam parar na rua para me dizerem:
"Deve ser filho do grande Belmonte!  Tornei-me toureiro, no 
porque gostasse muito de o ser (para lhe falar com franqueza
no gosto, Aline), mas por ser a nica maneira de poder ser
suficientemente rico para pagar  minha me todos os sacrifcios que ela fez por mim. Sei 
que nunca serei um grande matador como o meu pai, mas pelo menos hoje posso dar  
minha me todo o luxo que ela desejar. No me importo que escrevam o que quiserem a 
meu respeito. Consegui aquilo que mais
ambicionava. - Sorriu com simplicidade. - Pode compreender isto?
 - Sim, compreendo. - Juanito engrandecia-se a meus
olhos, minuto a minuto.



Captulo 19

 Quando Mozart regressou de Argel, contei-lhe da morte de
Ren Blum e da tentativa de assassnio de Franco. Nenhuma
meno de qualquer dos factos aparecera na imprensa ou na
rdio espanholas, sujeitas a censura.
 Durante as minhas demoradas explicaes, Mozart tamborilou com os dedos sobre o tampo 
da secretria vazia.
 - Talvez a marquesa fosse uma fonte de informaes mais
digna de confiana do que ns pensvamos - admitiu de m
vontade. Ia continuar a falar mas calou-se. Decididamente,
estava hesitante a respeito de qualquer coisa. Tomando uma
deciso, inclinou-se para abrir uma das gavetas da secretria
e retirou de l um contentor metlico que abriu com uma chave
que tinha no bolso direito do casaco. Mostrou-me ento uma
pequena caixa de remdios preta.
 -  meu dever dar-lhe isto. - Fez passar a pequena caixa
de uma mo para outra e em seguida entregou-ma.
 No precisei de a abrir para saber o que continha. A letal
plula L. Bastava um rpido aperto entre os dentes - tinham-nos dito de preferncia entre os 
molares -, e a morte era imediata.
 - Aconselho-a a estar em guarda - disse Mozart. - Proteg-la-emos o mais possvel. 
Lembre-se que a maior parte dos nossos agentes tm j uma caixa semelhante.
 Uma vez de regresso  sala de cdigo, tive de enfrentar os
meus receios. Havia algo mais nas mortes de Mimosa, Blum e
Marta do que aquilo que Mozart me queria dizer. A principal
razo da plula L era permitir ao agente evitar divulgar
informaes que prejudicassem toda a rede, quando interrogado
sob tortura.
Imersa nos meus pensamentos, olhando pela janela, percebi
que estava a observar o jardim de Carlos Beistegui. Recordei-me do convite dele e pensei 
que nadar um pouco poderia melhorar a minha disposio. Cecilia levou-me um cesto com 
um almoo de piquenique - peixe frito, tortilha com ovos e cebola e alguns alperces. Uma 
hora depois, batia  porta que
dava para o jardim da Calle Fortun. Expliquei quem era.
O guarda deixou-me entrar e conduziu-me, por um jardim com
grandes castanheiros e loendros em flor, at uma pequena piscina rectangular, numa das 
extremidades da qual se encontrava um homem dos seus quarenta e cinco anos, magro e 
distinto, comendo o que ia tirando de um cesto semelhante ao
meu. Quando me viu levantou-se e inclinou-se delicadamente.
O guarda indicou-me um compartimento para ir mudar de
roupa. Esforcei-me por no tocar nas roupas do homem, no
pequeno espao disponvel, vesti o fato de banho e fui
instalar-me na outra extremidade da piscina. O cavalheiro ergueu-se de novo at eu me 
sentar, mas no pronunciou uma nica palavra. Continuou a ler papis que tirava de uma 
pasta e eu estendi-me para apanhar um bocado de sol.
 O meu silencioso companheiro mergulhou na piscina e nadou vrias vezes para trs e para 
a frente. Quando ele saiu,
esperei alguns minutos e fiz o mesmo. Durante as restantes
duas horas tentmos no interferir um com o outro. Sentia-me
grata por poder estar ao sol e ler sem ter de conversar. Os 
espanhis sabem ser maravilhosamente discretos.
 O meu cabelo estava ainda hmido quando voltei a casa, e
encontrei Edmundo estendido numa cadeira a tomar um usque com soda. Ele desaparecera 
da minha vida desde o dia da
corrida de touros. Nesse dia nem a criada abrira a porta
quando eu toquei  campainha.
 Quando viu a minha expresso de surpresa, Edmundo explicou-me:
 - Estou num dos meus dias maus. - Senti simpatia por
ele. Estava naturalmente deprimido por causa da morte do 
amigo. O mesmo sucedia comigo. Passara-se apenas uma semana, e todos os dias eu 
perguntava a mim mesma quem o
teria morto.
 - No vai ficar to calma quando eu lhe disser o que tenho
- continuou Edmundo, pousando o copo. - Ren no teve
funeral.
- Que quer dizer?
 - Quando telefonei  criada dele no dia seguinte ao do assassnio, para saber a hora do 
enterro, ela estava
horrorizada. No sabia onde ele estava e disse-me que a casa estava em desordem e que 
algum roubara o piano.  uma mulher leal; se soubesse que ele tinha morrido tinha-me 
dito. Aqui tem. Algum fez desaparecer o piano com o corpo mesmo debaixo dos nossos 
narizes. Sou um espio que no vale nada. H uma
semana que ando  procura de pistas.
 Sentei-me. Que se iria passar a seguir? Como podia um objecto to grande como um piano 
desaparecer sem ningum dar por isso?
 - No pense que no interroguei a criada, o porteiro e todos aqueles que viviam por cima 
dele. H apenas um apartamento vazio por baixo do dele. Ou foram pagas para no falarem 
ou receiam pela sua vida. Suspeito que o porteiro sabe mais do que diz. Algum est a 
pression-lo.
 - Parece-me que Lilienthal poder estar envolvido no caso - sugeri. - Ele estava no Villa 
Rosa no mesmo grupo que o homem que disparou sobre ns. E Gloria tambm pode estar 
envolvida. Lembre-se de que o alfinete dela estava no apartamento de Ren.
 - Eu prprio cheguei  mesma concluso. Por isso  que aqui estou. Voc pode ajudar 
porque os conhece melhor do que eu e tem acesso a eles por intermdio das suas amigas.
Mas creio que quem fez aquilo foi uma s pessoa, a trabalhar
sozinha. Porqu?, perguntar voc. Porque Hitler  demasiado
paranico para confiar em mais do que um chefe: voc conhece o provrbio que diz que 
cozinheiros a mais estragam o caldo.
Em segundo lugar, no seja to ingnua que pense que qualquer dos elementos do trio 
traioeiro teria confiana nos outros, por um minuto sequer. - A verdade  que no 
consegui saber nada mais a respeito da morte de Blum do que aquilo que j se sabia. Parece 
lgico presumir que o bandido que ns perseguimos e que nos perseguiu (nunca lhe 
perdoarei o tiro
desnecessrio) est metido em tudo. Calculo que esse homem tenha feito o trabalho sujo. 
Mas para qual deles a essa questo que teremos de responder.
 - Mozart disse-me que quer provas concludentes. Isso faz-me lamentar ter perdido o que 
perdi, alm do sono, nessa noite. O papagaio de diamantes e rubis de Gloria Firstenberg.
Edmundo sorriu e declarou, numa meiga consolao:
 - Bem, que seria de esperar depois de andarmos a correr
daquela maneira? Ningum  perfeito.
 - Bem, sou uma rapariga que trabalha e preciso de manter
as aparncias. Tenho de voltar para o escritrio.
 Fomos juntos at  rua e eu chamei um txi. Eram j 17 
horas. Quando entrei no escritrio Jeff disse-me:
 - Mozart est  sua procura. J veio aqui meia dzia de
vezes para saber se voc j tinha chegado.
 Bati  porta do gabinete de Mozart.
 - Entre - disse ele. - Algumas notcias a respeito de
Blum? - perguntou imediatamente. Contei-lhe tudo o que
Edmundo soubera. Mozart abanou a cabea com pessimismo
durante uns segundos. Depois disse: - Sente-se, Tiger.
 Obedecendo, observei-o. Inclinado sobre a enorme secretria, que alm do telefone e do 
mata-borro no tinha mais
nada em cima, olhava-me com o seu rosto quase inexpressivo.
Pensei se ele tiraria todos os papis e canetas da secretria
antes de cada reunio. Mozart parecia sempre controlado e
calmo, no entanto os seus pequenos olhos castanhos - absurdos num rosto to grande - 
pareciam por vezes evitar timidamente os meus. Talvez fosse tmido diante das mulheres.
 Como havia de saber? S vira uma vez o chefe fora do escritrio, e fora no meu 
apartamento, quando a mulher basca fora assassinada. Achava-o corpulento, enfadonho e... 
qualquer outra coisa. Que seria? No o sabia dizer. Com a luz fraca que iluminava 
debilmente o grande aposento, ele parecia menos corado e menos escarpado. As janelas 
fechadas impediam que
entrasse a luz do sol-poente e chegassem at ns os rudos da
Galle Eduardo Dato e da Calle Castellana.
 - Temos um trabalho para si - continuou calmamente. -
Parece que no h ningum com maior experincia que possa
viajar hoje. - julguei ouvi-lo suspirar. Seria de desapontamento. - Partir esta noite, no 
comboio das vinte e duas horas, para Mlaga.
 Engoli em seco.
 O chefe fez uma pausa, talvez esperando uma resposta. Mas
Edmundo avisara-me h muito: "Conserve a boca fechada. Ele
faz sempre as coisas  sua prpria maneira.  Um arrepio de
excitao percorreu-me a espinha. No entanto, continuei a
olh-lo em silncio, inexpressivamente.
- O seu amigo Edmundo chama-lhe "a nossa frente elegante . Bem, espero que isso seja 
uma vantagem para ns.
Ostensivamente voc vai aproveitar um fim-de-semana para
ver mais alguma coisa deste pas extraordinrio.  uma frvola
rapariga americana em passeio turstico. Pode ser saudvel faz-la sair de Madrid durante 
uns dias.
 Nenhuma inflexo transparecia na voz dele, nada revelava
as suas intenes. Fazia-me lembrar um cirurgio ou um gato-pingado.
 Abrindo uma gaveta, retirou de l um sobrescrito transparente com um rolo l dentro.
 - Com certeza j ouviu falar em microfilmes, no? -
A palavra era nova e indicava uma recente descoberta tecnolgica.
 - Nesta pelcula esto indicados os nomes e endereos de
espanhis dispostos a esconder (e ajudar) os nossos agentes na
clandestinidade que se encontram em Mlaga a caminho dos
Pirenus.  o culminar de cerca de ano e meio de "pesquisas ,
como certamente sabe. Trata-se da compilao dos esforos de
quatro colegas seus.  necessrio que isto seja entregue a
Black, o seu contacto em Mlaga, que acaba de chegar de
Argel num submarino e que foi transportado para terra num
barco a remos. Black e aqueles que o acompanharam precisam imediatamente de casas 
seguras.
 Tirou o rolo do sobrescrito e desenrolou-o com dois dedos.
 - Todas essas indicaes num pequeno pedao de pelcula.
Engenhoso, no ? No deve dizer uma s palavra a Black
quando se encontrar com ele. - Abanou a cabea, sempre sem
um sorriso. - O que daria um dos homens da polcia secreta
de Franco para apanhar isto, nem quero pensar! Levante-se.
 Involuntariamente, hesitei. Depois levantei-me.
 O chefe levantou-se tambm e ficmos frente a frente. Dei
um passo atrs. O hlito dele cheirava a charuto. Mantive-me
imvel, rgida.
 -  assim que o deve usar - explicou. - Mas por dentro
do vestido. - Estendeu a mo e comeou a desenrolar o rolo
do microfilme, enrolando-o ao mesmo tempo em volta da minha cintura. Estranhamente, as 
mos daquele homem grandalho, de aspecto abrutalhado, vestido com um horroroso fato
de mau corte, eram delicadas ao tocarem-me ao de leve na
cintura.
- Ter de utilizar adesivo. No ser confortvel.
Mozart voltou a enrolar o filme e a guard-lo no sobrescrito,
que colocou a um canto da secretria. Apontou para uma mesa
que ficava perto da janela fechada. Sobre ela havia um candeeiro e uma mala nova.
 - Preparmos esta mala para si - disse, abrindo-a. No
fundo havia uma pasta bastante grande. - Contm um transmissor. - Utilizando as duas 
mos, rnovimentou a mala at soltar a parte da frente. Era uma parte falsa. Os meus olhos
abriram-se de espanto: Debaixo dela, um Golt automtico
brilhava como um peixe reluzente. -  um presente para
Black - declarou Mozart com ar despreocupado. - Vai
dentro da mala quando for para o seu hotel. No ltimo
momento possvel antes de fazer o contacto, ter de retirar o filme da sua cintura e coloc-
lo tambm na pasta.
 uma precauo que tomamos - explicou Mozart. - Se
por qualquer razo sucedesse alguma coisa  mala, as provas
recriminatrias no seriam encontradas. A no ser que tambm a apanhassem a si, claro. - 
As suas sobrancelhas ergueram-se.
 - Est a tentar assustar-me? - perguntei, lamentando logo
a seguir t-lo feito. Ficmos num silncio absoluto, no grande
gabinete mal iluminado.
 Nenhuma sombra, nenhuma mudana de expresso transpareceu no rosto dele. No me 
olhou.
 - Agora quanto aos contactos - prosseguiu friamente. -
Amanh, s catorze e trinta, no primeiro banco da catedral de
Mlaga, estar sentado Black, tendo ao pescoo um leno
branco. Ajoelhe no mesmo banco durante alguns minutos. Se
no estiver a ser observada, passe-lhe a pasta e o microfilme.
Se vir algum a olh-la deixe a pasta no banco quando se levantar. Se esse encontro falhar, 
por qualquer motivo, o encontro seguinte ser s dezoito e trinta no mesmo local, no 
mesmo dia. O terceiro encontro ser s catorze e trinta do dia seguinte. Em Espanha as 
igrejas esto sempre abertas. Se ocorrer algum problema, alguma emergncia, telefone-me. 
Se algum a estiver a ouvir e isso puser a sua misso em perigo,
sirva-se do seu cdigo pessoal. Qual ?
 - O soneto vinte e quatro de Shakespeare - respondi.
 - Que versos? Diga-me.
 Olhei-o: "Porque atravs do pintor se deve ver a sua arte, para descobrir onde est 
retratada a vossa verdadeira imagem. 
 Tive a impresso de que ele quase sorriu, ou foi o mais parecido com um sorriso que a sua 
expresso permitia.
 - Gosto desse - disse quase com entusiasmo. - Gosto
mesmo muito. - Pensou uns momentos. Depois, espetando o
dedo indicador, acrescentou: - Lembre-se, Tiger: "Contudo,
olhos to astutos querem favorecer a sua arte; Atraem, mas o
que vem no sabe o corao.  E com isto voltou-se e encaminhou-se para a sua secretria.
 Espantoso! Ele gostava do meu soneto preferido! No me 
mexi. A mesa separava-nos, mas estvamos mais perto do que
antes.
 Mozart abriu uma gaveta.
 - Aqui tem o seu bilhete para Mlaga. Pode haver problemas no comboio. H agora uma 
nova lei que exige que os viajantes tenham licena para viajar. Os alemes receberam as
deles h uma semana; ns estamos ainda  espera. Voc conseguir provavelmente passar 
sem ela, devido  sua idade e tudo isso. Mesmo que tivesse um agente disponvel no o 
poderia mandar. Se a apanharem, tente sobretudo destruir o microfilme.
 Fez-se silncio; houve uns momentos de embarao. Depois
ouviram-se passos de algum a caminhar no corredor.
 Subitamente Mozart olhou-me de frente. Uma alterao -
uma mudana subtil - deu-se no rosto dele.
 - Pode interessar-lhe saber que a minha inteno no  assust-la. No gosto de a enviar 
(nem a qualquer outra pessoa) para o perigo. Trata-se infelizmente de uma parte do meu 
trabalho que cumpro o melhor que posso. - Depois, simples,
lentamente, concluiu: - No pedi para ser um carrasco. -
Fez uma pausa. - Tenho sentimentos, sabe? Isso talvez seja
um choque para si. - No momento seguinte tinha baixado de 
novo os pequenos olhos, voltando a ser novamente ele, fechado, mudo.



Captulo 20

 Quando estava a fazer as malas tocou o telefone.
 - Ol, estrangeira. Telefonei-lhe vrias vezes, mas voc 
impossvel de contactar.
 - Oh, Juanito, ainda bem que telefonou. Tenho querido
falar consigo.
 - Que diz a irmos jantar hoje?
 - Gostaria muito... mas  impossvel. Vou passar uns dias
fora. Oh, a propsito, obrigada pelos cravos. - Os constantes
presentes de flores transformavam o meu apartamento num
verdadeiro jardim.
 A voz dele tornou-se mais fria.
 - Para onde vai?
 - Para Mlaga.
 - Com quem vai?
 - Sozinha.
 - Porque  sempre to misteriosa a respeito de tudo quanto
faz, Aline?
 Apesar de se querer mostrar agradvel, via-se que a pacincia de Juanito se estava a 
esgotar.
 - No  mistrio nenhum. O meu patro deu-me uns dias
livres. Sempre desejei ir a Mlaga mesmo antes de sonhar em
vir trabalhar para Espanha. Tenho trabalhado muito e preciso
de descansar.
 - Tenho uma grande ideia. E se eu fosse consigo para lhe
mostrar a cidade? Tenho l um amigo que  o maior cantor de
flamenco de Espanha. Arranjar um espectculo de flamenco
em sua honra.
 - Agradeo-lhe muito, Juanito, mas no - respondi rapidamente. - Se eu fosse consigo 
comeavam a dizer que eu era sua novia. Sabe isso. E no tem uma corrida em Barcelona 
na segunda-feira? Se fosse a Mlaga, como havia de chegar a
tempo?
 - E o que  que acha que fazem os toureiros no auge da
poca? Viajamos durante toda a noite e as cuadrillas seguem-nos noutro carro. Fao isso 
quase diariamente em Julho e Agosto.
 - Se chegasse a Barcelona to cansado que fosse apanhado
por um touro, sentir-me-ia responsvel por isso.
 - Se voc se preocupasse comigo a esse ponto, talvez valesse a pena - respondeu Juanito. A 
minha falsa preocupao
no o enganara.
 -Juan, jantamos juntos para a prxima semana.
 Juanito suspirou.
 - De touros percebo eu. De mulheres, no. Fico  espera da
semana que vem e espero que faa uma boa viagem e descanse,
se  isso que deseja. - Fez uma pausa e acrescentou: - Aline...
 - Sim...
 - Cuidado!
 - Prometo.
 Desliguei e pensei que tinha pena que nunca fosse Pierre a
falar comigo ao telefone. Visto que ele no me telefonava,
calculei que se encontrasse em Frana a fazer explodir pontes e caminhos-de-ferro, o 
trabalho mais perigoso dos OSS.

 Nessa noite, Madrid foi fustigada por um grande temporal, acompanhado por uma brusca 
baixa de temperatura.
O velho txi conduziu-me ao longo da Castellana; uma janela partida, arranjada com fio 
elctrico preto, abanava a
cada rajada de vento e parecia ir acabar de se estilhaar.
Alguns vultos caminhavam apressadamente, com lenos a
cobrirem-lhes a cabea e a boca e flutuando em redor delas
como papagaios de papel. "Deve-se tapar a boca por causa
do vento da noite , informara-me muitas vezes Angustias.
"Ele transporta germes. 
 A cpula dourada da Estao de Atocha apareceu  vista.
Mesmo antes de o txi parar com um ranger de traves, pedintes esfarrapados batiam  
porta, com as pequenas mos estendidas a pedirem uma peseta.
O brilho amarelado dos candeeiros de gs iluminava a
azfama no interior da estao - pessoas, malas, embrulhos
passando em todas as direces. Enquanto abria caminho
para a via nmero quatro, vi duas mulheres vestidas de preto, com lenos pretos na cabea, 
que caminhavam na minha 
frente, levando nas mos dois sacos de pano poeirentos. Jovens soldados com as suas fardas 
de caqui passeavam para
trs e para diante. Um velhote mal vestido, sentado atrs 
dum balco improvisado, tentava encorajar-me a comprar 
finos palitos de massa frita em leo, embrulhados em cones 
de papel oleoso. No fim de uma fila de pessoas que esperavam para comprar bilhetes, vi 
uma mulher grvida que embalava um beb que chorava, enquanto outra criana um
pouco maior dormia a seus ps.
 Quando cheguei aos degraus da carruagem-cama nmero 
dois, o condutor verificou o meu nmero na lista que tinha na
mo. Antes de entrar na carruagem observei os passageiros.
Felizmente. Subindo os degraus de outra carruagem, um pouco mais adiante, estava um 
homem gordo, com chapu de coco
e sobretudo comprido com uma larga gola de veludo - Hans
Lazaar. Seguia-o um criado que transportava uma almofada e,
ao que me pareceu, roupa de cama. Que estaria Lazaar a fazer
ali? Subi rapidamente para a minha carruagem.
 O compartimento era luxuoso e antiquado. Espessos reposteiros de veludo, cortinas de 
renda branca nasjanelas, um sof
de pelcia vermelha, uma mesa de mogno polido a um canto e
maanetas de cobre reluzentes. Pela porta aberta vi a casa de banho, com um lavatrio de 
mrmore e um espelho vitoriano.
Que pena eu no poder fazer aquela viagem em paz...
 O apito tocou; estvamos prontos para partir. Da janela vi
um oficial do exrcito saltar para os degraus. Depois outro homem atraiu a minha ateno. 
Havia algo de familiar naquele
vulto baixo, corpulento, com um fato amarrotado e um ar que
no era habitual nos passageiros de primeira classe. Abri uma
ligeira fenda da minha porta quando ele entrou no corredor.
Vi-o parar junto do condutor, a quem entregou uma mo-cheia de pesetas. Estaria a 
imaginar coisas, ou j teria
visto aquele indivduo vrias vezes  esquina da minha rua? Sentei-me, mal me atrevendo a 
mexer-me. Lazaar estava no comboio. O homem com mau aspecto poderia ser pago por ele, 
ou
talvez fosse apenas um passageiro atrasado a pagar o seu bilhete. Esperava que Lazaar no 
soubesse da minha presena
no comboio.
 Passei a mo pela mala que continha o transmissor e a pistola e apalpei o rolo de 
microfilme. Afinal era apenas uma
questo de horas. No dia seguinte, s 14 e 30, tudo estaria
terminado.
 Uma pancada na porta fez-me dar um salto. Estava ainda
mais nervosa do que imaginara.
 - Quem ? - perguntei.
 - Polcia, senhorita.
 Espreitei pela abertura da porta, tirei a corrente e abri-a.
 Na minha frente encontrava-se um homem uniformizado,
com um distintivo reluzente na lapela.
 - O seu passaporte, por favor, senhorita.
 Fui busc-lo  carteira e entreguei-lho.
 - Agora a sua licena para viajar.
 - Licena para viajar? De que  que est a falar?
 - Senhorita - explicou o polcia. - Devia saber que se trata do novo regulamento para 
estrangeiros. No pode sair de
Madrid sem ele. Certamente que o sabia.
 Fingi surpresa.
 - No, no sabia. Lamento imenso.
 - Nesse caso amanh terei de a levar ao comissariado, em
Mlaga. - Abanando a cabea afastou-se em direco a outro
compartimento, apesar de eu lhe pedir para reconsiderar.
 Fiquei zangada comigo prpria por no ter tratado melhor
daquele assunto. Cobrindo as costas com o casaco, enrosquei-me a um canto, perto da 
janela. L fora, a escurido era completa, no se via nem o perfil de uma rvore nem o 
conforto de uma luz. O vento gemia impiedosamente. Era o que me apetecia fazer. Ir  
esquadra da polcia podia ser uma complicao muito sria, especialmente se ali abrissem a 
minha bagagem.
No tencionava despir-me e deitar-me.
 No entanto, o balouar do comboio fez-me dormitar e, apesar do meu desejo de me manter 
acordada, com a luz acesa e
voltada para a porta, dormi profundamente at j ser dia,
quando o comboio transpunha as montanhas, nos arredores de
Mlaga. Era a regio infestada por bandidos descrita por Prosper Mrime e Thophile 
Gautier um sculo antes. E continuava a ser uma viso de cortar a respirao: verdes 
campos de cana-de-acar, graciosas palmeiras, manchas de flores, formando carpetes 
multicolores. Como podia estar a haver uma guerra em qualquer outro stio? Certamente ali 
no havia guerra; nenhum perigo me espreitaria naquele paraso.
 Quando sa para o corredor, o polcia estava  minha espera, preparado. Tambm eu, com 
um mao de pesetas na
mo. Arvorando o meu sorriso mais inocente, disse-lhe:
 - Ficar-lhe-ia muito grata se me deixasse ir directamente
para o meu hotel. Tenho apenas dois dias para ver esta linda
cidade.
 O polcia olhou-me com severidade.
 - Marcelo Domnguez no aceita subornos, senhorita. Vamos imediatamente para a 
esquadra da polcia. - Nessa altura o comboio j se encontrava parado na estao. O polcia
pegou nas minhas malas e indicou-me que o seguisse. Passmos por grupos de ciganas de 
saias compridas e crianas nos 
braos,por carros onde vendiam cerejas vermelhas em cestos de vime, cravos perfumados, 
gardnias, rosas. Procurei ver 
Lazaar ou o outro passageiro suspeito, mas no vi nenhum
deles.
 Chegmos a uma praa onde algumas crianas brincavam
no cho,  sombra das palmeiras. Ao centro havia uma fonte
onde as mulheres enchiam bilhas de barro vermelho. Algumas
transportavam-nas sobre a anca, outras levavam-nas  cabea,
apoiados em rodilhas. Chegava at mim o cheiro salgado do 
Mediterrneo, mas estava demasiado preocupada para poder
apreciar.
 O comissariado de Mlaga ocupava um edifcio caiado de
branco ornamentado por um ptio interior cheio de plantas.
No entanto, a sala onde entrmos era triste e pobremente mobilada. Ao lado viam-se trs 
pequenas celas vazias, com grades de ferro.
 Um polcia com a barba por fazer, que dormitava junto da porta, sobressaltou-se com a 
nossa chegada. Por cima da cabea dele, na parede, havia um emblema de pano descolorido 
da Falange, seis flechas cruzadas sobre uma grande guia; na outra parede via-se uma 
fotografia de Franco.
 - Ramiro - disse alegremente o meu acompanhante,
dando uma palmada nas costas do outro. - Vai dizer a Don
Jos que preciso de lhe falar.
 - Impossvel - respondeu o outro com um sorriso desdentado. - Don Jos est em Ronda 
para assistir  tourada.
Don Marcelo puxou o bon para a nuca e sentou-se, pousando a minha mala no cho, a seu 
lado.
 -Quem toureia hoje?
 - um mano a mano entre Domingo Ortega e Gitanillo de
Triana. Don Jos nunca poderia perder uma coisa dessas.
 - Sim, sim. E se a tourada for boa ele h-de festejar. Vocs
sabem to bem como eu que poro de vinho tinto Don Jos
pode consumir. - Abanou a cabea outra vez. - Bem, nada
se pode fazer. Ele no volta antes de amanh.
 Levantou-se e dirigiu-se para o fundo da sala, onde um homem dormia sentado a uma 
mesa, com a cabea apoiada sobre
os braos cruzados.
 Bateu no ombro do homem.
 - Acorda, Damian. - O outro no se mexeu. Ele sacudiu-o com mais fora e elevou a voz. - 
V, Damian. Tens uma
prisioneira.
 O homem levantou a cabea, abrindo os olhos raiados de
sangue. Durante uns segundos permaneceu imvel e depois
levantou-se de repente, fazendo cair a cadeira. O estrondo
ecoou pela sala.
 Don Marcelo explicou:
 - Esta senhorita  americana, ests a ouvir? - Esperou para
ver se as suas palavras tinham sido compreendidas. - Veio de
Madrid no expresso da noite e no tem licena para viajar.
 Damian comeou a olhar-me.
 - Que posso eu fazer, Don Marcelo?
 - Que podes fazer? Bela pergunta para um polcia! - Don 
Marcelo comeava a perder a pacincia. - Ela  tua prisioneira. No pode sair daqui nem 
falar com quem quer que seja sem autorizao de Don Jos.
 Interrompi-os.
 - Por favor deixem-me telefonar para o cnsul americano
em Mlaga. O assunto seria rapidamente esclarecido.
 Don Marcelo respondeu logo:
 - Nada disso, senhorita. - Olhou vitoriosamente para
os dois homens, que esperavam a sua deciso, e depois para
mim. - Est prisioneira da Espanha. Isto aqui no  a
Amrica. A lei espanhola  que determinar o que deve ser
feito consigo.
 O meu primeiro impulso foi mostrar-me indignada, mas depois lembrei-me da pistola, do 
transmissor e do microfilme.
- Estou ento sob priso sem possibilidade de me defender?
 - Senhorita, no tem necessidade de se defender. - Baixou
a voz. - Tomaremos bem conta de si. A nossa priso  asseada e tem todas as 
convenincias modernas. - Percebi que estava com sorte e que ele queria dizer que havia 
sanitrios. -
S Don Jos poder decidir o que dever ser feito.
 Nada havia a fazer a no ser seguir o polcia, que me conduziu  cela gradeada. Don 
Marcelo pousou a mala no banco, a meu lado.
 - Creio que a senhorita no ficar desconfortvel. - Fez
uma vnia e foi-se embora.
 Cada minuto que passava era uma tortura. Doze horas. Doze e
trinta. Treze horas. No podia acreditar na minha pouca
sorte.
Quando Ramiro voltou para a sua cadeira perto da porta e deixou cair novamente a cabea 
para o peito e quando Damian estava outra vez a dormir sentado  secretria, meti a mo 
por
baixo da blusa e comecei a desenrolar o filme, enrolando-o ao
mesmo tempo com todo o cuidado. Por fim, guardei-o no bolso da
saia.
 O tempo ia-se escoando. s 14 e 30 chegaram e partiram.
Um cigano andrajoso apareceu  porta. Sem falar, lanou um olhar importuno a Ramiro, 
cuja cabea se erguia quando algum empurrava a porta. Ramiro enxutou-o e o rapaz 
desapareceu em silncio como um co batido. Damian continuava
a dormir. Eu estendi-me sobre o banco duro.
 s 18 e 30, hora do meu segundo contacto, sentia-me desesperada. Precisava de sair dali de 
qualquer maneira. Chamando pelo polcia sonolento, pedi-lhe que me deixasse dar
uma volta pela sala.
 - Esta cela to pequena pe-me nervosa. Preciso de mais
espao.
 Abri muito a boca, como se fosse gritar, e comecei a sacudir
as grades.
 - No, no - a voz dele implorava. - Tenha pacincia,
senhorta - disse Ramiro, caminhando pesadamente sobre o
pavimento de azulejos e tirando do cinto uma grande chave redonda. -  contra as ordens, 
senhorta. Mas no posso ouvir 
uma mulher a gritar.
 Quando a porta da minha cela se abriu, ele apressou-se a ir fechar a porta da frente. 
Entretanto, o outro indicava com um gesto largo que eu podia andar em volta da sala, que 
no era
muito espaosa. Ao princpio caminhei a passos largos, tentando observar todas as 
possibilidades. Mas no havia qualquer sada. A janela tinha grades. Uma porta entreaberta, 
de donde saa um cheiro repugnante, "era a convenincia moderna  orgulhosamente 
mencionada antes. Espreitei para dentro e vi que havia ali uma pequena fresta junto do 
tecto, por onde passava o ar e a luz. Os meus dois guardas no estavam a correr riscos. 
Tinham-se tornado atentos e observavam os meus mnimos movimentos.
Quando contornei a secretria de Damian, no fundo da sala, os meus olhos fxaram-se numa 
folha de papel que se encontrava sobre o tampo. Parei para a olhar. Damian, vendo o meu
olhar, levantou a folha amarela.
 - Veja, senhorita, leia os assuntos importantes que so tratados neste comissariado. 
Trabalhamos muito, como pode ver. - Continuava a agitar o papel. Logo que lhe peguei 
reconheci o endereo da Embaixada alem no alto da folha. Era uma lista de artigos que 
deviam ser embarcados no Cabo de Buena Esperanza, com partida de Mlaga para Buenos 
Aires a 1O de Junho, dirigidos ao Sr. Don Hans Schumacher, na Embaixada alem em 
Buenos Aires. O remetente era um Karl Wizner, da Embaixada alem em Madrid. Os meus 
olhos percorreram a lista dos artigos enviados. Fora por causa daquele carregamento que 
Lazaar se deslocara a Mlaga?
 12 quadros entrados em Bilbau no Monte Aala, vindos de Amesterdo; chegada 23 de 
Maro de 1944
 6 quadros de Czanne
 2 quadros de Van Dek
 3 quadros de Rubens
 I annimo do sculo xvIII
 1 piano Steinwa, engradado n.o 5788
 Quando li a ltima linha lembrei-me que o piano que vira
em casa de Lon Blum, naquela noite horrvel, era tambm
um Steinwa. Seria o mesmo piano? Estaria o corpo de Lon
Blum no engradado que transportava o piano? Decorei a lista.
Os meus pensamentos dirigiram-se de novo para Lazaar. Ele
era capaz de tudo. No teria certamente escrpulos em expedir
um corpo dentro de um caixote. Mas o cheiro no atrairia as
atenes?
 As minhas responsabilidades pareciam multiplicar-se. Teria de descobrir o que havia 
naquele engradado. Mas como poderia faz-lo se nem sequer via maneira de sair da 
esquadra da
polcia. E o problema mais importante continuava a ser que o
transmissor, a arma, o rolo de microfilme podiam ser descobertos, o que levaria  captura 
de dezenas de espanhis leais  nossa causa. Decidi meter o filme na sanita se ainda o 
tivesse em meu poder e me encontrasse ali  hora do meu ltimo contacto com Black, no 
dia seguinte s 14 e 30, embora isso
significasse um malogro total.
 Sentia-me desanimada. As horas que se seguiram foram as
mais longas da minha vida. Mais tarde apareceram outros dois
polcias, mas mostraram-se to impossveis de subornar como
os outros. A minha nica esperana era que Don Jos voltasse
em breve e que no me revistassem.
 Na manh seguinte, Damian e Ramiro voltaram, cumprimentaram-me cordialmente e 
ofereceram-me um caf espesso, horrvel. A manh foi decorrendo, minuto a minuto, sem 
que Don Jos desse sinais de vida. Iria faltar ao meu ltimo contacto.
 Cerca do meio-dia e meia hora, a porta abriu-se e entrou um
homem rubicundo. Os dois polcias puseram-se em sentido.
 - Don Jos! - exclamaram ao mesmo tempo.
 - Como vo as coisas, rapazes? - Avanou at ao meio da
sala e, antes que qualquer dos outros pudesse pronunciar uma
nica palavra, exclamou: - Mas que faenas! Ortega foi una
maravilla! - O chefe da polcia tomou as poses de um matador, com uma imaginria muleta 
na mo, imitando os passes
que vira na vspera. O abdmen protuberante de Don Jos
no fazia lembrar muito a silhueta de um toureiro, mas ele
tinha uma certa graa e estilo ao executar os clssicos
passes.
Fez girar a imaginria capa em volta do corpo, voltou-se e de
sbito viu-me. A sua manoletina foi prontamente interrompida. - O que  isto? - Dirigiu-se 
para mim para ver melhor.
Forcei-me a sorrir.
 -  uma americana - respondeu Damian, com tanto orgulho como se tivesse apanhado um 
tubaro branco nas guas
azuis do Mediterrneo.
 - Mas que maneira de tratar uma linda senhorta, Damian.
- Don Jos meteu a mo pelas grades para apertar a minha. -
Bem-vinda a Mlaga, senhorita. No se preocupe. Sejam quais
forem os seus problemas, eu resolvo-os. Damian, abra esta
porta. - Tirou uma cadeira de detrs de uma mesa, limpou-a de p com a mo e ofereceu-
ma. Eram j 13 horas. - Faa favor de
se sentar. Que posso fazer por si?
 Quando acabei a minha histria, o chefe da esquadra tirou
uma chave do bolso e abriu a gaveta da secretria, tirando de
l canetas, papis, carimbos.
 - Vamos j resolver isto. Basta carimbar o seu passaporte e
assin-lo.
 Mais de vinte e quatro horas na priso para aquilo. Tirou
uma caneta do bolso e assinou com um dramtico floreado
todo em ziguezagues. Depois pegou num carimbo, molhou-o 
numa caixa com tinta e bateu com ele sobre o passaporte.
A pgina continuou to branca como antes. A tinta secara.
Abanando a cabea, Don Jos ordenou a Damian que fosse
comprar um pouco de tinta - coisa que me pareceu levar
anos. Finalmente o carimbo oficial ornou a pgina. Don Jos 
entregou-me orgulhosamente o documento. Nessa altura o
meu relgio marcava as 13 e 20 e eu estava frentica.
 - A senhorita est livre. Pode partir. - Mas, levantando a
mo, reconsiderou. - No,  melhor vir algum identific-la.
So apenas formalidades, claro. Vou telefonar ao cnsul
americano. Apesar de ser domingo, eu sei o nmero do telefone 
da casa dele. Somos bons amigos.
 Quinze minutos depois, o cnsul americano, alto, jovem e simptico, entrou a coxear.
 Don Jos deu-lhe uma palmada nas costas, segundo o afectuoso estilo espanhol.
 - No se importar de cumprir esta tarefa, meu rapaz -
declarou o chefe. - Trata-se de identificar o passaporte de
uma bonita compatriota. - Ento Don Jos voltou-se para
mim. - Apresento-lhe Barnab Conrad, um excelente toureiro. Esta perna aleijada  a 
recordao de um touro Romero, no
Mxico.
 Apertmos a mo. O cnsul declarou o meu passaporte em
ordem. Don Jos transportou a minha explosiva mala para o
carro, colocando-a no assento de trs do descapotvel verde de
Conrad.
 Eram 14 e 20 quando samos da esquadra.
 - Quer almoar comigo e ir  tourada depois? - perguntou Conrad, pondo o carro em 
andamento. - Nunca comer
melhores mariscos do que em Mlaga.
Hesitei. Sabia que no teria tempo de ir ao Miramar, livrar-me de Conrad e chegar  
catedral s 14 e 30 para entregar as
encomendas a Black. Conrad apercebeu-se da minha relutncia.
 - Desculpe. Tem planos para se encontrar com algum
aqui? Com um amigo, talvez?
 - No, nada disso.  que tenho um recado importante a
fazer. Prometi  irm Catherine, de Nova iorque, que entregaria uma caixa com velas feitas 
por ela a um padre da Catedral de Santa Maria logo que chegasse a Mlaga. Como 
agora a primeira oportunidade que tenho de o fazer, gostaria
de me desempenhar j da incumbncia para depois no pensar
mais nisso.
 Conrad sorriu.
 - Isso  fcil. A catedral fica-nos em caminho.
 Quando ele estacionava em frente da igreja, voltei-me no 
meu lugar e separei do resto da mala a pasta especialmente
preparada por Mozart. Depois sa rapidamente do carro, para
evitar que o cnsul tivesse tempo para me acompanhar.
 - Volto j! - gritei subindo os grandes degraus de pedra.
 Abri uma pequena porta de madeira ao lado da entrada e
entrei na quase obscuridade da catedral. Os meus olhos levaram uns segundos a adaptar-se 
 fraca claridade. Sobre o
altar, onde ardiam velas, via-se um trptico dourado. Alguns
fiis ajoelhavam junto do altar. Plidos raios de luz passavam
pelos vitrais gticos, iluminando aqueles que se encontravam a
rezar na parte da frente da igreja. Mas nos bancos de trs no
se via ningum.
 Senti-me desanimada. Olhei para o relgio e esperei que
Black no se atrasasse muito e que o cnsul no viesse
investigar. Em silncio, sentei-me numa das extremidades do banco que me fora indicado.  
medida que os minutos iam passando eu pensava o que diriam as freiras de Mount St. 
Vincent se soubessem que eu estava na igreja com uma arma e uma mala com material 
incriminatrio  espera de um agente comunista.
Calculava que Black fosse comunista, como a maior parte dos
espanhis que trabalhavam com o Maquis.
 Um homem entrou no banco e ajoelhou a curta distncia de
mim. Trazia um leno branco, sujo, em redor do pescoo.
Tudo se passou em poucos momentos. Sem voltar a cabea,
empurrei a arma, embrulhada no meu leno branco, sobre o banco de madeira. Uma mo 
estendeu-se para ela. Um segundo depois, o leno foi-me devolvido. Depois empurrei a
pasta contendo o transmissor. Em seguida estendi-lhe a palma
da mo com o microfilme. Nem o senti tocar-me para mo tirar.
 Barnab Conrad lia o jornal de domingo quando eu cheguei
junto dele. Enquanto esperava tinha descido a capota do carro. Partimos. O vento 
primaveril fazia-me esvoaar o cabelo
em todas as direces - e eu tirei o leno branco do pescoo
para o pr na cabea. Pela primeira vez nas ltimas quarenta e
oito horas descontraa-me. Agora podia gozar a beleza da cidade! Conrad conduziu o carro 
pelo centro de Mlaga, at a
um restaurante na praia. Comemos chanquetes, um peixe
muito pequeno, frito, delicioso, e a seguir caranguejos e
boquerones, uma espcie de sardinhas.s 16 e 30 amos a caminho da praa de touros para 
assistirmos  corrida.
 Mais tarde, o simptico cnsul passeou comigo pelas bonitas ruas de mrmore em torno da 
Calle Larios e mostrou-me os
luxuriantes jardins e parques da cidade, assim como a vista
que se desfrutava do Clube Nutico. Tudo resultara melhor do
que eu tinha planeado.
 O Hotel Miramar ficava voltado para o mar. Apenas uma 
estreita via frrea separava os seus jardins do murmrio lento 

das vagas. O meu quarto era magnfico, com uma enorme
cama de mogno e uma varanda voltada para frica, que
ficava apenas a doze milhas de distncia. Enquanto me encontrava estendida na grande 
banheira de porcelana, pensando na maneira de contar a Mozart o que se tinha passado 
comigo,
algum abriu a porta do meu quarto. Chamei a criada e disse-lhe, sem a ver:
 - Pode fazer o favor de fechar a porta da casa de banho? 
Estou na banheira.
 A porta fechou-se suavemente e eu continuei a descansar.
Um banho quente sabia-me melhor do que nunca, depois de
ter passado um dia e uma noite sentada num duro banco de
madeira.
 Depois de lavar a cabea e de vestir um roupo turco do
hotel, abri a porta que dava para o quarto.
 O espectculo que se me deparou deixou-me sem fala.
O quarto encontrava-se numa desordem total. Algum tirara
as minhas roupas do armrio de mogno e as atirara de qualquer maneira para o cho. Todas 
as gavetas e portas do armrio estavam abertas. Um bton rolava ainda sobre a carpete. As 
almofadas da cama espalhavam-se por todo o lado.
 Mas havia no entanto uma coisa que me animava: a pasta e o
 microfilme tinham j sido entregues. Passei revista a tudo e
 no dei por falta de coisa alguma, nem do dinheiro, nem sequer do meu revlver. Afinal 
tivera sorte por a polcia me ter levado para a esquadra. Se tivesse ido directamente para o
 hotel, o equipamento, o microfilme e a pistola podiam ter sido roubados. Lembrei-me do 
provrbio espanhol que Juanito tantas vezes repetia: "No h mal que no venha por bem. 
 Seria Lazaar o responsvel? Ter-me-ia ele visto? Mais ningum sabia que eu me 
encontrava em Mlaga - apenas Mozart e Belmonte. Toquei para chamar a criada.
 - Senhorita ! Senhorita ! - exclamou a horrorizada mulher ao
 ver o quarto. - O director tem de vir aqui imediatamente. -
 E saiu a correr. Quando o director do hotel apareceu levou as
 mos  cabea.
 - Lamento imenso, senhorita ! Algum deve ter vindo procurar as suas jias. Oh,  
perigoso viajar com jias - admoestou.
 - No tenho jias - repliquei. - E nada me foi roubado, mas gostaria de saber como  que 
algum pde entrar no meu
 quarto sem minha autorizao.
 O director no sabia que dizer. Erguia as sobrancelhas
 numa expresso de desespero. Por fim, inclinando-se profundamente na minha frente, saiu 
do quarto.
 - Um roubo, um roubo - repetia a criada.
 E assim foi considerado. O que seria melhor? No voltei a
 insistir em que no fora roubada, pois no podia dizer a ningum que quem entrara no meu 
quarto procurava algo muito
 mais valioso do que jias.



Captulo 21

 Ao dirigir-me a p para casa, algumas semanas depois, ia
tornear o canto de Monte Esquina quando uma figura embuada passou por mim - um dos 
muitos monges que se viam
por toda a parte nas ruas. Esse monge, contudo, no s me
olhou como me agarrou por um brao e me fitou directamente.
 Por um momento fiquei assombrada e a seguir quase explodi com gargalhadas. Edmundo 
passava delicadamente a mo
sobre o seu fino bigode.
 - Divino, no acha? Felisa, da Balenciaga, f-lo para mim.
 - Edmundo, no me diga que esteve em minha casa assim
disfarado!
 - Angustias e Cecilia quase se ajoelharam na minha frente. 
Era de esperar. Mas eu afiancei-lhes que no estava ali para lhes levar os ltimos 
sacramentos.
 - Pelo menos ainda no. 
 - No fale assim. Deus sabe que tem havido ultimamente 
mortes que cheguem. 
 - Venha a minha casa. Estou desejosa de falar consigo. 
 - No. Estou com uma pressa terrvel.
 - Vai entrar para uma Ordem?
 - S se for a Ordem de Santa Mimosa, minha querida. - 
Edmundo benzeu-se. - Mas aviso-a, Aline. Estou prestes a 
desvendar alguns mistrios. Positivamente. O meu sangue asteca tem de vingar Mimosa e 
Ren Blum! No h melhor maneira de investigar do que usando este hbito. Com ele 
posso 
entrar em quase todos os stios deste pas. Falei com a velha criada que lavou e vestiu o 
corpo de Mimosa. Confessou ter
visto as marcas no pescoo da marquesa, mas continua a no querer falar do assunto. 
Provocaria um inqurito e um escndalo para a famlia. Ela sabe qualquer coisa que receia
contar. E voc? Que tem feito?
 Contei-lhe rapidamente que estivera em Mlaga e descobrira que a Embaixada alem 
estava a enviar obras-primas e um
piano Steinwa para fora do pas.
 - No acha que se trate do piano de Blum com ele l dentro? Mozart diz que eu sou louca 
por imaginar uma coisa
dessas.
 Edmundo ergueu a cabea com tanta vivacidade que o capuz quase lhe caiu para os 
ombros.
 - Compreendo-a muito bem. Porque no me disse isso
mais cedo?
 - Telefonei-lhe centenas de vezes. Voc nunca atendeu o
telefone. Onde esteve?
 Edmundo apontou para o hbito.
 - Onde havia de ser? A trabalhar. Sabe quando  que esse
navio parte?
 - Ainda h muito tempo para fazer alguma coisa. No partir antes do dia dez de junho.
 - Bem, voc com certeza no pode l voltar.
 - Pois no. Nesse caso ter de ir voc.
 - A Mlaga? Est doida? E que diria a Ordem?
 - No brinque com coisas srias. Quem h-de ir ento?
 - Pea ao seu toureiro para ajudar. Ele no suspeitar. Belmonte sabe que voc  
americana e que deseja ajudar os seus
nesta guerra. Todas as pistas levam s casas de flamenco onde
Ren passava o seu tempo livre. Juanito conhece os ciganos melhor que ningum. Voc 
tem de fazer tudo quanto lhe for
possvel.
Se descobrirmos o corpo de Ren, poderemos vir a saber quem o
matou. E lembre-se de Mimosa. O mesmo poder acontecer a
um de ns. - Reajustou o capuz, que resvalara durante a animada conversa. - Diga-me uma 
coisa, Aline. Que fez mais em
Mlaga alm de descobrir o embarque de pianos?
 - Pouca coisa. Vi Lazaar no comboio, passei a noite na
priso... e, sim, o meu quarto foi totalmente revistado enquanto eu tomava banho.
 - Oh, voc tem um delicioso sentido do humor!
 - Infelizmente estou a falar a srio.
 Os olhos de Edmundo abriram-se de espanto.
 - Aline, voc  espantosa. No me torture mais. Quem
pensa que possa ter feito isso?
- O que  que acha?
 - Lazaar?
 -  o que eu imagino.
 Edmundo benzeu-se rapidamente.
 - Mozart no  da mesma opinio - acrescentei.
 - Minha querida, quem  Mozart comparado com o pcaro
de Mimosa? O meu trabalho de detective junto da princesa
continua. Ela  muito exigente, mas eu tenho a pacincia de
um rei. Talvez eu devesse esperar mais um bocado: qualquer
dia poder aparecer em Madrid uma rainha deposta. De qualquer modo, digo-lhe que me 
sinto muito deprimido.
 - Porqu?
 - Porque as suas viagens parecem-me mais excitantes do
que as minhas. Creio que vou ter de passar a apimentar mais
os meus relatrios.
 - Isso no lhe deve ser difcil. Voc  o Mata Hari da
literatura.
 - E voc, minha querida,  a minha protegida preferida.
 - Voc sabe que tenho dificuldade em acreditar na sua devoo por Mimosa. Quando um 
dia lhe perguntei se confiava
cem por cento nela, voc respondeu-me: implicitamente
no. 
 - Minha discpula, isso era quando ela estava viva. - Levou a mo ao capuz para o ajeitar. - 
No se deve acreditar em
ningum vivo, na nossa profisso pelo menos. Mas agora que a
minha querida Mimosa j se no encontra entre ns, digo-lhe
que confio nela. E fao votos para que quem a matou tenha o
pescoo torcido muito em breve.
 - Por favor, Edmundo, lembre-se da sua sagrada vocao.
 - Claro que me lembro. Os votos de Edmundo Lassalle
no so de pobreza ou de castidade. Nunca! Estou consagrado
to-s aos votos da espionagem.
 - E acima de tudo da nobreza.
 - No seja profana, querida. Est a falar com um monge.
 - Quer dizer um lobo com hbito de monge.
 - Voc  pecadoramente deliciosa. Logo que tenha dito as
minhas oraes irei ensinar-lhe um ou dois provrbios. Como:
"O Senhor nunca dorme. Dana at de madrugada, como
ns. - O meu monge inclinou-se e beijou-me a mo, desaparecendo em seguida 
rapidamente, no crepsculo.
 Dez minutos depois o telefone tocou. Era Belmonte.
- Guapa, como correu a sua viagem? Viu tanto de Mlaga
como desejava?
 - De certo modo vi.
 - Hoje vem jantar comigo. Deve recordar-se da sua promessa.
 Tinha-a esquecido completamente, mas o convite no podia
ir mais a propsito, se queria que ,Juanito me ajudasse a descobrir o que se encontrava 
dentro do piano.
 Juanito disse-me que ia convidar os seus amigos Alvarez e
Pickmans para jantarem tambm connosco, mas eu afirmei-lhe que preferia que 
jantssemos a ss para falarmos de assuntos confidenciais importantes. Ele ficou 
encantado. s 22
horas foi buscar-me, conforme o combinado.
 - Vamos jantar ao L'Hard, numa sala de jantar privada.
Ficaremos sozinhos.
 Uma escada estreita conduziu-nos a uma pequena sala.
Velas ardiam sobre a toalha de damasco branco; espessos cortinados de pelcia vermelha 
cobriam a entrada e estavam to
fechados que ficvamos completamente isolados. Fiquei surpreendida. Juan riu-se.
 - Estes pequenos sales destinavam-se a aventuras amorosas e conversas confidenciais. As 
senhoras respeitveis no
frequentavam os restaurantes pblicos antes da guerra civil. -
Fez um gesto que abarcava todo o compartimento. - Estas
mesmas paredes presenciaram muitos segredos, at mesmo
conspiraes contra os governos.
 - Ento estamos no local apropriado.
 - Sou todo ouvidos, Aline.
 O pequeno rosto moreno de Juanito estava ardente.
 - Por onde hei-de comear? No passado fim-de-semana,
em Mlaga, estive na priso. - Esperei que ele se mostrasse 
chocado.
 - Sei isso - respondeu calmamente Juanito.
 No pude ocultar a minha surpresa.
 - No ache isso estranho, Aline. Tenho amigos por toda a
Espanha.
 - Mas como? Como soube? Quem lhe contou? - A resposta dele era vital.
 - Digamos que foi algum que sabe que eu a admiro. Aline,
que anda voc a fazer? No me diga que anda a conspirar para
fazer um golpe de Estado.
Tive de confiar nele.
 - No, mas estou a conspirar contra os alemes e preciso
da sua ajuda.
 Os olhos de Juanito encheram-se de um espanto infantil.
 - Ah, isso explica tudo. - Disse que sim com a cabea
como se falasse consigo mesmo. - Em que lhe posso ser til?
 - Enquanto estive na priso vi um pedido oficial da Embaixada alem requerendo licena 
de embarque para um piano
ser enviado para Buenos Aires.
 - Que tem de estranho que um piano seja enviado para a
Argentina?
 - No seja impaciente. Na noite em que me viu sair a correr do Villa Rosa com Edmundo, 
perseguamos um criminoso.
Seguimo-lo de txi e ele disparou sobre ns.
 - Mas que tem isso a ver com um piano?
 - Tudo - continuei. - Edmundo pensa que esse homem
conhecia Ren Blum, sabia que ele tinha informaes importantes para ns e que ns 
amos procur-lo.
 - Continuo a no ver qualquer ligao - Juanito parecia
sinceramente confuso. Segurou-me a mo. - Por favor tente
explicar-se melhor.
 Tirando a mo, expliquei:
 - Quando chegmos ao apartamento de Ren... vi-o.
 - Pronto. Ainda bem. Que lhes disse Ren a respeito do
homem que disparou sobre vocs? Conhecia-o?
 -Juanito, Ren estava l, metido dentro do piano. Morto.
Fora estrangulado.
 Juan no disse nada. Mas a sua expresso era de cepticismo.
 - No dia seguinte, o corpo de Ren desapareceu... e o piano
tambm.
 Juan olhava-me com uma expresso tal que eu pensei que
ele me julgava louca.
 - Acredita em mim, no acredita?
 - No percebo nada. Em primeiro lugar, porque  que algum havia de querer matar Ren 
Blum? Era simptico para
toda a gente. - Juan parecia sinceramente amargurado.
 - Ele ajudava a fazer sair judeus (especialmente crianas)
da Frana para a Espanha. Pode ter a certeza de que os alemes no gostavam dele.
 - Ren tinha informaes para o seu amigo Lassalle? -
Juan continuava de sobrolho franzido. - E voc ajuda-o?
Sorri e disse que sim com a cabea. Percebi que ele comeava a compreender.
 - Ento Edmundo  uma... espcie... de...
 - Associado de negcios - sorri muito afectuosamente. Estava afinal a revelar o meu 
disfarce e o de Edmundo tambm.
Mas no podia fazer outra coisa para conseguir o auxlio de
Juanito.
 - Ento ele no  meu rival?
 - Claro que no. Voc tem de me ajudar, Juanito.  a
nica pessoa em quem confio. Compreende que o meu pas
est em guerra e que eu devo fazer tudo quanto puder para o
ajudar... como voc fez quando o seu esteve em guerra tambm.
 Juanito pousou-me uma mo num brao.
 - Com certeza. Farei tudo quanto puder para a ajudar.
 - Poder encontrar um cigano que seja capaz de guardar
segredo, que tivesse conhecido Ren Blum e as casas de flamenco que ele frequentava? 
Ser capaz de arranjar algum
nessas condies que queira trabalhar para ns?
 Juan abanou a cabea uns momentos.
 - No, no creio... - Depois o seu rosto iluminou-se. -
Talvez conhea exactamente a pessoa indicada. Um amigo
meu que odeia os alemes, o que o torna de inteira confiana
para este trabalho. A filha dele foi violada por um alemo h
algumas semanas, e ele est decidido a vingar-se. No mundo
dos ciganos isso significa que nenhum cigano casar com a
filha dele. - Falava agora com mais entusiasmo. - Claro,
Jos Heredia  o nosso homem.
 - Posso confiar nele, inteiramente?
 - No pode haver ningum mais perfeito para essa delicada misso. E conheo-o desde 
sempre. Vivia perto de ns,
em Triana, e foi ele que me ensinou a arte de tourear.  a
nica pessoa em quem confiaria para fazer esse importante
trabalho para si. Lembre-se: os seus problemas so os meus
problemas, Aline.

 Belmonte aparecia nas arenas quase todos os dias desse ms
- Valncia, Palma de Maiorca, Alicante e na provncia nortenha de Guipzcoa. S no fim de 
Maio  que teve tempo de me
apresentar a Jos Heredia.



 Estacionando o seu Bugatti descapotvel na estrada que fica
a meia hora de distncia, a sudoeste de Madrid, Juanito apontou para os vastos campos 
atapetados de papoilas vermelhas.
Ao longe via-se um acampamento cigano, com as suas carroas cobertas de lona e tendas 
improvisadas, obscurecidas em
parte pelo fumo das fogueiras acesas ao ar livre.
 - Estes ciganos vivem como nmadas, em tendas, viajando
de pas para pas, vendendo e comprando cavalos. As mulheres so to orgulhosas e altivas 
como os homens e trabalham
mais. E, creia, so to hbeis como eles a manejar uma faca.
Pode apostar que todas as mulheres usam uma faca, geralmente escondida nas ligas das 
meias. As ciganas so to hbeis
em roubar (embora algumas o no faam) que os camponeses
e os agricultores fecham as galinhas e os burros logo que vem
uma. Em contrapartida, podem ser os amigos mais leais, mais
dedicados.
 No acampamento viam-se inmeros homens com velhas calas de bombazina e camisas de 
algodo de cores alegres. As
mulheres usavam compridas saias rodadas, coloridas. Vi tambm um nmero incontvel de 
crianas barulhentas, cavalos,
burros e porcos.
 Logo que aparecemos, Belmonte foi rodeado. Depois apareceu um homem que se dirigiu 
para ele - e eu percebi imediatamente que se tratava de Jos Heredia. Tinha um rosto 
marcado pelas intempries e no entanto era bem-parecido, com
um largo sorriso e cabelo preto, que comeava a tornar-se grisalho. Juanito abraou o 
cigano e deu-lhe umas palmadas nas
costas, como se no se vissem h anos. Depois apresentou-me.
 Seguimos Jos at uma cabana e sentmo-nos em bancos
com trs ps. Jos esperou que Belmonte explicasse os motivos
da nossa visita.
 - Preciso da sua ajuda, Jos. Gostava que fizesse algo para
esta minha amiga, mas considere isso como um favor pessoal
feito a mim.  importante, secreto e possivelmente perigoso.
Algo mesmo apropriado para si, hen, Jos? - E Juan sorriu
afectuosamente.
 Continuando a olhar-nos, Jos esperava.
 - A minha amiga procura algum que ela julga ter sido
morto por um alemo.
 Observei a reaco de Jos. Ele nem pestanejou. Expliquei-lhe ento s aquilo que ele 
precisava de saber a respeito do desaparecimento de Ren Blum e falei-lhe do engradado 
com o
piano que se encontrava em Mlaga.
 - O que  que acha? - perguntou Juan a Jos.
 O cigano tinha uma voz rouca, como se tivesse cantado muitas canes de flamenco na 
noite anterior - ou talvez fosse um
grande fumador.
 - Isso  como uma segunda hiptese de eu voltar  arena.
Estou pronto, Don Juan. Sabe o que penso dos alemes.
Quando comeo?
 - Imediatamente - respondi. Em seguida perguntei: -
O que  que quer dizer com o voltar de novo  arena?
 Belmonte ia comear a responder por ele, mas Jos disse:
 - Como Don Juan lhe contar, eu no era um mau novilheiro e esperava vir a ser um 
matador. Mas fui ferido por um
touro em Cceres e... decidi no voltar  arena. s vezes lamento a minha deciso. Agora 
tenho outra oportunidade. Isto
satisfaz a senhorita?
 Sem saber bem que responder, limitei-me a dizer que sim
com a cabea. S depois de termos sado do acampamento dos
ciganos  que perguntei a Juan o que Heredia quisera dizer.
 -Jos  muito modesto. Foi comparado aos grandes toureiros ciganos, como El Albaicn e 
Gitanillo de Triana - toda a gente pensava que ele ia ter um futuro espectacular. Mas depois 
de Cceres Jos comeou a ter medo. Sucede a muitos.
O verdadeiro teste do toureiro  o seu primeiro ferimento devido a uma cornada.
 - Isso j lhe sucedeu, ,Juan?
 Ele suspirou.
 - Oh, sim, muitas vezes.
 - Como  que no tem medo? - amos a caminho do
carro.
 - Sinto-me mortalmente assustado sempre que entro na
arena, Aline.
 O infindvel oscilar das papoilas vermelhas parecia inclinar-se para concordar com ele.
 Seguindo atravs dos campos, ia observando as costas do
orgulhoso toureiro que avanava na minha frente - e subitamente lembrei-me de Pierre. 
Como estes dois homens eram
diferentes!



Captulo 22

 No dia 4 de Junho chegou a notcia de que as nossas tropas
tinham finalmente tomado Roma. No dia 6 de Junho, o to
esperado Dia D comeou.
 Espervamos que a invaso no Sul de Frana ocorresse
cerca de uma semana depois, mas as nossas tropas foram detidas por combates na 
Normandia. No se sabia quanto
teramos de esperar pela Operao Anvil. A invaso da Normandia surpreendera o Eixo e 
grande parte do mundo pelo
local inesperado e pela sua colossal escala - um marco
na histria militar. Ningum tinha dvidas de que os nossos
rapazes venceriam, mas os alemes resistiam e as baixas de
ambos os lados eram enormes. Todos ns espervamos que o
nosso trabalho em Madrid pudesse ajudar a evitar o mesmo
quando a Operao Anvil tivesse lugar. Era mantido completo segredo acerca do local do 
desembarque da Operao
Anvil. No escritrio fazamos apostas sobre o local onde ele
poderia vir a dar-se. Alguns apostavam que seria na fronteira entre a Frana e a Itlia, 
outros que seria na rea de Marselha.
 Cerca de uma semana mais tarde chegou outra boa notcia.
Um telegrama de Jupiter para Mozart. Jeff, que comeara a
decifr-lo, entregou-me o papel.
 - Isto diz-lhe respeito, Aline.  do grande chefe em
Washington. Deve ser importante.
 Descodificando as letras, li:
ENVIO PIERRE MISSO ESPECIAL PARA MADRID STOP USE TIGER
COMO CONTACTO STOP
 Era a melhor notcia desde que soubramos do desembarque Overlord. S saber que Pierre 
estaria perto de mim aliviava-me. Quando levei o telegrama a Mozart ele mostrou-se,
como sempre, pouco comunicativo.
 - Teremos de arranjar maneira de voc encontrar Pierre
publicamente. Algo como fizemos com Top Hat. Dir-lhe-ei depois o que se deve fazer.
 Quando voltei ao meu escritrio o telefone tocou.
 - Aline, pode vir ter comigo ao Prado?  muito urgente.
 Agora que j nada me surpreendia, pude responder calmamente:
 - Sim, prncipe Lilienthal. Com certeza.
 - Bom. Estarei junto da entrada, na porta que d para as
traseiras do Ritz.
 Antes de sair passei pelo escritrio de Mozart para o informar do meu invulgar encontro.
 - Tenha cuidado com esse tipo e conte-me o que ele lhe
disser.

 Tinha visitado o Prado vrias vezes durante os ltimos meses, mas ele nunca deixava de 
me assombrar - um dos maiores museus do mundo, contendo tesouros da arte ocidental. 
Ningum parecia seguir-me quando subi as escadas que davam acesso ao museu. No 
corria riscos e servira-me de todos
os truques aprendidos durante o meu treino para despistar
quem quer que fosse que eu vira ao sair da residncia do embaixador. Lilienthal esperava-
me e comemos a caminhar 
pelo largo corredor central, voltando depois  esquerda, numa
sala dedicada a El Greco. Era bvio que Lilienthal no tinha
qualquer inteno de admirar as famosas obras-primas nas
suas imensas molduras douradas.
 Passados uns momentos, Lilienthal disse:
 - Carola no faz ideia de eu lhe ter pedido para vir aqui...
nem qualquer outra pessoa, claro. Gostaria que as coisas
ficassem assim. Posso confiar em si, Aline?
 - Claro que sim. - Continumos a andar pela sala deserta. Eu tinha a carteira com a minha 
Beretta debaixo do
brao. At um museu podia ser considerado, pelo meu perseguidor desconhecido, um local 
apropriado para me matar.
 - Bem, digo-lhe que de um modo geral sempre me considerei um bom alemo. Digo isto 
porque em vrias alturas da
Histria as minhas terras e as terras dos meus antepassados foram ocupadas pelo inimigo. 
Quando Hitler subiu ao poder, 
em 1933, parecia que ia fazer grandes coisas pelo pas. Depois
mudou. Senti-me alarmado, mas publicamente adoptei a atitude de esperar para ver, como o 
fizeram muitos dos meus amigos. Em breve se tornou evident,e aquilo que nos esperava,
embora eu continuasse a dar a Hitler o benefcio da dvida.
Afinal, a Alemanha estava num caos e eu tinha de admitir que
era necessria muita tenacidade para juntar as peas do puzzle. Espero no a estar a 
aborrecer, Aline.
 - A aborrecer-me? De maneira nenhuma. Faa o favor de
prosseguir. Eu sou uma boa ouvinte.
 - Sim. Mimosa disse-me isso. A ltima vez que a vi viva.
Naquele sbado, no El Morisco. Bem, como ia dizendo, Hitler
parecia ser o homem capaz de trazer a Alemanha para o sculo
vinte e de fazer dela uma grande potncia mundial. No h
dvidas a esse respeito, seja o que for que venha a suceder.
 difcil no nos deixarmos arrastar pelos acontecimentos,
sabe? E  claro que toda a gente pensou: "Talvez ele me deixe
em paz!  Eu pensei isso antes de algumas das minhas propriedades e empresas passarem a 
ser controladas pelos nazis. Depois vi Hitler enlouquecer com o poder. Felizmente a minha 
mulher  espanhola e ns temos vivido quase sempre aqui.
Quase todos os meus filhos aqui nasceram. Mas os meus negcios esto todos na Europa 
Central. Hoje em dia, tudo se encontra nas mos dos nazis. No tenho nada em meu nome.
Mas isso no tem importncia. Pelo menos a minha mulher e
os meus filhos esto em segurana.
 Devia acreditar nele? No podia imaginar que o corado
prncipe fosse um to bom actor. Mas a verdade  que tambm
no podia imaginar que aquele homem robusto, distinto e elegantemente vestido no tivesse 
dinheiro. Porque estaria a contar-me tudo aquilo?
 - Vou agora surpreend-la ainda mais. Se fosse s pelo dinheiro, provavelmente no faria o 
que estou prestes a fazer.
Posso viver sem o meu dinheiro. No gosto, mas posso. A minha mulher tem o suficiente 
para vivermos como vivemos aqui
em Espanha. O meu orgulho pode ser ferido, mas a minha
conscincia sobreviver. Por outras palavras, Aline, no  o
dinheiro que motiva as minhas aces neste momento.  precisamente a minha conscincia.
 - O que quer dizer?
- Ultimamente, a Gestapo em Madrid tem feito muita presso sobre mim. Querem que eu os 
deixe instalar uma estao de
rdio no El Morisco, com a qual podero receber informaes
dos agentes alemes do Sul da Frana. - A observao fez-me lembrar que, visto eu no ter 
voltado a ser convidada para El
Morisco, no pudera prosseguir as minhas investigaes a
respeito do transmissor. Estaria ele a dizer-me a verdade?
Lilienthal continuou: - Com essa estao eles poderiam tambm interceptar comunicaes 
transmitidas para Madrid e poderiam comunicar directamente com Berlim. Por isso  que o 
jovem
Weiderstock se encontrava em El Morisco nesse fim-de-semana, para me falar do assunto. 
Claro que eu sei que ele apenas faz recados e que o padrinho dele se encontra em 
dificuldades em Berlim. Quando lhe disse que no, partiu muito aborrecido.
 Eu ouvia-o, no me atrevendo a dizer uma s palavra.
O prncipe fez-me parar - estvamos no meio da sala.
 - Creio que no aguento mais.
 - O que  que quer dizer?
 - At agora, o horror do sistema comunista na Rssia, dominando a Europa Central com os 
seus banhos de sangue e o
seu terror, impediu-me de ajudar os aliados. Mas hoje em dia
Hitler tornou-se um louco e destruir-nos-. - Parou, como se
pensasse no que iria dizer a seguir. - Ontem foi-me transmitida uma informao de tal 
modo importante para o xito dos aliados que a minha conscincia me obriga a dar parte 
dela, sejam quais forem as consequncias. Foi por isso que lhe pedi que se encontrasse aqui 
comigo.
 - Porque  que me diz isso a mim, prncipe Lilienthal, em
vez de falar com algum mais importante?
 Ele escolheu cuidadosamente as palavras.
 - Eu estou na lista negra dos americanos. No conheo
americanos. Se me vissem a conversar com alguma alta personalidade americana, podia 
acabar como a nossa amiga Mimosa. Alm disso, os alemes exerceriam represlias sobre
parentes meus que se encontram sob o domnio do Reich. Voc
 a nica americana com quem eu posso falar sem levantar
suspeitas por parte dos alemes. - Sorriu por um segundo. -
Conhece o embaixador americano em Paris?
 - No. Ou melhor, sim. J o encontrei, mas no tenho contactos com ele.
 - No importa. Para si  simples falar com ele. Gostaria que lhe transmitisse uma 
mensagem muito delicada. No fale
dela a mais ningum. Compreende? - Disse que sim com a
cabea. Os olhos dele estavam fixos em mim. - No percebe?
Ningum suspeitar que voc seja a mensageira de importantes informaes secretas. Voc 
est totalmente acima de qualquer suspeita.
 Estaria ele a tentar dizer-me que sabia que eu estava envolvida nos servios secretos? 
Continuava a pensar que ele desconfiava de mim desde que eu saltara da janela do 
escritrio dele.
 Respondi o mais calmamente que pude:
 - Farei tudo o que me for possvel. Qual  a mensagem?
 - Um parente meu, um membro da famlia real italiana
que trabalha no gabinete do general Karl Wolff, o chefe da
Gestapo na Itlia, ouviu uma conversa telefnica entre Wolff e
Himmler.
 O prncipe olhou-me. Depois observou a sala para ver se
ningum se encontrava por perto. Os rostos compridos e magros das pinturas de El Greco, 
os olhos escuros e tristes,
pareciam tambm fitar-me como se estivessem  espera das transcendentes informaes do 
prncipe.
 Quando por fim comeou a falar, Lilienthal olhou-me fixamente, falou lentamente, 
pronunciando bem cada palavra,
com o seu ingls perfeito, mas onde era evidente um forte
sotaque alemo.
 - Himmler informou claramente Wolff que tem um agente
da Gestapo a trabalhar no interior (repito, no interior) dos
servios secretos americanos em Espanha.
 As palavras dele foram para mim como um choque elctrico.
Tentei ocultar a minha reaco. No deveria evidenciar qualquer reaco para alm de um 
pequeno olhar de surpresa.
O pavor glido que me estava a penetrar devia permanecer 
totalmente oculto. Mas a notcia era de arrepiar!
 - Gostaria que eu repetisse a mensagem? - perguntou Lilienthal.
 - No, obrigada.  bastante simples. Agradeo-lhe a confiana que depositou em mim e 
transmitirei a mensagem ao
embaixador o mais depressa possvel.
 Estava a pensar - aquilo significava que o agente especial
de Himmler podia ser um do nosso prprio grupo. Talvez
mesmo Edmundo - ou at Mozart.
Quase tropecei ao sair do museu, confusa, assustada, tentando calcular as implicaes do 
que acabara de saber. Se a
mensagem era verdadeira, qualquer colega meu poderia ser o
agente culpado. No s os quatro suspeitos da minha lista
eram perigosos, mas um dos do meu prprio grupo podia ser
um traidor. ramos to poucos... Jeff Walters, Larr Mellon,
os outros que trabalhavam no escritrio. Oh, e se fosse Mozart! Ou Edmundo!
 Subitamente senti-me sozinha, encurralada. Sem a autorizao de Mozart eu nada podia 
fazer. Ele seria o agente ideal
para Himmler colocar dentro do nosso grupo. Era ele, afinal,
quem conhecia todas as operaes, todos os relatrios dos
agentes e subagentes. Mas eu sabia tambm que Edmundo era 
pouco escrupuloso. A nica consolao era dentro em breve ir
entrar em contacto com Pierre.

 Quando cheguei ao escritrio, Mozart tinha sado e s devia
voltar no dia seguinte. Isto deu-me tempo para decidir o que
havia de fazer.
 A tarde foi uma verdadeira provao. Jeff reparou nisso.
 - Que tem, Aline? - perguntou. - Voc parece que acabou de perder o seu ltimo amigo.
- Talvez. - Observei-o pela primeira vez com desconfiana. Para onde ia ele quando saa do 
escritrio?
Mostrava-se estranhamente misterioso a respeito do que fazia, no entanto fazia-me sempre 
perguntas acerca das minhas actividades.
Oh, aquilo era impossvel. Suspeitava de toda a gente. Havia
apenas uma pessoa a quem eu poderia transmitir a mensagem
de Lilienthal: Jupiter. Mas esse encontrava-se longe, em
Washington.
 Visto estar de servio na sala de cdigos nessa noite,
apareci ao porto  meia-noite, como costumava fazer muitas vezes para decifrar uma 
mensagem altamente secreta, diferente das outras por requerer aco imediata e transmisso 
ao ehefe.
Um guarda sonolento abriu-me a porta.
 - Est algum a trabalhar aqui esta noite? - perguntei.
 - No est l ningum, senhorita. Os seus compatriotas esto ainda a celebrar a invaso. 
Parecem muito satisfeitos.
Eu quase esquecera o Dia D. O facto de esperar por ele
tanto tempo e as presses a que estava a ser sujeita fizera
com que me tivesse praticamente esquecido dele.
 Quando cheguei  sala de cdigo comecei a trabalhar com
rapidez. Podia aparecer algum a qualquer momento. Ronnia
ia s vezes ali, durante a noite, para escutar uma das nossas
estaes de rdio em Frana.
DE TIGER PARA JUPITER STOP LILIENTHAL INFORMOU-ME HOJE
QUE UMA FONTE LIGADA  FAMILIA REAL ITALIANA TRABALHANDO
NO GABINETE DA GESTAPO ITLIA OUVIU CONVERSA TELEFNICA
ENTRE GENERAL WOLFF E HIMMLER INDicANDO HIMMLER TEM
AGENTE A TRABALHAR NO INTERIOR REPITO INTERIOR sERVIOS
SECRETOS AMERICANOS ESPANHA STOP ACONSELHE SE DEVO COMUNICAR 
ISTO A MOZART STOP TIGER PARA JUPITER
 Peguei no telefone e, como era costume, transmiti a mensagem em cdigo por intermdio 
do servio telegrfico espanhol. 
No havia outro modo de fazer a mensagem chegar s mos de
Jupiter, visto que o Governo espanhol s autorizava que certos
telefones transmitissem mensagens em cdigo para fora do
pas.
 Saindo do jardim para a rua, comecei a caminhar rapidamente em direco ao meu 
apartamento, gozando o ar fresco
da noite.
 Gradualmente, fui-me apercebendo de passos atrs de mim.
Continuei com o mesmo andamento e voltei a cabea, mas no
consegui ver ningum  fraca claridade da luz de gs dos candeeiros da rua. Talvez fosse o 
sereno a fazer as suas rondas;
Talvez no. Pus a mo sobre o pequeno revlver que tinha na
mala.
 Voltei da Calle Fortun para a Calle Marqus de Riscal e
ouvi o mesmo rudo suave de ps. Dessa vez vi um vulto a uns
cinquenta metros de distncia. Comecei a andar mais depressa
e a pessoa que me seguia apressou o passo tambm. Felizmente que calava umas sandlias 
sem salto e a minha saia era
larga. Corri at  minha porta e no a abri, pois no havia
tempo para tirar a chave, e enfiei-me por entre as grades de
ferro. Uma vez na escada, corri para o meu apartamento, no
segundo andar, fechei a porta  chave e dirigi-me  janela para espreitar para a rua. Vi ainda 
o vulto de um homem a dirigir-se para a esquina seguinte, onde desapareceu, no escuro.
 Pensei quanto tempo demoraria a receber resposta ao meu telegrama. No havia tempo a 
perder. A Operao Anvil poderia comear a qualquer momento. Heredia entraria em 
contacto comigo em breve e Pierre tambm. Se a indicao de
Lilienthal era correcta, no s todos ns estvamos em perigo,
mas o desembarque no Sul de Frana, que envolveria milhares
de americanos, poderia ser um desastre.

 No dia seguinte, a voz do cigano que me falou ao telefone foi
difcil de ouvir. No s havia rudos na linha como tambm no
stio de onde ele falava.
 - Senhorita, completei o trabalho que me deu.
 - Descobriu o engradado do piano? - perguntei.
 - Sim, senhorta, mas  uma histria complicada.
 - Don Ren estava l?
 - Preciso de falar com a senhorita. No posso ir a sua casa.
Poder vir ao teatro?
 - Ao teatro? - Julguei ter percebido mal.
 - Sim, senhorita, o Teatro Maravillas, onde a minha filha
trabalha.
 No sabia que a filha dele trabalhava num teatro, mas sabia
que com aquela ligao nunca conseguiria entender coisa alguma.
 - Muito bem, mas ter de ser j.
 - Muito bem, senhorita. O melhor  comprar um bilhete e
sentar-se na ltima fila da plateia, para podermos conversar
sem sermos observados.
 - Esteja preparado, Jos. Vou j para a.
 Os teatros de Madrid do dois espectculos dirios: uma
matine s 19 horas e outro espectculo s 23. Eram j 19 e 30
e eu ia  recepo da Embaixada da Romnia s 21 horas.
Telefonei a Edmundo e disse-lhe que fosse ter comigo  ltima
fila da plateia do Teatro Maravillas. Quer se descobrisse que
ele era um agente duplo ou no, a verdade  que Ren fora seu
subagente. Ao lado de Jos Heredia e com o meu revlver a
postos, calculava que estaria protegida.
 O antigo teatro da Calle Malasana estava quase vazio. Fiquei parada na escurido, por 
segundos, antes de conseguir
distinguir o vulto de Edmundo a meio da ltima fila. Sentei-me ao lado dele e inclinei-me 
para falar. Ele levou um dedo
aos lbios para me pedir silncio.
- Oua esta cano.  a minha preferida de todas as zarzuelas espanholas.
 A ltima coisa que me interessava naquele momento era
uma cano, mas no podia deixar de a ouvir. No meio do
palco, um homem, a cantar, caminhava lentamente ao lado de
duas raparigas vestidas com compridos vestidos com pintas e,
leno branco na cabea. Apesar do meu estado de agitao, fui
logo cativada pela melodia. "Una morena  una rubia , repetia o cantor, olhando primeiro 
para uma rapariga e depois
para outra. Quando a cano terminou, por entre os calorosos
aplausos da assistncia, Heredia apareceu ao meu lado. Aprsentei-o a Edmundo e perguntei:
 - Ento que descobriu, Jos?
 - Encontrei o engradado nmero cinco mil setecentos e oitenta e oito, senhorita.
 - Descobriu o corpo de Blum? - perguntei com o pulso a
bater aceleradamente.
 Jos fez uma pausa, hesitante.
 - No.
 Soltei um suspiro de alvio.
 - Descobri dois corpos.
 - O qu?
 - Encontrei l dois corpos. Um homem e uma mulher. Mas
nenhum era Don Ren Blum.
 At Edmundo ficou sem saber o que dizer.
 - O homem vestia um uniforme alemo, mas no tinha
identificao - continuou.
 - Que fez voc, Jos?
 O cigano teve um sorriso fino. Os seus dentes brilharam
apesar da obscuridade.
 - Bem, vi a morada de onde o piano viera, escrita num dos
lados do engradado. Dizia: "Embaixada alem, Castellana,
Madrid . A autoridade do cais ficou-me grata por eu ter descoberto os corpos que iam ser 
enviados para fora do pas e
concordou em que eles deviam ser remetidos para o stio de 
onde tinham vindo, depois de as autoridades serem notificadas.
 Edmundo deu-lhe uma palmada nas costas.
 - Bravo, Jos!
 Pensei se o monculo de Lazaar sairia do seu lugar quando
ele soubesse da remessa.
- Jos, agiu brilhantemente - disse eu, felicitando-o. -
Est disposto a continuar a ajudar-nos?
 - Sim, senhorita. Certamente que sim.
 - Conhece o Villa Rosa?
 - Ningum o conhece melhor do que eu.
 - Pode saber quando  que Ren foi a visto pela ltima vez
e com quem?  urgente sabermos quem o matou e como fizeram desaparecer o seu corpo.
 - Senhorita, irei a todos os cafs que o senhor Blum frequentava. Conheo-os bem. Quero 
ajud-los, por razes particulares. A propsito, a rapariga que est agora no palco, a magra 
e morena,  minha filha.
 Parmos de falar para olhar para a bonita rapariga cigana
que danava ao som do flamenco. No admirava que Jos Heredia quisesse encontrar o 
homem que atacara uma rapariga 
to bonita e to jovem.



Captulo 23

 - O que  que o seu amigo Lilienthal tinha para lhe dizer,
Tiger?
 Olhava agora para Mozart de uma nova maneira - como
um suspeito. Nunca tinha pensado que chegaria o dia em que
eu teria de lhe mentir.
 - Um falso alarme. Parece que Carola ficou muito desanimada por Constantin von 
Weiderstock ter partido de Madrid
to subitamente. Lilienthal pensa que eu tenho grande influncia sobre a filha e pediu-me 
para eu desencorajar o interesse dela pelo rapaz.
 Mozart resmungou alguma coisa, e tossiu. Teria detectado a
mentira na minha resposta?
 Levantou-se e foi at  janela, erguendo a persiana para espreitar para baixo.
 - Sabem alguma coisa a respeito de Ren Blum e do seu
piano?
 Contei-lhe aquilo que o cigano nos dissera na noite
anterior.
Na sua presena, sentia mais do que nunca que poderia ser
Mozart o traidor. O meu desconforto devia ser demasiado bvio porque Mozart disse:
 - Voc parece inusitadamente calada. Onde est o seu entusiasmo? As informaes que me 
deu agora so importantes.
Podem causar muitas dificuldades aos alemes.  exactamente
aquilo que desejamos. Est cansada?
 - No, no estou, obrigada. Deve ser do calor invulgar que
faz hoje.
 - Provavelmente. A propsito, vai haver um baile no clube
Puerta de Hierro no dia 23. Seria bom se conseguisse ser
convidada para l ir. - Quando eu j ia a sair da sala,
acrescentou:
- Fique com a tarde livre, Tiger, e descontraia-se.

 Resolvi aproveitar a sugesto de Mozart e ir comprar algumas roupas. Desde o relatrio de 
Pilar sobre Gloria von Firstenberg que eu tinha vontade de visitar a loja de Ana de Pombo. 
Se a condessa comprava ali os vestidos dela, a coleco tinha de ser a melhor da cidade.
 O cu tinha o seu habitual tom azul profundo, a aragem
fazia agitar os ramos das rvores da Castellana. A fachada do
nmero 14 da Calle Hermosilla no era muito diferente da de
Hattie Carnegie, excepto em relao  larga entrada para carruagens no centro do edifcio, 
franqueada por dois lances de escadas de mrmore. Outra excepo era a criada pobremente
vestida que me mandou entrar. Portas arqueadas davam para
um vasto salo mobilado de uma forma excntrica - peas de Lus XVI misturadas com art 
deco - e, com grande surpresa
minha, vi que me encontrava completamente s naquele ambiente silencioso.
 Passados alguns minutos, apareceu a mulher de cabelo frisado cor de laranja que eu vira na 
tourada. Vista de perto, Ana
de Pombo parecia mais velha e no era fcil imagin-la a danar o flamenco ou a ter um 
amante jovem.
 - Deseja alguma coisa? - perguntou ela num ingls perfeito, que me fez perceber que ela 
sabia quem eu era.
 - Sim. Queria comprar alguns vestidos. Cheguei demasiado tarde? Ou cedo de mais? - Ela 
no me convidou a sentar.
 - Sim... oh... sim. - Ficmos diante uma da outra, embaraadas. - Com certeza. S um 
momento.
 Indicando-me um sof de veludo azul, Ana de Pombo pediu
licena por uns momentos. Olhei-me nas paredes de espelho.
Depois olhei para a janela que dava para uma varanda,
admirei os enfeites do tecto alto. Finalmente, a estranha
modista voltou a aparecer, trazendo consigo uma pilha de desenhos.
 -J nada resta da minha coleco. Tenho apenas esboos.
Deseja v-los?
 Examinei todos os desenhos - que no se assemelhavam
nada aos vestidos que Gloria usava - e o meu espanto aumentou. Os figurinos pareciam ser 
pelo menos de dois anos antes.
- Talvez devesse ir  casa de Pedro Rodrguez ou de Flora
Villareal - disse-me ela. - Eles tm algumas coisas que estou certa lhe podero agradar. - 
Ana de Pombo forou-se
a sorrir.
 - No. Gosto destes modelos. No me importo de encomendar sem os ver prontos. Posso 
ver alguns tecidos?
 Outro silncio embaraoso. Ouvia-se apenas o rudo abafado da Calle Hermosilla. Alm 
de me parecer excntrica, Ana
de Pombo parecia-me tambm astuta.
 - S um instante, por favor - respondeu. 
 Esperei mais um bocado, mas quando a porta se abriu no 
foi Ana de Pombo que entrou.
- Oh, Aline! Ana disse-me que estava aqui. Que bela surpresa! - A condessa Von 
Firstenberg avanava para mim. - 
Como  que descobriu esta casa? Julgava t-la s para mim.
 o meu segredo, sabe? Ana veste-me a mim e poucas mais. 
Como soube?
 - No me recordo exactamente. Creio que foi uma das 
Avilas.
 - Sim? Que estranho. No pensei que as  vilas se vestissem aqui. - Gloria sentou-se a meu 
lado. - Vim provar o 
vestido que hei-de levar ao jantar do clube Puerta de Hierro. Voc vai?
 - Que eu saiba no. Gostaria de ver o seu vestido.
- Prefiro fazer-lhe uma surpresa com ele. Voc certamente 
ser convidada. Vai l estar toda a gente.
 - Estou  espera de ver alguns tecidos.
 - Ana  estranha, uma verdadeira bomia. Desenha as suas ideias, discute-as com o 
cliente, e s ento encomenda os materiais. No h outro desenhador como ela. Tem um 
gosto
impecvel.  terrivelmente cara. Seria melhor para si ir a outro lado qualquer. Ana leva um 
tempo imenso para acabar qualquer coisa.
 Os grandes e belos olhos de Gloria olhavam-me intensamente, como que para ver a minha 
reaco.
Gostaria de lhe fazer algumas perguntas, mas, em vez disso,
levantei-me e disse:
 - Tem razo. Sou uma rapariga que trabalha e no tenho tempo para esperar. - Mas 
tencionava fazer com que Pilar mandasse vigiar o estabelecimento de Ana vinte e quatro 
horas por dia. Pois se no descobrira nada mais, fizera pelo menos uma descoberta peculiar: 
Ana de Pombo no dirigia nenhum
salo de alta costura. O salo dela era falso.

 Pilar no apareceu na minha casa para a "lio  na semana
seguinte. Precisava de v-la, no s porque as suas informaes sobre a condessa seriam, a 
partir de agora, mais
preciosas
do que nunca, mas tambm porque queria pedir-lhe que pusesse uma mulher a trabalhar no 
falso salo. Finalmente, cada
vez mais preocupada, perguntei a Donha Antonia se sabia alguma coisa sobre Pilar. A 
portera disse-me que no, mas que
tentaria saber.
 No dia seguinte, quando regressava do trabalho, Donha Antonia estava como sempre 
sentada numa cadeira junto da escada.
 - Adivinhe onde est a sua amiga - disse com um encolher de ombros desdenhoso.
 - Onde?
 - Na priso. Malditos fascistas
 - Mas porqu? - perguntei, tentando no revelar o meu
pnico.
- Diabos me levem se eu o sei. Desculpe, senhorita, mas s
me apetecia apertar-lhes o pescoo.
 Quando cheguei ao meu apartamento pus-me a pensar nas implicaes da notcia que 
soubera, que eram terrveis. Peguei no telefone e liguei para um homem que conhecera com 
Juanito, Paco Alagas, o chefe das prises. Expliquei-lhe que uma
mulher que me dava lies de espanhol estava presa por razes que eu desconhecia e que 
gostaria de a ajudar a ser posta em
liberdade. Afirmei-lhe que ela me parecia boa pessoa e honesta. Ele disse-me que iria ver e 
que teria muito gosto em me fazer um favor.
 A espera foi angustiante. Quantas das nossas mulheres
teriam sido apanhadas tambm? Avisei Mozart e fiquei sentada junto do telefone durante 
vinte e quatro horas. Alagas
telefonou finalmente. Parecia preocupado.
 - Sabe por que motivo est Pilar presa, Aline?
 Fingi despreocupao.
 - No. grave?
 - Se  grave? No podia ser pior. No posso libert-la de
maneira nenhuma.
- Mas que fez ela? - Tentei no me mostrar demasiado
alarmada.
 - Voc nem vai acreditar. - Alagas parecia assombrado
- Ela  a dirigente das mulheres do Partido Comunista de
Espanha.
 Senti um imenso alvio, que tentei no revelar na minha voz.
 - Mas no pode libert-la, mesmo assim?
 Ele riu.
 - Aline, vocs, americanos, so na verdade estranhos. Se
essa mulher fosse apenas uma comunista qualquer talvez eu
lhe pudesse fazer esse favor. Mas voc certamente ainda no
compreendeu que ela  uma sria inimiga poltica do Governo.
Recebe ordens de Moscovo. Moscovo! No sabe que os soviticos esto neste momento a 
trabalhar tambm contra os americanos, embora sejam vossos aliados? Os servios secretos 
soviticos infiltraram-se em todos os governos democrticos da
Europa. Pilar  tanto uma inimiga da Amrica como o  da
Espanha. Surpreende-me bastante que lhe tenha dado emprego. - Alagas falava com voz 
natural, sem fazer qualquer insinuao.
 - Bem, eu no fazia ideia nenhuma, Paco. Pilar nunca
falou das suas ideias polticas comigo.
 - Bem. Sugiro-lhe que encontre uma professora mais apropriada. Uma que no esteja a 
conspirar para derrubar o Governo. Lamento no a poder ajudar.
 Assim que desliguei pensei no que devia fazer a seguir.
Teria de criar uma nova cadeia. Liguei para Jos Heredia. Encontrmo-nos na Puerta del 
Sol como que por acaso, no meio do trnsito do meio-dia. Ao atravessarmos a rua ao lado 
um do 
outro, expliquei-lhe o que se esperava dele e pedi-lhe para
comear a seguir Lazaar e Gloria Firstenberg. Apesar de no ter conseguido falar com 
Edmundo, disse-lhe que o contactasse
quando no conseguisse comunicar comigo. Em poucos minutos ele percebeu o que se 
pretendia e cada um de ns seguiu o
seu caminho. Depois de ter comprado meias e bugigangas corri para o escritrio.
 Como se as minhas preocupaes a respeito de Pilar no
fossem suficientes, passou-se uma semana sem que a Operao
Anvil se desencadeasse e Pierre no apareceu em Madrid.
Continuava a ser seguida e sentia-me nervosa. Os avisos dirios de Angustias no ajudavam 
nada.
- Essa tal Marta, vinda de Frana, no estava nada doente
quando foi para a cama naquela noite. Cecilia alimentou-a
com o melhor que Madrid pode oferecer. Comeu mais que trs
homens. No estava doente. A senhorita est a esconder-me alguma coisa, mas deve ter 
cuidado. Cecilia e eu costumamos
ver um homem  esquina da rua a olhar para este prdio.
Quem mais aqui seria suficientemente importante para ser
vigiado? No  certamente o marido bbado de Antonia, nem a
famlia do primeiro andar.
 Como Mozart esperara e Gloria previra, Casilda convidou-me para a festa.
 -  a ltima festa da poca, Aline, antes de toda a gente ir
para o Norte passar o Vero. Tem de ir ao baile de So Joo
em Puerta de Hierro, amanh. Carola, as minhas irms, Luis, que voc conheceu no El 
Morisco, todos vo. - Casilda estava
entusiasmada. - Que tem mais para fazer? O seu amigo toureiro estar a tourear em 
Granada e voc no aparece em nenhuma das nossas festas h duas semanas.
O convite dela encantou-me. Infelizmente, Mozart acabara
de partir para Lisboa e s regressaria na noite seguinte, tarde de mais para me dizer o que 
queria que eu fizesse no baile. Mas eu sentia-me cansada de esperar que Pierre aparecesse, 
que a Operao Anvil se realizasse, que Heredia me desse notcias acerca do infeliz Ren 
Blum, e sentia-me ansiosa por me divertir um pouco.
 - Obrigada, Casilda. Terei muito gosto em ir. Porque 
que no vm primeiro a minha casa tomar um cocktail?
 - Obrigada. Com certeza que iremos.
 Alguns meses antes eu transformara uma das divises da
minha casa num pequeno bar  americana com um sabor espanhol. Bandeirilhas, cartazes 
com toureiros e a capa de matador
de Juan, que acabara por aceitar, enfeitavam as paredes. O bar
estava bem fornecido com usque, difcil de encontrar, e com
cigarros americanos, que eram quase impossveis de obter.
 O gramofone tocava Melanchol Bab, de Sinatra, quando,
s 21 horas, as irms  vilas e os seus convidados chegaram.
Carola veio com Pucho Gamazo; depois chegaram um jovem
artista portugus, Pedro Leito, e Lus Quintanilla, o espanhol que eu conhecera no El 
Morisco. Quando Edmundo apareceu, puxou-me para a entrada, onde me ofereceu uma 
caixa embrulhada num papel de oferta.
- Isto  uma recordao da minha afeio especial por si, minha camarada de armas, minha 
protegida. Para a Divina!
- murmurou.
 Quando abri a caixa, vi uma camada de algodo, e sobre
ele o papagaio de brilhantes e rubis que Gloria perdera em
casa de Ren Blum. Olhei para Edmundo a pedir uma explicao.
 - No ralhe comigo. Eu devolvi-o, no devolvi? No foi fcil. Mas afinal voc merece-o, 
Aline. Considere isso a sua
condecorao por servios distintos.
 - Andou com isto durante todo este tempo! - exclamei
rindo. - Tirou-o da minha carteira! - E voltei a pensar que a
personalidade de Edmundo tornaria fcil ser ele o agente duplo.
 Edmundo mostrava-se radiante.
 - Pense na minha posio de patrono da beleza: foi pura
e simplesmente irresistvel! Tinha de ter esse objecto na
minha coleco. Mas depois do Dia D decidi que o meu
dever para com a minha camarada espia estava  frente da
minha apreciada coleco.  com amor e gratido que lho devolvo. Agora no falemos mais 
nisto, minha encantadora cmplice.
 - Edmundo, no posso ficar com isto.
 - Bem, pelo menos guarde-o at poder servir-se dele para
saber como foi parar ao apartamento de Ren Blum. Lembre-se de como meteram o nosso 
pobre amigo dentro daquele piano. E no minimize a importncia dos meus presentes. 
Edmundo Lassalle  um Medici moderno, guardio de pistas
para actividades de espionagem. Sou um homem do Renascimento e voc  a minha Mona 
Lisa.
 No pude deixar de rir das observaes dele.
 - Est hoje muito bem-disposto, Edmundo.
 - Porque no hei-de estar, minha querida? Os nossos rapazes esto a vencer na Normandia. 
E esta noite  a ltima festa
da estao. Ah, Aline, que o meu epitfio seja: "Edmundo
Lassalle. A festa no terminou.  Voltemos  sala, minha
querida.
 Todos os meus amigos pareciam estar a divertir-se, conversando animadamente e dando 
estalos com os dedos para marcarem o ritmo de Let's Fall in Love. Carola e as  vilas 
comearam a danar - parecia que a primeira j esquecera o seu entusiasmo por 
Weiderstock. Guardei rapidamente o alfinete
na minha carteira.
 Quando chegou a altura de sairmos metemo-nos todos no
descapotvel de Luis Quintanilla. As coisas estavam literalmente a aquecer. O calor do 
motor quase estragou as minhas meias de seda enquanto seguamos pela estrada deserta a 
caminho do clube.



Captulo 24

 O Puerta de Hierro era um moderno chal de tijolo, situado
nos arredores da cidade e rodeado por um campo de golfe.
O seu caminho circular encontrava-se cheio de carros: alguns
Rolls-Roce antigos, Hispano-Suos igualmente antigos, Peugeots, Citrons, etc. Luis, a 
meu lado, explicava-me que no tinham sido importados carros desde 1936, ano em que 
comeou a guerra civil.  entrada do chal viam-se porteiros com uniformes azuis e 
amarelos.
 A primeira pessoa que encontrei ao subir as escadas foi Gloria von Frstenberg, com Hans 
Lazaar.
 - Oh, ainda bem que a vejo, Aline. Queria que fosse a primeira a ver o vestido que tanta 
curiosidade lhe despertou.
 Estvamos agora em frente do bengaleiro. Gloria tirou a
capa de seda vermelha que a cobria at aos ps, mostrando-me
um dos mais espantosos vestidos que eu j vira e que estava
bem de acordo com a sua personalidade. O vestido, de seda
pura, era branco, direito e sem ombros. Era bordado com pequenas estrelas azuis 
misturadas com desenhos geomtricos
pretos, que sugeriam - juro - pequenas susticas. Ela era
corajosa, disso nunca eu tivera dvidas. Alm disso, tinha de
admirar a ironia de que ela dava mostras.
 Lazaar reparou tambm no efeito do vestido. O seu sobrolho
erguido parecia indicar o que ele pensava. Em voz alta disse:
 - Um vestido elegante, Gloria. - Depois acrescentou, com
um sorriso: - Alm disso, voc  uma mulher inteligente.
Pode ser uma vencedora com esse vestido.
 - Porque no havia de s-lo, Hans? - replicou Gloria com
a sua voz ligeiramente rouca e musical. - Gosto de vencedores. Todos gostam.
Tirei tambm o meu agasalho e entreguei-o  rapariga do
bengaleiro. Gloria recuou um passo para me observar. Soltou
uma exclamao:
 - Voc ultrapassou-me!
 - Que quer dizer?
 - Voc est praticamente nua! - Difcilmente se poderia
dizer tal coisa. Eu vestia um vestido de algodo, criao de
Hattie Carnegie (como de costume) da sua coleco de pronto-a-vestir para o Vero. A sua 
nica caracterstica invulgar era um corte triangular acima da cintura, deixando a 
descoberto uma pequena parte do corpo. No o escolhera para causar choque. - Adoro esse 
vestido - disse Gloria. - E gosto da sua ousadia. to refrescante...

 A sala estava cheia de gente que eu nunca vira, mas descobri, de imediato, o homem que 
costumava estar comigo na
piscina de Beistegui.
 Disse-lhe adeus. Ele retribuiu o aceno e sorriu de um modo
surpreendentemente amigvel, pensei, lembrando-me da sua
habitual circunspeco.
 - Como  que conheceu Serrano-Sunher? - perguntou Edmundo, que se encontrava a meu 
lado.
 - Serrano-Sunher? - perguntei. - Aquele homem  Serrano-Sunher?
 - O prprio.
 - Bem, tenho almoado sozinha com ele durante as ltimas
oito semanas, pelo menos.
 - Aline, voc deve estar apaixonada. Porque no me disse
que conhecia to bem um homem to importante?
 - No o conheo bem. Nunca nos falmos.
 - Mas porque no aproveitou a vantagem de...
 Interrompi-o.
 - Edmundo, eu no fazia ideia de quem ele fosse. - As
fotografias que Mozart tinha de Serrano-Sunher mostravam-no
com um chapu alto, cheio de plumas, e outra com o uniforme
da Falange. Nenhuma delas tinha qualquer semelhana com
aquele homem de cabelos grisalhos que eu costumava ver em
cales de banho. - E passara eu tanto tempo a v-lo. "Que
bela espia s, Aline , pensei.
 Os criados comeavam j a servir o jantar. Eram cinco a servir cada mesa de vinte pessoas. 
Sobre as mesas viam-se candelabros de prata com velas e rosas cor de salmo a animarem 
as toalhas de damasco branco.
 - Pela maneira como esta gente est vestida, dir-se-ia que
vm para o grande baile da condessa de Elda. - Edmundo
estava encantado e eu tambm. - Agora - continuou Edmundo -, se  a rapariga corajosa 
que eu acho que , pe o
meu presente ao peito e provoca escndalo.
 - No, Edmundo. No posso fazer isso. Hei-de devolver o
a1Gnete  sua legtima proprietria, na devida altura.
 - Prometa que eu posso assistir.
 Nesse momento reconheci algum que distraiu a minha
ateno de tudo o resto. Felizmente Edmundo no reparou na
minha perturbao.
 - Bem, bem - murmurou o meu companheiro -, parece-me que vamos ficar na mesma mesa 
que o Trio Traioeiro.
 Ele viu-nos quando Edmundo me encaminhava para a mesa
indicada por Casilda. Pierre fitou-me sem dar sinais de me
reconhecer, depois afastou-se.
 Lilienthal, Firstenberg, Lazaar, Carola e Nena  vila, alm
de vrios rapazes, encontravam-se j sentados quando ns 
chegmos. Teria Mozart arranjado maneira de Pierre me encontrar ali? Sentei-me e tentei 
tomar parte na conversa. Num
canto, os msicos da pequena orquestra, envergando smokings, comearam a afinar os seus 
instrumentos.
 Nena  vila apontou para Pierre.
 - Olha, Casilda, aquele no  o homem atraente que encontrmos em Sevilha h dois anos?
 - Sim,  verdade. Foi na festa do meu aniversrio. O nome
dele  Francisco qualquer coisa. Ele fez-te namoro. Lembras-te?
 - Como havia de me esquecer? Ele  to guapo!
 Pode ter sido o momento mais triunfante da minha carreira
no que diz respeito a autodomnio. Finalmente conhecia o seu
verdadeiro nome. Francisco. Queria pedir a Casilda que me
contasse mais coisas a respeito dele, mas, em vez disso, perguntei casualmente:
 - De quem  que esto a falar?
 - Daquele homem que acaba de entrar - respondeu Casilda. - Nena apaixonou-se por ele  
primeira vista.
 -  um velho amigo vosso? - perguntei.
- Nada disso. O meu pai nem gostava dele. Disse que
era um caador de dotes e um aldrabo. Mas  bem-parecido,
no ?
 - Qual  a nacionalidade dele?
 - Francesa. Mas fala um espanhol excelente. Olhem, vem
para a nossa mesa.
 Observei todos os rostos. Quem conheceria Pierre? Gloria
von Firstenberg no. Quando ele se aproximou olhou-o com
uma curiosidade que nada tinha de familiar. Lazaar tambm
no. Esse pareceu nem reparar nele. Edmundo tambm no.
Pierre estendeu a mo para Casilda.
 - Ol, Francisco. Que surpresa v-lo em Madrid! - Nena
sorria-lhe.
 Pierre beijou a mo s duas irms. Depois Casilda disse:
 - Quero apresentar-lhe Aline Griffith.
 Ele tocou-me na mo e murmurou algumas palavras, continuando a olhar para as outras. 
Depois inclinou-se sobre
a cadeira de Casilda, conversando durante uns momentos.
Tentei iniciar uma conversa com algum, mas ele voltou-se
para mm.
 - Como  que Casilda disse que voc se chama?
 - Aline. Aline Griffith.
 - No me esquecerei. - Em seguida convidou Casilda
para danar.
 Durante a curta troca de palavras, Luis encontrava-se de p
a meu lado, esperando que eu fosse danar com ele. Rodopimos pela pista. Sem dvida 
que o meu par era um danarino
maravilhoso, mas eu sentia-me to perturbada com a presena
de Pierre que lhe prestei pouca ateno. Este conduziu-me
parajunto da mesa onde se encontrava Serrano-Sunher e outras
pessoas.
 - Aline, queria apresent-la aos meus pais.
 A condessa de Velaos era uma mulher muito bonita e to
distinta como o marido. Quando a condessa viu que Serrano-Sunher j me conhecia, 
perguntou:
- Ramn, como  que conheceu esta menina?
 - Somos velhos amigos - respondeu ele, rindo.
 Teria ele sabido, desde o incio, com quem partilhava a piscina? No havia tempo para o 
descobrir, porque Luis me levou dali, novamente para danar. Tentei manter conversa com 
ele, continuando a observar Pierre.
- Os seus antepassados so espanhis?
 - H centenas de anos. Porque pergunta? 
 - Voc no me parece espanhol. Julgava que todos os espanhis tivessem cabelo e olhos 
escuros.
 - De modo algum. Como v, na minha famlia somos
louros.
 - Desculpe-me a pergunta. Mas por que motivo o seu
nome  Quintanilla e o do seu pai Velaos?
 - Quintanilla no  o meu nome, nem o do meu pai 
Velaos. Esses so os nossos ttulos. O nosso nome  Figueroa.
O ttulo do meu av  Romanones, mas  claro que o nome
dele  tambm Figueroa. S uma pessoa de cada vez  que tem
direito a um ttulo. O que se segue em linha directa s o poder usar quando o actual 
detentor do ttulo morrer. Quando o meu av morrer, o meu pai ser o Romanones, porque 
 o mais
velho. Se s houvesse raparigas, a mais velha herdaria todos
os ttulos. - Suspirou.
 Provavelmente as minhas perguntas aborreciam-no, por isso
mudei de assunto.
 - Conhece o homem que chegou h pouco junto da nossa
mesa?
 - S de vista. Contudo, devo avis-la para ter cuidado com
ele. No tem boa reputao.
 Cerca de uma hora mais tarde, Pierre apareceu outra vez,
sentando-se num lugar vazio  nossa mesa e voltando-se ocasionalmente para mim.
 - Dana?
 Olhei para Nena, tentando mostrar surpresa, e segui-o para
a pista de dana. Reparei que Luis nos observava atentamente. Gloria von Firstenberg 
parecia tambm olhar-nos com
ateno.
 No meio do salo, Pierre apertou-me mais contra si.
 - Ento, Tiger, finalmente podemos danar outra vez.
 - Que faz aqui? E tenha cuidado em me chamar Aline.
 - Vim ter consigo para a avisar. Voc corre perigo.
 - De qu? De quem?
 - No conheo todas as respostas, mas tenha cuidado. Est satisfeita por me ver?
 - Isto  bom de mais para ser verdade. No pode ser real.
 Enquanto danvamos vi que toda a gente na mesa nos observava. Pierre mostrava-se 
imperturbvel.
- Quero fazer-lhe uma pergunta. J a queria fazer na noite
em que a surpreendi em sua casa.
 - De que se trata?
 - No seja to impaciente, Tiger. Parece ser esse o seu
nico defeito.
 Sentia-me bem, apertada nos seus braos msculos.
 - Trata-se de uma simples pergunta. E contudo detm a
chave para ns.
 - O que ?
 Ele inclinou-se mais para mim, roando o rosto dele pelo
meu.
 - Confia em mim?
 - No devia confiar?
 - No est a responder  minha pergunta.
 Edmundo e a princesa Ratibor passaram por ns a danar.
Depois romos pelas irms  vilas, que danavam tambm. 
 - Como lhes hei-de explicar as suas atenes? - perguntei.
 - Diga-lhes o que quiser. Diga-lhes que estou embriagado.
No tenho muitas oportunidades de a apertar nos meus braos. - E sorriu com o seu habitual 
sorriso malicioso.
 - No exagere, Pierre. Nem sequer sei o seu apelido.
 A msica parou nesse momento e Pierre conduziu-me para o
terrao. Um pequeno grupo estava reunido em torno de uma
fogueira acesa no exterior, sob a luz das estrelas. Pierre
explicou-me ento que era aquela a maneira tradicional de festejar o So Joo, o santo que 
caminhara sobre as brasas ardentes.
Vimos um jovem par saltar a fogueira, soltando gritinhos de
medo e de excitao. Pouco depois outro par saltou, soltando
gritos, sobre as chamas que danavam.
 - Voc no respondeu ainda  minha pergunta - disse
Pierre, conduzindo-me para junto da fogueira. O cheiro da
madeira queimada perfumava o ar, aquecendo-nos os rostos.
Olhei para Pierre. A pele dele parecia acobreada.
 - Como  que no hei-de confiar em si, Pierre. Estivemos
juntos na Quinta. Somos camaradas, afinal.
 - Confie em mim! - murmurou ele apertando-me a mo. 
Depois, antes de eu poder reagir, puxou-me pela mo e fez-me correr para a fogueira. No 
consegui soltar-me da mo 
dele a tempo e ento agarrei-a com mais fora, para no cair.
Subitamente, corri com mais rapidez do que alguma vez
o fizera na minha vida. Saltando sobre as chamas, os nossos corpos descreviam uma 
espcie de dana, no pude deixar de gritar. Por instantes, as chamas rodearam-nos, 
queimando-nos as faces. Por fim, imobilizmo-nos, ofegantes, do
outro lado, enquanto o grupo, que se tornava maior, aplaudia. Pierre apertou-me com fora 
nos seus braos. Afastei-o
rapidamente. Ficmos parados frente a frente, junto das
chamas ardentes, com os nossos rostos dourados pela luz
do braseiro.
 - Ah! Voc usa o anel que eu lhe dei! - exclamou Pierre, 
rindo.
 - Uso-o sempre. Gosto dele.
 - Se Mozart soubesse o que eu sinto por si, nunca teria
marcado este encontro. - Tentou abraar-me.
 Afastei-o com um brao.
 - No seja ridculo, Pierre. Voc acaba de me conhecer.
Lembra-se?
 - No. Neste momento no me lembro de coisa alguma.
Mas se fosse a si no me voltava agora. Ali vem o nosso homem. E no se esquea, Tiger. 
Trabalhamos em conjunto.
Tenciono proteg-la.
 Com efeito, no tinha qualquer inteno de me voltar. Continuei a olhar para as pessoas 
que rodeavam a fogueira. Luis observava-nos, mas quando me viu olh-lo voltou a cara.
A calma da noite continuava a ser perturbada pelos gritos alegres dos jovens pares que 
saltavam as chamas azuis e amarelas,  mistura com os compassos do animado pasodoble 
que
partiam do clube.
 De sbito ouvi dizer atrs de ns, com uma voz calma, quase inexpressiva, a de Hans 
Lazaar:
 - Ol Miss Griffith. - Depois voltou-se para Pierre: -
Como est, Franois? H muito tempo que no o via.
 Pierre cumprimentou-o friamente. As chamas crepitavam.
L de cima, as estrelas brilhavam com mais intensidade.
 - O que o traz a Madrid? - Lazaar falava com ar frio mas
despreocupado. Percebi que ele ou no gostava de Pierre ou
no o conhecia bem.
 O monculo do homem baixo e gordo iluminou-se, dando a
impresso de que ele tinha uma moeda de cobre entalada na
carne franzida. O fogo abrasava tambm o espesso cabelo de
Pierre, tornando-o ainda mais atraente.
 - No vai conseguir ir para a frente com a sua traio, Lazaar. - Toda a atitude de Pierre se 
alterara. Os seus olhos
refulgiam com a cintilao do fogo.
 - A que se est a referir, meu rapaz? E que direito tem de
me falar nesse tom? Mal o conheo, a no ser por uma noite em
Paris, que prefiro esquecer.
 - No tenciono aceitar os seus actos de violncia.
 No tinha a certeza de ter ouvido bem. A observao era
inesperada para o alemo, mas ele no deixou de retorquir:
 - De que est a Falar?
 - Sei tudo a respeito de vocs todos - sibilou Pierre.
 Lazaar permanecia imperturbvel, imvel como uma rocha.
 - Voc perdeu a cabea.
 - Perdi? - O mesmo sorriso perpassou pela face de Pierre.
- Fale-me da morte de Mimosa Torrejn.
 Lazaar olhou fixamente para Pierre.
 - V, fale-me.
 - Voc  louco furioso. De que  que est a falar?
 Pierre mudou de posio.
 - Sabe que ela foi assassinada. Fale-nos disso.
 Lazaar respondeu, furioso:
 - Se a excntrica senhora foi assassinada, voc devia ser o
primeiro a estar preso, porque parece ser o nico a saber disso. Tanto quanto sei, ela morreu 
de morte natural.
 Nessa altura aproximaram-se outras pessoas.
 - Que se passa? - perguntaram.
 Voltando-me, vi Gloria von Firstenberg com Niki Lilienthal e o meu amigo nadador, 
Serrano-Sunher.
 - Tenho andado  sua procura, Hans.
 Pierre afastou-me e murmurou em voz baixa:
 - Agora tenho de me ir embora, mas quero lev-la a casa.
Espere-me  porta do clube, daqui a uma hora.
 Disse que sim com a cabea e ele correu para a direco
oposta.
 - Quer ir para dentro, Aline? - perguntou Lilienthal.
 - Sim, acho que  uma boa ideia.
 Comemos todos a caminhar para o chal. Gloria deu o
brao a Lazaar.
 - De que estavam a falar, Hans?
 - Nada de importante, Gloria. Absolutamente nada. -
Voltou-se para mim e piscou-me um olho. - Estes jovens estavam a tentar convencer-me a 
saltar a fogueira.
- E conseguiram?
 - Apenas conseguiram fazer-me sede.
 - H muito usque l dentro. - Voltou-se para Serrano-Sunher: - Ramn, porque  que voc 
e Niki no voltam para a
festa? Quero ter uma conversa com Aline.
 Quando eles se afastaram, Glria disse-me:
 - Pensando bem,  melhor irmos para dentro. Esta fogueira est demasiado quente para o 
meu gosto. - Deu-me o brao. - Preciso de falar consigo a ss. Imediatamente.
 Conduziu-me para uma pequena sala dejogo, vazia, onde se
viam trofus em armrios de vidro. Caminhava to depressa
que eu tinha dificuldade em a acompanhar. Quando se voltou
para mim, vi uma Gloria von Firstenberg que eu desconhecia
inteiramente.
 - Preciso de sair de Madrid, de partir. Voc  americana.
Pode consegui-lo. - Passados uns momentos, ela acalmou-se e
pouco depois adequiria a sua mscara habitual. Sorriu e murmurou roucamente: - Sabe, no 
fundo do corao, adoro os
americanos. Afinal, sou mexicana.
 Imvel, continuei a observ-la.
 - Quando eu era criana, em Guadalajara, a minha me
costumava dizer-me: "Gloria, tu s a rapariga mais bonita do
Mxico e s inteligente. Aceita s o melhor. Podes ter tudo
quanto uma mulher deseja neste mundo.  Se ouvisse isso vinte
vezes por dia, Aline,  provvel que acreditasse, e eu tambm
acreditei. E havia de comear a querer s o melhor, como sucedeu comigo. S o melhor que 
a vida tinha para me oferecer, em Guadalajara, Hollwood, Nova iorque, Paris, Berlim, 
Madrid. Tive o melhor de todos esses stios, minha querida, e
deixe-me dizer-lhe que agora tambm sei o que quero. Desejo
voltar para o Mxico, quero que os meus filhos tenham segurana. Voc deve conhecer 
americanos influentes. Pagar-lhe-ei generosamente. Tenho as minhas jias. Receber a sua 
parte.
 Encontrvamo-nos de p no meio da sala deserta, mobilada
apenas com algumas mesas de jogo, cadeiras de costas direitas
e um grande sof de cabedal encostado a uma parede. Gloria
deixou-se cair sobre o sof, a meu lado. Passou as unhas
pintadas pelo cabelo. Parecia fatigada.
 - Sim, posso dizer-lhe tudo. Quero sair de Espanha. Desejo
comear uma vida nova - suspirou, brincando com o fecho da mala. - Quando conheci 
Firstenberg, em Paris, fiquei louca
por ele. Finalmente! Tinha procurado sempre algum como
ele, e se levara tanto tempo era porque s queria o melhor: Um
grande amor. Julguei t-lo encontrado. Depois veio a guerra e
estragou tudo. Ele foi enviado para a Rssia e... eu fiquei
confusa. Passado um ano, sentia-me mais s do que um soldado
na frente e pensava que ia enlouquecer se no comeasse nova
vida. Raramente tinha notcias do meu marido e passava o
tempo preocupada, aflita, com medo que ele fosse dado como
desaparecido ou morto. Passei a sair  noite, para esquecer.
Creio que me perdi no turbilho da vida de sociedade; foi fcil. Mas os bombardeamentos 
comearam e Berlim tornou-se uma
cidade perigosa. Vim para aqui. Tive de pagar um preo por
isso. H sempre um preo a pagar, no se esquea, Aline. Eu
paguei, por tudo quanto fiz, mas...
 Apareceu um criado, que perguntou se queramos alguma
coisa para beber. Abanmos a cabea. O criado afastou-se e a
condessa voltou-se para mim:
 - H quanto tempo conhece Francisco?
 A pergunta dela foi uma surpresa.  mesa, quando ele
aparecera, dera a impresso de nunca o ter visto. Talvez fosse
Pierre a verdadeira razo que a levara a arrastar-me para ali,
para conversar.
 - Encontrei-o hoje pela primeira vez. No o conheo.
 - Tenha cuidado, minha amiga. Ele  um aldrabo, um
mentiroso. H-de mostrar-se apaixonado por si, mas no acredite nele. A paixo dele  o 
dinheiro... as mulheres esto em segundo lugar. Serve-se delas sempre com um fim. - A voz
dela erguera-se e era agora inusitadamente aguda.
 - Ento conhece-o bem? - perguntei.
 - Demasiado bem. Conheci-o em Paris h dois anos. No
sei tudo acerca dos seus antecedentes. Perseguiu-me. Bem, no
h outra maneira de o dizer: apaixonou-se violentamente por
mim. Talvez pensasse que eu era rica. E era, nessa altura. Mas
sempre houve algo que me fez suspeitar dele. Era devastador,
tenho de o admitir, mas no me apaixonei por ele. - Enquanto falava, Gloria ia ficando cada 
vez mais agitada.
 -J o tinha encontrado aqui em Madrid? - Precisava de
saber mais coisas.
 - Ele teve a ousadia de aparecer no meu quarto, no outro
dia. Assustou-me mortalmente... e com os meus filhos mesmo ao lado! Tive dificuldade em 
me livrar dele! Depois, quando
fui a casa de Ana de Pombo para fazer a ltima prova deste
vestido, ele seguiu-me. Falemos de outra coisa. - Sacudiu a
cabea, como se fizesse um esforo para se libertar dele. -
Oua, eu desejo realmente ser sua amiga e amiga dos americanos, Aline. - Os olhos dela 
estavam muito abertos e suplicantes, quase inocentes, como se tal palavra se pudesse 
utilizar em referncia a qualquer coisa acerca de Gloria von Firstenberg.
 Muito lentamente, abri a minha bolsa. Estendi-a para ela,
devagar. No creio que um nico msculo do meu rosto se
movesse.
 Houve um momento de imobilidade e os olhos dela brilharam.
 - Onde arranjou isto? - Gloria estendeu a mo para a
jia. Entreguei-lha. - Oh, muito obrigada. Tinha perdido o
meu lindo papagaio. Onde o encontrou?
 - No sof do apartamento de Blum. Na noite em que ele foi
assassinado. Esteve l nessa noite. Se quer que eu a ajude,
tem de me contar o que se passou.
 Por momentos, ela pareceu surpreendida. Depois comeou
a rir.
 - A sua imaginao est positivamente desarranjada.
Adoro isso. Adoro. - Sem outra palavra deu-me a mo para
me ajudar a levantar e conduziu-me para a casa de jantar. -
Nunca estive em casa desse chefe de orquestra. Esse alfinete
foi-me roubado e desconfio que por algum que voc conhece.
 Queria saber como  que ela perdera o alfinete, masj ela se
encontrava nos braos de Miguel Primo de Rivera, prestes a
rodopiar na pista de dana. Antes de comear a danar, parou,
abriu a bolsa, sorriu para mim e guardou o alfinete. Depois,
com um gesto despreocupado, levou a mo ao espesso cabelo
negro e dedicou toda a sua ateno  dana.
 Precisava de encontrar Edmundo. Durante meia hora procurei-o por toda a parte, dentro de 
casa e no jardim. No o
encontrei em parte alguma. Nem Carola, nem as  vilas o tinham visto partir. Disse-lhes 
ento que precisava de me levantar cedo no dia seguinte e que ia aproveitar uma boleia. 
Olhei
de novo para o meu relgio: uma e meia. Pierre j devia estar
 minha espera h algum tempo.
 Fui ao vestirio buscar o meu agasalho e desci os degraus do
chal. As implicaes da ltima hora eram devastadoras.



 Pierre esperava-me na sombra,  direita da entrada. O seu
sorriso caiu sobre mim como um banho morno. Estendeu as
duas mos para mim.
 - Vamos, Tiger. Levo-a a casa e conversamos. Explico-lhe
tudo. Tenho estado  espera de lhe contar h muito tempo.
 Abriu a porta de um Renault preto e eu entrei.
 Sentado ao volante, Pierre ligou o motor e acendeu um cigarro. Os pneus rangeram sobre o 
caminho de cascalho. Mas
algum se aproximava a correr, gritando:
 - Francisco! Francisco!
 Virei a cara e vi Gloria von Firstenberg segurando a sua
capa com as mos e correndo desesperadamente para o carro.
 Pierre travou.
 Quando Gloria olhou para dentro do carro e me viu, a sua
expresso foi primeiro de espanto e depois de receio.
 Pierre sorriu lentamente para ela, aspirando o cigarro com
prazer. Por qualquer razo parecia saborear aquele encontro.
Eu tinha observado muitos aspectos do comportamento da
condessa, mas aquele era uma novidade. Ela parecia ter ficado
muda.
 - Qual  o seu problema, Gloria? - perguntou Pierre.
 Vi a expresso do seu belo rosto e percebi que ela pensava
que se tratava de um caso de vida ou de morte. Olhou-me e
depois recuou um passo, erguendo-se em toda a sua estatura.
 - Gostaria de discutir uma coisa consigo, j - declarou no
seu tom mais profundo.
 - Entre para o carro, Gloria. Lev-la-ei a casa tambm.
 Pierre falava em tom afectuoso, ou pelo menos assim me
pareceu.
 - Isso  impossvel, e voc bem o sabe. O meu problema 
urgente... uma questo de vida ou de morte. Se  to homem
como julga ser, vir l para dentro. - Apontou um dedo
esguio e comprido para mim. - H muitos motoristas
no parque de estacionamento para levarem esta rapariga
a casa.
 Pierre voltou-se para mim:
 - Lamento, mas evidentemente trata-se de uma emergncia. Vou j arranjar-lhe um 
motorista.
 Saiu do carro e caminhou para a rea de estacionamento.
Gloria subia os degraus e ficou  espera de Pierre. Este falou
com um grupo de motoristas que se encontravam  entrada do parque de estacionamento. 
Voltou com um homem baixo e
forte cuja cara eu no consegui ver. Gloria desaparecera no
interior do clube.
 - No h problema - afirmou. - Este homem lev-la- a
Madrid. - Inclinou-se e deu-me um beijo na face. - Tenha
cuidado at eu me encontrar consigo, amanh - murmurou.
Depois, disse para o motorista: - Leve a senhorita a Monte
Esquina, 37. Veja se fica em segurana e traga-me de novo o
carro para aqui.
 Sem uma palavra, o homem sentou-se ao meu lado e ps o
carro em andamento, comeando a descer o monte em direco  estrada principal, l em 
baixo.
 Perguntei-lhe se sabia onde ficava a minha rua. Respondeu-me com um gutural "S" e no 
com o usual "S, senhorita" dos
delicados espanhis. Mas eu estava ocupada em tentar calcular o que se passava entre 
Gloria e Pierre. Evidentemente
eles conheciam-se bem um ao outro. No s ela o dissera como
ele acedera imediatamente ao pedido dela. Sentia-me perturbada, para no dizer mais. 
Quando chegmos  estrada, o motorista enveredou para a esquerda, tomando outro 
caminho
para a cidade. Foi ento que esse estranho desvio me trouxe de
novo  realidade, com um sobressalto.
 - Porque  que vamos por esta estrada? - perguntei. 
 -  mais curta - respondeu.
 Olhei para o campo aberto, para a zona despovoada do limite noroeste da cidade. Um 
imstinto ps-me de sobreaviso
mesmo antes de ele parar o carro na berma da estrada.
 Quando ele parou, saltei do carro e comecei a correr. Da a 
pouco embrenhava-me no matagal. Ouviu-o seguir-me e, apesar de a escurido ser 
completa, receei que ele pudesse ouvir os
meus passos a pisar o restolho. Enquanto corria, tirei a minha
Beretta 25 da mala, que deixei cair. O meu vestido comprido
prendia-se nos espinhos dos arbustos e os sapatos de saltos
altos enterravam-se na terra, tornando-me difcil avanar. Sabia o que tinha a fazer.
 Voltei-me e, sem hesitao, baixei-me e disparei sobre o
vulto que corria para mim, a cinco metros de distncia. Devo
ter falhado, porque ele se lanou sobre mim e me agarrou o
pescoo. Estava a estrangular-me! Reunindo todas as minhas
foras, apontei-lhe a arma, sem saber se estava ou no sobre 
ele. Mergulhava na inconscincia quando ouvi o rudo de um tiro. O que eu disparara. Mas 
parecia-me vir de muito longe.
Depois, o silncio.
 Devem ter-se passado apenas alguns segundos. Comecei a
respirar ofegantemente, mas estava viva. Estvamos ambos estendidos no cho, com o 
corpo dele parcialmente em cima do
meu. O revlver encontrava-se ainda na minha mo. O corpo
do homem era pesado e mole. T-lo-ia morto? No podia perder tempo a descobri-lo. 
Revistei-lhe os bolsos e encontrei
alguns papis, cigarros e um punhal. Mais nenhuma arma. Corri em direco s luzes do 
carro, que se viam brilhar para
alm dos arbustos. Tinha os ps arranhados e os braos tambm,
mas no sentia dores. S a exultao de me poder mexer, de
estar viva. Sem grande dificuldade, voltei o carro em sentido
contrrio e dirigi-me para a estrada.
 Enquanto conduzia sentia-me atordoada, mas tentava pensar. Quem teria mandado aquele 
bandido matar-me? Se Gloria no aparecesse, Pierre ter-me-ia levado a casa e eu
estaria em segurana. Algum contratara aquele homem, provavelmente para me seguir 
quando eu fosse para casa e para me liquidar quando estivesse sozinha. O pedido de Pierre 
para um motorista s lhe tornara as coisas mais fceis. Mas quem? Edmundo? Lazaar? 
Gloria? At mesmo Serrano-Sunher o poderia
ter feito. Ou Lilienthal, se a sua indicao fosse falsa.
Estavam l todos.
 Quando cheguei  Plaza de la Moncloa e voltei para Cea
Bermdez, comecei a pensar onde havia de deixar o carro. Algures, perto da minha casa, 
para no ser vista de vestido de
noite manchado de sangue, mas no suficientemente perto
para que pudessem relacionar o carro comigo. Afinal, o homem que fora visto a conduzi-lo 
seria encontrado - morto.
 A trs quarteires de distncia da minha casa, deixei o carro
estacionado junto de uma rvore frondosa. Depois corri para
casa, descala.
 A quem poderia telefonar? No sabia o apelido de Pierre
nem onde ele vivia. Por isso, a nica pessoa em quem eu podia
confiar no se encontrava disponvel. Belmonte ia provavelmente a caminho de Granada, 
para Cdis, para a sua prxima corrida. Qualquer outra pessoa era um possvel inimigo. 
No podia fazer outra coisa seno chamar o meu chefe. No entanto, manter-me-ia alerta no 
caso de ser ele o agente duplo.



Captulo 25

 Vinte minutos aps o meu telefonema, Mozart batia  porta
da minha casa. Quando fui abrir, ele olhou-me com os seus
pequenos olhos muito abertos.
 - Que sucedeu? Voc est num estado lastimoso.
 - Estou bem. Entre. - Conduzi-o para a minha pequena
sala; cada passo representava para mim um enorme esforo,
mas tentei ocultar isso o melhor que podia. Pela segunda vez
(o chefe no voltara a entrar no meu apartamento desde a
morte de Marta), o grande rosto angular encontrava-se na minha frente, ele numa cadeira e 
eu no sof.
 - Esta noite, o jantar de festa no Puerta de Hierro revelou-se cheio de surpresas. A maior de 
todas foi no caminho de regresso algum ter tentado matar-me... e eu ter de lhe dar um tiro.
 - Est morto?
 - No sei.
 - Sobre quem disparou?
 - Tambm no sei. - Entreguei a Mozart um mao de
tabaco escuro, da marca Ducados, uma carta de conduo, um
bilhete de identidade em nome de Jorge Iglesias Surez e um
punhal. - Foi s o que encontrei.
 - Devo dizer, Aline... - Quando  que ele alguma vez me
tratara pelo meu nome? - que, se no revelou a verdadeira
natureza do seu trabalho, est tudo bem.
 - No creio que o tenha feito.
 - Diga-me em pormenor o que se passou.
 - Para comear, encontrei Pierre.
 Mozart disse que sim com a cabea.
 - ptimo, a partir de agora ser o meu contacto com ele.
Esperava que o chefe no tivesse reparado na minha alegria.
Continuei rapidamente:
 - Pierre preparava-se para me vir trazer a casa, mas foi
impedido de o fazer pela condessa Von Firstenberg, que insistiu para que ele ficasse l. 
Pierre foi ento procurar um motorista para me trazer. Foi esse que tentou matar-me.
 Tanto quanto me lembrava, contei os pormenores a Mozart.
 - Onde  que Pierre descobriu esse tipo?
 -  entrada do parque de estacionamento, quase na nossa
frente. Encontravam-se ali vrios motoristas a conversar e
esse homem era um deles.
 - Pierre parecia conhec-lo?
 - No me pareceu.
 - Quem a viu com esse motorista?
 - Alm de Pierre, que eu saiba, ningum. Gloria j se afastara muito quando o homem 
entrou no carro.
 - Onde  que deixou o carro e o corpo?
 Contei-lhe, e ele ficou pensativo durante um minuto.
 - Posso servir-me do seu telefone? - Mozart dirigiu-se
para o corredor. Quando voltou disse: - Mandei algum buscar o carro. Se o homem estiver 
morto (o que  incriminatrio), poder ser uma pista para aquilo que procuramos. 
Precisamos de saber quem quer apanh-la. Vou ao escritrio telefonar a Spider, coisa que 
raramente fao. No  fcil. Leva
horas e as chamadas para o ultramar so as nicas que eles
gravam. Se Pierre contactar consigo amanh (e espero que o
faa), diga-lhe o que se passou. Pode ser que ele conhea o
motorista, ou o possa identificar, ou ainda encontrar alguns
amigos dele. H mais alguma coisa?
 - Muita coisa, creio. - E comecei a contar-lhe aquilo que
Gloria von Firstenberg me dissera e a estranha cena que fizera
com Pierre. Disse-lhe tambm que Pierre acusara Lazaar de
ter assassinado a marquesa de Torrejn, que Edmundo me
entregara o alfinete de Gloria e que depois havia desaparecido
misteriosamente. E por ltimo dei-lhe a notcia de que conhecia Ramn Serrano-Sunher h 
meses.
 No fim da minha narrativa, o chefe ficou silencioso. Finalmente levantou-se para partir. 
Fez uma pausa.
 - Espero que me tenha contado tudo.
 - Creio que sim.
 - Acha? Pois tenho razes para duvidar disso - Tirando um papel do bolso, Mozart 
desdobrou-o cuidadosamente e entregou-mo. O telegrama de Spider dizia que o prncipe 
Lilienthal me dera informaes sobre a existncia de um agente duplo. Antes de eu poder 
reagir, Mozart acrescentou, calmamente: - Falaremos disso mais tarde. J temos problemas 
que cheguem para uma noite.  melhor descansar um bocado. -
Depois saiu e eu fiquei a pensar.
 O telegrama de Spider indicava que Mozart era de total 
confiana. Isso era um alvio, apesar de eu ter de passar pela
humilhao de o chefe perceber que eu desconfiara dele. Fechei a porta  chave e fui para o 
meu quarto, que agora tinha
sempre asjanelas bem fechadas. Durante um bocado no consegui dormir. Teria eu morto 
um homem? Quem? Fora tudo
to rpido! Onde estaria Edmundo? A minha lista de suspeitos
tornara-se mais pequena - tinha menos um. Ainda restavam
todos os outros... e nenhumas respostas.

 O telefone tocou s oito horas. A voz de Mozart.
 - O seu amigo expirou. Mas no se preocupe. Encontrmos as suas sandlias e a bolsa e 
calculamos que nada disto
transparea. Os documentos dele eram falsos. Fale comigo
depois de contactar Pierre. Ele no deixar de lhe aparecer
hoje.
 O choque de ter morto um homem era agora muito maior do
que na noite anterior, quando tudo sucedera. Quem seria ele?
Para quem trabalharia? Teria mulher e filhos? Essa ideia
fazia-me sentir infeliz. Levantei-me e comecei a vestir-me. Enquanto estava no banho, o 
telefone tocou e fui atender toda
molhada.
 - Que sucedeu a noite passada? - perguntou Pierre. -
Aquele diabo no me foi devolver o carro.
 Sugeri-lhe que nos encontrssemos junto do Palace Hotel,
para eu lhe contar o que se passara e ver se ele sabia alguma coisa a respeito do motorista.
 Quando eu cheguei, Pierre estava  minha espera nas escadas. O porteiro, Pepe, saudou-me 
com o seu habitual sorriso
amigvel. Estava na nossa lista de pagamentos. Naturalmente
na das outras potncias tambm. De qualquer maneira, eu no
podia deixar de simpatizar com ele. Pierre parecia-me mais
atraente do que nunca; recordei-me ento da conversa que tivera com Gloria na vspera. 
Ele beijou-me a mo e conduziu-me para uma mesa tranquila.
 - Que se passa, Tiger? Hoje est a gostar de mim?
 - Sinto-me com uma disposio terrvel e tenho assuntos
muito srios a tratar consigo. Tenho tambm poucas iluses
a seu respeito. Gloria disse-me que voc esteve apaixonado
por ela.
 Ele riu.
 - Gloria! Voc tem cimes. Formidvel! Como  que essa
engolidora de homens podia ter o meu corao? No, no, minha querida. Tenho outras 
razes para a perseguir. Agora conte-me quais so esses assuntos srios.
 Ambos pedimos ch e eu contei-lhe o ocorrido depois da
minha partida. A expresso dele era de consternao e de incredulidade.
 - Tiger, fui eu que a meti no carro com o motorista. Sou o
responsvel. Nunca a devia ter deixado ir sozinha com esse
homem. Viu-me ir procurar um motorista que a conduzisse a
Madrid. Ele foi o primeiro a oferecer os seus servios. Deve ter sido contratado por Lazaar, 
mas eu nunca pensei que ele ousasse fazer-lhe mal depois de a ter visto comigo e de saber
que eu conhecia tudo a respeito dele.  um assassino vulgar. Um assassino sem corao.
 Pierre estava verdadeiramente agitado. Tive de soltar a mo
que ele segurava entre as suas. O criado olhava-nos.
 - Imagine s como me sinto, Pierre. Matei um homem.
 - Foi para se defender. Qualquer pessoa seria obrigada a
fazer o mesmo. Se voc no o tivesse morto, ele liquid-la-ia.
Deixe de pensar nisso. Afinal, o nosso treino preparou-nos
para tais eventualidades. Estamos em guerra, Tiger. Que acha
que os seus irmos ou amigos pensam quando matam algum?
Ningum gosta de o fazer.
 - Pierre, acredita que Lazaar matou Mimosa Torrejn?
 - No tenho provas, claro. Mas suspeito dele.  capaz de
tudo.
 - Acha que Lazaar poder ser o agente especial de Himmler em Espanha?
 - Himmler tem muita gente a trabalhar para ele aqui. Alm do pessoal da Gestapo em 
Espanha, ele domina agora os
que trabalham para a Abwehr. Porque havia de ter um agente especial?
- Evidentemente que tem... algum com influncia especial
e a desempenhar uma misso especfica para ele. Provavelmente a trabalhar nas 
informaes relativas ao desembarque
no Sul da Europa.
 - Que notcias tem voc sobre o desembarque? Apesar de
gostar de estar aqui e de a ver, o que quero de facto  voltar
para Frana, para trs das linhas inimigas. Isso  que 
verdadeira aco! - Mudou de tom, tornou-se mais intenso. - Diga-me, o que pensa Mozart 
a meu respeito?
 - Deu-me instrues para lhe contar tudo a si e aFirmou
que daqui em diante eu seria o seu contacto com ele. Sabia
disso?
 - No. Disseram-me para ir  festa de ontem e para arranjar maneira de lhe ser apresentado. 
Nada mais. - Ficou novamente pensativo. - A Operao Anvil deve estar prestes a
comear e eu no quero perd-la.
 - Todos os telegramas cifrados se referem a isso.
 -J indicaram o local onde se realizar?
 - No. Pelo menos de maneira que eu possa perceber.
 - Tiger, diga a Mozart que eu interceptei um correio do
alto comando alemo. O general Botho Elster, comandante
do Primeiro Exrcito alemo, dirige-se para a regio de Biscaia, tendo-se desviado do seu 
primitivo trajecto, com setecentos e cinquenta oficiais e dezoito mil oitocentos e cinquenta 
homens, mais um nmero indeterminado de tanques Mark III.  urgente que Mozart tenha 
conhecimento desta informao.
 - Est bem. Tinha tantas coisas para lhe perguntar, Pierre... Perdemos trs agentes, e eu 
prpria escapei por pouco,
por duas vezes. Voc pode ajudar-nos a deslindar muita coisa,
especialmente porque conhece Gloria von Firstenberg e Hans 
Lazaar, dois dos nossos principais suspeitos.
 - Nenhum deles confia em mim. Ouviu o que tive de dizer
a Lazaar. Mas farei o que puder. O melhor  transmitir esta
informao rapidamente ao seu chefe. Esperarei que me telefone.
 Levantei-me para sair. Pierre fez o mesmo.
 - Tiger, agora que vamos trabalhar em conjunto, considero que j no  contra as regras 
apaixonarmo-nos. - Ps-me a mo no brao enquanto descamos as escadas de mrmore. 
Sentia o mesmo magnetismo na sua voz, no seu toque.
- Pode telefonar-me para aqui, para o quarto quatrocentos e
 quarenta e dois.
 S quando j ia a meio da rua  que me lembrei que ainda
 no sabia o apelido dele.

 Quando transmiti a Mozart a mensagem de Pierre ele pareceu ficar satisfeito, embora 
novamente formal e rgido. Eu
comeava a sentir-me mais confortvel com ele assim.
 - Pierre  considerado um dos nossos agentes mais eficientes, Tiger. Tem sorte em 
trabalhar com ele.
 - Pierre acha que foi Lazaar que contratou o homem para
 me matar - disse eu. - Mas isso no nos ajuda a descobrir
 quem ser o agente duplo, pois no?
 - No esquea que ningum sabe disso a no ser voc e
 eu... e o prprio traidor, claro. Trabalhe com toda a gente,
 como at agora. No pode mostrar a mais ligeira alterao na
 sua atitude.
 - E Top Hat? - perguntei. O pcaro era agora o meu principal suspeito.
 - Especialmente em relao a Top Hat.
 Mozart ficou a dar voltas ao lpis durante algum tempo,
 como se estivesse a pensar na maneira de exprimir os seus pensamentos.
 - Spider pediu-me que lhe dissesse que considera completa
 a primeira fase da Operao Tourada e disse-me para a felicitar. Ele acha que Lazaar  o 
tipo, e iremos agora tomar as medidas adequadas.
 - E Serrano-Sunher? Agora que o conheo pessoalmente...
 -  desnecessrio. Ele no se encontra envolvido nas
nossas actuais preocupaes. - O lpis girava-lhe nos dedos.
- Tiger, tem uma nova misso. - Olhou-me. - A segunda fase
 da Operao Tourada e o desfecho da invaso depende disso.
 Esperei e respirei fundo. Que viria agora?
 - As experincias que teve at agora ajud-la-o a ter
xito. Nas prximas semanas h-de receber um telegrama altamente confidencial de Spider 
directamente para si. Direi a Jeff que voc  que decifrar todos os telegramas secretos a 
partir de agora. Assim que o receber, ter de agir depressa,
trazendo-o logo para as minhas mos. Estarei constantemente  espera. Nem uma s 
palavra que eu lhe diga pode ser repetida seja a quem for, nem a Top Hat nem sequer a 
Pierre... a no ser que eu lhe diga que o faa. Vai comear por ir entregar uma mensagem 
altamente secreta. Telefone para o hotel e diga
a Pierre que se encontre consigo na esplanada do caf da
Castellana, a dois quarteires daqui. Diga-lhe que tem rdens minhas para estar atento  
condessa Von Firstenberg,
com o propsito de saber onde  que os alemes pensam
que a prxima invaso aliada se ir dar. Seja rpida. Pode
dizer a Pierre que  necessria aqui porque est encarregada
de decifrar todos os telegramas secretos. Diga-lhe que no
procure entrar em contacto consigo e que lhe telefonar dentro de dias.
 Nenhuma mensagem poderia ser mais desagradvel de
transmitir. Pierre riu-se quando eu lho disse. Sentada 
pequena mesa metlica bebendo uma horchata gelada, vi-o sorrir de prazer.
 - No se mostre to preocupada, Tiger. - A sua voz tornou-se acariciadora. - Ela  a ltima 
mulher por quem eu me 
poderia interessar. Mas devo confessar que se trata de uma 
misso para descansar, depois de estar a fazer saltar pontes.
 Conversmos durante um bocado e depois levantei-me para
me ir embora.
 - Porqu to depressa?
 - Sou a nica pessoa com autorizao para decifrar telegramas altamente secretos, por isso 
no posso estar fora.
Telefonarei assim que Mozart me transmita algo para si.
 Sentia o corao pesado. Quando olhei para trs vi Pierre
sentado no mesmo stio, a beber a horchata e a fumar, como se
a guerra nada tivesse a ver com ele.

 - Como  que correram as coisas com Pierre? - Mozart
esperava-me no alto das escadas quando eu voltei.
 - Ficou encantado.
 A minha voz deve ter-me trado, porque Mozart me olhou
com curiosidade, indicando-me para o seguir ao gabinete dele.
Uma vez l dentro, disse-me:
 - Sente-se.
 Eu continuava a pensar em Gloria e Pierre.
 - Vou envi-la  Costa Brava, esta noite. - Os seus grandes dedos tamborilavam sobre a 
secretria vazia. - A informao que leva consigo diz respeito  Operao Anvil. Agora
que j tem a sua licena para viajar, no deve ter problemas.
 Com os seus modos cerimoniosos, - mostrou-me um rolo de
microfilme. - Vamos colocar isto num cinto para voc usar. No voltar a sair deste edifcio 
at  hora do comboio. Ningum dever saber que voc vai sair de Madrid. O meu 
motorista conduzi-la-  estao. Diga  sua criada que fica aqui de servio toda a noite. Eu 
amanh inform-la-ei de que vai estar fora da cidade por dois dias. - O meu assombro f-lo 
sorrir. - No se preocupe. Ter uma escova de dentes. Pelo menos isso podemos fornecer-
lhe.
 - E os telegramas secretos?
 - Aquele que ser dirigido a si no chegar nos prximos
dias. Alguns outros sero descodificados por mim. - Abrindo
a gaveta, tirou de l metade de uma nota de cem pesetas e
entregou-ma. - Veja se liga com a outra metade que se encontra na posse do proprietrio do 
iate El Vega, que espera a sua
chegada no porto de Lloret del Mar. Entregue-lhe o microfilme a ele.
 Levantou-se e comeou a andar de um lado para o outro. Os
seus modos tinham mudado. Parecia-me nervoso, inseguro.
- Estamos a fazer um gigantesco trabalho de equipa, Tiger. Pessoas desde Washington at 
aos mais remotos cantos da
Europa e da sia esto a trabalhar para esta mesma tarefa.
No esquea isto. - Permaneci sentada, a olh-lo. - Pierre
est  espera que lhe telefone para o Palace Hotel. Em breve
teremos um importante trabalho para ele fazer. Quando voltar, contact-lo- de novo. Mas 
agora a nica coisa que a deve
preocupar  entregar esta informao sem falhas. Tenho a certeza de que vai gostar do iate. 
O proprietrio  boa pessoa. - Depois acrescentou: - Oh, e o iate h-de conduzi-la at a um 
submarino americano.



Captulo 26

 Miraculosamente, a viagem no comboio da noite para Barcelona, apesar das sacudidelas da 
velha carruagem, permitiu-me passar a noite tranquila, do que muito precisava depois
dos acontecimentos das ltimas horas.
 Em Barcelona tomei um txi para me levar a Lloret del
Mar. Mozart avisara-me que a viagem era perigosa, pois a
estrada seguia em curvas e contracurvas ao longo de precipcios escarpados, com sessenta 
metros de altura, sobre o mar e os rochedos. O txi estava limpo e bem tratado, mas era
mais velho do que eu. O motorista era mais novo. Conversava enquanto eu ia olhando para 
o Mediterrneo, reluzente
como vidro, com as suas ondas de espuma branca a salpicarem as praias da costa. Ao 
chegarmos ao alto de uma penedia, pude ver toda a costa durante milhas. As cores eram
esplendorosas. Baas de guas azuis cavadas entre muralhas
de pedra vermelha e dourada. Ao chegarmos a Matar, o
motorista insistiu em que eu fosse provar uns bolos cobertos
de acar, especialidade da regio. Disse-lhe que estava com
pressa, mas de nada serviu. Obviamente, ele queria comer desses bolos.
 Concordei com uma certa impacincia e parmos na praa
principal. O motorista desapareceu no interior de um caf.
Sentada no assento de trs do txi, mal tivera tempo de observar o que me rodeava, quando 
vi chegar um carro velho que
parou do outro lado da praa. Trs homens, cujos rostos eu
no podia ver, mas que tinham um aspecto desmazelado como
o automvel, saram do veculo e encaminharam-se para uma
mesa colocada  sombra de uma rvore. Sentei-me a uma
mesa perto do meu txi e pedi caf e os famosos bolos. Quando o criado voltou, trazendo-
me o que eu pedira, inclinou-se para
me falar quase ao ouvido:
 - Aqueles homens - indicava a mesa distante; os trs homens estavam sentados de costas 
voltadas para mim e eram os
nicos outros clientes - esto a seguir a senhorita. Pelo menos ouvi um deles ordenar a um 
outro que no a perdesse de vista. No parecem - procurou a palavra adequada - de 
"confiana".
 Pus-me imediatamente de p, correndo para outro txi.
Quando entrei, a minha expresso deve ter alertado o motorista, pois, antes de falar, ps 
logo o txi em andamento e carregou no acelerador.
 - Depressa! V o mais depressa que puder - ordenei.
 - S, senhorita - respondeu ele.
 O meu txi subia o monte a alta velocidade. Olhei para trs
e vi que os trs homens corriam para o seu velho automvel.
 - Mais depressa! - implorei. - Recompens-lo-ei bem.
 - Vou o mais depressa que posso, senhorita. - Mas conseguiu ir ainda mais.
 Aproximvamo-nos do alto de um monte ngreme. Olhei
para os rochedos da penedia que se estendia at l abaixo - e
engoli em seco. Olhei de novo para trs. O carro que me seguia parecia estar a ganhar 
terreno.
 - Conhece as pessoas que nos seguem?
 - No, senhorita. Conheo toda a gente nesta estrada, mas
nunca vi aqueles homens.
 Descemos a montanha, descrevendo curvas que me atiravam de um lado para o outro. Ca 
para o cho do txi e levantei-me, agarrando-me s costas do banco da frente. A descida era 
feita a tal velocidade que eu esperava a todo o momento
que sassemos da estrada e fssemos despenhar-nos sobre os
rochedos. Os pneus rangiam a cada curva e contracurva. No
entanto, a velha carripana que nos seguia no desanimava.
 - O que  que est a fazer, por amor de Deus? - gritei
para me fazer ouvir acima do barulho. - Por este andar ainda
camos no precipcio.
 - Senhorita - respondeu placidamente o motorista. - Primeiro no estava satisfeita porque 
eu ia muito devagar. Agora
mostra-se descontente por eu ir depressa de mais. Agora no posso fazer nada, pois. 
Francamente lhe digo que no tenho
traves.
Olhei pela janela. Mar, cu, rvores - tudo parecia passar
a correr em diferentes direces. O carro parecia que estava a descer a montanha-russa, 
oscilando, sempre  beira do precipcio, enquanto ramos perseguidos por assassinos 
durante
quilmetros. E no tinha traves!
 Chegmos finalmente  praia que ficava no sop da montanha.
Por uns momentos descansei, o carro preto ficara um pouco para
trs. Quando comemos a subir a nova estrada da montanha, perdia os meus perseguidores 
de vista de cada vez que
descrevamos uma curva, mas logo a seguir o veculo deles aparecia outra vez. Passmos 
assim por Arens del Mar, depois Galdetas, onde uma floresta de pinheiros cobria a penedia 
 beira-mar, subimos 
a montanha at Balns e chegmos, por fim, a Lloret del Mar,
onde vi o comprido molhe entrando pelo mar.
 Logo que o txi chegou ao cais, atirei um mao de pesetas ao
motorista e corri pela ponte de madeira, passando por vrias
embarcaes, at ver "El Vega" pintado no casco de um
grande iate que se encontrava no extremo do molhe. O carro
perseguidor aparecia nesse momentojunto do cais. Saltei e ca
no convs.
 - Saia daqui depressa - pedi.
 Apercebi-me do rudo do motor do iate enquanto o El Vega
se dirigia para o mar alto. Uns braos fortes ajudaram-me a
pr de p no convs varrido pelo vento. Um rosto agradvel
emoldurado por uma barba frisada e grisalha, fitava-me.
 - Foi uma sorte ter aterrado no convs e no na gua. Chega sempre com tanta pressa?
 Ri. Agora que me sentia em segurana e que a minha misso
quase se cumpria, sentia-me bem.
 - Fui seguida por um carro com trs homens desde que sa
do comboio, esta manh.
 - Agora j no se encontra em perigo e faremos com que
regresse em segurana.
 Conduziu-me para dentro. Logo que nos sentmos, cada um
com uma bebida fresca, ele meteu a mo no bolso e tirou de l
a metade da nota rasgada. Juntei-lhe a minha metade e depois
entreguei-lhe o microfilme que tirei do cinto que trazia 
cintura.
 O meu anfitrio pediu licena e saiu da cabina. Vi-o a olhar
o horizonte com uns binculos.
 Tinha agora tempo para pensar nos acontecimentos dessa
 manh. Quem sabia que eu estava a fazer esta viagem? S
Mozart. Ou eu no vira algum que me seguira antes de eu
entrar no comboio?
 Passado um bocado, fui tambm para o convs. Vi a linha
da costa diminuir  medida que nos afastvamos sobre as
guas agitadas. Talvez meia hora mais tarde, o dono do iate
disse-me:
 - L est. - No meio do azul, um pontinho avanava em
direco a ns.
 Lentamente, esse pontinho veio a transformar-se num submarino. Depois de termos 
entregue o microfilme ao comandante, sentmo-nos para jantar. Comemos lagosta e 
caranguejos. O iate voltou para Barcelona pois o seu proprietrio disse precisar de l ir. 
Dormi a bordo e na manh seguinte tomei o comboio para Madrid.
 Esta misso estava cumprida, mas quem era o traidor? Todos me avisavam para ter 
cuidado, para estar alerta. Bons conselhos. Mas eu precisava mais do que conselhos. Qual 
seria a
minha nova misso? De que trataria o telegrama altamente
secreto que eu iria receber? E como  que os trs homens do
carro sabiam que eu estaria em Barcelona nessa manh?
 Quando cheguei a Madrid, aps uma tranquila viagem de
comboio, a vida retomou o seu aspecto rotineiro. Estvamos a
8 de Agosto e quase toda a gente se encontrava de frias. Mozart ordenou-me que no 
ligasse para o quarto 442 do Palace
Hotel sem ele me autorizar. Eu pensava que Pierre estava a
passar uns tempos to agradveis com Gloria que me esquecera completamente. Recebi 
ento um ramo de rosas vermelhas com um carto sem nome. "Para serem comidas , eram 
as
nicas palavras, assinadas com um "F .Juanito encontrava-se
no meio das suas digresses taurinas, mas os seus telefonemas
e cravos chegavam regularmente. Jos Heredia, o cigano, era
impossvel de se encontrar. Provavelmente seguia os seus toureiros preferidos por todo o 
pas, pensei. Chegou um bilhete de Edmundo, acompanhado por tuberosas que perfumaram 
todo o apartamento. "Adorada , comeava. " s para que saiba
que a minha devoo por si nunca muda. Hei-de telefonar-lhe.
O seu pcaro. Como podia uma pessoa com tal encanto ser
um agente duplo? As vilas e Carola estavam em San Sebastin. A atmosfera no escritrio 
era tensa. Todos sabamos que
a Operao Anvil iria ser desencadeada em breve.
Depois, subitamente, tudo pareceu irradiar electricidade.
O telegrama crtico chegou! Quando o decifrei, a minha presso arterial aumentou.
DE JUPITER PARA TIGER STOP ALTAMENTE SECRETO REPITO ALTAMENTE 
SEcRETO AVISAR MOZART PARA PR IMEDIATAMENTE EM
ACO FASE DOIS STOP PARA TIGER DE JUPITER
 Corri para o gabinete de Mozart e entrei sem bater  porta.
O telegrama continuava a deixar-me s escuras.
 Mozart deixou-se ficar sentado na sua grande cadeira e um 
sorriso iluminou-lhe o rosto. Tirou um rdio de uma das gavetas da secretria e ligou-o para 
tornar impossvel algum poder ouvir a nossa conversa. Apesar de na Quinta nos terem 
ensinado a fazer isso, Mozart no costumava tomar tal precauo.
Desconfiaria de algum do escritrio?
 - Tiger... - murmurou com um suspiro de alvio. - Este
telegrama significa que a invaso ir dar-se perto de
Marselha. 
Uma informao que pode significar o fim da guerra ou a
morte de milhares dos nossos compatriotas. - Mexeu novamente no rdio. - Foi por esta 
razo que trouxemos Pierre
para Madrid. - Eu estava ainda de p. Mozart foi buscar a
um canto a nica cadeira existente, no compartimento alm da
dele. Sentei-me. - Contacte Pierre. Diga-lhe que tem ordem
para deslocar os seus subagentes para a rea de Marselha. Devem encontrar-se em posies 
de onde possam dar assistncia
s nossas tropas quando elas desembarcarem. Deve agir com
cuidado mesmo com os seus prprios homens. As informaes
sobre o local do desembarque no podem transpirar nem ser
conhecidas mesmo por aqueles que tm arriscado a vida por
ns durante os ltimos anos. Pode tornar isso bem claro para
ele?
 Disse-lhe que sim.
 - Com efeito, a notcia  to vital que no nos podemos
arriscar a que Pierre seja apanhado voltando a Frana pelo
percurso habitual, pelos Pirenus. H demasiados espies alemes e espanhis nesses 
caminhos. Terei de arranjar uma maneira de ele ser levado at Argel e da lanado de pra-
quedas sobre o local.
 Mozart pegou no telefone para ligar ao embaixador. Assim
que Carlton Haes atendeu do outro lado do fio, perguntou:
 - Quando  que parte um avio para Argel, senhor embaixador?
Trocaram um mnimo de palavras entre os dois, antes de
Mozart desligar.
 - Estamos com sorte. Pierre poder partir esta noite para
Argel num avio da embaixada. Diga-lhe que o meu Packard
ir busc-lo ao hotel s vinte e uma horas. Sabe o nmero do
quarto dele?
 Disse outra vez que sim com a cabea.
 - Faa-lhe ver bem a gravidade da misso. Pierre deve ficar bem ciente da importncia 
desta notcia. - Os pequenos
olhos de Mozart no me desfitavam. - O OSS de Londres
preparou a Operao Overlord com alta competncia e ns
no podemos ficar atrs. - Mozart levantou-se e comeou a
andar de um lado para o outro, lentamente. -  melhor preparar-se para ir falar com Pierre. 
Ele no pode de modo algum perder o avio para Argel. No sei exactamente quando ser 
ele lanado sobre a Frana, mas quando for dir-lhe-ei para que voc possa estar junto de 
ns e ficar a saber que ele chegou em segurana.
 Aps meses de decifrar e enviar mensagens respeitantes a
lanamentos de pra-quedas, continuava a consider-los as experincias mais excitantes da 
guerra. Nas claras noites de
luar, os nossos agentes eram lanados de pra-quedas sobre o territrio inimigo. Eram 
recebidos pelos combatentes da Resistncia, os maquis, que apontavam as suas lanternas 
para indicarem a rea onde deveriam cair. Por vezes, um pequeno avio podia aterrar, 
deixar o agente e levantar voo novamente, sem que os seus motores deixassem de 
funcionar. Isso tudo significava que era necessrio o trabalho de muitas pessoas para 
preparar cada lanamento, e aqueles que se encontravam envolvidos nisso tinham de ser de 
total confiana.



Captulo 27

 Quando encontrei Pierre, algumas horas depois, na obscuridade do Palace Bar, ele 
estendeu-me a mo.
 - Tive esperanas que me telefonasse quando viu as minhas flores - disse. - No gostou 
delas.
 - Muito mais do que dos cravos do meu toureiro - respondi. - Na minha terra, os cravos so 
utilizados, geralmente, nos funerais.
 - Onde esteve? Telefonei-lhe vrias vezes.
 - Mozart mandou-me para o campo para descansar e esquecer aquela noite terrvel... longe 
de todos. - Fora aquilo
que eu recebera ordens para dizer.
 - Os telegramas secretos?
 - Mozart disse-me que ele prprio os decifraria, mas no
creio que tivesse chegado algum durante o curto espao de
tempo que eu estive fora.
 - Bem, o descanso parece ter-lhe feito bem. Desde que matou aquele homem est mais 
bonita do que nunca.
 - Quer dizer com isso que devo matar mais gente?
 -J lhe disse que era a sua vida contra a dele. E miraculosamente voc ficou viva. Quanto 
mais perto estamos da morte, maior  a excitao de lhe termos escapado. Pelo menos  o 
que eu sinto. E para isso  que nos pagam. E bem. Pelos riscos que corremos, dizem.
 - Nunca penso no dinheiro. E voc?
 Um sorriso malicioso apareceu nos lbios dele.
 - Gosto do dinheiro, sim, e dos riscos tambm. Tenho estado em stios muito perigosos e 
tenho sobrevivido sempre.
Um dia contar-lhe-ei tudo.
 - Essas palavras j as ouvi. Disse-mas precisamente na noite em que se preparava para me 
ir levar a casa, no
clube.
 - Voc afirmou ter notcias importantes para mim. - Reparei que ele evitara falar a respeito 
de Gloria. Mozart
dissera-me para lhe pedir todas as informaes que tivesse obtido.
 - Diga ao seu chefe que no foi fcil. Eles nada lhe dizem,
ou pelo menos  o que ela afirma. Contou-me que o general
Tresckow, chefe do estado-maior do Segundo Exrcito, agora
na frente oriental, tenciona deslocar a Quarta Diviso Panzer
e o Dcimo Quarto Corpo Panzer para o Sul de Frana, se o
ataque que esto a desencadear na frente russa tiver xito.
Declarou-me que o marido est na Quarta Diviso Panzer, e por
isso  que ela obteve esta informao. Preciso de ter cuidado
para ela no suspeitar que estou a trabalhar para os servios
secretos americanos. Mozart deve compreender isso.
 Pensei em quantas vezes Pierre se teria encontrado com Gloria para saber aquilo.
 Pierre mostrava-se impaciente.
 - Tiger, meu amor - disse com inflexo afectuosa -, por
que motivo precisava de falar urgentemente comigo?
 - Mozart tem uma misso especial para si. Acaba de ter
conhecimento dela.  um assunto altamente secreto.
 Pierre continuava a segurar-me na mo. No a retirei enquanto lhe transmiti as ordens de 
Mozart. Podia ser a ltima
vez que nos vamos. Ele ia cumprir uma misso muito perigosa, num momento crtico. Mas 
as ordens agradaram-lhe.
 - Finalmente - murmurou com satisfao. Tirou um cigarro do mao e bebeu um longo 
gole de xerez. - Quando
parto?
 - O Packard preto com a matrcula do corpo diplomtico
GD 4O6 vir busc-lo hoje, s vinte e uma horas,  entrada do
hotel. O seu avio partir logo que voc chegue ao aeroporto
militar de Getafe.
 - Quem havia de imaginar, quando estvamos na Quinta,
que um dia voc estaria a transmitir-me ordens para eu realizar uma misso. Lembra-se do 
dia em que estudmos os mapas da Frana? Pensou alguma vez que chegaria a enviar-me
para l? Lembra-se?
Por momentos, foi como se voltssemos  tranquila biblioteca da Quinta. Olhei para Pierre, 
para o seu rosto, cabelos,
olhos, braos, terrivelmente consciente do seu magnetismo.
- Voc gosta de mim, Tiger?
 Os nossos olhares encontraram-se. De sbito, a sala pareceu-me sobreaquecida. As suas 
espessas pestanas quase lhe
ocultavam as pupilas.
 - E a sua amizade com Gloria?
 - Ainda est preocupada com isso? J lhe disse que no
estou interessado nela. Gloria e eu conhecemo-nos, em tempos,
em Paris, antes de eu a ter encontrado a si. Gloria tem medo
de Lazaar, como toda a gente, e queria que a ajudasse a sair de Espanha. - Olhou-me, 
concentrando todo o seu fascnio num
simples olhar. - Voc  a nica que me interessa, Tiger. -
Levantou-se. - Tem de confiar em mim. Voltarei. E vou ter
saudades suas.
 Foi a minha vez de me erguer.
 - Tambm vou ter saudades.
 Samos do vestbulo do hotel para a rua.
 - Tiger, quero que saiba que desde que a conheci tentei
mudar uma poro de coisas. Um dia dir-lhe-ei.
 - Adeus, Pierre. - E comecei a voltar-me para me afastar.
 Ele agarrou-me pelos ombros e fitou-me. O seu olhar era to
profundo que me fez esquecer todas as palavras e me transportou para alm do espao e do 
tempo. Logo a seguir Pierre soltou-me e caminhou na direco oposta. Vi-o desaparecer e a 
minha temperatura foi baixando, grau a grau.

 No dia seguinte, o telefone tocou no instante em que eu ia a
sair para o escritrio.
 - O seu pcaro apresenta-se ao servio.
 - At que enfim, Edmundo. Onde tem estado metido? Que
assunto urgente o fez sair da cama a estas horas to matinais? Ou ainda no se deitou?
 - Um pouco de ambas as coisas, minha querida. Voc est
a aprender muito depressa, e isso deve-se em parte aos meus
esforos.
 - Desde a noite da festa no Puerta de Hierro que tenho
querido falar consigo, Edmundo.
- Ainda bem que me aprecia. O seu desaparecimento tambm me alarmou. No entanto, 
devo admitir que as minhas
actividades tm sido produtivas.
 - Com a princesa? - no pude deixar de perguntar.
- Vejo que se est a tornar "fresca . Bem,  natural que a
discpula queira imitar o mestre. Minha querida, preciso de
falar consigo logo  noite. Ao telefone no posso dizer-lhe de
que se trata. Mas saiba apenas isto: Edmundo Lassalle resolveu o mistrio! Oh,  
delicioso! Sim, claro que o fiz com a sua
ajuda. Foi o nosso trabalho de equipa. Oh, Mimosa foi vingada. A minha querida Mimosa 
no morreu em vo.
 - Sabe quem a matou?
 - Nem mais uma palavra ao telefone, minha querida. Irei
busc-la  meia-noite. Esteja preparada para surpresas, mi
amor. A propsito, passou uma noite encantadora no Puerta
de Hierro? Estou desejoso de a ouvir falar do atraente estrangeiro com quem andou a 
danar. Vocs formavam um par fantstico. Bem,  bom saber que voc ainda tem 
vestgios da sua jovem inocncia. E que tem feito desde ento?
 - Contar-lhe-ei os pormenores quando nos virmos.
 - No se esquea.  meia-noite em ponto!
 - Quer dizer que me devo preparar para uma noitada?
 Ouvi-o soltar uma das suas gargalhadas agudas.
 - Vai ter de esperar para saber o que este gnio asteca preparou. Viva Mimosa! - Edmundo 
desligou.

 Sabia que no valia a pena perguntar-lhe onde amos. Ele
gostava de fazer tudo de uma maneira dramtica. Quando nos
sentmos no txi, permaneci calada, deixando que o ar fresco
da noite me afagasse a cara. Alguns pares passeavam de brao
dado,  luz plida dos candeeiros, ao longo da Castellana.
Viam-se poucos carros e vrias carruagens avanar na direco
oposta  nossa.  esquina da Plaza de Coln, havia algumas mesas, debaixo das grandes 
rvores, ocupadas por clientes que bebiam o seu caf ou um copinho de anis, gozando a 
frescura da hora tardia. Olhei para a fonte que havia no meio da praa, sob a esttua de 
Colombo. Madrid estava, pensei, mais serena e mais cativante do que nunca. O motorista 
inclinou-se na janela, vendo algum conhecido. Abrandou a velocidade do carro.
 - Vaa con Dios, Pepe - disse.
 - Nada pode apressar esta gente! - exclamou Edmundo,
rindo e quebrando o silncio. Tambm ele gostava do ritmo da
cidade. - Agora conte-me tudo. Que tem feito? - O vidro que 
nos separava dos lugares da frente encontrava-se corrido.
- Pouca coisa. Quando regressei a casa, do baile, o motorista tentou estrangular-me. E eu 
matei-o. - Seguindo as
ordens de Mozart, no disse nada a Edmundo sobre a fase dois
ou sobre o agente duplo que haveria entre ns, mas a reaco
dele ao que eu lhe estava a contar era importante. Onde se
encontrava ele quando o assassino a soldo entrara no carro de
Pierre?
 Edmundo observava-me com a astcia e a insacivel curiosidade de um gato. Passado um 
bocado, depois de eu lhe ter
contado mais uns pormenores, Edmundo replicou:
 - Com franqueza, Aline, deve andar a ter uma vida muito
aborrecida para ter necessidade de inventar tais coisas! Em
todo o caso, admiro a sua imaginao de adolescente.
 Limitei-me a olh-lo.
 - Diga-me que est a brincar.
 - O meu sentido de humor no inclui assassinos.
 -Jesus! - murmurou ele. - A discpula ultrapassou o
mestre!
 O txi entrava agora na Calle Hermosilla - e eu percebi
para onde amos. Claro que parmos em frente do nmero
catorze - a casa de Ana de Pombo! A rua estava deserta. Antes de eu poder perguntar fosse 
o que fosse, Edmundo saltou
do carro. No passeio, olhou para o relgio de pulso.
 -  estranho. Jos Heredia j c devia estar.
 - Porqu?
 - Foi ele que me deu a informao. Graas a voc ter-lhe
pedido que vigiasse certas pessoas. Bem, vamos. No podemos
esperar.
 Tirou do bolso interior do casaco um revlver reluzente.
Eu fiz o mesmo.
 A porta foi aberta por Edmundo em poucos segundos. L
dentro a escurido era completa.
 - Siga-me - murmurou. - O porteiro no nos incomodar. No costuma estar por aqui 
depois da meia-noite.
 Edmundo e eu avanmos por um corredor escuro e em seguida por uma escada das 
traseiras. A cada pequeno rudo
imobilizvamo-nos. Ele parecia j ter percorrido anteriormente o mesmo caminho. As 
minhas preocupaes aumentavam. No falara a Mozart neste encontro. Estaria a correr um
risco demasiado grande em me encontrar ali a ss com Edmundo? Pelo menos ia atrs dele 
- de revlver em punho.
No terceiro andar, parmos diante de uma porta debaixo da
qual se via luz. Encontrava-se fechada  chave - mas no por
muito tempo. Edmundo era hbil, e da a poucos segundos a
maaneta da porta girava to silenciosamente que eu pensei
que o meu corao ia rebentar. Logo a seguir abriu-a de rompante.
 Algum se moveu.
 - Que ningum se mexa, ou disparo! - ordenou Edmundo. O vulto imobilizou-se.
 Ao princpio, mal podia distinguir qualquer coisa, porque
a sala estava iluminada apenas por velas. Ento, por detrs
do ombro de Edmundo, distingui uma figura familiar - e
soltei uma exclamao de espanto. Num canto via-se um
grande rdio transmissor. Enorme, em comparao com qualquer dos nossos. Que 
descoberta! Nem mesmo os ingleses tinham conseguido localizar um transmissor daquele 
tamanho
no pas.
 Edmundo, empunhando o revlver, estendeu a mo para
acender a luz do tecto.
 - Por que motivo acha que estou a usar velas, caro Edmundo? - perguntou uma voz 
ligeiramente rouca. - A electricidade est cortada, como sempre quando mais precisamos
dela.
 O calor de tantas velas era sufocante. Imvel na minha
frente, envergando um leve vestido de musselina, estava Gloria
von Firstenberg. A transpirao encaracolara-lhe o cabelo e
fazia-a parecer uma medusa. Numa das mos segurava um
mao de papis. O verniz vermelho das suas compridas unhas
estava falhado. Isso no era habitual nela.
 A arma de Edmundo estava apontada ao corao de Gloria.
Esta mantinha-se parada, como que petrificada. O branco dos
seus olhos brilhava  luz das velas.
 - Lassalle, seu patife!
 - Calma, Gloria - murmurou Edmundo.
 Gloria baixou os braos com a graa de um cisne e, sem
deixar de nos fitar, colocou os papis sobre uma mesa a seu
lado.
 Edmundo baixou a arma dele. Eu no o fiz.
 - Desculpe vir interromp-la no meio de uma prova, Gloria. Acho que  uma maneira 
pouco vulgar de voc passar a
noite.
Ignorando as palavras de Edmundo, a condessa voltou-se
para mim.
 - Que prazer inesperado, Aline. No voltei a v-la desde a
sua partida do Puerta de Hierro.
 - Francamente, este encontro  tambm uma surpresa
para mim, Gloria.
 Ali de p, imvel na minha frente, ela parecia-me mais enigmtica do que nunca. Pensei 
no relacionamento que Pierre
teria com aquela mulher. Saberia que ela era uma agente inimiga? Agora no restavam 
dvidas a esse respeito. Tnhamo-la apanhado em flagrante. Olhando  minha volta, 
reconheci tudo. Quadros de cdigo, o cofre e pilhas de telegramas.
 - Tenho sempre prazer em v-la, Aline - disse a condessa
com uma inflexo imperceptvel entre o controlo e o abandono.
- Mas no posso dizer o mesmo do seu companheiro.
 O olhar que lanou a Edmundo poderia t-lo reduzido a
cinzas, se fosse possvel.
 - Querida condessa - disse Edmundo. - No se quer
sentar?
 Languidamente, insolentemente, ela obedeceu. Havia ali
uma mesa e algumas cadeiras. Sentei-me em frente dela. As
velas deitavam fumo, tornando a sala mais sufocante de minuto a minuto. No havia ali 
nenhuma janela e apenas a porta
pela qual tnhamos entrado.
 - Que espcie de trabalho esto aqui a fazer? - perguntou
Edmundo. - Para Heinrich Himmler? Ou para Schellenberg?
Quero saber isso bem.
 Gloria manteve-se calada.
 - Sabe, Aline - Edmundo voltou-se para mim -, a nossa
amiga trabalha para todos eles.  a melhor discpula que eles
tm. Pode-se dizer que  a preferida dos professores.
 Passando lentamente as mos pelos cabelos, Gloria mantinha-se calada e sem dar sinais de 
subservincia.
 - Gloria - continuou Edmundo em tom sarcstico -,
seria louvvel da sua parte se nos dissesse que informaes envia e recebe para transmitir 
aos seus professores de
Berlim.
 - Foram transmitidas daqui mensagens especiais - disse
Gloria -, mas eu nunca soube a que se referiam. Era Wizner,
o chefe da Gestapo na embaixada, que mas entregava. Disse-me sempre que havia certas 
informaes que ele no queria que passassem pela sala de cdigo da embaixada. Como 
havia
eu de saber a que se referiam? Tinha de fazer este trabalho.
Era o preo a pagar para poder sair de Berlim e ter algum
dinheiro para alimentar e vestir os meus filhos.
 Edmundo abanou a cabea.
 - Que me to dedicada... Isso comove-me. Estou quase a
chorar.
 Gloria olhou-o com desprezo. Depois voltou-se para mim e
modulou a voz, transformando-a num murmrio musical:
 - Recorda-se de quando a convidei a tomar ch no El
Morisco? Quando Lazaar apareceu e anunciou que o quarto
dele fora revistado? Percebi imediatamente que tinha sido
voc. Com efeito, avisei Francisco contra a encantadora (e metedia) americana. Quando 
ele a conheceu no Puerta de Hierroj sabia que voc trabalhava para os americanos. Por 
isso  que ele a convidou para danar e a quis levar a casa. Pensou que voc tinha 
influncia. Precisava de pr dinheiro fora do pas.
 Calmamente, Edmundo disse:
 - No diga disparates. Voc queria eliminar Aline, nessa
noite, no Puerta de Hierro. Sabia que ela suspeitava de si.
 A presa de Edmundo fez uma tal cara que parecia querer
bater-lhe. Mas, em vez disso, limitou-se a dizer friamente:
 - Voc faz umas afirmaes absolutamente ridculas.
 - E a respeito de Lazaar, Gloria? Voc ajudou-o a matar
Mimosa? - perguntei eu.
 - Que pergunta infantil, Aline. No percebo como  que os
americanos enviam uma rapariga ingnua como voc para este
gnero de trabalho. espantoso como um pas to crdulo
pode estar a ganhar uma guerra contra os homens mais inteligentes da velha Europa. - 
Lanou-me um olhar quase afectuoso. - Hans no sujaria as mos com esse gnero de 
actividades, e eu tambm no, de certeza.
 - Mas Hans  um bom agente da Gestapo, no ? - Edmundo ergueu a arma e destravou-a.
 Gloria continuou a no se mostrar assustada, mas tornou-se
menos insolente.
 - Quase toda a gente em Madrid suspeita disso. Esto enganados.
 - E porqu?
 - Por exemplo - encolheu os ombros -, Himmler sempre teve inveja de Goering, 
especialmente pela maneira como ele 
tem, digamos assim, apanhado os tesouros de arte de toda a 
Europa. Ele sabe que Hans tem ajudado Goering a enviar os
quadros para a Amrica do Sul. Um bom agente da Gestapo
nunca se atreveria a desafiar o chefe supremo.
 - No creio numa s palavra do que diz. Que procurava
voc no apartamento de Ren Blum? Voc esteve envolvida
nesse crime. Ps de parte todos os cuidados quando acompanhou Lazaar ao apartamento de 
Blum.
 Gloria mostrou-se zangada.
 - Nem Lazaar nem eu tentmos matar esse chefe de orquestra. Nada sei a respeito disso.
 - Ento quem matou Ren? Diga-me, Gloria! - insistiu
Edmundo.
 - Os meus amigos no so assassinos - retorquiu friamente Gloria.
 - Pode ser que tenha razo nisso, minha amiga. provvel
que tenham pago a terceiros para fazerem o trabalho sujo.
Deve ter havido um com mos bastante fortes para ter estrangulado Mimosa. Que me diz a 
isso?
 - Nada tenho a dizer.Juro.
 - Mimosa fala-me do tmulo e incita-me a agir. "Puxe o
gatilho, meu pcaro! Puxe o gatilho!"  o que ela me diz. Que
sabe acerca disso, Gloria?
 - Nada - respondeu a condessa, aparentemente sem se
deixar impressionar pelas ameaas dele.
 - Diga-me! - repetiu Edmundo. A severidade da voz dele
impressionou-me.
 Gloria olhou-nos. Mas nessa altura reparei no gesto familiar. Levou as mos aos cabelos e 
pareceu erguer-se para se
lanar sobre ns. Ao mesmo tempo, a luz das velas tornou-se
mais intensa e iluminou a sala com fulgor.
 Nesse momento, eu e Edmundo olhmos para trs.
 - Bem, bem, bem. - Edmundo teve a presena de esprito
suficiente para dizer: - Ana de Pombo vem tomar parte na
festa.
 De facto, a estranha mulher de cabelo cor de laranja surgira
de uma porta oculta na parede, agora entreaberta, e ficara
parada, como uma figura muda pintada na parede.
 - Muito bem - disse por fim a frisada modista. - Sejam
bem-vindos  minha ratoeira. Que surpresa encontrar aqui Micke Mouse. No creio que 
Walt Disne... - Calou-se
quando viu o revlver de Edmundo.
 -  melhor sentar-se tambm - disse Edmundo num convite onde transparecia uma ameaa.
 Com um ar majestoso, Gloria levantou-se e dirigiu-se para o
centro da sala, perturbando outra vez a luz das velas e
criando o mximo de suspense. Desta vez, Edmundo pareceu ficar sem nada para dizer. 
Apenas a olhou. Estvamos, com efeito, a
assistir a uma actuao teatral notvel. Gloria mostrava-se
piedosa, generosa, iluminada.
 - Meus amigos - a voz dela era ligeiramente rouca, como
que suplicante. Edmundo e eu espervamos. - Meus amigos,
porque no havemos de trabalhar juntos? Desta maneira poderamos acabar com a guerra. - 
Fez estalar os dedos, embora falasse lentamente. Ana de Pombo mantinha-se silenciosa. 
Agora estavam ambas voltadas para ns. - Quero fazer
um acordo convosco - continuou Gloria. - Ningum sabe
desta visita a no ser Ana e eu. De futuro, ambas trabalharemos para vocs se prometerem 
que no seremos enviadas para a Alemanha quando a guerra acabar.
 - Mas que acordo podemos ns fazer com duas agentes da
Gestapo? - exclamou Edmundo. - Como havemos de confiar em vocs?
 - Posso fazer de si o mais famoso espio aliado da Segunda
Guerra Mundial. Ficar na Histria com as informaes que
eu lhe posso fornecer.
 - Conhece Gamille, Aline? - troou Edmundo. - Bem, o
que estamos agora a presenciar  a condessa Von Firstenberg
num dos seus melhores papis: Camaleo. Bem, diga-nos uma
coisa, minha querida. Acha que somos suficientemente tolos
para acreditar que voc nada diria aos seus amigos alemes?
 - Pense na minha carreira. Eu fui sempre uma vencedora.
Em Guadalajara todos pensavam que eu casaria com um
gordo e rico cultivador de cana-de-acar e que teria filhos
como uma grande porca. Ningum fazia ideia de quem eu era:
nem o meu pai, nem as minhas irms, nem o meu irmo. No
conheciam Gloria Espinosa. A minha me queria dar-me o
mundo. Eu queria as estrelas. E tive-as. - As velas por detrs
dela pareciam piscar, mostrando o seu acordo. - Uma noite,
em Berlim, numa festa. Havia uma dzia de festas todas as
noites, mesmo enquanto as bombas iam caindo. Danvamos, cantvamos, namorvamos e 
vestamos o melhor que tnhamos. Era uma loucura, uma verdadeira loucura. Uma noite,
depois da pera, estava eu numa festa quando vi entrar Schellenberg. Bem, olhei para ele e 
pensei: "Que est o Gar Gooper a fazer aqui? Gar era meu amigo em Hollwood. - Fez
uma pausa para alisar o cabelo.
 - Continue - encorajou Edmundo.
 - Schellenberg viu imediatamente o meu estilo. Todas as
bovinas Frulein de Berlim usavam os vestidos de veludo das
mes, rodos pelas traas, com brocados suFicientes para sufocarem um cavalo. Eu vestia 
um vestido de pura seda branca,
com um diamante ao pescoo, preso por um fio de platina, e, 
claro, havia tambm o meu corpo. Ele agarrou-se a mim como 
um beb. Isso foi o comeo. Um ms depoisjantava com Himmler e at com Hitler.
 - No pare a, condessa. - Edmundo estava visivelmente
entusiasmado.
 Subitamente, percebi que aqueles dois seres deviam estar
num palco. A religio deles era a excitao, o drama, a
intriga.
Nenhum deles tinha escrpulos, e o mesmo sucedia com Ana
de Pombo. Edmundo e Gloria s se viam agora um ao outro,
mergulhados nos respectivos papis. Era como se eu no estivesse ali.
 - Claro que trabalhei para Schellenberg, para Himmler.
Mas hoje em dia eles esto a perder a guerra. Eu fiz apenas
aquilo que foi necessrio para escapar. - Olhou-me e, em seguida, fitou novamente 
Edmundo. - Pensam que tenho as
mos manchadas de sangue? E as vossas? - Ergueu as mos,
de dedos longos e esguios, e perguntou: - Que fiz eu que vocs
no tenham feito? - Saberia ela que eu tinha morto um homem poucos dias antes? - Temos 
estado apenas em equipas
diferentes, nada mais. No percebem isso? Posso ajud-los. 
Quer acreditem em mim quer no, isso  irrelevante. Mas
existe uma razo que talvez vocs entendam. Quero sobreviver
por causa dos meus filhos. Eles so tudo para mim.
 Edmundo observou-a atentamente e depois voltou-se para
mim.
 - Que acha, Aline?
 Eu sabia que, mesmo que no houvesse uma s palavra de
verdade no que Gloria dissera, no havia agora qualquer outra 
sada para ela.
- Que diz, Aline? Damos  nossa estrela uma ltima oportunidade de brilhar?
 - Voc sabe que s Washington poder dar essa autorizao.
 Gloria ouviu e exclamou:
 - Tm de nos proteger, a Ana e a mim! - A mulher de
cabelos cor de cenoura disse que sim com a cabea. - Se a
Gestapo descobre a nossa duplicidade... Na embaixada costuma dizer-se, quando algum 
est a pensar em tornar-se dissidente: "Lembrem-se do caixote com o piano! Wizner 
mandou matar dois dissidentes e embarcou-os, metidos dentro de
um piano. Podem imaginar uma coisa destas?
 Edmundo e eu nem nos olhmos.
 Gloria encolheu os ombros como que para afastar as preocupaes .
 - Podem tirar-nos da vossa lista negra?
 - Se colaborarem connosco, perguntaremos para Washington se isso pode fazer-se - 
respondeu Edmundo.
 Gloria suspirou profundamente.
 - Obrigada, meus amigos. Tomaram uma deciso correcta, da qual nunca se arrependero. 
Cpias de todas estas
mensagens - apontou para as que estavam sobre a mesa - e
de outros telegramas futuros estaro  vossa disposio.
 Edmundo levantou-se.
 - Voc  espantosa.  a prova evidente de que  capaz de
tudo. Considere-se com sorte.
 - O preo da minha sorte  elevado. Acabo de pr de lado
vrios amigos influentes.
 - Conhecendo-a como a conheo, tenho a certeza de que
em breve remediar isso. Pode substituir Schellenberg e Himmler por outros muito 
melhores, como eu, por exemplo.
 - Voc  to inteligente... deve ser o sangue asteca que nos
une.

 Eram duas horas da madrugada quando Edmundo e eu comemos a caminhar pelas ruas 
desertas, em direco a minha
casa. As estrelas pareciam piscar l em cima, felizes, e a
gua da fonte acompanhava-nos com o seu murmurar.
 - Conseguimos - disse Edmundo. - Descobrimos uma
das melhores espias de Himmler. Oh, tenho orgulho em ns. - Voltou-se para mim. - Quero 
que saiba, Aline, que
nenhum de ns poderia ter feito isto sozinho. De maneira nenhuma.
 Poderia Gloria ser a agente especial de Himmler? Aquela a
que se referia a Operao Tourada? De qualquer modo, parecia-me que o trabalho que ela 
fazia no podia ter essa importncia, mas no me atrevia a confiar os meus pensamentos a 
Edmundo. Este deu-me o brao.
 - Pense bem nisto, querida. Agora temos algo com que trabalhar. Lazaar continua, sem 
dvida alguma, a ser suspeito. 
No confio em Gloria, mas a pouco e pouco poderemos obter
dela mais informaes.
 Seguimos em silncio durante um bocado. No meu crebro 
surgiam grandes interrogaes. Pierre conheceria bem Gloria? 
Estaria ela envolvida na tentativa de me assassinarem? Um
certo pressentimento levou-me a no falar a Edmundo a respeito de Francisco.
 Um vulto solitrio aproximava-se de ns vindo da Plaza de
Coln. Levei um momento para me aperceber de quem se tratava. Trazia a roupa rasgada e 
cambaleava.
 -Jos! - exclamou Edmundo, correndo para ele para o
amparar. Mas Jos endireitou-se repentinamente, sozinho,
como se quisesse esquecer os seus ferimentos.
 - Senhor, senhorita, esta noite sou um homem livre - disse
com voz grave. O sangue ensopava-lhe os cabelos espessos e
manchava-lhe o rosto enrugado. - Vinguei a minha filha. Era
o homem que estava ali. - E apontou para o prdio de onde
acabara de sair.
 - Que homem? - perguntmos ao mesmo tempo.
 - O homem que trabalha com o rdio... o homem que trabalha com essa... senhora. Foi 
assim que eu descobri esta
casa.
 Edmundo voltou-se para mim.
 - Foi Jos que descobriu a estao de rdio.
 - Segui o homem sempre que ele entrava e saa do apartamento onde vivia,  esquina da 
Embaixada alem. Depois daquela noite no Villa Rosa (quando o porco violou a minha
filha) comecei a ir l, noite aps noite. Foram precisas
trinta noites para ele l voltar. Quando isso sucedeu, o empregado do bar apontou-mo. Foi 
nessa altura que comecei a segui-lo. Enquanto estava  sua espera esta noite, Don 
Edmundo, vi-o sair daquele edifcio. O sangue comeou a ferver-me. No pude resistir a 
segui-lo pelas ruas, at ficarmos ss. Quando passmos por uma ruela escura, tratei dele  
moda dos ciganos.
 Vi Edmundo engolir em seco.
 - O que significa " moda dos ciganos"? - perguntei.
 Jos Heredia hesitou.
 - No so palavras para os ouvidos da senhorita. Mas estou
vingado.
 -Jos, voc est bastante ferido. Deixe-me ajud-lo - disse eu.
 - No. Estes ferimentos so o meu orgulho. H muito
tempo que no me sentia to feliz como nesta noite.
 - Fez um trabalho muito vlido para ns, Jos. Estamos-lhe gratos.
 O cigano inclinou a cabea.
 - Vaa com Dios, senhores.
 Quando ele se afastou, perguntei a Edmundo:
 - O que quer dizer " moda dos ciganos"?
 - Quer mesmo saber?
 Disse que sim com a cabea, insistentemente.
 - Quer dizer que ele cortou os testculos ao homem - respondeu.

 Mozart ficou obviamente satisfeito quando eu lhe contei da
descoberta do transmissor em casa da modista. Inclinou-se
para a frente entusiasticamente, e os seus grandes braos quase tocaram no cho.
 - Bom trabalho! Era a estao que procurvamos.  to
potente que alcana Tquio. Diga a Top Hat que o felicito
tambm.
 - E que diz de a condessa trabalhar para ns? A noite passada concordmos mais ou menos 
com isso.
 - Ela pode ser-nos til, no h dvida. Hoje em dia, as
dissidncias so frequentes. Em Inglaterra o OSS est a utilizar muitos agentes alemes, 
que nos ajudam a transmitir informaes falsas para Berlim. Essa modista tambm nos 
pode vir a ser til. Mas teremos de obter a aprovao de Shepardson e do prprio Donovan.
 - Pensa que Gloria e Ana de Pombo podero ajudar-nos a
descobrir o traidor?
 Mozart fez uma careta. Eu tinha tocado num ponto sensvel.
No entanto, a reaco dele fora quase imperceptvel. Quando 
respondeu, o seu tom de voz era calmo e no deixava transparecer qualquer emoo.
 - No se preocupe com isso. Temos o problema sob controlo.
 A resposta dele aborreceu-me. Mimosa e Lilienthal tinham
obtido informaes coincidentes - havia um agente duplo no
servio secreto americano em Espanha. Tinha de ser algum
que eu conhecia. Se Mozart tivesse suficiente confiana em
mim para me dizer de quem se tratava, eu poderia proteger-me melhor. A no ser... que 
fosse o prprio Mozart.
 - Serei eu o contacto com a condessa?
 - No. - Desta vez a resposta foi rpida. - No aprovo
que as mulheres trabalhem umas com as outras, a no ser que
seja absolutamente necessrio.
 Aquilo no fazia sentido. No recebera eu ordens para dar
asilo a mulheres na minha casa e para formar uma cadeia com
elas? Quando sa do gabinete de Mozart desconfiava outra vez
de toda a gente e, apesar do telegrama de Spider, acima de
tudo suspeitava de Mozart.



Captulo 28

 Eram 23 horas do dia 1 de Julho. Tinham-se passado dois
dias sobre a partida de Pierre. Estava sentada em frente do
toucador, a escovar o cabelo e a pensar como um lanamento
de pra-quedistas sobre Frana era perigoso naquela fase da
guerra. Os alemes possuam holofotes potentes para iluminarem os cus, colocados ao 
longo de toda a costa. A noite,
ali, estava quente e estranhamente silenciosa, como antes de um temporal. A luz suave do 
luar entrava-me pela janela. Pensei se Pierre, em Argel, estaria a ver o mesmo cu. O 
telefone tocou. Ia para dizer "Edmundo, seu pcaro!", mas calei-me a tempo. Era a voz de 
Mozart.
 - Pode vir imediatamente ao escritrio?
 - Com certeza.
 Vinte minutos mais tarde subia as escadas estreitas que conduziam ao ltimo andar. Os 
meus saltos faziam rudo nos corredores desertos: clique, clique, clique. No txi pensara: 
"A estas horas est toda a gente a danar ou a jantar, e Pierre pode estar no avio sobre o 
Mediterrneo. O meu instinto dizia-me que seria nessa noite.
 A porta estava trancada. Mozart abriu-a. No disse uma
nica palavra. Passmos por vrios gabinetes s escuras e chegmos, por fim,  sala das 
transmisses, onde Jimmie, um dos operadores de rdio, estava sentado junto do aparelho.
 - Sente-se, Tiger.
 Na altura em que o chefe acabou de fechar a porta da sala
fracamente iluminada, o meu pressentimento transformara-se
em certeza.
 - Pierre ser lanado dentro de trinta minutos - anunciou
Mozart com os pequenos olhos fitos no relgio de parede. - Achei que voc devia ser a 
primeira a saber o que se passa. 
A sorte da Operao Anvil depende de ele no ser apanhado. 
- Observei o lento avano do ponteiro dos minutos; o meu
corao parecia segui-lo. A voz de Mozart era mais baixa do
que nunca. - Se Pierre aterrar sem problemas, Jimmie ouvir
o sinal dele cerca de dez minutos depois. Se nada se ouvir, ele pode ter sido morto ao 
descer ou apanhado numa emboscada 
ao chegar.
Eu sabia que cada agente tinha a sua prpria maneira de 
trabalhar com o transmissor e podia ser reconhecido pela escuta, como a voz de qualquer 
pessoa ao telefone. Muitas vezes, isso ajudava-nos a perceber quando um dos nossos 
agentes era capturado e um impostor emitia mensagens fazendo-se passar por ele.
 A sala fechada, onde no chegava qualquer rudo de vida,
era como um tmulo. Continuei a olhar para o relgio e a dizer
a mim prpria que no tinha nada a recear. Tinham decorrido
apenas cinco minutos. Teriam de passar mais vinte e cinco. 
E depois mais dez, at que Pierre pudesse fazer contacto pelo
rdio.
 Eu seguia com ele no avio. Ouvia o seu rudo, l no alto, 
sobre o Mediterrneo, e via a regio sul da Frana. Lembrei-me da viagem de comboio, ao 
lado de Pierre, a caminho de
Nova Iorque, quando eu sentira a presena dele como uma 
corrente elctrica. Passaram-me pela cabea os momentos em
que danara com ele no El Morocco. Quinze minutos. Olhei
para o transmissor como se o seu equipamento pudesse falar.
As suas alavancas e comutadores estavam mudos. Surpreendia-me por os outros no 
ouvirem as pancadas do meu corao.
 O relgio deu as doze badaladas da meia-noite. Pierre estaria em posio, com o pra-
quedas posto, junto da porta do 
avio. Dez minutos.
 Olhmos os trs para o relgio. O silncio era to intenso
que me tornava mais ansiosa. Esforcei-me por me manter serena. Vi Pierre a saltar no 
espao. Era uma eternidade. Trs minutos. Dois minutos. Um minuto. Ningum 
pronunciou uma
palavra. Imaginei os maquis a iluminarem a rea com as suas 
lanternas, vi Pierre a cair e a correr para o matagal, para se
esconder at o avio passar e deixar cair a sua carga. Os homens da Resistncia iriam ento 
ajudar Pierre a livrar-se do pra-quedas vermelho e verde. Podia ver Pierre a dobr-lo e
outro a enterr-lo onde no pudesse ser encontrado. Seguir-se-ia a instalao do pequeno 
transmissor. A qualquer momento Jimmie poderia voltar-se para ns, fazer um aceno 
afirmativo com a cabea e sorrir. A espera recomeou.
 Os minutos foram-se passando lentamente. Como era estranho que o silncio pudesse ter 
tanto significado... Mentalmente ordenava ao transmissor que emitisse um sinal. Desejava 
com todas as minhas foras que Pierre estivesse em segurana. Dez minutos. Doze. Quinze. 
Vinte. Vinte e cinco minutos.Jimmie manejava o aparelho, tentando estabelecer contacto, 
mas ns percebamos bem que do outro lado nada estava a ser transmitido. Mozart estava 
muito nervoso. Andava
para trs e para diante, desde a secretria at  mesa que se
encontrava a um canto. Finalmente disse:
 - Comprei champanhe para o caso de termos de festejar.
- Mas a voz dele soava a desnimo. - Querem um pouco de
xerez? Jimmie? Tiger?
 Engoli em seco. Pierre fora apanhado, talvez morto durante
a descida. Algo correra mal.
 O chefe encheu trs copos. "V, Pierre , pedi mentalmente.
"Ainda no  demasiado tarde. Pode contactar connosco. Por
favor, Pierre. O chefe entregou-me o copo.
 Erguendo o dele, props o brinde mais triste que eu j ouvira.
 - A Pierre - e bebeu.
 - A Pierre - repetiu Jimmie.
 Bebi em silncio.
 - Parece que a fase dois falhou. Temos de arranjar outra
maneira, e depressa - resmungou Mozart.
 Enquanto ele falava comemos a ouvir um rudo vindo do
aparelho de Jimmie. Primeiro fracamente, depois mais forte:
tat-tat-tat.
 -  ele! - gritou Jimmie. - Conseguiu, afinal!
 Deixei-me cair numa cadeira, totalmente exausta. Mozart
parecia ter endoidecido, partindo o copo de xerez e espalhando
os pedaos pelo cho, erguendo a garrafa de champanhe no ar
e gritando:
 - Voc conseguiu, Tiger! Resultou! Anvil ir ser um sucesso!
 No percebi, mas sentia-me feliz de mais para me importar com isso. Lembrava-me de 
Pierre nesse dia glorioso de Outono
em que ambos tnhamos caminhado por Central Park. Eu
apaixonara-me nessa altura por ele - ou talvez mais cedo -,
nos primeiros momentos em que olhara para os seus olhos escuros e insondveis.
 Ele estava vivo!

 Domingo. O telefonema era urgente. O mozo de espadas de
Belmonte falava da Clnica dos Toureiros, em Madrid. A voz
do homem gelou-me.
 - Senhorita, Don Juan foi colhido esta tarde. - Eu tinha
estado a trabalhar na sala de cdigos e no pudera ir a outra
das corridas de Belmonte. Os soluos tornavam difcil compreender o que o homem dizia. - 
Foi operado pelo doutor
Tamananes... e est ainda inconsciente. - O homem chorava
agora abertamente.
 -  muito grave? - perguntei, horrorizada, receando ouvir
dizer que Juanito estava a morrer. Visto que o homem no foi
capaz de me responder, desliguei. Cinco minutos depois saa
de casa a correr.
 Com boas razes esperara que houvesse uma multidojunto
do hospital, mas no estava preparada para aquele pandemnio. No s se viam ali 
jornalistas e reprteres, como amigos
e admiradores de Juanito que tinham invadido os corredores do
hospital, apesar dos protestos de guardas, mdicos e enfermeiros. O quarto estava 
protegido por um cordo de guardas, mas o homem que me telefonara encontrava-se  
porta, ainda envergando o seu traje de cetim colorido de bandarilheiro.
Quando me viu fez-me passar por entre a multido e conduziu-me ao quarto.
 A me de Belmonte, Donha Consuelo, era surpreendentemente bonita, como Juanito me 
dissera. Grandes olhos castanhos, um rosto de um oval perfeito, cabelo preto preso
atrs, na nuca - como as mulheres dos quadros de Romero de
Torres.
 - Gracias por ter vindo, Aline. Juanito tem estado a perguntar por si desde que saiu da sala 
de operaes. Est ainda tonto, mas gracias a Dos o ferimento dele no  to grave como 
julgvamos.
 Olhei para Juanito, impressionada. A dor e a perda de sangue tinham-lhe tirado as cores e 
ele parecia uma criana ferida. Segurei-lhe numa mo. Ele levou algum tempo para 
conseguir olhar-me, pois estava ainda sob o efeito da anestesia e
do choque. Vi que tentava falar. Atravs da janela aberta, as luzes da cidade brilhavam 
sugestivamente nessa quente noite de
Vero.
 - Aline - fez um gesto com a mo e uma careta de dor ao
tentar mudar de posio. - Quer uns chocolates? - Sobre a
mesa de cabeceira via-se uma caixa dos nossos chocolates preferidos, embrulhada em papel 
cor-de-rosa. Sorri e abanei a cabea.
 - Bem, nesse caso importa-se de me dar um? Para lhe dizer
a verdade, desde que voltei a mim que me apetece comer um
chocolate.
 Escolhi um pedao de chocolate e fui-lho dando, segurando-o enquanto ele comia, aos 
bocadinhos, com dificuldade.
Quem poderia entender os espanhis? Eram crianas, espontneos, apaixonados, crianas 
indisciplinadas. Sabia que no podia pr em causa a lgica de Juanito ou deixar de 
satisfazer o seu pedido inofensivo.
 - Posso beber um pouco de gua?
 Deitei gua de um jarro que havia sobre a mesa para um
copo e ele bebeu pequenos goles, por uma palha.
 - Chocolates e gua. De que mais precisa um homem? De
touros no, certamente. Quer ser a minha Florence Nightenberg?
 - Nightenberg? - Ri. - Claro que serei.
 Quando por fim me preparei para sair do hospital, ia mais
despreocupada. Os mdicos tinham visto que no tinham sido
atingidas quaisquer artrias principais e afirmaram que dentro
de duas semanas ele estaria bom. Para mim isso era incrvel,
mas Juan explicou-me que os ferimentos feitos pelos chifres
dos touros raramente infectavam e cicatrizavam mais depressa
do que os outros, porque o touro ia com tanta velocidade que
era como fogo. A explicao no me convenceu, mas sabia que
ele voltaria  arena logo que pudesse andar, porque estava-se
no auge da temporada e ele perdia uma fortuna de cada vez
que deixava de comparecer a uma tourada.
 Quando sa, trs homens sentados num dos lados do hospital despertaram a minha ateno; 
ou talvez fosse o fumo do forte
tabaco preto que eles fumavam. Um dos rostos iluminados pela
luz do candeeiro pareceu-me familiar. Depois, o vulto baixo e
corpulento de outro e o fato que trazia vestido fizeram-me
tambm lembrar qualquer coisa. Sim, decididamente. Fiquei imvel por instantes, enquanto 
as pessoas subiam e desciam as escadas do hospital. Lembrei-me ento que um dos homens 
era o que entrara no comboio na estao de Atocha quando eu fora a Mlaga, meses antes. 
Agora nada me impediria de descobrir quem ele era. E o outro... ia apostar que o vira 
muitas vezes em frente da minha porta na Calle Monte Esquina.
 Dirigi-me para eles, apontando para o homem que se encontrava no meio do grupo. 
 - No o vi no comboio para Mlaga, h algum tempo?
 Um sorriso afvel iluminou o seu rosto.
 - S, senhorita.
 - Quem  voc? - A minha voz nada tinha de amigvel.
 - Mas, senhorita, no nos conhece! Ns trabalhamos para
Don Juan e temo-la visto muitas vezes.
 Continuava a no compreender. Que trabalho fariam para
Juanito e por que motivo me conheciam to bem?
 Voltei-me para o outro.
 - E julgo t-lo visto diante da minha casa uma ou duas
vezes.
 - No foi uma vez ou duas, senhorita - respondeu ele respeitosamente. - Quase todas as 
noites. Bem, s vezes trocvamos, mas fui quase sempre eu.
 - Mas por que motivo estava em frente da minha casa?
 - Don Juan queria que protegssemos a senhorita e que vssemos com quem saa, para que 
nenhum mal lhe sucedesse.
 Levei as mos  cabea, incrdula. Como  que eu pudera
esquecer o facto de que Juan era suficientemente ciumento
para mandar seguir-me?
 Subitamente agarrei o brao do homem baixo e corpulento.
 - Visto que Don Juan queria que me protegessem, por
que motivo no viram um homem entrar no meu quarto em
Mlaga?
 - Senhorita, eu s soube disso no dia seguinte.
 - Mas onde estava voc quando isso sucedeu?  bom que
mo diga - avisei. - Posso informar Don Juan de que me
protegeu mal.
- Senhorita, vou contar-lhe o que sei, que no  muito. -
Coou nervosamente a cabea e eu pensei se ele iria dizer-me a
verdade. - O problema foi uma bela rapariga cigana que eu
conheo em Mlaga. Ela dana num bar perto do Clube Nutico, e quando eu vi que a 
senhorita se encontrava em segurana
no seu hotel fui para l durante o resto da noite. Ela  uma
boa bailarina.
 - Mas no soube que o meu quarto foi revistado? Toda a
gente no hotel parecia sab-lo quando eu desci, na manh seguinte.
 - Sim, ouvi dizer isso. E lamento. Mas no sei quem poder ter feito uma coisa to pouco 
cavalheiresca.
 - Viu o alemo com o monculo enquanto l esteve?
 - Sim, senhorita. Ele estava no mesmo bar que eu nessa
noite.
 Ento fora Lazaar. S se ele tivesse contratado um mercenrio para o fazer.
 - Bem, no me sigam mais. No percebem? Foi grande
amabilidade de Don Juan querer proteger-me, mas no  necessrio. Falarei com ele a este 
respeito, mas quero que parem imediatamente.
 - Oh, no h problema, senhorita. Quando voltmos da
Costa Brava dissemos a Don Juan que o trabalho era perigoso
de mais. Quase nos amos matando nessa viagem. E a senhorita
no devia arriscar-se daquela maneira, a correr com tanta
velocidade no txi. - Os trs homens abanaram a cabea ao
mesmo tempo.
 Foi-me impossvel no soltar uma gargalhada.
 - Ento foram vocs trs que me seguiram naquele dia?
 - S, senhorita. Dissemos a Don Juan que seria menos perigoso voltarmos para o nosso 
trabalho de peones, na arena.
 Quando me dirigi para o txi que me esperava, ia ainda a
sorrir. Reflectia sobre a altura em que os homens de ,Juan
teriam comeado a seguir-me. E eu que sempre pensara que
eram os homens de Lazaar. Apesar de saber que outros me
tinham seguido, no tinha qualquer inteno de confessar a
Mozart a minha estupidez.



Captulo 29

 Tinha nas mos o jornal ABC de 22 de Julho com os sinistros pormenores sobre a 
conspirao abortada do coronel
Klaus von StaufTenberg contra Hitler. Como retaliao, o Fohrer mandara prender um 
certo nmero de oficiais do exrcito e dera ordens para que fossem filmados enquanto iam 
sendo lentamente estrangulados, suspensos de ganchos onde  costume
pendurar as reses que vm do matadouro. O famoso padrinho
de Constantin von Weiderstock, Wilhelm Canaris, encontrava-se preso e teria 
provavelmente um destino semelhante num 
futuro prximo.
 - Que horrveis atrocidades. Agora comeam a aniquilar-se a si prprios. Est-me a ouvir, 
Edmundo:'
 Nesse dia houvera menos que fazer no escritrio e eu aproveitara isso para me encontrar 
com o meu colega na esplanada de um caf quase deserto, nessa tarde quente. As pessoas 
que ali se encontravam observavam indolentemente quem passava. Edmundo bebia 
lentamente um copo de xerez. Havia
inmeros jornais espalhados sobre a pequena mesa. Eu decidira aproveitar todas as 
oportunidades para observar Top Hat. Mozart designara-o como contacto com Gloria e 
agora os 
sobrescritos que eu levava para o escritrio iam fechados. Edmundo j no sugeria que eu 
os lesse. Continuava a suspeitar
tanto de Edmundo como de Mozart. O facto de a Operao
Anvil, que devia ter comeado h um ms, ainda no se ter
dado aumentava ainda mais a minha preocupao.
 - Aline - disse languidamente Edmundo -, pode ser que
pea a Ratibor que case comigo.
 - Como  que pode fazer isso, Edmundo? 
ps Ratibor na lista negra e agora quer casar com ela? Para isso teria de se demitir do 
servio, pois Washington nunca autorizaria esse casamento.
 - Minha querida, pergunto-lhe se um homem no deve
obedecer ao seu corao. E, francamente, o que  ainda mais
importante, pergunto-lhe: o que vale mais, a espionagem ou
um ttulo? Um rei no abdicou j do trono por causa de uma
mulher? Bem, que hei-de eu fazer? Eu, Edmundo Lassalle
como humilde suplicante, inclino-me diante do tribunal do
amor. Alm disso, preciso de fazer alguma coisa. Ando aborrecido. Preciso de algo que me 
anime.
 - Experimente beber outro xerez.
 - Muito engraado... No seja impertinente.
 - Edmundo, est a falar a srio? Est de facto apaixonado
pela Ratibor?
 - Aline, pense no meu futuro. Que me espera depois de a
guerra acabar? Pode imaginar-me sentado a uma secretria a
remexer em papis nalguma empresa americana? Consultor
da General Motors, talvez, com mulher e dois filhos em Cross
Fointe?  assim que v o destino de Edmundo Lassalle? Ou
quer ver-me prisioneiro do Pentgono, trabalhando para o
exrcito? No, minha querida, lembre-se: Edmundo Lassalle.
No danou em vo. Como marido da Ratibor (consorte, se
preferir), o mundo da alta sociedade  meu. Viveremos entre a
cidade do Mxico, Nova Iorque, Paris, Deauville, a Riviera
italiana. - Soltou um longo suspiro. - Digo-lhe que preciso
de fazer alguma coisa. Estou terrivelmente aborrecido. Esta
guerra tem perdido ultimamente toda a excitao. No acontece nada de especial. H muito 
tempo que ningum  assassinado. At j me aborreo ao inventar os relatrios que lhe 
entrego. A minha imaginao est seca como uma ameixa.
 Olhei-o.
 - Como  que  possvel que estando a trabalhar com a
devastadora condessa no tenha informaes excitantes para
fornecer a Washington?
 Edmundo passava a mo pelo bigode e sorria.
 - Ela evita-me o mais possvel. Cada vez confio menos
nela. Mas fao um valente esforo para manter aqueles tipos
de Washington interessados. Devem ficar encantados quando
recebem uma das deliciosas produes literrias de Top Hat.
 Temos de os divertir, minha querida. Voc sabe disso to
bem como eu. Afinal, eles so os nossos patres.
- Edmundo! - exclamei, abanando a cabea. - Se Mozart soubesse!
 - Minha querida, minha estimada discpula, que um dia
certamente se juntar ao seu mestre na galxia dos espies
imortais, digo-lhe do fundo do corao: no dia do Juzo Final 
ns no teremos de prestar contas a Mozart. Eu s tenciono
prestar contas a... Vnus.
 Ergui os olhos ao cu e depois fixei novamente a minha ateno no jornal. Um momento 
depois sobressaltei-me ao ouvir
Edmundo mencionar a pessoa em quem eu estava a pensar.
 - Sabia, minha querida, que aquela personagem interessante com quem voc danou no 
clube teve um longo romance
com Gloria? Provavelmente poderiam-se considerar amantes
condenados. No acredito em metade das coisas que a condessa conta a respeito dele, 
porque a minha princesa me disse que
os viu a danar em Berlim.
 - Em Berlim? - perguntei, surpreendida. - Quando?
 - Na vspera de Ano Novo do ano passado, para ser
exacto. Quando eu a encontrei. Lembra-se?
 - Em Berlim? - repeti. - H poucos meses? - Senti-me
toda arrepiada.
 Edmundo continuava a falar:
 - Pode ter a certeza de que o romance entre eles durou
alguns anos. Voc parece nem estar a ouvir-me, Aline. Faa
Favor de me tratar com decoro. Lembre-se da minha princesa.
 Deixei Edmundo quase sem me despedir dele e corri para o
escritrio. Ou Edmundo e a sua princesa eram mentirosos, ou
aquilo que eu ouvira abria perspectivas terrveis. Walters j
tinha sado, felizmente, e eu estava sozinha para poder enviar
o telegrama a Jupiter. A minha pressa era tal que fui ordenando as palavras  medida que as 
ia pondo em cdigo. 

DE TIGER PARA JUPITER FASE DOIS EM PERIGO STOP MOZART RECUSA
DAR IMPORTNCIA A BOATO DE AGENTE DUPLO STOP TOP HAT INFORMA 
PRINcESA RATIBOR VIU PIERRE COM FiRSTENBERG EM BERLIM PRIMEIRO DE 
JANEIRO DESTE ANO STOP COMEO INVEsTIGAO
RELATIVA RELACIONAMENTO ENTRE PIERRE E FiRSTENBERG STOP
POR FAVOR AcONSELHE DE TIGER PARA JUPITER.

 Paco Alagas prometeu-me enviar algum  estao do Escorial para me levar  priso 
para visitar Pilar.
- No consigo compreender como  que uma rapariga simptica como voc faz um esforo 
para ver algum como essa
mulher, uma comunista que conspira contra o Governo - dissera Paco. - No entanto, no 
nosso pas, ns fazemos tudo o
que podemos por um amigo. Faa boa viagem e diga-me alguma coisa quando voltar.
 Quando chegmos ao sop das montanhas de Guadarrama
o vento que entrava pelas janelas era refrescante apesar do
calor seco deJulho. Em vez de observar a paisagem bonita e os
belos arbustos de retama cheios de flores amarelas, os grandes
carvalhos e os enormes rochedos, passei em revista, mentalmente, as perguntas que queria 
fazer a Pilar.
 Uma mulher polcia conduziu-me para o gabinete da
guarda, que fora deixado propositadamente vazio. Alguns minutos depois apareceu Pilar, 
com o mesmo aspecto de sempre.
O uniforme da priso no era pior do que aquilo que ela habitualmente vestia quando ia ao 
meu apartamento. Mostrou-se
entusiasmada.
 - Veio aqui para me levar, senhorita? - perguntou. - Eu
sabia que poderia faz-lo.
 Mesmo depois de eu lhe dizer que isso era impossvel, ela
continuou a insistir que se eu quisesse a libertaria.
 - No compreende, senhorita. Deve insistir. Agora que vocs esto a ganhar a guerra estes 
malditos fascistas ho-de
querer fazer tudo para lhes agradar. Eu preciso de sair daqui.
A guerra em breve estar terminada e eu devo organizar as
minhas mulheres para dizer s nossas compatriotas na Frana,
no Mxico e na Rssia que nos enviem dinheiro para derrubarmos este porco gordo.
 -  por isso mesmo que eles no a pem em liberdade -
respondi. - Sabem que voc continuar a tentar derrubar o
Governo.
 Dei a Pilar a caixa com as coisas que Cecilia preparara e
alguns livros. Os seus olhos mopes pestanejaram por detrs
das espessas lentes.
 - A senhorita  muito amvel. Que pena eu no a poder
estar a ajudar neste momento.
 - Talvez possa, Pilar. Recorda-se de alguma das suas informadoras ter visto um homem 
novo e atraente com a condessa? - Descrevi Pierre o mais objectivamente que me foi
possvel.
- Sim. No meu ltimo relatrio (que nunca lhe pude entregar, porque fui presa) eu falava 
nesse homem. Ele esteve
vrias vezes com ela nessa semana e eu sempre suspeitei que foi ele quem me denunciou  
polcia. Uma noite, Mister Lazaar teve uma discusso com ele em frente do hotel.
 - Sabe o nome dele, Pilar?
 - Era um nome estrangeiro e eu esqueci-me dele.
 Foram as informaes que pude obter dela, mas isso foi apenas um comeo. Pierre estava 
apaixonado por Gloria e mentira-me. Trabalharia tambm com ela?
 A Operao Anvil podia comear a qualquer momento. No
podia perder tempo a chegar ao fundo da questo, para obter
respostas de inteira confiana. Suspeitaria dalguma daquelas 
coisas? Ou seria ele o agente duplo que controlava tais situaes? Para quem me havia de 
voltar? Fosse quem fosse o traidor, havia de estar mais interessado em eliminar-me se 
soubesse o que eu havia descoberto. Nunca me sentira tanto em perigo como agora.

 Telefonei  condessa e pedi-lhe para se encontrar comigo no
grande vestbulo do Hotel Ritz, onde as damas espanholas se
encontravam para beberem uma copita antes do almoo e
onde daramos a impresso de estar a conversar sobre frivolidades - festas ou passagens de 
modelos.
 Gloria estava especialmente bem vestida para o seu novo
papel de agente duplo. Todas as mulheres se voltaram quando
ela entrou e depois comearam a cochichar umas com as outras, certamente a comentar o 
seu fato de saia e casaco de
linho preto e vermelho, o pequeno chapu da mesma cor, os sapatos a condizer. At o 
papagaio de brilhantes se encontrava no seu lugar, na lapela, quando ela se sentou na vasta 
cadeira de braos, na minha frente.
 - Tenho um presente para si. - Abriu a carteira e tirou de
l uma caixa grande. - Perfume vindo de Paris, cortesia da
Embaixada alem e enviado, atravs de Berlim, pela Lufthansa, para Barcelona e Madrid. 
Espero que goste de Chanel Nmero Cinco.
 Agradeci-lhe e depois disse-lhe:
 - Gloria, pediram-me para obter informaes acerca do
seu amigo Francisco. Pode dizer-me o seu nome completo?
- Para lhe dizer a verdade, sei muito pouco a respeito dele.
Conhecemo-nos em Paris h dois anos. Ele usava um ttulo
extico, Conde de la Perla, embora eu sempre tivesse suspeitado de que era falso. Francisco 
gosta de impressionar as pessoas. Era to atraente, em Paris, em mil novecentos e quarenta 
e dois! Passmos dez dias gloriosos. Depois ele desapareceu. E  tudo quanto lhe posso 
contar.
 - Mas que esteve ele a fazer em Madrid?
 - Tambm gostaria de saber! Sei que ele est desesperadamente apaixonado por mim, 
porque me perseguiu por toda a
cidade quando chegou.
 - E quando foi?
 Ela levou  cara um dedo com uma comprida unha pintada
de vermelho.
 - Ora deixe-me ver. Sim, deve ter sido no princpio de
Maio.
 Ela estava a mentir - ele aparecera no meu quarto antes
disso -, mas fingi acreditar.
 - Ele trabalhava consigo para a Gestapo?
 - Claro que no. Ele odeia os nazis.
 - Mas tenho uma informadora de confiana que me revelou que ele foi visto a danar 
consigo, em Berlim, na
vspera de Ano Novo.
 - Isso  mentira. Eu estava em Berlim nessa altura, mas
nunca l vi Francisco.
 - Que fazia Francisco?
 - Possua uma fbrica perto de Nice. No sei de que
gnero, mas ele ia frequentemente a Paris em viagens de negcios.
 - Negociava com os alemes em Paris?
 - No sei. Ele tinha dificuldades financeiras, mas creio que
agora esto ultrapassadas. - Fez uma pausa. - Com efeito,
acontece que tenho aqui um bilhete que ele me enviou h algumas semanas. Que 
coincidncia.
 Gloria abriu a mala e tirou de l uma folha de papel amarrotado, com o cabealho do 
Palace Hotel.
 Li: "Gloria, guapa, tenho de partir inesperadamente -
s quero que saiba que em breve lhe pagarei. Dentro em
breve serei um homem livre e estarei em posio de lhe
oferecer os luxos que desejar. No faa perder muitas cabeas entretanto. F." A assinatura 
era igual  do bilhete que acompanhara as minhas rosas e a caligrafia parecia-me a
mesma tambm.
 Gloria explicou:
 - Ele veio aqui para receber uma grande quantia de dinheiro que estava a ter dificuldade 
em conseguir que lhe pagassem. E entretanto eu ajudei-o, emprestando-lhe algumas
pesetas.
 E por mais que tentasse no me foi possvel obter mais
informaes de Gloria. Quando samos do hotel, cada uma no seu
txi, ela entregou-me um sobrescrito.
 - Talvez esta informao acerca da ltima instalao antiarea alem no Sul de Frana lhes 
possa ser til. No nos
devemos encontrar muitas vezes. Lazaar poder desconfiar.
 Enquanto o txi contornava a Plaza de Neptuno e voltava 
em direco  Avenida Alfonso XII, para a casa das irms
 vilas, eu pensava em quem poderia fornecer-me mais informaes a respeito de Pierre. 
Jos vigiara a casa de Ana de Pombo durante a estada de Pierre em Madrid, mas eu teria de
esperar. Percorrera Madrid durante trs dias e no o conseguira encontrar em parte alguma. 
Pelo menos uma coisa era
certa: Pierre tinha um caso amoroso com Gloria. Portanto, o
namoro que me fizera tivera algum propsito.



Captulo 30

 Com a sua indomvel fora de vontade, Belmonte recomps-se mais rapidamente do que 
seria de esperar e os seus progressos dirios recebiam tanta cobertura da parte da imprensa
como o Dia D. O ferimento da arena fora noticiado em vrias
verses e em pormenor - a profundidade da ferida, que msculos e tecidos tinham sido 
lacerados, quanto ele teria
sangrado, e os prognsticos de vrios mdicos eminentes, assim como a lista de 
personalidades que tinham ido visitar Juanito ao hospital.
 Depois sucedeu algo que fez com que at Juan Belmonte
perdesse as honras de primeira pgina nos jornais. Isso sucedeu antes de eu receber uma 
resposta de Jupiter e antes de
conseguir falar com Heredia, que eu pusera a seguir Gloria,
Lazaar e at Mozart. Para mim, pareceram-me, na altura, as
notcias mais desencorajadoras de toda a minha vida.
 Ao sair de casa na manh de 15 de Agosto, ouvi o rdio da
portera anunciar: "Noventa e quatro mil soldados aliados
esto a desembarcar perto de uma aldeia piscatria chamada
Saint-Tropez. Nem podia acreditar no que estava a ouvir.
Saint-Tropez ficava perto de Cannes, longe de Marselha,
contrariando a informao que eu transmitira a Pierre. Corri
para o escritrio. Toda a gente estava exultante. Jimmie contactava pela rdio com o nosso 
agente transmissor OSS.
O VI Gorpo, do general Truscott, fora o primeiro a desembarcar, seguido pelas tropas 
francesas comandadas pelo general de Lattre de Tassign. O Stimo Exrcito dos EU, 
comandado pelo general Alexander Patch, completava o grupo. Apesar de alguma 
resistncia, os alemes tinham sido
apanhados de surpresa e no houvera combates to aniquiladores como os travados na 
Normandia ms e meio antes.
A Operao Anvil era um xito.
 Ningum podia perceber por que motivo eu no celebrava.
Ningum - a no ser Mozart. Chamou-me ao seu gabinete.
 No podia esperar pelas explicaes dele. Sentia-me indignada, magoada - a espionagem 
acabara para mim.
 - Porque no depositou confiana em mim? Porque  que
no me considerou de confiana, para poder transmitir falsas
informaes a Pierre?
 Agora percebia tudo. O traidor era Pierre e os meus chefes
sabiam que, fornecendo-lhe falsas informaes acerca do local
do desembarque, ele as transmitiria aos alemes, que procederiam de acordo com elas.
 - No leve isso tanto a srio, Aline - disse Mozart. -
O xito desta invaso  tambm seu. Se voc no tivesse feito
to bem o seu trabalho, podamos estar hoje a contar baixas,
em vez de termos esta vitria.
 Permaneci imvel, abanando a cabea. Por mais coisas que
ele dissesse, nada me conformaria com a falta de confiana que
ele mostrara ter em mim.
 Mozart pareceu ler os meus pensamentos.
 - Fizemos isto desta maneira apenas por uma razo: para a 
proteger. Pierre mat-la-ia se tivesse a mais ligeira suspeita
de que voc sabia que ele era um agente duplo. E ele teria percebido mesmo sem voc lho 
dizer. E quanto ao verdadeiro local do desembarque, ningum, incluindo muitos generais 
envolvidos neste esforo da guerra, incluindo o chefe do OSS em Londres, poderia 
conhecer o local ou a data exacta. Foi uma ordem de Eisenhower e tnhamos de obedecer. - 
Deu a volta 
secretria e pela primeira vez passou-me um brao por cima
dos ombros. - Vamos para junto dos outros festejar o nosso
xito. Est bem? Voc merece-o.
 Mas no sei porqu no pude faz-lo. Estava  espera daquela notcia h oito meses, mas a 
descoberta de que Pierre
era um traidor tornava aquele dia trgico para mim. Tentando
fazer uma careta de dor, pus a mo no estmago e disse aos
meus colegas exultantes que a excitao me fizera mal e que ia
para casa. Precisava de procurar respostas para muitas perguntas. Teria sido Pierre que 
contratara o homem que quisera matar-me na noite do baile no Puerto de Hierro? Teria 
Pierre ido a minha casa nessa noite, h tantos meses, com a inteno de me matar? Teria 
sido ele que assassinara Mimosa? Ren Blum?
 Alguns dias depois, quando entrei no meu apartamento, Angustias anunciou-me:
 - Senhorita, est um senhor  sua espera. Diz que  um velho amigo, mas no me quis 
dizer o nome.
 Fiquei imediatamente desconfiada e entrei na sala com cautela. A minha surpresa foi total.
 - Ol, Tiger. Est com bom aspecto.
 Jupiter! John Derb! Estava de p e eu apressei-me a estender-lhe a mo.
 - No posso crer que esteja realmente aqui na minha
frente. O que faz em Madrid? Como est?
 Ele estava na mesma - sempre impecvel. O cabelo grisalho muito curto, pele fresca, olhar 
penetrante. Passara-se
quase um ano desde que nos tnhamos conhecido.
 - Estou ptimo. E a principal razo que me trouxe a Madrid foi falar consigo.
 - Faa favor de se sentar. Que quer tomar?
 - Nada, por agora. Tenho muitas coisas a dizer-lhe.
 Estvamos sentados no sof, ao lado um do outro, olhando-nos com tanta curiosidade e 
afeio como se fssemos amigos
que h muito no se viam. E de certo modo ramos.
 - Por onde hei-de comear? Bem, em primeiro lugar, Whitne Shepardson envia-lhe as suas 
felicitaes. Soube do bom
trabalho que voc fez aqui e agora diz que foi ele que a
descobriu. - Jupiter piscou-me um olho.
 As palavras dele foram um conforto para o meu desconsolado ego, ainda confuso pelas 
revelaes dos dias anteriores.
Ouvi-o atentamente.
 - Alm disso, acabo de chegar do Sul de Frana, de onde
dois dos seus colegas lhe enviam os melhores cumprimentos.
- O meu corao deu um salto. Teria ele visto Pierre? -
Whiske e Magic disseram-me para lhe dizer que logo que a
guerra termine ho-de fazer uma reunio consigo. Foi Magic,
naturalmente, quem preparou este relatrio. - Entregou-me
duas folhas de papel dobrado, que tirou do bolso, e baixando a
voz disse: - Leia-o. Pode conter algumas respostas que voc
ande a procurar.
 Sentindo-me confusa, desdobrei os papis e vi que haviam
sido escritos numa mquina de escrever antiga. Jupiter dirigiu-se para a janela, como para 
me dar privacidade para ler.
Logo que li as primeiras palavras percebi porqu.
 RELATRIO SOBRE AGENTE DO OSS PIERRE NMERO 333
 Franois Ferronire, nascido a 16 de Julho de 1916, Nice,
Frana.
 O meu corao comeou a bater mais depressa, descontroladamente. Li a correr.
 ... filho de Josef Ferronire e de Cecilia Alvarado, filha de
Francisco, marqus de Torrejn, de Madrid.
 Ento Pierre era sobrinho de Mimosa! Olhei para as costas
largas de John Derb, satisfeita por ele no poder ver a minha
cara.
 O relatrio de Magic prosseguia:
 O pai de Franois Ferronire era representante da American
Radiator no Sul de Frana. Politicamente alinhava com os grupos fascistas, especialmente 
com a Milcia, cujo dirigente, Marcel Darnan, o ps  disposio da Gestapo, para fornecer 
nomes de quem quisesse servir como colaborador.
 Quando Ferronire, que estudara ingls, obteve um lugar de
funcionrio de baixa categoria no consulado americano em Vich, Darnan ofereceu-lhe 
quantias modestas em troca de informaes sobre os planos de guerra americanos. A 
inteligncia viva de Franois, os seus conhecimentos de ingls e a sua vincada 
personalidade tornaram-no um funcionrio popular e Facilitaram a sua obteno de 
informaes teis.
 Aps a invaso no Norte de frica, o pessoal da Embaixada
americana mudou-se de Vich para Argel, ocupando a Villa Magnol, onde Pierre continuou 
a trabalhar. A Villa Magnol alojava todas as agncias governamentais americanas, 
incluindo os primeiros recrutados pelo OSS.
 Atravs dos contactos feitos com o Eixo por Darnan em Argel,
Ferronire recebeu grandes quantias e conseguiu ir para
Washington para ser submetido a um treino intensivo. Mais tarde foi enviado para 
Inglaterra e para Argel, sendo lanado sobre o Sul de Frana em 1943.
 Quando se tornou evidente que havia um traidor na rea de Pierre, ele tornou-se suspeito, 
juntamente com outros. A culpa de Pierre tornou-se mais clara e ele foi chamado a Madrid 
com o pretexto de dirigir os agentes que atravessavam as fronteiras. Na realidade estava a 
ser mantido ali para ser utilizado na altura prpria, depois de receber falsas informaes 
sobre o local do desembarque da Operao Anvil.
 A misso foi realizada pelo OSS de Madrid, mas Pierre
desapareceu durante a invaso de 15 de Agosto e ainda no foi
apanhado. O seu nome est na lista para ser julgado por crimes de guerra.
 O relatrio, datado de 18 de Agosto, Marselha, confirmou
os meus receios. Pierre era no s um traidor, mas tambm um
assassino. Parecia-me agora inegvel que fora ele que matara a
tia, Mimosa Torrejn. Sem dvida fora Pierre um dos homens
que ela ouvira a conspirar quando se encontrava sentada na
"cadeirinha . Ficara assombrada por saber que o seu prprio
sobrinho estava envolvido na conspirao. Provavelmente matara-a tambm para receber a 
fortuna dela. E era muito possvel que as mortes de Marta e de Ren tambm lhe pudessem
ser atribudas.
 Fiz um grande esforo para responder:
 - Foi uma dura lio para mim.
 Jupiter encaminhou-se para mim.
 - Voc esteve na Quinta com ele. Que pensou dele na altura?
 - Encantador - foi tudo o que pude dizer. Estava ansiosa
por mudar de assunto e disse-o.
 - Tambm no gosto de pensar nele. O caso de Pierre deprime-me, mas por fim ele acabou 
por ser o nosso meio de
iludir os alemes a respeito do desembarque no Sul de Frana.
E temos de lhe agradecer a si, Aline. A importncia do seu
contributo  incalculvel. Estvamos a manipular outros ao
mesmo tempo para confundir o inimigo, mas pessoalmente
acho que a informao decisiva que convenceu o inimigo foi a
que voc transmitiu a Pierre. Obviamente, ele nunca desconfiou que voc lhe passasse 
informaes falsas. E felizmente os
alemes tinham toda a confiana nele. - Jupiter fez uma pausa e disse: - Vim aqui por outras 
razes, tambm importantes. - Sorriu. - Voc fez um ptimo trabalho, Tiger. Mozart
informou-me sobre isso, e devo dizer que o que conseguiu realizar por toda a Espanha a 
transformou numa verdadeira profssional.
 Quando ele mencionou o nome de Mozart, estremeci, lembrando-me do telegrama que 
enviara recentemente sem ordem
dele. Jupiter compreendeu.
 - No tem com que se preocupar. Mozart pode parecer uma pessoa fria, mas asseguro-lhe 
que  o seu mais entusistico admirador. Com efeito, se ele no apreciasse tanto o seu
trabalho eu no estaria agora aqui com um propsito que lhe
posso dizer agora.
 Poucas palavras me poderiam dar maior satisfao. Que
Mozart considerasse o meu trabalho vlido era o maior cumprimento que me podiam fazer.
 Jupiter continuou:
 - Voc trabalha muito e no foge a coisa alguma.  disso
que precisamos para acabar com a guerra. Mas ela ainda continua, como sabe. E h muita 
coisa a ser feita. Alm disso,
ningum sabe como o mundo ficar dividido depois da guerra,
que novas faces polticas surgiro e que ameaas  democracia ocorrero. Por isso  que 
aqui estou.
 Caminhmos at  janela, vendo os candeeiros da rua comearem a acender-se. O sereno 
iniciava as suas rondas. Jupiter
voltou-se de novo para mim.
 - Quero que tome o que lhe vou dizer muito a srio, mais a
srio do que qualquer outra coisa at agora. Sente-se e
descontraia-se. Vai ter de tomar uma deciso importante.
 Sentei-me no pequeno sof e ele instalou-se numa cadeira
na minha frente. Descontrair-me? As ltimas palavras dele
tinham-me deixado tensa. Mas esforcei-me por aparentar
calma.
 Os olhos azuis de Jupiter, com pontinhos dourados, pareciam cheios de deciso.
 - Tenho outra misso para si, Tiger... se a quiser aceitar,
claro. No  obrigada a isso, como sabe. Pode continuar a trabalhar no escritrio de Madrid 
enquanto quiser. H muito que fazer aqui. - Fez nova pausa. Tentei dominar a minha 
curiosidade. - Mas trata-se realmente de algo especial. E se pensa que viu excitao em 
Espanha... bem...
 Inclinou-se para mim, com as mos apoiadas sobre os joelhos. Concentrei toda a minha 
ateno nele. Havia muito a
considerar. Pensei em Pierre e senti doer-me o corao. No
entanto, imaginar que aquele momento podia ser um comeo
era compensador, estimulante.
 - Se no est disposta a oferecer-se para um trabalho arriscado, diga-o.
 Esperei que ele continuasse. Derb recostou-se para trs na
cadeira e sorriu.
Continuei calada, sabendo que com o meu silncio decidiria
o meu destino.
 Depois ouvi-o com toda a ateno que ele esperava.

 Continuei a trabalhar para o OSS em Espanha at ao fim da
guerra. Recebi ento ordens para arranjar outro emprego e
novo disfarce na Europa. Em Washington, entretanto, o OSS
lutava com outros departamentos do Governo para manter o
controlo sobre os servios secretos americanos no estrangeiro
em tempo de paz. Prossegui o meu trabalho como agente clandestino em Frana e na Sua 
at 1947, quando me demiti do
servio para regressar a Madrid e casar.
 No s me apaixonara pelo homem que aparece na minha
histria como o conde de Quintanilla, mas tambm pela Espanha. Mais tarde, devido ao 
complicado sistema de sucesso
espanhol, o nosso ttulo mudou para Romanones, um nome de
grande eminncia e tradio em Espanha. Sem dvida muitos
espanhis, ao lerem este livro, tero dificuldade em acreditar
nos estranhos caminhos que me permitiram tamanha honra.



eplogo: El Salvador, 1984

 O cabelo preto era menos espesso e grisalho, a pele avermelhada tinha um tom mais forte, 
estava sulcada de rugas profundas. No entanto, o sorriso e os olhos escuros, penetrantes, 
no tinham mudado. Era a ltima pessoa que eu esperaria ver em El Salvador.
 Durante um longo momento senti-me demasiado espantada
para conseguir falar. Ele teve a mesma reaco. Ficmos parados, quase sem darmos pelo 
leve sussurrar das guas do lago e do suave murmurar das palmeiras. Para alm das paredes 
de vidro do hotel, alguns homens com camisas de mangas curtas,
de cores, andavam de um lado para o outro, mas no ptio
fechado, inteiramente cercado de flores, plantas exticas e recordaes, ns estvamos 
sozinhos.
 Pierre apertou-me as duas mos nas dele e eu senti a carcia
do ar da noite afagar-me as faces.
 - Tiger, voc quase no mudou em todos estes anos. Como
 isso possvel?
 Ri.
 - Estava a pensar o mesmo a seu respeito.
 - Que est a fazer aqui?
 - E voc? - A ltima vez que eu olhara para aqueles olhos
ardentes fora nos degraus do Palace Hotel, em Madrid, no
Vero de 1944. Fora realmente h tanto tempo?
 Ele ofereceu-me uma cadeira numa mesa prxima. Ainda
atordoada, sentei-me. Ele sentou-se  minha frente. Estendeu-me um mao de cigarros.
 - Continua a no fumar?
 Abanei a cabea. No era altura apropriada para explicar que j o fizera e parara. O meu 
crebro estava cheio de recordaes, antigas emoes e escrpulos.
 Pierre recostou-se para trs na cadeira, sorrindo com o seu
sorriso mgico.
 - Por onde devo comear? Devo-lhe algumas explicaes,
Tiger.
 - Durante anos pensei em si, Pierre. Julguei que tivesse
sido morto durante a invaso sem que ningum do nosso lado
o soubesse.
 - No me atrevi a contactar consigo no fim da guerra. E na
altura em que me foi possvel faz-lo, voc estava casada. -
Olhou com ar ausente para as flores cor de laranja da trepadeira que cobria a parede por 
detrs da nossa mesa. Percebi que ele lutava com as mesmas emoes confusas que eu 
sentia.
O rudo de passos fez com que ele se voltasse para o criado que se aproximava. Depois 
olhou-me. - Precisamos de celebrar,
Tiger. E se bebssemos champanhe? Lembra-se daquele dia
no Stork Glub?
 O criado permanecia imvel,  espera.
 - O vosso melhor Mot et Chandon, Pedro. E veja se est
bem fresco.
 O criado inclinou-se.
 - Sim, Senhor Alvarado. Em seguida, Seor.
 Percebi que Pierre era um cliente conhecido e importante.
 - Porque  que ele lhe chama Seor Alvarado?
 - o nome da minha me. H anos que o uso.
 - A sua me no era irm de Mimosa Torrejn?
 - Sim, e se eu tivesse chegado junto da minha tia Mimosa a
tempo talvez a minha vida tivesse sido diferente. Eu queria
mudar... por sua causa, Tiger. Mas no tive sorte.
 No fazia sentido perguntar-lhe o que quer que fosse. Mas
eu tinha de o fazer:
 - Voc matou Mimosa?
 Ele teve um sobressalto e inclinou a cabea para mim.
 - Meu Deus, Tiger, pensa que fui eu que a matei?
 - Toda a gente o pensou. E que matou Ren Blum tambm. E que tentou matar-me a mim.
 - Mas como pode ter pensado isso? Eu estava apaixonado
por si.
 - Gloria parecia pensar de maneira diferente, e as nossas
informaes provaram que voc teve uma aventura amorosa com ela. Acreditei nas suas 
histrias, Pierre, mas agora no
acredito.
 O criado voltara com um balde de gelo e a garrafa de champanhe.
 Pierre dispensou-o e foi ele mesmo quem encheu os copos.
Nem uma palavra foi trocada entre ns. Quando ele ergueu o
copo, fiz o mesmo.
 - A Tiger e a Pierre. - A voz dele era melanclica, e por
um momento pareceu ter de facto a idade que tinha. - E ao
que podia ter acontecido. - Ambos bebemos. As bolinhas
frias intensificavam a atmosfera de irrealidade. Ele ergueu o
copo outra vez: - E  minha tia Mimosa, que nos podia ter
reunido se tivesse lido as cartas correctamente.
 Os seus modos desanimados tinham desaparecido... com
o mesmo sorriso atraente que me cativara tantos anos antes.
 - De que  que est a falar, Pierre?
 - O meu plano era pedir  minha tia algum dinheiro e um
dos seus ttulos, que eventualmente viria a ser meu, de modo a
eu poder tornar-me um cidado espanhol e afastar-me completamente da guerra.
 - E o que  correu mal?
 - Cheguei l demasiado tarde. Depois de conseguir entrar
em casa dela por uma janela das traseiras (com dificuldade,
pois os alemes vigiavam-na a cada minuto) cheguei tarde,
apenas por uma questo de minutos. - Franziu o sobrolho. -
Ela estava estendida nas chaiselongue. Jesus, estou a ver a cena como se a estivesse a 
presencear agora. - Tirou um leno do bolso e limpou a testa. - Quando tentei acord-la, vi 
que estava morta. - Olhou para as copas das palmeiras que se erguiam acima de ns e 
respirou fundo. - Nesse preciso momento a sua velha criada Salud entrou na sala. Claro que 
dava
a impresso de que eu  que a tinha morto. A pessoa que cometeu o crime devia ter sado 
dali poucos minutos antes da
minha chegada. A criada ficou histrica e tocou para chamar
as outras criadas. Tive de fugir o mais depressa possvel.
 Eu queria acreditar nele. Ao princpio sentira cepticismo,
mas agora achava que ele estava a contar-me a verdade, tanto
quanto sabia.
 - Sabia que a velha criada no me iria denunciar s autoridades. Isso provocaria escndalo 
para o nome da famlia, que significava tudo para ela, visto ter nascido naquela casa. Mas 
eu precisava de descobrir o assassino, para a convencer de que no era o culpado. - Olhou o 
copo. - Tentei faz-lo, mas o
tempo estava contra mim.
 - Quem acha que a matou?
 - De incio suspeitei de Lazaar. Foi por isso que o acusei na
noite do baile no Puerto de Hierro. Soube tarde de mais que
fora o chefe da Gestapo, Wizner... um monstro horroroso.
 - E Gloria? - Engoli em seco, pensando como estivera
prestes a desperdiar a minha vida com aquele homem ainda
atraente.
 - Gloria tinha medo de Lazaar. Ele ameaava
 mand-la de novo para a Alemanha. Tentou ajudar-me, mas nunca conseguiu obter dele as 
informaes e provas de que eu necessitava.
- Quem tentou matar-me a mim naquela noite? - Apesar
da noite quente e hmida, senti um arrepio na espinha ao recordar a sensao de ter de lutar 
para conseguir respirar, quase h quarenta anos.
 - Um dos mercenrios da Gestapo, talvez o mesmo que
matou Mimosa.
 - Mas Gloria impediu-o de me levar a casa. Ela devia estar
a trabalhar com eles para se livrarem de mim.
 - No. Ela gostava de si e era incapaz de uma coisa dessas.
- Falou resignadamente. - Ela no sabia que o assassino se
encontrava ali.
 Tnhamos deixado os copos na mesma, por muito tempo.
O criado aproximou-se para voltar a ench-los, mas Pierre fez-lhe sinal para se afastar. As 
minhas perguntas tinham dissipado a alegria que se reflectia no seu rosto durante os 
primeiros momentos. Pierre estava agora cado sobre a cadeira e passava as mos pelos 
cabelos grisalhos. Mas eu precisava de saber mais.
 - Que lhe sucedeu depois de ter sido lanado de pra-quedas sobre Pau?
 - Isso foi apenas algumas semanas antes da invaso. Tive de
me esconder quando se deu a Operao Anvil,
 porque nessa altura percebi que os americanos me queriam apanhar. - Soltou um suspiro 
profundo. - Os nicos amigos com quem pude contar foram dois espanhis que 
trabalhavam para mim na Resistncia. Um deles era um socialista que estivera do lado dos 
republicanos durante a guerra civil espanhola, um catalo de Barcelona. O outro era um 
comunista de San Sebastian.
Enquanto ele falava, eu mantinha-me imvel.
 - Tentvamos salvar o nosso pescoo e seguimos o nico
caminho que se nos deparava: atravessmos a fronteira para a
Itlia, onde os comunistas nos deram trabalho e nos protegeram. Vivi em Milo nos onze 
anos seguintes.
 Alargou o colarinho da sua guaiabera. O ar no se mexia e
eu comecei tambm a sentir a humidade desconfortvel. Pierre
parou, mas eu fiz-lhe sinal para continuar.
 - Nessa altura, Franois Ferronire deixara de existir, assim como os meus sonhos de viver 
no luxo, em Espanha... assistindo a caadas,  vendo danar o flamenco e indo s touradas. 
Tornei-me Pedro Alvarado, um comunista espanhol a trabalhar para o KGB, no me 
atrevendo a voltar a Frana ou a
Espanha a no ser clandestinamente, de tempos a tempos.
 Eu mal podia acreditar no que ele estava a dizer. De repente, endireitou-se na cadeira.
 - Estou a estragar a nossa festa, Tiger. No se preocupe.
A minha vida nem sempre foi uma cama de espinhos. Passei
belos tempos. As pessoas tambm se habituam s situaes
dificeis. No me posso queixar. Dinheiro, bons carros e iates,
tudo isso eu tenho tido. Tudo isso e mais.
 Ele percebera mal a minha disposio.
 - Diga-me, por favor, como se encontra aqui em El Salvador?
 - Estou aqui em negcios. Venho c frequentemente. Casei
com uma rapariga de Milo e mudmo-nos para Miami, onde
ainda vivemos. Tenho um escritrio aqui. - Os modos de
Pierre recuperaram a sua antiga vitalidade. - Anime-se, Tiger. Beba o champanhe e mude 
essa expresso. Sinto-me satisfeito por estarmos aqui a falar destas coisastantos anos 
depois.
Que sucedeu aos nossos antigos colegas? Voltou alguma vez a
ver Mozart ou Jpiter?
 - Nunca mais vi Mozart, mas sei que ele vive na Califrnia. Jupiter tem sido sempre um 
bom amigo.
 - Sabe que o seu amigo Top Hat se suicidou? Escolheu 
uma maneira muito estranha de o fazer. Meteu a cabea no 
forno do fogo da cozinha e acendeu o gs.
 As palavras de Pierre provocaram-me uma profunda tristeza.
 - No h nada de estranho nisso. Uma rapariga do OSS
matou-se da mesma maneira em Lisboa, em quarenta e quatro recordo-me, ficou 
impressionado com isso e
falou-me do caso. Sabia que ele tinha casado com Agata Ratibor e que mais tarde veio a 
divorciar-se dela no Mxico, para
voltar a casar com uma bonita rapariga americana, da qual
teve filhos? estranho que se tenha suicidado quando a sua
vida atingia pela primeira vez a estabilidade.
 - Foi apanhado a roubar duas latas de sardinhas, no Harrods, em Londres. Foi por isso que 
ele se suicidou. Mas tinha
duzentos mil dlares na sua conta bancria quando morreu.
 - Se tivesse sido um alfinete de diamantes, naturalmente
ainda hoje estaria vivo. O problema dele era ser cleptomanaco.
 - E o seu admirador, o toureiro?
 - Casou com uma rapariga de uma grande famlia espanhola, cerca de dez anos depois da 
guerra, e tiveram trs filhos.
Mas, infelizmente, morreu de um ataque cardaco quando
ainda era muito novo, antes de as crianas crescerem.
 Pierre chamou o criado e pediu outra garrafa de champanhe.
 - H alguns anos, vi Gloria no Mxico. Era ainda bonita.
Casara com um egpcio que morreu pouco depois, mas quando
eu a encontrei tinha finalmente descoberto, disse ela, o homem
perfeito e ia casar com ele.
 - Diga-me, Pierre, que sucedeu a Lazaar?
 - Fugiu de Espanha, vestido de frade, pouco antes de a
guerra terminar e foi para o Brasil, onde morreu h uns anos.
Mas, e o que aconteceu a Niki Lilienthal e  sua bonita filha
Carola?
 - Ele morreu. Carola e os outros irmos continuam a viver
em Espanha.
 - E Casilda vila?
 - hoje uma das mais importantes duquesas da Espanha.
 - Bem, Tiger... e a maravilhosa cidade de Madrid? Era to
bela em mil novecentos e quarenta e quatro.
 - Se l voltasse, no saberia onde se encontrava. Todos
aqueles lindos palcios da Castellana desapareceram e foram
substitudos por feios e modernos edifcios para escritrios.
O trnsito  insuportvel. Vivem na cidade mais de quatro
milhes de pessoas. Alguns dos locais antigos, como o Villa
Rosa, o restaurante de Horcher, o Palace Hotel e o Hotel
Ritz, esto mais ou menos na mesma. No Puerta de Hierro fazem ainda o mesmo baile na 
vspera de So Joo e a mesma
fogueira.
 Pierre segurou-me na mo e apertou-a com tanta fora que
me magoou.
 - Tiger, tem de acreditar que no fui o responsvel por
essas mortes.
 No fui capaz de responder. Em vez disso perguntei:
 - Porque trabalhava para os dois lados ao mesmo tempo?
Como foi capaz de trair tantas pessoas?
 Os seus olhos franziram-se. A sua face tomou uma expresso
dilacerante.
 - Nunca tentei faz-lo, mas,.. se cometermos um grande
erro na vida, esse conduz geralmente a outros, at que nos
encontramos apanhados numa armadilha sem sada. Foi o que
me sucedeu a mim. Eu sempre...
 - Senhor Alvarado - o criado aproximou-se, interrompendo a frase de Pierre. - Miami ao 
telefone.
 Pierre levantou-se.
 - Volto j. Espere por mim, Tiger.
 No instante em que ele desapareceu pela porta, eu sa.
Desde ento, tento de vez em quando completar a frase que
Pierre deixou inacabada, para tentar dar-lhe um significado
que me permita pelo menos preservar uma boa recordao dele. Mas em vez disso, o que 
ocorre sempre ao meu pensamento  a viso do ilustre espanhol por quem finalmente me 
apaixonei e com quem casei. O primeiro espanhol que encontrei no dia em que cheguei ao 
Palace Hotel, e que me levou as malas para o quarto.

FIM
